A batida do coração

10 O Último Eco do Soprar



​O vidro do Box 04 parecia reter toda a melancolia do mundo naquela tarde. A decisão, embora dilacerante, fora tomada: os Laurentis decidiram poupar o corpo de Jace de uma permanência sem alma. O Dr. Andrews e uma enfermeira sênior entraram no quarto com passos medidos, os rostos solenes, preparando os comandos técnicos para o desligamento dos suportes que mantinham a ilusão de vida.

​Ao redor do leito, o espaço parecia estreito para tanta dor. Paola estava colada ao lado esquerdo do filho, acariciando os cabelos loiros dele, que agora pareciam perder o brilho de outrora. Carlos mantinha a mão pesada sobre os pés de Jace, os olhos fixos no chão, os ombros curvados sob o peso de enterrar o próprio caçula. Anya e Derick estavam do lado direito. A proximidade física deles não carregava a tensão do segredo do motel; ali, diante do leito de morte, eles eram apenas duas metades de um mesmo coração estilhaçado.

​— Nós vamos começar reduzindo a medicação que mantém a pressão arterial artificialmente — explicou o Dr. Andrews, a voz baixa, quase um sussurro no ambiente estéril. — Em seguida, faremos o desligamento do ventilador mecânico. O processo é indolor. Ele não vai sofrer.

​Paola soltou um soluço agudo, enterrando o rosto no pescoço do filho.

​— Meu menino... meu músico... — ela chorava, as lágrimas molhando a fronha hospitalar. — Mãe te ama tanto, Jace. Vai em paz, meu amor. Pode ir.

​A enfermeira aproximou-se do painel digital do ventilador. Com um bipe agudo, os parâmetros começaram a ser zerados. O som que os acompanhara por semanas finalmente mudou de ritmo.

​Pshhh-clack...

​O compressor da máquina diminuiu a velocidade. O tubo plástico na boca de Jace parou de vibrar. O peito dele, que subia e descia de forma mecânica e perfeitamente simétrica, relaxou e desceu uma última vez. Ficou imóvel.

​O silêncio que se instalou foi abrupto, interrompido apenas pelo monitor cardíaco, cujo ritmo começou a desacelerar drasticamente. Os números verdes na tela, que antes marcavam estáveis 80 batimentos por minuto, começaram a despencar. 72... 61... 48...

​Anya deu um passo à frente, agarrando os dedos frios de Jace. Suas lágrimas caíam sem freio sobre a pele dele.

​— Jace... obrigada por tudo — Anya sussurrou, a voz embargada, os lábios colados à mão dele. — Obrigada pelo amor leve, pelas músicas... Eu nunca, nunca vou te esquecer. Voo alto, meu amor.

​Ao lado dela, Derick deu um passo mais perto. Pela primeira vez diante de todos, ele deixou as barreiras caírem por completo. Suas lágrimas desciam livres, molhando a gola da camisa escura. Ele estendeu a mão trêmula e tocou a testa do irmão caçula.

​— Você foi o melhor de nós, pirralho — a voz de Derick saiu rouca, quebrada pela metade. — Desculpa por não ter te protegido mais. Eu vou cuidar deles aqui fora. Eu prometo.

​O monitor agora apitava de forma espaçada, um som longo e agoniante a cada queda. 35... 24...

​Foi nesse momento de transição absoluta, quando o oxigênio residual deixava os pulmões de Jace por completo, que o ar preso nas vias aéreas superiores moveu as cordas vocais inertes. Um som baixo, gutural, como um suspiro profundo misturado a um estalido rouco — o que os médicos chamavam de estertor final, mas que para os ouvidos daquela família soou como um último sussurro de adeus — escapou da garganta de Jace.

​“...Ahhh...”

​O barulho estranho e ecoante cortou o quarto. Paola deu um sobressalto, os olhos arregalados, enquanto Anya sufocou um grito contra o peito. Derick fechou os olhos com força, apertando o ombro de Anya instintivamente para mantê-la de pé. Aquele som foi o último esforço físico do reflexo do corpo de Jace, a última lufada de ar deixando o templo que ele habitara por dezenove anos.

​Imediatamente após o som cessar, a linha verde no monitor perdeu as ondulações. O bipe rítmico transformou-se em um zumbido contínuo, reto e agudo.

​Biiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii...

​O Dr. Andrews aproximou-se com o estetoscópio, posicionando-o sobre o peito imóvel de Jace. Ele ouviu por alguns segundos, que pareceram horas, antes de tirar o aparelho dos ouvidos e olhar para o relógio de pulso.

​— Hora do óbito: quatorze horas e trinta e dois minutos — o médico declarou com solenidade. — Ele descansou.

​O zumbido do monitor continuava, mas a enfermeira estendeu a mão e desligou o aparelho, mergulhando o Box 04 em um silêncio definitivo, pesado e sepulcral.

​Paola desabou sobre o peito do filho, os gritos de dor ecoando pelo corredor da UTI. Carlos abraçou a esposa por trás, as lágrimas do homem maduro caindo sobre os cabelos dela, ambos unidos no pior luto que a existência humana pode impor.

​Anya recuou dois passos, sentindo o quarto girar. A mão de Jace havia deslizado de seus dedos, caindo sem vida sobre o colchão. O choque de ver a linha reta no monitor era anestesiante. Ela sentiu que suas pernas iam falhar de verdade, mas antes que atingisse o chão, os braços fortes de Derick a envolveram por trás, puxando-a contra o seu peito.

​Derick a segurou com uma força desesperada, escondendo o rosto no pescoço de Anya enquanto chorava silenciosamente, os ombros dele sacudindo contra os dela. Anya virou-se no abraço dele, enterrando o rosto no peito do cunhado, segurando a camisa dele como se aquela fosse a única coisa sólida restante no universo.

​Ali, naquele quarto onde a música de Jace havia silenciado para sempre, o sopro artificial deu lugar à dura e crua realidade. Jace Laurentis tinha ido embora de vez. E, no meio dos destroços daquela perda, Anya e Derick permaneciam colados, unidos pela dor indizível de serem os sobreviventes do homem que mudou suas vidas para sempre.