A batida do coração
22 O Eco do Que Restou
A fachada de vidro da Galeria Moldura & Arte estava banhada por uma iluminação suave e azulada, projetando as sombras das árvores do centro da cidade diretamente sobre o piso de mármore do salão principal. Naquela noite de sexta-feira, o espaço parecia um templo erguido para a memória. Cartazes elegantes com letras de fôrma minimalistas anunciavam a primeira exposição individual de Anya Drake: "O Eco do Que Restou".
O salão estava lotado. Helena e Marcos Vance haviam organizado tudo de forma impecável. No fundo da galeria, perto de um painel preto onde a história de Jace era contada em textos discretos, a antiga banda dele havia montado os instrumentos. Guga comandava a bateria com baquetas acústicas de ponta macia, enquanto a guitarra dedilhava as notas limpas e melancólicas de "Entre o Eco e o Afeto". Não era um som de balada; era uma prece musical, preenchendo o ambiente de forma íntima e respeitosa.
Anya vestia um vestido longo de seda escura, com as costas parcialmente expostas. Seu cabelo estava preso em um coque alto e o olhar, embora firme, carregava a ansiedade de quem estava prestes a abrir o próprio peito para o julgamento público.
Na ala central da galeria, a atmosfera era de pura comoção. Paola e Carlos Laurentis caminhavam lentamente, de braços dados, parando diante da trilogia do fim. Quando Paola parou em frente à oitava tela — o retrato de Jace sorrindo sob o sol de dezoito anos, com pinceladas douradas que pareciam emanar luz —, ela desabou. Carlos a abraçou por trás, deixando que as próprias lágrimas caíssem sobre os ombros da esposa.
— É ele, Carlos... — Paola sussurrou, a voz embargada pelo choro, tocando de leve o ar a centímetros da tela, sem ousar encostar no óleo fresco. — É o sorriso do meu menino. A Anya conseguiu trazer a alma dele de volta para este quarto.
Anya aproximou-se devagar, com o coração apertado. Rose e Arthur Drake vinham logo atrás, oferecendo um suporte silencioso.
— Ficou perfeito, minha querida — Carlos disse, estendendo a mão para Anya com um respeito profundo. — Obrigado por não deixar o mundo esquecer a luz que ele era.
— Eu precisei fazer isso por ele, seu Carlos. E por vocês — Anya respondeu, abraçando Paola com ternura, sentindo o calor e a fragilidade da mãe de Jace.
Amigos da faculdade, os integrantes da banda nos intervalos e dezenas de convidados circulavam pelas outras sete telas, impressionados com a crueza do vermelho-cádmio que representava o luto. Mas, para Anya, a galeria continuava incompleta. Seus olhos varriam o salão a cada badalar do sininho da entrada. Até que, perto das nove da noite, ela o viu.
Derick cruzou o portal da galeria. Ele estava sozinho. Vestia um terno preto impecável, mas não trazia Letícia pela mão. O semblante dele era sério, quase impenetrável. Ele não procurou por Anya imediatamente; em vez disso, caminhou direto até a décima tela: a pintura da UTI com a linha verde e reta que cortava o tecido. Derick ficou parado ali por longos dez minutos, imóvel como uma das esculturas de bronze, os olhos escuros fixos no ponto onde os batimentos de seu irmão caçula haviam cessado.
Nos Bastidores da Dor
Sentindo o ar faltar no salão principal, Anya se afastou discretamente dos convidados e caminhou em direção aos bastidores da galeria — uma sala de acervo restrito nos fundos, onde telas antigas ficavam armazenadas em cavaletes de metal sob uma luz fraca de transição.
Ela entrou e apoiou as mãos na mesa de restauração, tentando controlar a respiração. Segundos depois, o som da porta pesada se fechando ecoou pelo espaço.
Ela se virou. Derick estava parado ali, com as mãos nos bolsos da calça social. A porta trancada isolava o som da banda de Jace, transformando a música em um eco abafado.
— A exposição está incrível, Anya — Derick quebrou o silêncio, a voz grave e plana, mas com aquela rouquidão que sempre desarmava as defesas dela. — Você conseguiu. Expôs tudo o que a gente tentou esconder durante cinco anos.
— Você veio sozinho — Anya notou, a voz saindo num sussurro frágil.
— A Letícia tinha um compromisso de família — ele respondeu de forma direta, dando dois passos à frente. Ele olhou para as mãos de Anya, que tremiam levemente. — Eu precisava ver o que você fez com a nossa história. Aquela tela... a do monitor do hospital. Eu escutei o barulho da máquina só de olhar para o seu quadro.
— É a única coisa que eu escuto toda vez que fecho os olhos, Derick — Anya confessou, dando um passo na direção dele, a barreira do orgulho desmoronando sob o peso da proximidade. — Eu fiz tudo isso para tentar tirar o peso de você. Para tentar te mostrar que eu entendi o que você me disse na exposição de bronze.
Derick soltou as mãos dos bolsos. A rigidez de sua postura cedeu por um segundo, revelando o homem que continuava em carne viva por baixo do terno caro.
— Você não tirou peso nenhum, Anya. Você só jogou gasolina em cima de algo que eu passei semanas tentando apagar — ele disse, a voz subindo de intensidade, os olhos escuros brilhando de mágoa e desejo. — Eu olho para você hoje, nesse vestido, cercada pelas memórias do meu irmão, e tudo o que eu sinto é a mesma tração violenta daquela noite no motel. Isso é uma tortura.
Anya não respondeu com palavras. A distância entre eles, que parecia um abismo de cinco anos, sumiu em um piscar de olhos. Impulsionada por uma força visceral e pelo arrependimento acumulado, ela encurtou o espaço e segurou a lapela do paletó dele.
Derick cedeu. Ele envolveu a cintura de Anya com os braços fortes, puxando-a contra o seu peito com uma urgência desesperada. O beijo que se seguiu foi uma colisão violenta de tudo o que estava reprimido: a dor da perda, a saudade do exílio em Londres e a atração sufocante que o gelo dele havia acendido nela na cozinha. Foi um beijo profundo, amargo e necessitado, o gosto do passado misturando-se à crueza do presente.
Mas, de repente, de forma abrupta, Derick interrompeu o beijo. Ele segurou os ombros de Anya e a empurrou para trás com firmeza, quebrando o contato físico. Ele arfava, o peito subindo e descendo, os olhos injetados de sangue.
— Não... Isso é um erro! — ele disparou, a voz saindo num tom áspero que chicoteou o silêncio da sala de acervo.
— Derick... — Anya tentou dar um passo à frente, com os lábios ainda trêmulos pelo toque dele. — Por que você continua lutando contra o que a gente sente? O Jace nos perdoou, o diário...
— Esquece a droga do diário, Anya! — Derick gritou baixinho, controlando o tom para não ser ouvido no salão, mas a força de suas palavras foi devastadora. — Você é egoísta. Você passa cinco anos fugindo de mim, me deixando sangrar sozinho nesta cidade enquanto assume uma vida perfeita na Inglaterra. Aí você volta, me vê tentando construir algo limpo e leve com uma mulher que me faz bem, e decide que agora está pronta? Agora que eu estou seguindo em frente, você resolve que o seu tempo acabou?
— Eu estava assustada, Derick! Eu mudei! — ela tentou se defender, as lágrimas correndo livres, estragando a maquiagem da noite de gala.
— Você mudou para continuar no controle, Anya! — ele cuspiu as verdades, dando um passo atrás, a expressão tomada por uma frieza cortante. — Você me beija aqui, cercada pelos quadros do Jace, porque você só consegue me amar através da tragédia. Você está apaixonada pelo luto, não por mim. O que aconteceu entre nós no motel foi o desespero de duas pessoas que não queriam morrer junto com o Jace. Mas a tempestade passou. Eu escolhi a vida, Anya. Eu escolhi a Letícia porque ela me olha e vê o Derick, não o irmão do rapaz que morreu.
Anya recuou, batendo as costas contra uma das prateleiras de metal de acervo. Cada palavra de Derick entrava em seu peito como uma lâmina fria e precisa. Ele havia desnudado a sua alma de uma forma que nem a pintura conseguira fazer.
— Eu não vou ser o seu curativo eterno, e não vou ser o vilão da história que você resolveu pintar nas suas telas — Derick continuou, ajustando o paletó do terno com as mãos novamente firmes, a armadura subindo de volta, placa por placa, diante dos olhos dela. — Cuida da sua exposição. Vende os seus quadros. Mas me deixa fora da sua paleta de cores. Acabou, Anya. De verdade.
Derick deu meia-volta, abriu a porta pesada dos bastidores e saiu, deixando que a luz do salão principal entrasse por um segundo antes de se fechar novamente com um estrondo seco.
O som da música da banda de Jace voltou a ser abafado pelas paredes grossas. Anya desabou de joelhos no chão de madeira dos bastidores, cobrindo o rosto com as mãos, os soluços sacudindo seu corpo sob o vestido de seda escura. Ela estava sozinha, cercada pelas telas velhas e pelo cheiro de poeira do acervo. A exposição lá fora era um sucesso lindo, as pessoas choravam diante de sua arte, mas ali dentro, na crueza da realidade, Anya Drake compreendia que havia pintado a sua própria solidão definitiva.
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