A batida do coração
30 O Ponto de Fusão e a Linha de Chegada
A engrenagem do sucesso não parou após aquela noite histórica na praça central. Duas semanas depois, a banda embarcou para a perna nacional e internacional da turnê oficial de lançamento do álbum. Guga precisou partir. A rotina dele transformou-se em uma sucessão frenética de passagens de som, entrevistas para emissoras de rádio e noites sob as luzes da ribalta.
Anya, por sua vez, optou por ficar. Seu lugar agora era no ateliê da casa da piscina e na Galeria Moldura & Arte, onde ela gerenciava o acervo e começava a rascunhar os conceitos para suas novas telas — obras que, desta vez, traziam cores mais quentes e formas que celebravam a presença, e não a falta.
A distância, no entanto, não se transformou em ausência. O casal desenvolveu um ritual próprio. Todos os dias, às seis da tarde no horário local de onde Guga estivesse, o celular de Anya vibrava com uma chamada de vídeo. Pela tela do aparelho, ela acompanhava os bastidores: Guga mostrando o camarim cheio de frutas, Paulinho afinando o baixo no meio do barulho técnico, e os relatos emocionados de que cada show continuava idêntico ao primeiro. A abertura com a linha verde do monitor e o áudio final com a risada de Jace arrancavam as mesmas lágrimas e os mesmos aplausos de pé, fosse em um teatro em Buenos Aires ou em uma arena em Lisboa. Eles estavam curando o mundo com a sua saudade.
O Encontro no Chão Batido
Na tarde de uma terça-feira de outono, o sol começava a baixar, tingindo as calçadas de pedra da cidade com um tom dourado e nostálgico. Anya caminhava devagar pela calçada da avenida principal, logo após sair da galeria. Ela vestia um casaco de lã leve e trazia as mãos enfiadas nos bolsos, perdida em pensamentos sobre as texturas que usaria em sua próxima exposição.
Ao se aproximar da esquina da antiga livraria, uma silhueta alta cortou o seu campo de visão.
Derick Laurentis estava saindo de um prédio de escritórios. Ele não usava o paletó do terno, apenas a camisa social azul-clara com as mangas dobradas e a gravata ligeiramente afrouxada. O semblante dele, que durante anos carregara o peso de uma armadura invisível, parecia mais relaxado. O maxilar não estava travado.
Quando seus olhos escuros cruzaram com os de Anya, houve um segundo de hesitação mútua. Mas, ao contrário de todos os outros encontros, nenhum dos dois tencionou os ombros. O gelo havia derretido no café; o que restava ali era apenas o terreno limpo após a passagem da tempestade.
Derick deu dois passos na direção dela, com as mãos nos bolsos da calça. Um sorriso contido, mas sincero, surgiu em seus lábios.
— Oi, Anya — ele cumprimentou, a voz grave mantendo a firmeza de sempre, mas desprovida de qualquer traço de amargura.
— Oi, Derick — ela respondeu, parando na calçada. Ela sustentou o olhar dele, sentindo uma calmaria absoluta no peito. Ele era, finalmente, apenas o Derick. — Como você está?
Derick olhou para o letreiro do pequeno bistrô italiano logo do outro lado da rua e depois voltou a focar nela.
— Estou bem. Na verdade... eu estava indo pegar um café agora. Você tem alguns minutos? Prometo que não vou estragar o ambiente.
Anya olhou para o relógio de pulso e sorriu, balançando a cabeça positivamente.
— Eu tenho tempo, sim. Vamos lá.
O Café da Trégua
Eles sentaram-se em uma mesa perto da janela do bistrô. O lugar era silencioso, decorado com paredes de tijolos à vista e uma luz quente de velas aromáticas. O garçom serviu duas xícaras de café expresso e se retirou, deixando-os a sós com o som suave de um jazz que tocava ao fundo.
Derick mexeu o açúcar em sua xícara, observando o movimento da colher antes de quebrar o silêncio.
— Eu estive na praça no dia do show, Anya — ele confessou, os olhos escuros fixando-se nos dela com uma honestidade madura. — Fiquei no fundo, perto do banco. Eu precisava ver.
Anya assentiu lentamente, segurando a xícara quente entre as mãos.
— Eu sei. Eu vi você de longe quando o show acabou.
— Aquilo que vocês fizeram... a forma como o Guga cantou e aquele áudio do Jace no final — Derick soltou um suspiro longo, os ombros descendo. — Foi a primeira vez em cinco anos que eu consegui lembrar do meu irmão sem sentir que o meu peito ia rasgar. Eu passei a vida inteira achando que proteger a memória dele significava carregar o luto como uma obrigação diária. Mas vendo aquela praça inteira cantar... eu entendi que o Jace não pertence àquela UTI. Ele pertence à vida que ele teve. E o Guga... o Guga foi gigante ali em cima.
— O Guga ama o Jace tanto quanto a gente, Derick — Anya disse, a voz terna. — Ele só precisava de uma chance para mostrar isso para o mundo.
Derick deu um gole no café, recostando-se na cadeira. O olhar dele mudou, tornando-se mais brilhante, carregado de uma novidade que ele parecia ansioso para compartilhar.
— Eu também segui o meu caminho, Anya. No último final de semana, eu levei a Letícia para jantar naquele restaurante perto da serra... e pedi ela em casamento.
Anya abriu um sorriso imenso, os olhos brilhando de uma alegria genuína pelo homem à sua frente.
— Derick! Que notícia maravilhosa! Ela disse sim, claro?
— Disse — ele riu baixo, uma risada leve que Anya nunca tinha ouvido antes. — Ela chorou metade do jantar, mas disse sim. Pela primeira vez na vida, eu sinto que estou construindo algo que é meu. Um futuro que não está amarrado a nenhuma tragédia ou dever familiar. Eu estou feliz, Anya. De verdade.
— Você não sabe o quanto me alivia ouvir isso — ela confessou, sentindo a última fagulha de qualquer culpa antiga sumir de sua alma. — Você merece essa leveza, Derick. Sempre mereceu.
Derick estendeu a mão sobre a mesa, tocando os dedos de Anya por um segundo, chamando a atenção para o anel de ouro com o brilhante solitário em seu dedo anelar.
— E eu vejo que o baterista também não perdeu tempo — ele brincou, o tom descontraído mostrando que o orgulho ferido fora totalmente superado. — O Guga é um cara de sorte. Mas, acima de tudo, ele é um cara bom. Eu passei muito tempo sendo o vilão da história porque estava assustado com o que sentia, mas hoje... hoje eu torço por vocês. Torço muito. Vocês merecem o para sempre que estão construindo.
— Obrigada, Derick. Significa muito vindo de você — Anya respondeu, as lágrimas subindo aos olhos, mas desta vez, eram lágrimas de encerramento, de um ciclo que se fechava perfeitamente.
O Abraço do Recomeço
Eles pagaram o café e saíram juntos de volta para a calçada. O sol já havia sumido no horizonte, dando lugar a um crepúsculo azulado e frio. A iluminação pública da avenida se acendeu, banhando o asfalto em feixes amarelados.
Eles pararam um de frente para o outro perto da esquina.
— Bom... eu preciso voltar para o escritório e fechar alguns contratos antes de ir para a casa da Letícia — Derick disse, ajustando as mangas da camisa.
— E eu preciso ir para o ateliê. O Guga liga em meia hora — Anya sorriu.
Derick deu um passo à frente e abriu os braços. Anya não hesitou. Ela se aconchegou no peito dele, envolvendo seu pescoço em um abraço forte, apertado e demorado. Não havia a urgência do motel, não havia a raiva dos bastidores e não havia o medo da culpa. Era o abraço de duas pessoas que haviam sobrevivido à mesma queda de avião, que haviam sangrado juntas no chão do hospital e que, agora, batiam a poeira dos joelhos e seguiam caminhos diferentes, desejando o bem um ao outro.
— Fica bem, Anya — Derick sussurrou perto do ouvido dela, apertando-a mais uma vez antes de se afastar.
— Fica bem, Derick. Dá um abraço na Letícia por mim — ela respondeu, limpando uma lágrima rápida na bochecha.
Derick acenou com a mão, virou as costas e caminhou a passos firmes em direção ao seu prédio, a silhueta dele sumindo gradativamente entre as luzes da cidade.
Anya ficou parada por alguns segundos, observando o movimento dos carros. Ela soltou o ar, sentindo o peito leve, o coração batendo em seu ritmo calmo e perfeito. O celular em seu bolso vibrou, anunciando o início da chamada de vídeo internacional. Ao deslizar a tela e ver o rosto sorridente de Guga na tela, com o fundo do camarim de Madrid, Anya Drake finalmente caminhou em direção ao futuro, ciente de que o passado havia cumprido o seu papel e que agora... os dois lados da história haviam finalmente seguido em frente.
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