A batida do coração
13 O Achado na Escravaninha e o Eco de Jace
Três meses haviam se passado desde que a última caixa de papelão fora lacrada no quarto de Jace. O tempo lá fora corria sob um sol pálido de inverno, mas dentro de Anya e Derick, a estagnação era absoluta. Eles haviam cumprido a promessa de afastamento de forma rígida, quase cruel. Anya se afundara nas aulas da faculdade, mantendo os olhos baixos e os fones de ouvido sempre no máximo para não dar espaço aos pensamentos. Derick, por sua vez, praticamente mudara-se para o escritório da empresa do pai, trabalhando até catorze horas por dia para anestesiar a mente com planilhas e relatórios.
O silêncio entre eles, no entanto, foi implodindo na tarde de uma terça-feira, quando o celular de Anya vibrou. Era Paola. A voz da mãe de Jace do outro lado da linha estava trêmula, mas não de desespero; havia uma urgência quase mística em seu tom.
— Anya... minha querida, você precisa vir aqui. O Derick já está subindo. Eu estava limpando o fundo daquela gaveta trancada da escrivaninha do Jace e... achei uma coisa. Uma coisa que pertencia a ele, mas que é para vocês dois. Por favor, venha.
O estômago de Anya despencou no mesmo instante. A menção ao quarto, combinado à presença inevitável de Derick, fez seu coração martelar contra as costelas. Trinta minutos depois, ela cruzava o limiar da casa dos Laurentis.
Ao subir as escadas, encontrou a porta do antigo quarto de Jace totalmente aberta. O cômodo, agora vazio de roupas e pôsteres, parecia maior e mais frio. Paola estava sentada na beirada da cama desnudada, segurando um caderno de capa de couro desgastada e uma fita cassete antiga. Derick estava de pé junto à janela, com as mãos nos bolsos da calça social, o olhar fixo no chão de madeira. Quando Anya entrou, ele ergueu os olhos. O impacto de se verem após meses de jejum forçado foi visível na forma como ambos prenderam a respiração.
— Que bom que você chegou, Anya — Paola disse, a voz embargada, levantando-se e estendendo o caderno para ela, enquanto colocava a fita nas mãos de Derick. — Eu achei isso num fundo falso da gaveta onde ele guardava as letras das músicas novas. É o diário de composições dele. Tem uma página... a última página que ele escreveu, na quinta-feira antes do acidente. Vocês precisam ler. E precisam ouvir a fita. Eu vou deixar vocês sozinhos.
Paola beijou a bochecha de Anya, apertou o braço de Derick e saiu do quarto, fechando a porta de madeira atrás de si, deixando-os confinados com o fantasma do garoto que mudara o destino de ambos.
O Peso das Palavras
O silêncio que se instalou no quarto era sufocante. Anya segurava o caderno de couro contra o peito, sentindo o cheiro sutil de mofo e poeira. Derick continuava estático perto da janela, a silhueta escura recortada contra a claridade da tarde.
— Você quer ler primeiro? — a voz de Derick surgiu baixa, quebrando o gelo que os congelara por meses.
Anya engoliu em seco, abrindo o caderno com dedos trêmulos. As páginas estavam cheias de rascunhos de acordes, frases soltas e rasuras a lápis. Ela folheou até a última página escrita. A caligrafia de Jace, sempre apressada e levemente inclinada, preenchia o papel com uma crueza que fez as lágrimas subirem instantaneamente aos olhos de Anya.
— Está escrito... é um texto — Anya sussurrou, a voz falhando. — Ele não colocou título.
— Leia em voz alta, Anya — Derick pediu, dando um passo curto à frente, a rigidez de seus ombros cedendo à expectativa dolorosa. — Por favor.
Anya limpou uma lágrima que insistia em descer e começou a ler, a voz ecoando baixinho pelas paredes vazias do cômodo:
"Às vezes eu olho para o Derick e sinto que ele carrega o peso do mundo nas costas de propósito, só para ninguém ver que ele também sente frio. Ele acha que eu não percebo, mas eu vejo como ele fica tenso quando a Anya chega. Eu conheço o meu irmão. Eu sei que o jeito dele, sério e distante, é uma armadura. E eu sei que, no fundo, ele vê a Anya como a luz que ele nunca se permitiu ter."
Anya parou de ler, o peito subindo e descendo em choque. Ela ergueu os olhos para Derick. O homem forte, o pilar da família, estava com o rosto banhado de lágrimas, a boca entreaberta pelo impacto das palavras do irmão caçula.
— Tem mais... — Anya continuou, a voz quase sumindo num soluço.
"Eu amo a Anya com tudo o que eu tenho, mas o meu amor é de música, é de estrada, é de vento. O amor do Derick... é de terra, de raiz. Se um dia a minha música parar de tocar, eu só espero que eles não fiquem no escuro. Eu espero que eles se olhem de verdade, sem a barreira que eu acabei criando entre os dois. Derick, cuida dela. Anya, deixa ele te segurar quando o mundo desabar. Eu já sei disso há muito tempo."
Anya fechou o caderno com um estrondo abafado, cobrindo a boca com as mãos para segurar o choro que veio violento, rasgando sua garganta. Jace sabia. O garoto de dezoito anos, com sua sensibilidade de músico, havia enxergado através das máscaras e das mentiras que eles contavam para si mesmos durante dois anos.
A Confissão e o Afeto
Derick caminhou até a escrivaninha de madeira, as mãos tremendo tanto que ele quase derrubou a fita cassete. Ele a inseriu no pequeno rádio portátil que Paola havia deixado sobre o móvel e apertou o play.
O chiado estático da fita preencheu o quarto por alguns segundos, até que o som de uma guitarra acústica começou a tocar de forma limpa e dedilhada. Logo em seguida, a voz de Jace encheu o ambiente, ecoando viva, vibrante e tão próxima que parecia que ele estava sentado no canto da cama.
— Aí, gravando... Essa é a guia da música nova. É para o álbum. Chama 'Entre o Eco e o Afeto'. Espero que vocês entendam o arranjo... — a voz dele brincou, seguida por uma risada curta, aquela risada solar que Anya conhecia tão bem.
A música continuou, uma melodia melancólica, mas bonita, que falava sobre pontes invisíveis e sobre o amor que sobrevive às tempestades. O som da voz de Jace preencheu o vazio daqueles meses de afastamento, quebrando a última linha de resistência que existia entre Anya e Derick.
Derick desligou o rádio antes que a música terminasse. Ele não aguentava mais o som do eco. Ele se virou para Anya, os olhos vermelhos, a expressão de quem havia sido completamente desarmado pela verdade do irmão morto.
— Ele sabia, Anya... — Derick disse, a voz saindo em um sussurro sofrido, dando os passos que faltavam para encurtar a distância entre eles. — O Jace nos deu a bênção dele antes mesmo de ir embora. Ele sabia o que eu sentia por você antes mesmo de eu ter coragem de admitir para mim mesmo no espelho.
Anya olhou para ele através da névoa de suas próprias lágrimas. A culpa, que a havia consumido por meses, parecia ter sido lavada pelas palavras escritas a lápis naquele caderno de couro. Jace não os estava julgando; ele os estava libertando do escuro.
— Eu passei meses tentando desenhar o rosto dele, Derick — Anya confessou, os ombros sacudindo com o choro, dando um passo na direção dele. — Eu tentava trazer ele de volta no carvão porque eu achava que, se eu esquecesse o contorno do sorriso dele, eu estaria te amando por traição. Mas eu não consigo mais mentir. Eu sinto a falta dele todos os dias, mas a única hora em que meu peito não dói... é quando eu lembro de você me segurando naquele hospital.
Derick não hesitou mais. Ele estendeu os braços e puxou Anya para o seu peito com uma urgência desesperada, fechando o abraço com uma força que parecia querer colar os pedaços quebrados de ambos. Anya enterrou o rosto no pescoço dele, agarrando a camiseta preta de Derick, sentindo o calor vivo do corpo dele e o compasso acelerado do seu coração.
— Não há mais culpa, Anya — Derick murmurou contra o cabelo dela, deixando suas próprias lágrimas se misturarem às dela. — Nós não estamos traindo o Jace. Nós somos o que sobrou dele aqui fora. Nós somos o eco do amor que ele deixou.
Lentamente, Derick afastou o rosto sutilmente, apenas o suficiente para olhar nos olhos dela. Com os dedos longos, ele ergueu o queixo de Anya, limpando os vestígios de choro de suas bochechas. O beijo que se seguiu não foi como o do motel de beira de estrada — não havia a urgência do desespero ou o gosto amargo do remorso. Foi um beijo calmo, profundo e carregado de uma aceitação dolorosa, mas libertadora. Era o pacto definitivo de duas almas que aceitavam andar juntas pelo território do luto e do recomeço.
Ali, no quarto vazio onde a música de Jace havia silenciado para sempre, as barreiras finalmente caíram por completo. O passado continuaria ali, guardado nas páginas daquele caderno de couro e nas fitas de rolo, mas o futuro deles começava a desenhar suas primeiras linhas na solidez daquele abraço. Eles não estavam mais no escuro; o eco de Jace havia se transformado no afeto que os salvaria da tempestade.
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