A batida do coração

34 A Rede de Cuidado e os Novos Acordes



​A descoberta da gravidez mudou drasticamente a rotina de vigília no Hospital Municipal de Santa Bárbara. O Dr. Álvaro fora categórico: se Anya não cuidasse de si mesma, o fruto daquele amor correria sérios riscos. Compreendendo o peso de sua nova responsabilidade, Anya fez um pacto silencioso com o bebê em seu ventre. Ela continuaria ali por Guga, mas não à custa da vida que agora crescia dentro dela.

​A nova rotina se estabeleceu com uma precisão acolhedora. Anya passava o dia no quarto 305, sentada na cadeira ao lado do noivo, lendo para ele, conversando sobre o futuro e acariciando sua barriga ainda discreta para que ele sentisse a energia da nova vida. No entanto, às seis da tarde em ponto, ela recolhia seus pertences e voltava para casa. Rose preparava refeições ricas em ferro e vitaminas, e Anya forçava-se a comer cada porção, dormindo oito horas por noite em sua própria cama, recarregando as forças para o dia seguinte.

​Para sua surpresa, o executor dessa nova engrenagem de cuidados foi Derick. Deixando de lado as diferenças do passado e movido por um respeito profundo pela jornada de Anya e pelo irmão de alma que lutava na UTI, o empresário assumiu o papel de seu motorista oficial. Todos os dias, às oito da manhã, o carro preto de Derick estacionava em frente à casa da piscina para levá-la ao hospital; e às dezoito horas, ele estava pontualmente na recepção para buscá-la.

​O Caminho e a Surpresa

​Na manhã de uma quinta-feira de sol ameno, Anya entrou no carro de Derick, colocando o cinto de segurança enquanto ajustava o vestido leve de grávida. Derick engatou a marcha e saiu suavemente pelo trânsito de Santa Bárbara.

​— Você tomou o café da manhã que a Rose preparou? — Derick perguntou, os olhos escuros atentos ao espelho retrovisor antes de entrar na avenida. O tom dele era o de um irmão mais velho protetor.

​— Tomei tudo, Derick. Até o suco verde esquisito que ela inventou — Anya riu baixinho, olhando pela janela. — Obrigada por fazer isso todos os dias. Eu sei o quanto a sua agenda na empresa é complicada.

​— A empresa pode esperar, Anya. O que você e o Guga estão passando é prioridade agora — ele respondeu, mantendo as mãos firmes no volante. Ele pigarreou, mudando ligeiramente de assunto com um tom misterioso. — A propósito, não vamos direto para o hospital hoje. Preciso fazer uma parada antes.

​Anya franziu o cenho, virando-se para ele no banco do passageiro.

— Parada? Onde? Eu não gosto de chegar tarde, o Dr. Álvaro faz a ronda do Guga às nove.

​Derick deu um meio sorriso, aquele cenho focado que agora trazia uma serenidade nova.

— Calma. É uma parada para você. Você completou três meses e precisa de um acompanhamento pré-natal rigoroso. Eu tomei a liberdade de agendar a sua primeira consulta oficial de obstetrícia para as oito e meia.

​Anya arregalou os olhos sutilmente, surpresa com a iniciativa.

— Você marcou uma consulta para mim? Com quem? Santa Bárbara tem pouquíssimos especialistas de confiança no plano do hospital.

​Derick parou o carro diante de um edifício de clínicas médicas moderno, com fachada de vidro espelhado e um jardim bem cuidado na entrada. Ele desligou o motor e virou-se para ela, o olhar brilhando com uma satisfação limpa.

​— Com a melhor da região. E com alguém que já conhece a sua história e se importa de verdade com você. Eu marquei com a Letícia, Anya. Ela é médica obstetra, especialista em gestações de alto risco. Quando contei para ela sobre você e o Guga, ela fez questão de abrir uma vaga extra na agenda dela hoje.

​Anya sentiu o peito se encher de uma gratidão imensa. A imagem de Letícia, sempre tão doce, paciente e acolhedora nos momentos mais difíceis, veio à sua mente. Sabendo do passado que Anya tivera com Derick, a atitude de Letícia de estender a mão daquela forma era a prova definitiva de que a maturidade e o amor haviam vencido o inverno.

​— A Letícia... Deus, Derick, isso é perfeito — Anya sorriu, as lágrimas de grávida subindo rápido aos olhos. — Obrigada. De verdade.

​— Não precisa agradecer. Vamos subir, ela já está esperando.

​O Olhar da Ciência e do Afeto

​O consultório de Letícia era o oposto do ambiente estéril do hospital de trauma. As paredes eram pintadas em um tom suave de rosa-bebê e areia, decoradas com quadros delicados de silhuetas de mães e bebês, e uma música ambiente instrumental tocava baixinho, trazendo uma sensação imediata de paz.

​Quando a porta da sala principal se abriu, Letícia surgiu usando um jaleco branco impecável sobre uma roupa elegante. Seus cabelos claros estavam presos em um coque prático, e o sorriso que ela deu ao ver Anya foi desprovido de qualquer formalidade médica; era o sorriso de uma amiga.

​— Anya! Que bom que você veio — Letícia disse, aproximando-se e envolvendo Anya em um abraço caloroso e apertado, cujo perfume de jasmim acalmou os sentidos da gestante. Ela olhou de lado para o noivo. — Obrigada por trazê-la na hora, Derick. Pode nos dar licença por alguns minutos?

​— Claro. Vou estar na recepção esperando — Derick assentiu, dando um beijo rápido na testa de Letícia e um aceno de apoio para Anya antes de fechar a porta.

​Letícia indicou a confortável cadeira de couro em frente à sua mesa. Ela se sentou, abrindo o prontuário digital.

​— Bem... o Derick me contou o milagre que aconteceu no meio dessa tempestade, Anya — Letícia começou, a voz mansa e cheia de empatia, cruzando as mãos sobre a mesa. — Eu sei o quanto a sua mente deve estar dividida entre o medo pelo Guga e a alegria por esse bebê. Mas a minha missão aqui, como sua médica e como alguém que torce por vocês, é garantir que o seu corpo seja o santuário perfeito para esse fruto. Como você tem se sentido? Muitas náuseas?

​Anya sorriu, tocando a própria barriga por cima do vestido.

— Um pouco de tontura pela manhã, Letícia. Mas o que mais me consome é a ansiedade. Às vezes eu olho para o Guga naquela cama e sinto um medo paralisante de que o estresse afete o bebê.

​— É completamente compreensível, Anya. Mas o corpo humano é sábio — Letícia explicou, levantando-se e indicando a maca de exames ao fundo da sala. — O hormônio da gestação cria uma proteção natural, mas você precisa fazer a sua parte. Comer nos horários certos e dormir em casa, como o Derick me disse que você está fazendo, são os primeiros passos. Vamos subir na maca? Quero fazer o exame físico e ver se conseguimos ouvir o coraçãozinho.

​O Som da Esperança

​Anya deitou-se na maca estofada. Letícia puxou o aparelho de sonar e aplicou um gel aquecido sobre a pele ainda plana da parte inferior do ventre de Anya. O contato inicial fez Anya suspirar.

​Letícia começou a movimentar o transdutor de metal de forma lenta, concentrada, buscando o ângulo correto no útero de três meses. Nos primeiros segundos, apenas o som estático e o chiado do aparelho preencheram o consultório. Anya prendeu a respiração, os olhos fixos no teto, o medo antigo de linhas retas querendo assombrá-la.

​Mas então, o som mudou.

​Um batimento rápido, forte, galopante e cheio de uma energia indomável ecoou alto pelo alto-falante do sonar: tup-tup-tup-tup-tup-tup.

​Anya soltou o ar de uma vez, as lágrimas correndo livres pelas laterais de seu rosto, molhando seus cabelos. Era o som da vida. Um ritmo perfeito, veloz e insistente.

​— Escuta isso, Anya... — Letícia sorriu, os olhos brilhando de emoção enquanto mantinha o aparelho na posição certa. — É o coração do seu filho. Está batendo forte, no ritmo perfeito. Ele está te dizendo que está bem, que está seguro aqui dentro. O Guga deixou um guerreiro ou uma guerreira com você.

​— É a música dele, Letícia... — Anya chorava e sorria ao mesmo tempo, a mão trêmula apertando o lençol da maca. — Parece o ritmo da bateria do Guga. Forte... cheio de vida.

​— Sim, é a batida do recomeço — Letícia limpou o gel da barriga de Anya com um lenço de papel e a ajudou a se sentar, entregando-lhe uma cópia impressa com os dados do batimento e a primeira receita de vitaminas. — Você está ótima, a altura uterina está perfeita para doze semanas. Agora, a sua única missão é levar esse som para o quarto 305. O Guga precisa ouvir que a maior composição dele já está tocando aqui fora.

​Minutos depois, Anya saiu da sala com os olhos vermelhos, mas com um semblante que transbordava uma força nova. Na recepção, Derick levantou-se imediatamente ao vê-la. Ao notar o sorriso no rosto de Anya e a imagem do exame em sua mão, o empresário relaxou os ombros, soltando um suspiro de alívio.

​— Tudo bem lá dentro? — Derick perguntou, abrindo a porta de vidro para ela passar.

​— Tudo perfeito, Derick. O coração está forte — Anya respondeu, a voz cheia de uma autoridade de mãe que ela acabara de assumir. — Agora me leva para o hospital. Eu tenho uma música muito importante para cantar no ouvido do meu noivo hoje.

​O carro preto seguiu caminho pela Avenida das Tulipas sob o sol da manhã. A jornada ainda era de espera, e o coma de Guga continuava sendo um mistério para a medicina, mas agora Anya Drake não andava mais no escuro. Ela tinha a rede de apoio de Derick, a ciência afetuosa de Letícia e, principalmente, a batida galopante do fruto do seu amor ecoando dentro de si, garantindo que o compasso da vida jamais pararia de tocar.