A batida do coração

14 O Limiar do Tempo e o Espaço Vazio



​Uma semana havia se passado desde a tarde em que o diário e a fita cassete de Jace foram encontrados. Embora a revelação tivesse arrancado o peso da culpa mais esmagadora de seus ombros, a realidade prática dos dias não se tornou mais fácil. O luto não era uma linha reta; era um labirinto onde cada curva trazia uma nova onda de ausência.

​Anya passava os dias em seu quarto, olhando para o teto ou para as próprias mãos sujas de carvão. Ela compreendia as palavras de Jace, guardava o diário de couro como um tesouro sagrado, mas o seu peito continuava confuso. Toda vez que fechava os olhos, a linha reta do monitor cardíaco e o som do último suspiro de Jace se misturavam à intensidade dos olhos de Derick e ao calor daquela noite no motel. Era informação demais, sentimento demais, dor demais para dezoito anos. Ela sentia que se continuasse a dar passos em direção a Derick agora, estaria correndo para não ter que encarar o próprio abismo.

​Na tarde de sábado, Anya mandou uma mensagem para ele, pedindo para se encontrarem na praça central da cidade — um lugar neutro, longe do hospital, longe do quarto de Jace, longe de qualquer parede que guardasse ecos.

​O vento de inverno balançava as copas das árvores secas quando Derick chegou. Ele usava um casaco escuro, as mãos afundadas nos bolsos e o semblante sério, embora houvesse uma suavidade inédita em seu olhar quando focou em Anya. Ele caminhou até o banco de madeira onde ela o esperava e sentou-se ao seu lado, mantendo uma distância respeitosa.

​— Oi — ele disse, a voz baixa, o hálito formando uma pequena névoa fria no ar. — Você parecia distante na mensagem. Aconteceu alguma coisa com a minha mãe?

​Anya balançou a cabeça devagar, olhando para as próprias botas no chão coberto de folhas secas.

​— Não, Derick... Sua mãe está bem, dentro do possível. O problema... sou eu.

​Derick mudou de postura, o corpo tensionando imediatamente. A barreira protetora que ele vinha tentando desarmar pareceu ameaçar subir de novo.

​— O que quer dizer com isso?

​Anya engoliu em seco, sentindo as lágrimas queimarem o fundo de seus olhos antes mesmo de começar a falar. Ela se virou de lado no banco para encará-lo de frente.

​— O que o Jace escreveu naquele caderno me deu paz, Derick. De verdade. Tirou de mim um peso que estava me impedindo de respirar. Mas... lendo aquilo, ouvindo a fita e olhando para nós dois, eu percebi que nós fomos jogados um nos braços do outro no meio do pior terremoto das nossas vidas.

​— Nós nos apoiamos, Anya — Derick interveio, a voz firme, mas com uma nota de urgência oculta. — Nós sobrevivemos porque estávamos juntos naquele corredor.

​— Sim, nós sobrevivemos — ela concordou, uma lágrima finalmente escapando e correndo por sua bochecha pálida. — Mas nós não tivemos tempo de sangrar sozinhos. Eu olho para você e eu sinto uma ligação que eu nunca achei que teria com ninguém. Eu sinto o seu toque e meu coração acelera... Mas, logo em seguida, vem o rosto do Jace. Vem o hospital. Vem a culpa, mesmo que ele tenha nos perdoado. Eu sinto que se a gente engatar um namoro agora, se a gente tentar ser um casal normal, nós vamos construir a nossa história em cima dos destroços do seu irmão. E isso não é justo. Nem com você, nem comigo, nem com a memória dele.

​Derick permaneceu em silêncio por um longo minuto. O olhar dele mudou de intensidade, misturando a dor da rejeição com a compreensão madura que ele sempre tentava forçar em si mesmo. Ele tirou as mãos do bolso e olhou para os próprios dedos.

​— Você está me dizendo que foi um erro? — a voz dele saiu mais rouca que o normal.

​— Não! Não foi um erro — Anya respondeu com rapidez, estendendo a mão para tocar o braço do casaco dele, precisando que ele entendesse a verdade em suas palavras. — Sentir o seu afeto foi a única coisa que me manteve inteira quando eu achei que ia enlouquecer. Mas eu preciso de um tempo, Derick. Um tempo para mim. Eu preciso descobrir quem é a Anya sem o Jace, e quem é a Anya sem o peso desse hospital. Eu preciso aprender a andar com as minhas próprias pernas antes de tentar correr para os seus braços. Eu não estou pronta para um namoro. Meu peito ainda está em carne viva.

​Derick engoliu em seco, o pomo de adão movendo-se de forma brusca em sua garganta. Uma lágrima solitária e teimosa desceu pelo seu rosto, mas ele a limpou rapidamente com as costas da mão. Ele olhou para Anya, vendo a fragilidade e, ao mesmo tempo, a coragem nos olhos castanhos dela. Ele sabia que ela tinha razão. O amor que nascera entre eles fora forjado no trauma, e precisava de ar puro para saber se sobreviveria ao tempo.

​— Quanto tempo, Anya? — ele perguntou, a voz falhando sutilmente.

​— Eu não sei... — ela confessou, os lábios tremendo pelo choro. — O tempo que for necessário para a gente conseguir se olhar e ver um ao outro, e não apenas o reflexo da dor que a gente compartilha. Eu preciso me curar, Derick. E acho que você também precisa. Você passou meses sendo o pilar de todo mundo, mas quem segura você quando você desaba? Você precisa viver o seu luto de irmão, sem ter que se preocupar em me manter de pé.

​Derick soltou um suspiro longo, que pareceu rasgar o seu peito. Ele estendeu a mão e, com uma delicadeza que desarmava qualquer fachada de frieza, tocou o rosto de Anya, recolhendo as lágrimas com o polegar.

​— Vai ser difícil não ter você no final do dia, Anya — ele admitiu, a intensidade de suas palavras fazendo o coração dela dar um aperto doloroso. — Eu passei dois anos fingindo que você não existia, e passei os últimos três meses vivendo por cada segundo que passava ao seu lado naquele hospital. Voltar para o silêncio... vai doer.

​— Vai doer em mim também — ela sussurrou, inclinando o rosto contra a mão dele, permitindo-se aquele último segundo de entrega. — Mas é o único jeito da gente fazer o certo.

​Lentamente, Derick afastou a mão. Ele se levantou do banco de madeira, ajustando o casaco escuro. A máscara de neutralidade não voltou por completo; em seu lugar, havia uma resignação triste, mas profundamente respeitosa.

​— Eu vou te dar o seu espaço, Anya — ele disse, olhando-a de cima, os olhos escuros carregados de uma promessa silenciosa. — Eu vou cuidar da minha mãe, do meu pai, e vou tentar descobrir o que fazer com o que sobrou de mim. Mas eu quero que você saiba de uma coisa... O que aconteceu naquela estrada, o que eu sinto por você... não vai sumir com o tempo. Eu vou estar aqui. Quando você estiver pronta, se um dia estiver... você sabe onde me encontrar.

​Anya assentiu, o choro impedindo-a de formular qualquer palavra de resposta.

​Derick deu meia-volta e caminhou lentamente pelo caminho de pedras da praça, as mãos afundadas nos bolsos, a silhueta desaparecendo aos poucos sob a névoa fria da tarde. Anya continuou sentada no banco, encolhendo-se dentro do moletom cinza que ainda guardava o rastro invisível do passado. Ela estava sozinha novamente, mas, pela primeira vez desde o acidente, sentia que o ar entrava em seus pulmões de forma limpa. O tempo havia começado a correr de verdade, e a cura, embora dolorosa, pedia passagem no silêncio do seu próprio espaço.