A batida do coração
28 O Compasso do Para Sempre
A noite de sexta-feira caía mansa sobre a cidade, trazendo uma brisa leve que limpava o céu após semanas de chuva. Anya Drake caminhava em direção ao apartamento de Guga após mais um dia produtivo na galeria. Ela trazia os pensamentos leves, sem as amarras que um dia prenderam seus passos. Pela primeira vez em anos, ela não se sentia visitando o passado; ela estava apenas voltando para casa.
Ao chegar diante da porta de madeira do apartamento 402, Anya pegou sua cópia da chave. Quando a girou na fechadura e empurrou a porta devagar, o habitual som da televisão ligada ou o batuque suave de Guga nas coxas enquanto ouvia música não a receberam. O ambiente estava imerso em um silêncio acolhedor e em uma penumbra mística.
Anya deu um passo para dentro, prendendo a respiração.
O apartamento havia sido completamente transformado. As luzes artificiais estavam apagadas. Em seu lugar, dezenas de velas de tamanhos diferentes estavam espalhadas pelo chão, sobre o balcão da cozinha americana e nas prateleiras de vinis, banhando o espaço em uma luz dourada, quente e trêmula. Um caminho sutil de pétalas de rosas brancas desenhava uma trilha do tapete da entrada até o centro da sala de estar, onde a vitrola antiga tocava, num volume quase imperceptível, uma versão instrumental e suave ao piano da música "Entre o Eco e o Afeto" — a canção de Jace, mas agora despida da agressividade das guitarras, soando como uma melodia de paz.
— Guga? — Anya chamou em um sussurro, o coração começando a acelerar em um ritmo gostoso, uma expectativa pura que fez seus lábios se curvarem em um sorriso imediato.
Da penumbra do corredor dos quartos, Guga surgiu. Ele estava diferente; deixara de lado as camisetas de banda largas e vestia uma camisa social escura com as mangas levemente dobradas até os antebraços e uma calça de sarja alinhada. Seus cabelos escuros estavam arrumados, e o olhar que ele direcionou a Anya carregava uma intensidade tão profunda, tão cheia de certeza, que as pernas dela vacilaram de leve.
Ele caminhou devagar até ela, parando no centro do círculo de velas.
— Você demorou alguns minutos a mais na galeria hoje. Eu já estava quase decorando o teto de tanto andar de um lado para o outro — ele brincou, a voz rouca denunciando o nervosismo que ele tentava disfarçar com o humor de sempre.
Anya largou a bolsa de lona em uma cadeira próxima e caminhou na direção dele, os olhos brilhando refletindo as chamas das velas.
— O que é tudo isso, Guga? É lindo... — ela olhou ao redor, sentindo o calor do ambiente abraçar sua pele.
Guga não respondeu imediatamente. Ele segurou as duas mãos de Anya, trazendo-as para perto de seu peito. A pele calejada de seus dedos estava quente, e ela podia sentir a batida forte e acelerada do coração dele contra a palma de sua mão.
— Anya... há alguns meses, dentro daquele avião a caminho de Milão, eu te disse que o ritmo de uma música só funciona se a gente respeitar o tempo de cada nota — Guga começou, a voz caindo para um tom sério, carregado de uma emoção genuína que fez os olhos de Anya marejarem instantaneamente. — Nós passamos os últimos anos respeitando o tempo da dor. Nós choramos juntos, nós guardamos o legado do Jace e nós vimos o mundo desabar. Mas nesses últimos meses viajando com você, dividindo os cafés da manhã em hotéis estranhos, rindo das coisas bobas e te vendo pintar com a alma livre... eu percebi que o meu tempo só faz sentido se for compassado com o seu.
Anya engoliu em seco, uma lágrima de pura felicidade escorrendo por sua bochecha. Ela apertou os dedos dele com força.
— Eu passei muito tempo sendo o baterista de fundo, Anya, assistindo a sua vida acontecer de longe — ele continuou, dando um sorriso de canto, os olhos fixos nos dela com uma entrega absoluta. — Mas no Rio de Janeiro, quando eu vi o jeito que você olhou para mim no topo daquele morro, e quando eu senti a intensidade de como a gente se pertenceu naquele quarto... eu tive a certeza de que a nossa música não é um improviso. É a melodia mais bonita que eu já toquei. Eu não quero mais ser o seu porto seguro apenas nas turnês ou nos finais de semana. Eu quero construir a nossa casa. Quero ser o homem que te acorda todos os dias e te lembra de que você é livre para amar.
Lentamente, sem desviar os olhos dos de Anya, Guga soltou uma das mãos dela e levou os dedos até o bolso da calça social. Ele retirou uma pequena caixinha de veludo preto.
Com um movimento calmo e decidido, Guga dobrou o joelho direito, ajoelhando-se no chão de madeira do apartamento, bem no meio das pétalas brancas e sob a luz dourada das velas. Ele abriu a caixinha, revelando um anel de ouro delicado, com uma pequena pedra de brilhante que reluziu intensamente com o reflexo do fogo.
— Anya Drake... você aceita casar comigo? Aceita passar o resto das nossas estações dividindo o mesmo teto, as mesmas risadas e escrevendo o nosso próprio para sempre?
Anya cobriu a boca com as duas mãos, soltando um soluço de alegria que ecoou pelo apartamento silencioso. As lágrimas lavavam seu rosto, mas o sorriso dela era imenso, inteiro, preenchido por uma certeza que ela nunca tivera antes. Não havia fendas, não havia vermelho-cádmio, não havia fantasmas na penumbra. Havia apenas o homem que a amara no silêncio e que agora a chamava para a vida.
Ela se inclinou, ajoelhando-se no chão logo em frente a ele, reduzindo qualquer distância, e segurou o rosto de Guga com as duas mãos, colando suas testas.
— Sim! Mil vezes sim, Guga! — ela exclamou, a voz embargada, rindo entre as lágrimas. — Eu aceito casar com você. Aceito a nossa música, o nosso tempo... aceito tudo o que for nosso.
Guga soltou um suspiro de alívio puro, um sorriso gigante se abrindo em seu rosto. Ele pegou a mão esquerda dela e deslizou o anel de ouro pelo seu dedo anelar, selando o compromisso com um beijo demorado nos nós de seus dedos.
Em seguida, ele envolveu a cintura de Anya com os braços fortes e a puxou para um abraço apertado, levantando-se junto com ela do chão. O beijo que se seguiu foi uma celebração de vida: profundo, carinhoso, cheio da eletricidade do futuro que agora pertencia oficialmente aos dois. A música ao piano continuava a tocar ao fundo, marcando o início de um capítulo onde Anya Drake não precisava mais pintar o eco do que restou, porque agora... ela tinha o som inteiro do amor bem ali, em seus braços.
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