A batida do coração

5 O Som do Sopro Mecânico



​A transição entre a sala de espera e a unidade de cuidados intensivos parecia a passagem para um mundo paralelo. O ar era mais frio, o silêncio era interrompido por um coro rítmico de bipes eletrônicos e o cheiro de álcool isopropílico era tão forte que chegava a arder nas narinas. Antes de entrarem, uma enfermeira de semblante sério orientou Anya e Derick a higienizarem as mãos e a vestirem os aventais descartáveis azuis.

​Anya cumpria os movimentos de forma robótica. Suas mãos tremiam tanto que ela teve dificuldade em amarrar as tiras do avental atrás das costas. Derick, percebendo o embaraço dela, aproximou-se sem dizer uma palavra e, com dedos firmes e ágeis, terminou o laço para ela. Por um breve segundo, a proximidade permitiu que Anya sentisse o calor do corpo dele e o cheiro sutil de café que exalava de suas roupas, um contraste vívido com a frieza do hospital.

​— Pronta? — Derick sussurrou, a voz soando mais como um comando de sobrevivência do que como uma pergunta.

​Anya assentiu, embora sentisse que seus joelhos pudessem ceder a qualquer momento.

​Eles caminharam pelo corredor longo e mal iluminado até o Box 04. A cortina de vidro estava parcialmente puxada. Quando finalmente cruzaram o limiar, o impacto visual foi como um soco físico no estômago de ambos.

​Jace não parecia mais o Jace. O jovem de dezenove anos, vibrante e cheio de música, estava quase irreconhecível sob a luz branca e implacável da UTI. A cabeça dele estava envolta em bandagens brancas, e o rosto, antes bronzeado e radiante, agora exibia uma palidez cadavérica, com hematomas arroxeados ao redor dos olhos e na linha da mandíbula. Mas o que mais aterrorizou Anya foi o tubo plástico transparente que saía de sua boca, fixado por fitas adesivas, conectando-o a uma máquina grande e barulhenta ao lado da cama.

​Pshhh-clack. Pshhh-clack.

​O som do ventilador mecânico era hipnótico e assustador. Era o som da vida sendo forçada para dentro de pulmões que não podiam mais lutar sozinhos. Anya levou as mãos à boca, abafando um grito que queria rasgar sua garganta. Ela deu um passo hesitante, aproximando-se da beira da cama, e viu os fios coloridos que saíam do peito de Jace, ligando-o aos monitores que traduziam o seu coração em linhas verdes incessantes.

​— Meu Deus... Jace... — Anya soluçou, as lágrimas embaçando sua visão. Ela estendeu a mão, querendo tocá-lo, mas parou no ar, com medo de que o simples toque pudesse quebrar o que restava dele.

​Derick estava parado do outro lado da cama. Anya ergueu os olhos e viu o momento exato em que a armadura do cunhado rachou. Ele olhava para o irmão caçula com uma expressão de devastação pura. Os dedos de Derick agarraram a grade de metal da cama com tanta força que os nós de suas mãos ficaram brancos. Ele parecia estar travando uma batalha interna para não desabar ali mesmo. O "irmão mais velho" estava vendo o seu "protegido" reduzido a um corpo mantido por fios.

​— Ele parece tão... pequeno — Anya sussurrou, a voz quebrada. — Ele sempre preenchia qualquer lugar onde entrava, Derick. Agora parece que ele nem está aqui.

​Derick engoliu em seco, um movimento áspero em sua garganta. Ele estendeu a mão e tocou o antebraço de Jace, onde uma agulha de acesso venoso estava fixada.

​— Ele está aqui, Anya — Derick disse, e sua voz, embora baixa, tinha uma vibração de dor que Anya nunca ouvira. — Ele é teimoso demais para ir embora assim. Ele sempre foi o que mais causava problemas, o que mais fazia barulho... ele não vai aceitar o silêncio.

​Anya finalmente reuniu coragem e segurou a mão de Jace. Estava fria. Não era o calor reconfortante de quando eles caminhavam pelo campus. Era uma frieza clínica que a fez estremecer. Ela começou a falar com ele, como se ele pudesse ouvi-la através das camadas profundas do coma.

​— Jace, eu estou aqui. Sou eu, a Anya. Por favor... por favor, volta para mim. A gente ainda tem aquele acampamento, lembra? Você prometeu que ia me ensinar aquela música nova na guitarra... você não pode quebrar essa promessa.

​O silêncio do quarto, apenas preenchido pelas máquinas, foi a única resposta. Anya desabou, inclinando a cabeça sobre a lateral da cama, chorando sobre a mão imóvel do namorado. O peso da realidade a atingiu com força total: a vida deles, como era antes, havia morrido naquela curva da estrada.

​Derick observava a cena em silêncio. Ele viu a fragilidade da namorada do irmão, o desespero de uma garota de dezoito anos que acabara de ter o seu mundo estilhaçado. Pela primeira vez em dois anos, ele não sentiu irritação ou desdém por ela. Ele sentiu uma identificação brutal. Ambos amavam a mesma pessoa. Ambos estavam perdendo a mesma pessoa.

​Lentamente, Derick contornou a cama. Ele parou atrás de Anya e, em um impulso que desafiava toda a distância que ele sempre impôs, ele colocou a mão sobre o topo da cabeça dela por um momento, antes de deixá-la descer para o seu ombro, oferecendo um suporte físico sólido.

​— Anya, precisamos ir. O tempo da visita acabou — ele disse suavemente.

​Anya soltou a mão de Jace com relutância, sentindo-se arrancada de uma parte de si mesma. Ela se virou e, num momento de vulnerabilidade absoluta, encostou a testa no peito de Derick. Ela só precisava de algo que não fosse feito de plástico ou metal, algo que estivesse vivo e firme.

​Derick hesitou por um segundo, os braços pairando ao lado do corpo, antes de fechar o abraço de forma desajeitada, mas protetora. Ele apoiou o queixo no topo da cabeça dela, fechando os olhos com força, permitindo-se aquele único segundo de fraqueza compartilhada.

​— Nós vamos passar por isso — ele murmurou contra o cabelo dela, mais para convencer a si mesmo do que a ela. — Um dia de cada vez, como o médico disse.

​Quando saíram da UTI e voltaram para o corredor comum, a atmosfera entre os dois havia mudado. A barreira de antipatia não havia desaparecido totalmente, mas agora havia uma cicatriz comum entre eles. Eles eram agora os guardiões de um Jace que não podia mais se defender.

​Do lado de fora, as famílias aguardavam. Rose Drake correu para abraçar a filha, enquanto Paola e Carlos olhavam para Derick em busca de uma força que ele já não tinha certeza se possuía.

​Naquela madrugada, ao deixarem o hospital, Anya entrou no banco do passageiro do carro de Derick. O trajeto foi silencioso, mas não era mais o silêncio de dois estranhos que se detestavam. Era o silêncio pesado de dois sobreviventes que agora dividiam a mesma ferida aberta.