A batida do coração

33 O Milagre Entre as Sombras



​A exaustão física e emocional cobrou o seu preço na tarde de terça-feira. Anya não comia uma refeição completa há dias; sua existência resumia-se a goles esporádicos de água e ao café amargo das máquinas do corredor. Sentindo a cabeça pesada e uma pressão incômoda na nuca, ela soltou a mão de Guga por cinco minutos e saiu do quarto 305 para buscar algo quente na lanchonete do subsolo.

​Ao caminhar pelo corredor de linóleo cinzento, o som dos bipes dos monitores começou a ecoar de forma distorcida em seus ouvidos. As paredes brancas pareceram se inclinar. Anya parou no meio do corredor, apoiando a mão na parede para tentar se estabilizar, mas as luzes fluorescentes giraram em um redemoinho rápido. Seus joelhos fraquejaram, a visão escureceu por completo e o mundo ao seu redor silenciou-se quando seu corpo desabou inerte no chão hospitalar.

​O Despertar na Maca

​Quando Anya finalmente abriu os olhos, a iluminação ao seu redor era mais suave. Ela não estava mais no chão rígido, mas deitada em uma maca confortável em uma sala de observação anexa à emergência. O som familiar de líquido gotejando chamou sua atenção: havia um acesso em seu braço esquerdo, por onde corria um soro glicosado com vitaminas.

​Ao virar o rosto devagar, ela avistou uma silhueta conhecida. Derick Laurentis estava sentado em uma cadeira de metal a poucos metros, de pernas cruzadas, digitando algo concentrado na tela do celular. O paletó do terno estava jogado nas costas da cadeira, e ele parecia genuinamente preocupado.

​Ao notar o movimento na maca, Derick guardou o aparelho no bolso imediatamente e se levantou, aproximando-se com passos calmos.

​— Ei... calma. Não tenta levantar ainda — ele disse, a voz grave soando mansa e acolhedora. — Você deu um susto em todo mundo lá em cima.

​Anya piscou algumas vezes, tentando afastar a sensação de desorientação.

— Derick...? O que aconteceu? O que você está fazendo aqui?

​— Eu estava chegando ao hospital para fazer a minha visita diária ao Guga e conversar com os médicos quando vi duas enfermeiras correndo para te socorrer no corredor — ele explicou, puxando a cadeira para mais perto da maca. — Você desmaiou por exaustão, Anya. Eu ajudei a trazer você para cá e resolvi ficar até você acordar para garantir que ficaria bem. Você está se matando lentamente naquela cadeira da UTI.

​— Eu não posso deixar ele sozinho, Derick... — ela sussurrou, a voz fraca.

​O Diagnóstico e a Lembrança

​Antes que Derick pudesse insistir no sermão, a cortina da sala de observação foi puxada e o Dr. Álvaro entrou, segurando uma prancheta e um resultado de exame de sangue. Ele olhou para Anya com uma expressão que misturava a severidade profissional com uma sutil pitada de ternura.

​— Bem-vinda de volta, Anya. Como está se sentindo? — o médico perguntou, checando o fluxo do soro.

​— Ainda um pouco tonta, doutor. Mas preciso voltar para o quarto do Guga.

​— Você não vai a lugar nenhum até esse saco de soro terminar, e muito menos sem comer uma refeição de verdade — o Dr. Álvaro determinou, cruzando os braços. — O seu desmaio foi uma combinação de anemia crônica, falta de sono e, principalmente, devido ao seu estado atual. Você precisa entender que agora não carrega apenas a sua própria vida.

​Anya franziu o cenho, confusa, olhando do médico para Derick.

— Estado? Que estado, doutor? Eu só estou cansada.

​O Dr. Álvaro deu um meio sorriso compreensivo, abaixando a prancheta.

— Anya, o exame de sangue laboratorial confirmou o que a nossa equipe suspeitou pelo seu quadro clínico. Você está grávida. Três meses de gestação, para ser exato.

​O quarto pareceu silenciar. O ar sumiu dos pulmões de Anya, mas não de dor. Uma onda de calor inexplicável e avassaladora subiu por seu peito. Três meses.

​Imediatamente, a mente dela foi puxada para trás no tempo, em um flashback nítido e Detailed daquela noite chuvosa em Paris, no meio da turnê europeia. Ela havia pego um trem de surpresa para encontrar a banda após um show esgotado. Lembrava-se perfeitamente de bater na porta do quarto de hotel dele; Guga abrindo a porta vestindo apenas uma calça de moletom, os olhos arregalados de choque antes de se transformarem em pura alegria.

​"Você está aqui... meu Deus, artista, você veio!", ele dissera, puxando-a para dentro com pressa, o abraço quente e cheio de saudade que a tirara do chão. Naquela noite, sob o som da chuva que batia nas janelas francesas, eles fizeram amor com uma intensidade e uma entrega que pareciam selar o destino. As palavras dele ainda ecoavam em sua mente: "Eu te amo tanto, Anya. Quero passar cada segundo da minha vida construindo o nosso mundo".

​De volta ao presente, na sala fria do hospital, Anya levou a mão direita, trêmula, até a parte inferior de sua barriga, alisando o ventre por cima do tecido do casaco. As lágrimas começaram a descer por seu rosto, mas eram lágrimas de uma emoção pura, divina. Um sorriso gigante e desarmado se moldou em seus lábios.

​— Três meses... — ela sussurrou para si mesma, com a voz embargada. — O dia em Paris... Meu amor, você deixou o fruto do nosso amor em mim antes desse asfalto te tocar. Você está aqui comigo.

​Derick, assistindo à cena, sentiu os próprios olhos marejarem. O homem rígido deu lugar ao amigo de infância. Um sorriso sincero se abriu em seu rosto, e ele colocou a mão sobre o ombro de Anya, apertando de leve.

​— Parabéns, Anya — Derick disse, a voz terna, cheia de uma admiração limpa. — O Guga vai ser pai... Deus, aquele moleque vai pirar de alegria. Isso é um milagre no meio disso tudo.

​— Eu preciso contar para ele, Derick. Ele precisa saber — Anya dizia, tentando se sentar na maca.

​— Você vai ficar aí e terminar esse soro, conforme o doutor mandou — Derick a barrou gentilmente, ajeitando o lençol sobre as pernas dela. — Descansa. Deixa que eu vou na frente. Vou dar o recado para o nosso campeão.

​Palavras ao Irmão de Alma

​Minutos depois, Derick cruzou as portas duplas da UTI do quarto 305. O ambiente continuava imerso no som do ventilador mecânico. Guga permanecia estático, com o semblante calmo do coma, alheio ao turbilhão que acabara de acontecer no andar de baixo.

​Derick caminhou até a lateral da cama, parando onde Anya costumava sentar. Ele olhou para o rosto pálido do baterista e, pela primeira vez, permitiu-se quebrar a postura inabalável. Ele puxou a cadeira e sentou-se, apoiando os cotovelos nos joelhos e olhando fixamente para o amigo de seu irmão caçula.

​— Escuta aqui, Gustavo — Derick começou, a voz saindo baixa, mas firme, preenchendo o silêncio técnico do quarto. — Eu nunca fui de falar muito, e você sabe que a gente teve os nossos problemas no passado por causa do meu orgulho. Mas você provou ser o homem que a Anya precisava. Você trouxe a luz de volta para aquela garota quando eu só sabia trazer sombras.

​Derick inclinou-se mais para a frente, estendendo a mão e segurando o ombro de Guga com firmeza, como se tentasse transmitir sua própria força através do toque.

​— A Anya acabou de desmaiar no corredor. O médico examinou ela. Cara... você precisa sair dessa mesa e acordar agora. Não há mais tempo para você ficar dormindo. A sua mulher está grávida de três meses. Você vai ser pai, Guga. O fruto do amor de vocês, a continuação de tudo o que vocês construíram naquelas telas e nas músicas do Jace, está crescendo na barriga dela agora.

​Uma lágrima solitária escorreu pelo rosto de Derick, mas sua voz manteve-se impositiva, uma ordem de irmão mais velho.

​— A Anya aguentou o peso do mundo sozinha por cinco anos, mas ela não vai aguentar passar por isso de novo. Ela precisa de você inteiro para criar esse filho. O Jace já está em paz, a nossa história já seguiu... agora é a sua vez de lutar para voltar. Acorda, Gustavo. O seu melhor acorde está esperando por você lá fora.

​O monitor cardíaco de Guga emitiu um bipe ligeiramente mais agudo, e a linha verde sofreu uma oscilação sutil na tela, como se, em algum lugar profundo daquele laboratório do sono, o espírito do baterista tivesse escutado o chamado da vida que o aguardava na superfície. Derick permaneceu ali, segurando o ombro do amigo, vigiando a batida que agora carregava a responsabilidade de um novo amanhã.