A batida do coração

27 A Dissipação do Eco e o Gelo Que Derreteu



​O entardecer trazia uma luz alaranjada que cortava as vidraças do Café Central, um estabelecimento sofisticado com balcões de mármore e aroma de grãos torrados no coração do distrito financeiro. Guga estava sentado em uma mesa de canto, mexendo distraidamente com uma colher de metal em sua xícara de expresso. Ele aguardava Anya, que havia combinado de encontrá-lo ali logo após o encerramento do expediente na galeria.

​A calmaria do lugar foi quebrada quando a porta de vidro pesada se abriu e a silhueta alta e imponente de Derick Laurentis cruzou o portal. Ele vestia seu terno de costume, mas os olhos escuros carregavam a névoa pesada de quem passara os últimos dias digerindo o orgulho ferido com uísque. Ao avistar o baterista sozinho na mesa, o maxilar de Derick travou. Em vez de se dirigir ao balcão, ele caminhou a passos firmes e pesados na direção de Guga.

​Derick parou diante da mesa, projetando sua sombra sobre o músico. Guga ergueu os olhos lentamente, mantendo a postura calma que o caracterizava.

​— Então agora você assume os meus restos, Guga? — Derick disparou, a voz saindo num tom baixo, mas carregada de um veneno destilado. Ele apoiou as duas mãos na borda da mesa de madeira, inclinando o corpo para a frente. — Passou anos na sombra do meu irmão, batendo tambor na banda dele, e agora que ele morreu e a Anya ficou sozinha, você resolveu pegar o que sobrou?

​Guga não se moveu. Ele colocou a colherzinha sobre o pires, respirou fundo e encarou o empresário com uma serenidade que pareceu irritar Derick ainda mais.

​— Em primeiro lugar, abaixa o tom. A gente está num lugar público — Guga respondeu, a voz firme e controlada. — Em segundo lugar, lava a boca para falar da Anya. Ela não é "resto" de ninguém. O que eu sinto por ela vem de muito antes de você sequer saber que ela existia. Eu respeitei o espaço do Jace porque ele era meu irmão. Mas você? Você teve a chance de fazer ela feliz e tudo o que soube fazer foi cobrar o preço de uma culpa que você mesmo alimentava.

​— Você não sabe de nada! — Derick sibilou, os nós de suas mãos ficando brancos contra a madeira. — Aquela garota é instável. Ela usa as pessoas para tapar o buraco do luto. Ela me usou no hospital, me usou naquela estrada e agora está usando você para fingir que superou o passado. No primeiro sinal de tempestade, ela vai pegar um avião de volta para Londres e te deixar segurando as baquetas sozinho.

​— A tempestade já passou, Derick. É você que continua trancado dentro do armário esperando chover — Guga rebateu, o olhar afiado. — A Anya mudou. Ela é uma mulher livre, realizada, e se ela está comigo hoje, é porque aqui ela encontrou paz, não uma armadura de concreto cobrando dívidas do passado. Sai de perto da minha mesa.

​O Ponto Final e o Gelo Absoluto

​O badalar do sininho da porta anunciou a chegada de mais alguém. Anya Drake entrou no café, trazendo uma pasta de couro com alguns catálogos sob o braço. Ela usava um casaco leve e trazia os cabelos escuros balançando com o movimento dos passos. Seus olhos castanhos varreram o salão e imediatamente focaram na mesa de canto, assimilando a cena de Derick inclinado sobre Guga.

​Anya caminhou decidida. Não havia hesitação em seus passos, nem o pânico ou o aperto no peito que a sufocara nas últimas vezes em que encontrara o irmão mais velho de Jace.

​Ao chegar à mesa, ela ignorou completamente a presença de Derick por um milésimo de segundo. Ela se inclinou sobre Guga, que se levantou parcialmente para recebê-la. Anya envolveu o pescoço do namorado com um dos braços e o beijou de forma profunda, terna e demorada nos lábios — um beijo que carregava a cumplicidade e o calor das noites no Rio de Janeiro. Guga segurou a cintura dela, retribuindo com suavidade, selando a posse do presente.

​Quando Anya se afastou do beijo, ela finalmente virou o rosto para olhar para Derick.

​Foi nesse momento que o milagre silencioso do tempo aconteceu dentro dela. Ao encarar os olhos escuros e o rosto rígido de Derick, Anya não sentiu o coração acelerar. Não sentiu o ar faltar. Não sentiu a dor do arrependimento ou o fogo da atração proibida. O magnetismo violento havia sumido por completo, evaporado. Olhar para Derick ali, no meio daquele café, era exatamente como olhar para qualquer desconhecido na rua. O sentimento havia morrido. O eco havia, finalmente, silenciado.

​Derick percebeu a mudança no olhar dela — a indiferença pura é mais cruel do que o ódio — e aquilo feriu o seu biqueiro de forma intolerável. Um sorriso cínico e amargo se moldou nos lábios do empresário.

​— Ora, se não é a grande artista internacional — Derick desdenhou, cruzando os braços, tentando usar a humilhação como última linha de defesa. — Já cansou de tirar fotos cafonas no Rio de Janeiro para o Instagram, Anya? É impressionante como o seu padrão mudou. Saiu de Londres, de museus renomados, para se enfiar em apartamento de fundos com o baterista de fundo de quintal do meu irmão. Você virou uma piada de mau gosto. Está tentando se rebaixar para ver se a culpa de estar viva diminui?

​Guga ameaçou dar um passo à frente, com o punho cerrado, mas Anya colocou a mão espalmada no peito do namorado, detendo-o. Ela deu um passo na direção de Derick, sustentando o olhar dele com uma frieza elegante e uma maturidade inabalável.

​— Você está atrasado, Derick — Anya disse, a voz saindo limpa, alta e absurdamente calma, ecoando pela área das mesas próximas. — O seu tempo de tentar me machucar acabou na noite daquela exposição. Eu gastei a minha última gota de lágrima com você nos bastidores daquela galeria. Olhar para você hoje... me faz perceber que você não passa de um homem orgulhoso, trancado em um terno caro, bebendo o próprio veneno porque não suporta ver que o mundo continua girando sem a sua permissão.

​Derick abriu a boca para rebater, o rosto avermelhando de raiva, mas Anya não deu espaço para o corte.

​— Guarda a sua amargura para as suas reuniões de negócios. A minha vida e o meu namorado não estão na sua folha de pagamento. Passar bem, Derick.

​Antes que ele pudesse proferir mais uma palavra de baixaria, Anya virou as costas de forma definitiva. Ela deslizou seus dedos pelos de Guga, entrelaçando suas mãos firmemente.

​— Vamos para outra mesa, meu amor? Aqui o ar ficou um pouco pesado — Anya disse para Guga, o tom mudando instantaneamente para uma doçura calorosa.

​— Vamos sim, linda — Guga respondeu, com um sorriso de canto de boca que transbordava orgulho.

​Eles caminharam em direção a uma mesa próxima à janela, afastando-se do epicentro do confronto. Anya sentou-se na cadeira estofada e Guga puxou a dele para bem perto, colando seus joelhos sob a mesa. Alheios ao fato de que Derick continuava parado no meio do corredor, estático e completamente destruído pela humilhação e pela indiferença, o casal começou a conversar entre sorrisos abertos.

​Guga estendeu a mão e acariciou a bochecha de Anya, limpando um fio de cabelo de seu rosto, enquanto ela apoiava o queixo na palma da mão, olhando para ele com o mesmo brilho solar de quem encontrou o porto seguro. Eles se tocaram, dividiram o cardápio entre risadas abafadas e trocaram beijos rápidos nos cantos dos lábios. Derick Laurentis pegou seu paletó e saiu do café a passos rápidos, sumindo na névoa escura da noite, ciente de que, desta vez, Anya Drake não havia apenas ido embora; ela havia se libertado dele para sempre.