A batida do coração

19 A Moldura do Outro lado



​O relógio na parede do ateliê marcava pouco mais de meia-noite quando Anya pousou os pincéis. O cheiro de tinta a óleo e terebintina preenchia o espaço, mas aquela noite trazia uma quietude incômoda. Exausta, ela se sentou na poltrona de lona, limpando os dedos manchados de azul-cobalto em um pano velho, e pegou o celular para checar as horas.

​Foi um erro inconsciente abrir o aplicativo de fotos. O algoritmo, indiferente às barreiras que os humanos constroem, colocou a publicação no topo do seu feed.

​A foto fora tirada em um restaurante com luzes quentes e intimistas. Derick usava uma camisa escura, com o rosto mais relaxado do que Anya jamais vira nos últimos anos. Ao lado dele, com a cabeça levemente inclinada em sua direção, estava uma mulher de cabelos castanhos claros, sorriso aberto e um olhar que transbordava cumplicidade. A legenda, curta e definitiva, parecia um soco direto no estômago de Anya:

​"Dando uma chance pro amor."

​O coração de Anya deu um solavanco violento contra as costelas. O ar faltou em seus pulmões, uma sensação física e sufocante que a fez se inclinar para a frente, apoiando os cotovelos nos joelhos. Ele estava seguindo em frente. O homem que há uma semana dissera que a esperava todos os dias, que a tratara com um gelo protetor na cozinha, havia decidido fechar o livro. A dor que a atingiu não era de culpa, era de perda — a constatação tardia de que o tempo dela havia, finalmente, esgotado o tempo dele.

​A Noite do Bronze e do Gelo

​Três dias se passaram. A Galeria Moldura & Arte estava ricamente decorada para a abertura da exposição "Formas do Tempo", uma coleção de esculturas em bronze e mármore do artista plástico local Lorenzo Fontes. O espaço estava lotado; o tilintar de taças de cristal misturava-se ao som suave de um quarteto de cordas no mezanino. Helena circulava grávida de elegância com o pequeno Theo nos braços de uma babá ao fundo, enquanto Marcos gerenciava os colecionadores.

​Anya, vestindo um macacão preto de alfaiataria que realçava sua postura madura, estava posicionada perto da peça central: uma escultura em bronze chamada O Peso da Ausência, que exibia duas figuras humanas estilizadas tentando se tocar através de uma fenda na rocha. Seu papel ali era técnico: explicar o processo de fundição e a conservação da pátina aos convidados.

​— A escolha do bronze permite que a oxidação natural mude a cor da peça com os anos — Anya explicava a um casal de idosos, mantendo o tom profissional. — O artista quis que o tempo fizesse parte da obra...

​O som do sininho de latão da entrada principal badalou, mas o barulho da galeria quase o abafou. Ainda assim, por algum instinto magnético, Anya desviou o olhar em direção à porta de vidro.

​O ar faltou novamente.

​Derick cruzou o portal. Ele vestia um terno alinhado de corte moderno e, preso aos seus dedos longos, estavam os dedos da mulher da fotografia do Instagram. Ela usava um vestido verde-esmeralda fluído, os cabelos soltos, e sorria para ele enquanto dizia algo baixinho. Derick inclinou a cabeça para ouvi-la e soltou uma risada baixa, os olhos escuros brilhando de uma forma que Anya nunca tinha visto — nem mesmo nos tempos do hospital. Ele parecia leve. Diferente. O terno não parecia mais uma armadura de guerra, era apenas uma roupa. Ele estava feliz.

​Anya congelou ao lado da escultura de bronze. Suas mãos começaram a suar frio dentro das mangas do macacão. Ela tentou focar no casal à sua frente, mas suas palavras sumiram.

​— Com licença... — ela balbuciou para os idosos, afastando-se sutilmente, tentando se fundir à sombra de uma das colunas da galeria.

​Mas o espaço era pequeno demais para esconder duas histórias tão grandes. Derick começou a caminhar pelo salão, apontando as peças para a mulher ao seu lado. Quando eles se aproximaram da ala de bronze, os olhos dele cruzaram o salão e focaram diretamente em Anya. A reação dele foi imediata: o sorriso diminuiu de intensidade e a postura ereta retornou por um segundo, mas ele não recuou. Ele continuou caminhando na direção dela, trazendo a mulher pela mão.

​— Anya — a voz de Derick ressoou, firme e educada, o tom de quem cumpre uma formalidade social sem deixar brechas para o passado. — Boa noite. Esta é a Letícia. Letícia, esta é a Anya, uma velha amiga da família e a curadora assistente da galeria.

​Letícia deu um passo à frente, estendendo uma mão calorosa e bem cuidada, com um sorriso genuíno que tornou impossível para Anya sentir qualquer tipo de raiva dela.

​— Prazer, Anya! O Derick me falou que você voltou recentemente da Inglaterra — Letícia disse, a voz simpática e musical. — Esta exposição está fantástica. Ele me trouxe porque sabe que eu sou apaixonada por esculturas contemporâneas.

​Anya engoliu em seco, forçando os músculos do rosto a formarem o sorriso mais profissional que possuía no repertório. Ela apertou a mão de Letícia, sentindo o olhar de Derick queimar sua pele.

​— O prazer é meu, Letícia. Bem-vinda à galeria — Anya respondeu, a voz saindo surpreendentemente estável, embora por dentro tudo estivesse em frangalhos. — Fico feliz que tenham vindo. Se precisarem de alguma explicação sobre o acervo...

​— Na verdade, eu gostaria muito de saber sobre esta peça aqui — Letícia interrompeu com entusiasmo, virando-se para a escultura de bronze atrás de Anya. — O contraste entre a textura rústica da rocha e o polimento das figuras é impressionante. Qual foi a técnica empregada na pátina?

​Anya deu meio passo para o lado, ficando posicionada entre o casal. Ela olhava para a escultura, mas cada palavra que saía de sua boca parecia uma metáfora da sua própria vida diante de Derick.

​— O artista usou uma pátina química a quente, aplicando nitrato de cobre com o maçarico — Anya explicou, mantendo os olhos fixos no bronze para não fraquejar. — Isso cria esse tom esverdeado nas fendas, simulando o desgaste dos anos. A intenção é mostrar que, mesmo que o tempo tente corroer a estrutura, o núcleo da peça permanece intacto. Mas a separação entre as figuras... é definitiva. A rocha nunca vai se fechar.

​Derick continuava em silêncio, com o corpo ligeiramente inclinado para a frente, absorvendo cada palavra de Anya. Havia uma tensão invisível vibrando entre os dois, um diálogo mudo que Letícia, imersa na beleza da arte, não conseguia decifrar.

​— É uma mensagem triste, mas muito realista — Letícia comentou, pensativa, antes de olhar para o celular na bolsa. — Amor, com licença só um minuto. Preciso ligar para a minha irmã para saber se ela conseguiu pegar os ingressos do teatro para o próximo final de semana. Já volto.

​— Claro, vá lá — Derick assentiu, dando um beijo terno na têmpora de Letícia antes que ela se afastasse em direção à área externa da galeria.

​O Confronto do Presente

​Assim que Letícia se distanciou o suficiente para sumir na multidão, a atmosfera entre Anya e Derick mudou instantaneamente. O barulho da galeria pareceu silenciar, deixando apenas o som da respiração contida de ambos ao lado do bronze frio.

​Derick deu um passo mais perto, cruzando os braços. A frieza da cozinha da mãe dele não estava mais ali, mas o distanciamento era absoluto.

​— Ela é adorável, Derick — Anya disse primeiro, a voz caindo para um sussurro sincero, os olhos marejando apesar do esforço. — Você parece... diferente. Feliz.

​Derick olhou para a direção onde Letícia tinha ido e depois voltou os olhos escuros para Anya. Havia uma crueza madura em seu tom.

​— Eu decidi seguir o seu conselho, Anya. Decidi deixar o tempo acabar.

​Aquelas palavras atingiram o peito dela com a força de um impacto físico. Ela deu um meio passo atrás, as costas quase tocando a base da escultura.

​— Você foi rápido — ela soltou, uma nota involuntária de mágoa escapando pelos lábios. — Três dias atrás você disse que me esperava todos os dias...

​— E eu esperei por cinco anos, Anya! — Derick rebateu, a voz mantida em um tom baixo, mas carregada de uma intensidade dramática que fez o maxilar dele travar. — Cinco anos é muito tempo para se viver no escuro de um hospital esperando por alguém que escolheu cruzar o oceano para não ter que lidar comigo. Naquela noite na boate, você me deu um diagnóstico definitivo. Você me disse que nós éramos filhos da tempestade e que tentar algo seria um erro. Eu entendi o recado. Eu entendi que, para você, eu sempre vou ser o irmão do Jace. O lembrete do luto.

​— Não é assim, Derick... — as lágrimas finalmente transbordaram, descendo quentes pelo rosto de Anya, que se virou sutilmente para que os convidados não notassem. — Eu fiz aquilo porque eu estava assustada. Porque quando eu voltei e te vi naquela cozinha... eu senti algo tão forte que me apavorou. Eu não queria te usar para tapar o buraco do Jace.

​— Mas a Letícia não tem buracos para tapar, Anya — Derick disse, as palavras saindo limpas e cortantes como vidro. Ele olhou para a escultura de bronze entre eles. — O amor dela é leve. Ela não me olha e lembra de aparelhos sendo desligados. Ela não carrega a culpa de um motel na estrada. Com ela, eu posso ser apenas o Derick. Eu passei a vida inteira carregando o peso de todo mundo, e ela é a primeira pessoa que me estende a mão sem me pedir para ser uma rocha. Eu mereço isso.

​Anya fechou os olhos por um segundo, sentindo o peito rasgar. Ele tinha razão. Cada palavra dele era uma verdade incontestável. Ela o havia empurrado para longe para se salvar, e agora precisava aguentar o peso de vê-lo salvo nos braços de outra pessoa.

​— Você merece, Derick — ela sussurrou, abrindo os olhos e olhando-o com uma honestidade dolorosa. — Você merece toda a felicidade do mundo. De verdade. Desculpa se eu demorei demais para entender o que eu sentia.

​Derick engoliu em seco, os nós dos dedos apertando o tecido do paletó. Por um breve segundo, a armadura dele fraquejou e Anya viu o rastro daquele homem que chorara em seu pescoço no hospital. Mas a rachadura fechou-se rapidamente.

​— O tempo não volta, Anya — ele disse, a voz baixa e definitiva. — Cuida da sua arte. Eu vou cuidar da minha vida.

​Letícia retornou naquele instante, com o sorriso brilhante de volta ao rosto, alheia ao rastro de destruição emocional que havia se instalado ali. Ela enlaçou o braço no de Derick de forma natural.

​— Pronto! Ingressos garantidos — Letícia comemorou, olhando para o namorado. — Vamos dar mais uma volta, amor? Quero ver os quadros do mezanino.

​— Claro — Derick sorriu para ela, um sorriso que já não pertencia a Anya. Ele olhou para a curadora assistente uma última vez. — Com licença, Anya. Boa noite de exposição.

​— Boa noite... — Anya conseguiu falar, a voz sumindo na garganta.

​Ela ficou parada ali, estática como as peças de bronze ao seu redor, observando os dois se afastarem em direção à escadaria do mezanino. O ar continuava escasso em seus pulmões, mas a clareza finalmente se instalara: Derick Laurentis havia saído da tempestade. E ela, pela primeira vez, teria que aprender a andar na chuva completamente sozinha.