A batida do coração
11 A Última Canção Sob a Chuva
O Cemitério Parque das Acácias parecia ter sido engolido pela mesma névoa cinzenta que insistia em cobrir a cidade desde o dia anterior. A capela master, com suas paredes de mármore claro e grandes vitrais, estava completamente lotada. Amigos da faculdade de Jace, os integrantes de sua banda segurando suas jaquetas de couro com os rostos inchados, vizinhos e familiares se espremiam no espaço abafado pelo cheiro forte de coroas de flores — crisântemos, lírios e rosas brancas que cercavam o caixão lacrado.
No centro de tudo, a dor das duas famílias era palpável. Paola Laurentis estava sentada em uma das primeiras fileiras, os olhos fixos na madeira escura do caixão, segurando um terço de prata entre os dedos trêmulos. Carlos permanecia ao seu lado, com a mão firme sobre o ombro da esposa, embora suas próprias lágrimas caíssem silenciosas, molhando o paletó preto.
Anya Drake usava um vestido escuro e simples. Ela se mantinha de pé, um pouco recuada, os braços cruzados sobre o peito como se tentasse se proteger do frio que vinha do chão de pedra. Ao lado dela, Derick mantinha a mesma postura rígida de sempre, mas o maxilar travado e os olhos vermelhos entregavam que sua armadura estava rachada. O silêncio compartilhado entre eles desde a noite no motel e o dia do desligamento agora servia como um pacto mudo de sobrevivência.
Palavras para o Vento
Por volta das dez da manhã, o mestre de cerimônias anunciou o início das homenagens. O silêncio que se instalou na capela foi quebrado apenas pelo som da chuva fina que batia contra os vitrais.
O primeiro a subir ao pequeno púlpito de madeira foi Guga, o baterista e melhor amigo de Jace. Ele vestia a camiseta oficial da banda, com os olhos vermelhos e a voz visivelmente embargada. Ele segurava uma palheta de guitarra amassada entre os dedos.
— O Jace... — Guga começou, limpando a garganta, a voz ecoando pelo microfone. — Ele era o cara que subia no palco e fazia todo mundo acreditar que a gente era a maior banda do mundo, mesmo quando só tinha cinco pessoas assistindo no bar do centro. Ele não tocava só com as mãos, ele tocava com a alma. Naquela sexta-feira, depois do show, ele me disse que a música dele era para fazer as pessoas esquecerem dos problemas por algumas horas. Cara, você conseguiu. O estúdio vai ser muito silencioso sem a sua guitarra desafinada, meu irmão. Vai em paz.
Um coro de soluços baixos ecoou pela capela. Guga caminhou até o caixão, colocou a palheta sobre a madeira e desceu, sendo amparado pelos outros músicos.
Em seguida, CarlosLaurentis levantou-se lentamente. O pai de Jace parecia ter envelhecido dez anos em três dias. Ele parou diante do microfone, olhou para a esposa e depois para o caixão do filho caçula.
— Como pai, a gente passa a vida inteira tentando proteger os filhos do mundo — disse Carlos, a voz grave e trêmula. — A gente ensina a andar, a andar de bicicleta, a ter responsabilidade... Mas ninguém nos ensina como sobreviver à ausência deles. O Jace era o nosso sol. Ele trazia uma bagunça gostosa para a nossa casa, uma alegria que desafiava qualquer dia ruim. Ele viveu pouco, dezenove anos, mas viveu intensamente, deixando um rastro de amor por onde passou. Meu filho, obrigado por ter sido a nossa luz. A casa nunca mais vai ter o mesmo som, mas o seu eco vai ficar guardado no nosso peito para sempre.
Paola desabou em um choro alto, sendo amparada por Rose Drake. Carlos voltou para o seu lugar, cobrindo o rosto com as mãos.
Anya sentiu o peito apertar tanto que mal conseguia respirar. Ela olhou para o lado e viu uma lágrima solitária descer pelo rosto de Derick. Sem pensar, ela estendeu a mão e tocou os dedos dele. Derick não recuou; ele virou a mão e entrelaçou seus dedos nos dela com força, um aperto desesperado de quem precisava de um ponto de apoio no meio do desmoronamento geral.
O Cortejo e a Terra
O anúncio do fechamento do caixão para o sepultamento trouxe o ápice do desespero. Paola Laurentis agarrou-se à madeira, gritando o nome do filho, precisando ser erguida por Carlos e Arthur Drake. Quando os funcionários do cemitério ergueram o caixão sobre os ombros para iniciar o cortejo, o silêncio da capela deu lugar ao som dos sapatos marchando lentamente sobre a brita molhada do caminho.
O cortejo seguiu sob as copas das acácias, que balançavam com o vento frio do outono. Uma fileira enorme de guarda-chuvas pretos formava uma linha sombria pelo gramado verde do cemitério. Anya caminhava ao lado de Derick, que segurava o guarda-chuva sobre os dois. O toque de suas mãos ainda ecoava na mente de Anya, mas ali, caminhando atrás do corpo do namorado, a culpa misturava-se à dor de forma dilacerante.
Eles pararam diante da sepultura aberta. A terra escura e úmida estava empilhada ao lado, um contraste brutal com a brancura das coroas de flores que foram posicionadas ao redor.
As cordas de nylon foram passadas sob o caixão. Lentamente, os funcionários começaram a descer o corpo de Jace para o fundo da terra.
“Pai Nosso, que estais no céu...” — a voz do padre começou, sendo acompanhada em coro pelas dezenas de pessoas presentes, mas para Anya, o som parecia distante, como se estivesse sob a água.
Ela olhava para o caixão descendo e lembrava do sorriso dele, do cheiro de hortelã da jaqueta de couro, da facilidade com que ele dizia "te amo". Tudo aquilo estava agora sendo sepultado em um buraco escuro e frio.
— Não... por favor, não — Anya sussurrou, as lágrimas cegando sua visão por completo.
Quando o caixão atingiu o fundo, o primeiro punhado de terra foi jogado por Carlos, seguido por Paola, que beijou uma rosa branca e a lançou na vala. Chegou a vez de Anya. Ela deu um passo à frente, as pernas vacilando. Suas mãos trêmulas pegaram um punhado da terra úmida e fria. Ela olhou para baixo, sentindo o mundo girar.
— Te amo para sempre, Jace — ela conseguiu falar, soltando a terra sobre a madeira, o som do impacto abafado ecoando em seu coração.
Ao recuar, suas forças sumiram de verdade. Seus joelhos cederam, mas antes que ela tocasse o gramado molhado, os braços fortes de Derick a seguraram por trás com uma urgência desesperada. Ele a puxou contra o peito, sustentando todo o peso do corpo dela. Anya escondeu o rosto na curva do pescoço de Derick, chorando copiosamente, enquanto os primeiros golpes de pá dos coveiros começavam a cobrir o caixão, jogando a terra pesada sobre o garoto de dezenove anos.
Derick a segurava com força, os olhos fixos na sepultura que estava sendo fechada. Ele não dizia nada, apenas respirava de forma pesada, sentindo as lágrimas de Anya molharem sua camisa preta. Ele sabia, com uma certeza dolorosa e sombria, que a partir daquele minuto, a vida de todos eles estava irremediavelmente mudada. Jace tinha ido embora, deixando para trás um vazio imenso e duas pessoas unidas pelo pior tipo de ligação: o amor por ele e o desejo proibido que nascera na tempestade.
Quando a última pá de terra foi assentada e as coroas de flores cobriram o túmulo, o cemitério começou a esvaziar lentamente. Anya e Derick continuaram ali, sob a chuva fina, olhando para as flores brancas que agora marcavam o lugar onde a música de Jace havia silenciado para sempre.
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