A batida do coração
29 O Último Acorde e a Eternidade do Sol
A sala de gravação do estúdio da Som Livre, em São Paulo, cheirava a madeira nova, café fresco e isolamento acústico. Nas duas semanas que antecederam o grande evento, Guga, Paulinho e Léo praticamente moraram naquele espaço. O processo técnico foi meticuloso: os engenheiros de som usaram softwares de última geração para isolar a voz guia de Jace das fitas cassete analógicas que ele havia gravado em um gravador portátil no galpão da faculdade. A voz dele ressurgiu limpa, crua, com aquela textura levemente rouca e cheia de vida que os meninos conheciam tão bem.
No estúdio, com os fones de ouvido isolando o mundo exterior, Guga sentava-se atrás da bateria. Ouvir o melhor amigo contar "um, dois, três, quatro" através do ponto eletrônico antes de soltar a voz fazia os braços do baterista arrepiarem. Mas ele não fraquejou. Guga gravou as batidas com uma precisão cirúrgica, canalizando toda a saudade e todo o amor por Anya em cada virada de caixa e prato. Eles estavam prontos.
O Palco Sob as Estrelas
O local escolhido para o primeiro show da turnê de lançamento não foi uma grande arena na capital, mas sim o coração da pequena cidade natal onde tudo começara. A gravadora aceitou o pedido da banda: montar um imenso palco de estrutura metálica bem no meio da praça central, cercado pelos velhos casarões e pelas árvores que testemunharam a juventude deles.
A noite estava límpida, salpicada de estrelas. A praça estava completamente lotada; moradores locais, amigos de faculdade, a família Drake inteira e, na área VIP lateral, Paola e Carlos Laurentis assistiam a tudo com os olhos já marejados. Anya estava bem na lateral do palco, atrás das cortinas de som, segurando sua pasta de desenhos, com o anel de noivado brilhando sob a luz dos refletores.
Afastado da multidão, encostado na parede de pedra do antigo banco da praça, estava Derick. Ele vestia roupas casuais escuras, tentando se misturar à penumbra. Ele olhou para o palco e depois desviou os olhos para a lateral, onde Anya sorria para Guga enquanto ele testava os microfones. Ao ver o semblante dela — a paz absoluta que emanava de seus gestos —, Derick engoliu em seco. A ficha finalmente caiu em seu peito, sem raiva, sem o veneno de antes. Ele compreendeu, olhando a calmaria dela, que tudo havia seguido o seu curso natural. A tempestade deles tinha acabado.
O Eco do Telão
Às nove da noite, todas as luzes da praça se apagaram abruptamente, deixando o público em um silêncio expectante. No fundo do palco, um imenso telão de LED de alta definição acendeu-se, banhando a multidão em uma luz azulada.
Os primeiros acordes instrumentais começaram a tocar baixinho nos alto-falantes, e o telão começou a exibir um documentário visual em looping. Apareceram vídeos caseiros de Jace aos dezesseis anos, rindo com o rosto sujo de graxa enquanto tentava consertar a van da banda; fotos dele e de Guga dividindo um único prato de salgadinhos nos bastidores de um festival de colégio; registros dele correndo pelo pátio da faculdade com a capa da guitarra nas costas.
Guga, Paulinho e Léo entraram no palco no escuro e caminharam até os seus postos. Mas eles não se viraram para o público. Os três músicos ficaram de costas para a plateia, com os rostos erguidos, olhando fixamente para o telão de LED, assistindo ao irmão de alma sorrir para eles através do tempo. A emoção no palco era cortante, uma eletricidade pesada que fez metade da praça começar a chorar em silêncio.
O último vídeo mostrou Jace piscando para a câmera, apontando o dedo indicador para a lente e dizendo: "Nós ainda vamos tocar no topo do mundo, rapaziada!".
A tela ficou preta por três segundos. O silêncio na praça era absoluto.
De repente, o som que abriu os alto-falantes fez o peito de Anya e de Derick travar ao mesmo tempo. Era o bipe contínuo, agudo e frio de um monitor cardíaco de UTI. O som ecoou pela praça como um soco. No telão, a linha verde e reta — a mesma que Anya pintara em sua décima tela — cruzou o visor de LED. O bipe acelerou, estancou e, no milésimo de segundo em que a linha se estabilizou no silêncio do óbito, a bateria de Guga entrou com uma explosão violenta de pratos e bumbo.
A Voz do Sangue
As luzes do palco se acenderam em um vermelho e dourado vibrantes. Guga puxou o microfone pedestal para perto da bateria e começou a cantar a música mais famosa de Jace, "Entre o Eco e o Afeto".
A voz de Guga saía direto do coração. Ele não tentava imitar o Jace; ele cantava com a crueza de quem havia sobrevivido para contar a história. A plateia veio abaixo, pulando e cantando cada verso em uníssono, as vozes de milhares de pessoas ecoando pelas ruas da cidade.
Na lateral do palco, Anya cantava junto, as lágrimas descendo livres por seu rosto, mas seu olhar estava fixo em Guga, o homem que transformara o ritmo do luto em um hino de recomeço. Do fundo da praça, Derick assistia ao irmão mais novo ser celebrado por uma multidão. Ele olhou para os próprios pais, que choravam abraçados na plateia, e sentiu uma lágrima solitária escorrer por seu rosto rígido. O Jace não pertencia mais à dor daquela UTI; ele agora pertencia à história.
O show seguiu em uma crescente emocionante por mais de uma hora, uma catarse de energia, rock e sentimento.
Segura Essa...
Quando a última nota da última música cessou, deixando o eco das guitarras vibrando no ar, Guga deu três batidas finais nos pratos. As luzes do palco se apagaram novamente, restando apenas o telão de LED aceso no centro.
A imagem que surgiu na tela fez a praça inteira prender a respiração. Era uma fotografia inédita de Jace, nítida, com sua jaqueta de couro e a guitarra no colo, olhando para a frente com aquele olhar maduro e cheio de sonhos. Abaixo da foto, letras douradas desenharam as datas:
JACE LAURENTIS
14/04/2004 — 28/11/2022
O silêncio que se instalou na praça era tão denso que se podia ouvir o vento balançar as folhas das árvores.
Foi então que o sistema de som da Som Livre disparou o último arquivo isolado das fitas originais. Não era uma música. Era um áudio de bastidor, gravado por Jace de brincadeira durante um intervalo de ensaio na faculdade, mas que parecia ter sido psicografado para aquela exata noite.
A voz de Jace ressoou pelos alto-falantes da praça, clara, ecoando pura e cheia daquela ironia carinhosa que ele possuía:
— Eu sei que serei lembrado... mesmo anos depois, eu serei amado e homenageado por quem eu mais amei... — houve uma pequena pausa no áudio, o som dele puxando o ar, e então ele soltou a sua risada clássica, aquela que preenchia qualquer espaço vazio: — Segura essa...
O áudio estalou e cortou.
No mesmo segundo, o telão de LED se apagou por completo. As luzes do palco não acenderam mais. O show havia acabado.
A praça explodiu em um clamor de aplausos, gritos e choros que parecia fazer o chão tremer. Guga largou as baquetas no chão do palco, levantou-se e caminhou direto para a lateral, pegando Anya nos braços em um abraço apertado, escondendo o rosto banhado em suor e lágrimas no pescoço dela.
Afastado de todos, na escuridão da parede de pedra, Derick Laurentis soltou o ar que guardava no peito. Ele deu as costas para o palco, ajeitou o casaco e começou a caminhar em direção ao seu carro estacionado na rua lateral. Ele não olhou para trás. Não precisava. Ele vira o irmão ser eterno, vira os pais encontrarem o consolo e vira Anya Drake seguir em frente nos braços do homem certo. A tempestade havia finalmente terminado para todos eles, e o sol de Jace, afinal, continuaria a brilhar no eco de quem ficou para amar.
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