A batida do coração
35 A Vibração do Retorno e a Mesa da Promessa
O silêncio do quarto 305 foi quebrado por um som que não vinha dos aparelhos hospitalares. Anya estava sentada na ponta da cadeira de metal, com o corpo inclinado sobre a cama de Guga. Em sua mão direita, ela segurava o celular, bem próximo ao ouvido do noivo. Da pequena saída de som do aparelho, ecoava a gravação em áudio que Letícia havia feito na consulta daquela manhã: o batimento galopante, rápido e indomável do coração de doze semanas do bebê. Tup-tup-tup-tup-tup-tup.
— Escuta, meu amor... — Anya sussurrou, a voz embargada, enquanto sua mão esquerda envolvia os dedos inertes de Guga. — É o nosso filho. É o ritmo da sua bateria bem aqui dentro de mim. Você precisa voltar, Guga. A nossa música já começou a tocar e a gente não sabe o resto do arranjo sem você.
Por longos segundos, apenas o sopro mecânico do ventilador respondeu. Anya fechou os olhos, prestes a afastar o celular, quando o monitor de sinais vitais emitiu um bipe mais agudo, seguido de outro mais rápido.
Bip-bip-bip-bip.
As pupilas de Anya se dilataram. Ela olhou para a tela do monitor. A frequência cardíaca de Guga, que passara dias estabilizada em setenta batimentos por minuto, saltou repentinamente para noventa, depois noventa e cinco. O peito dele, sob o lençol hospitalar, subiu de forma mais profunda.
Antes que Anya pudesse gritar por socorro, ela sentiu um espasmo. Na palma de sua mão, os dedos longos e calejados de Guga se moveram. Devagar, mas com uma força visceral e consciente, os dedos do baterista se fecharam, apertando a mão dela contra o colchão.
— Doutor! Enfermeira! Por favor, venham aqui! — Anya gritou para o corredor, a voz carregada de uma urgência desesperada, sem soltar o aperto dele por nenhum segundo.
O Dr. Álvaro e duas enfermeiras entraram correndo no quarto. O médico rapidamente checou as pupilas de Guga com a lanterna clínica e analisou a súbita oscilação no gráfico do monitor. Um sorriso contido, mas profundamente aliviado, surgiu no rosto grisalho do especialista.
— O sistema nervoso central dele respondeu ao estímulo sonoro, Anya — o Dr. Álvaro explicou, guardando a lanterna no bolso do jaleco e olhando para ela com admiração. — Os batimentos aceleraram e houve resposta motora voluntária na mão. O Gustavo está voltando. Vai ser um processo lento, o cérebro dele está tateando o caminho de volta da penumbra, mas ele está quebrando o coma. Ele ouviu vocês.
Anya desabou sobre o braço de Guga, chorando de uma alegria que parecia lavar os últimos cinco anos de sua vida. O aperto nos dedos dele continuava ali, fraco, mas presente. Uma promessa silenciosa de que o inverno estava no fim.
A Mesa da Reconciliação
Naquela mesma noite, as luzes do apartamento 402 se acenderam para acolher a vida. Anya sabia que o caminho de recuperação de Guga na UTI ainda exigiria dias de paciência, mas a trégua que recebera era grande demais para ser guardada no silêncio. Ela organizou um jantar. Queria que as paredes que guardavam os vinis e as baquetas de seu noivo fossem preenchidas pelo calor das pessoas que sobreviveram à tempestade junto com ela.
A mesa da sala de jantar foi estendida. Sentados ao redor dela, uma cena que outrora parecera impossível se desenhava: Rose e Arthur Drake conversavam em tom baixo com Murilo e Sônia Telles, os pais de Guga; na outra extremidade, Carlos e Paola Laurentis dividiam o espaço com Derick e Letícia. Não havia frentes de batalha, não havia o peso de cobranças antigas. O luto havia se transformado em respeito, e o respeito abrira espaço para o futuro.
Após o jantar, com os pratos recolhidos e as taças servidas, Anya levantou-se de seu lugar na ponta da mesa. Ela usava um vestido de malha confortável que acentuava sutilmente a curvatura de seu ventre de três meses. Todos os olhares se voltaram para ela.
— Eu chamei todos vocês aqui hoje porque este apartamento sempre foi o lugar onde o Guga colocava ritmo nas nossas vidas — Anya começou, a voz firme, embora os olhos estivessem marejados. — E hoje à tarde, no hospital, algo milagroso aconteceu. Eu coloquei o áudio dos batimentos do nosso bebê para ele ouvir... e o Guga respondeu. O coração dele acelerou e ele apertou a minha mão com força. O Dr. Álvaro confirmou: ele está voltando. Devagar, no tempo dele, mas está retornando para nós.
Sônia Telles soltou um suspiro alto, cobrindo a boca com as duas mãos enquanto chorava nos ombros de Murilo, que apertou a esposa contra o peito, os olhos do pai brilhando com o alívio de não perder o seu único menino. Paola Laurentis estendeu a mão por cima da mesa e segurou a mão de Sônia, um gesto silencioso de mãe para mãe que fez o coração de todos na sala apertar de emoção.
O Ritmo na Tela Grande
— Mas a surpresa não é só essa — Anya sorriu, pegando o controle remoto da grande televisão de LED que ficava na parede da sala, onde Guga costumava assistir aos vídeos de seus shows. — Hoje eu fiz a minha primeira consulta oficial de pré-natal com a Letícia. E eu quero que vocês vejam o que o Guga escutou na UTI.
Anya apertou o botão. A tela imensa do apartamento foi inundada pela imagem em tons de cinza e branco da ultrassonografia de alta definição. No centro da imagem, a silhueta perfeitamente desenhada de um bebê de doze semanas apareceu.
Segundos depois, o sistema de som home theater do apartamento, o mesmo que Guga usava para calibrar os graves de suas músicas, disparou o som com uma nitidez avassaladora. O ambiente foi preenchido pelo eco forte, rápido e ritmado do coração do novo integrante da família: TUP-TUP-TUP-TUP-TUP-TUP.
— Meu Deus... olha o tamanho dele, Murilo! — Sônia exclamou entre lágrimas, levantando-se da cadeira para ir até a tela, tocando o vidro onde o pequeno coração pulsava visualmente. — É o nosso neto... o pedacinho do nosso Guga.
Murilo caminhou logo atrás da esposa, abraçando-a por trás, deixando que suas próprias lágrimas caíssem livremente.
— Esse menino já nasce com o ritmo do pai, Sônia. Escuta a força dessa batida.
Derick olhou para a tela e depois focou em Anya, exibindo um sorriso largo e orgulhoso. Ele ergueu a sua taça em direção a ela em um brinde silencioso. Letícia, ao seu lado, segurou o braço de Derick, com os olhos brilhando pela satisfação do dever cumprido como médica e amiga.
Carlos Laurentis limpou os óculos com o lenço, olhando para a imagem com uma serenidade profunda.
— O Jace ficaria orgulhoso de ver essa sala hoje, Anya. A vida encontrou um jeito de continuar sendo bonita através de vocês.
Anya caminhou até o centro da sala, ficando entre os seus pais e os seus sogros. Ela olhou para a imagem do filho na tela, ouvindo a batida forte que preenchia o apartamento 402. O passado estava ali, honrado nas fotos e na saudade que todos compartilhavam, mas o presente clamava o seu espaço com a força de um tambor que se recusava a emudecer. O Guga estava voltando, o fruto do amor deles já marchava para o mundo, e Anya Drake finalmente sabia que a composição de suas vidas havia encontrado o acorde mais perfeito de todos: o da esperança.
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