A batida do coração
20 O Vermelho-Cádmio e o Peso do Óleo
Os dias que se seguiram à exposição de bronze transformaram-se em um borrão de telas, solventes e silêncio. Anya Drake reduziu sua existência ao espaço geométrico de suas obrigações. De dia, na Galeria Moldura & Arte, ela limpava molduras e catalogava acervos com uma precisão cirúrgica, quase robótica. De noite, ela se trancava na casa da piscina transformada em ateliê, onde o cheiro de óleo de linhaça e terebintina se tornara seu único oxigênio.
Ela não olhava mais o celular. Não abria redes sociais. Mas a imagem de Derick Laurentis segurando a mão de Letícia, com aquele sorriso leve e desarmado que nunca pertencera a ela, continuava gravada no fundo de suas pálpebras.
Naquela noite de terça-feira, o vento soprava forte do lado de fora, fazendo as folhas das árvores do jardim baterem contra o vidro do ateliê. Anya estava parada diante de uma nova tela em branco, imensa. Seus cabelos escuros estavam presos num coque desalinhado, e seu avental de brim trazia marcas de tinta de tantas outras tentativas fracassadas.
— Chega de fugir — ela sussurrou para o vazio do cômodo.
Ela pegou o carvão vegetal e, dessa vez, não buscou a abstração. Seus traços foram violentos, escuros, precisos. Ela começou a desenhar a anatomia da sua própria ruína.
A Visita na Penumbra
Por volta das dez da noite, a porta de vidro do ateliê recebeu três batidas leves. Anya sobressaltou-se, limpando o suor da testa com as costas da mão suja de grafite. Era Rose, sua mãe, que trazia uma bandeja com uma caneca de chá de camomila e alguns biscoitos.
Rose entrou devagar, os olhos maduros avaliando o caos de tubos amassados no chão e, finalmente, pousando na tela em que a filha trabalhava. A mãe prendeu a respiração por um segundo.
— Eu vi a luz acesa e achei que você precisava de algo quente, minha filha — Rose disse, colocando a bandeja sobre uma bancada de metal cheia de pincéis.
— Obrigada, mãe — Anya respondeu, sem conseguir desviar os olhos da pintura. Ela segurava a paleta de madeira com tanta força que os nós de seus dedos estavam brancos.
Rose aproximou-se, parando ao lado de Anya. O quadro estava na metade, mas a mensagem já era dilacerante. A pintura exibia duas figuras masculinas que pareciam se fundir e se repelir ao mesmo tempo. À esquerda, imerso em tons de azul-cobalto e cinza-fumaça, havia o contorno de um rapaz jovem, cujas linhas pareciam se desmanchar no ar, como o eco de uma melodia que estava sumindo — a representação crua da perda de Jace. À direita, pintado com pinceladas grossas, pesadas e texturizadas em preto-de-marfim e marrom-van-dyck, erguia-se uma figura imponente, uma rocha. Mas o que cortava o peito de quem olhava era o centro da tela: uma fenda aberta, pintada em um vermelho-cádmio puro e violento, uma ferida aberta que separava as duas figuras e sangrava em direção ao canto onde uma silhueta feminina assistia a tudo, impotente.
— É o Derick, não é? — Rose perguntou suavemente, tocando o ombro da filha. — E o Jace.
Anya engoliu em seco, sentindo uma lágrima quente descer e limpar um rastro de poeira de carvão em sua bochecha.
— Eu achei que a pior dor do mundo era o silêncio daquela UTI, mãe — Anya confessou, a voz saindo rouca, embargada. — Achei que enterrar o Jace tinha sido o meu limite. Mas... ver o Derick seguindo em frente, ver que ele está feliz com outra pessoa, dói de um jeito diferente. Dói porque eu sei que a culpa foi minha. Eu empurrei ele para longe por medo. E agora que eu finalmente sei o que sinto, o tempo dele acabou.
Rose suspirou, puxando a filha para um abraço de lado, deixando que a cabeça de Anya pousasse em seu ombro.
— O luto faz coisas estranhas com a gente, Anya. Você precisava daquele tempo na Inglaterra para não confundir o amor com o desespero. O Derick... ele teve que sobreviver da forma que conseguiu.
— Eu sei — Anya sussurrou, os olhos fixos no vermelho-cádmio da tela. — Ele merece ser feliz. Ele foi a rocha de todo mundo por tempo demais. Mas olhar para aquela felicidade e saber que não sou eu quem está causando... é como se eu estivesse perdendo os dois irmãos de uma vez só. O Jace para a morte, e o Derick para a vida.
O Confronto com a Matéria
Após a mãe sair, Anya voltou a ficar sozinha com a sua criação. A caneca de chá esfriou na bancada, esquecida.
Anya pegou uma espátula de metal flexível. Ela não queria mais a suavidade dos pincéis; precisava da agressividade da matéria grossa. Ela misturou o vermelho com um toque de azul-ultramar na paleta, criando o tom exato de sangue pisado, de carne viva.
Com movimentos rápidos, quase rítmicos, ela começou a raspar a tinta diretamente contra o tecido da tela. O som da espátula cortando o gesso acrílico ecoava pelo ateliê vazio. Cada golpe era um diálogo mudo com o seu próprio arrependimento.
— Por que eu demorei tanto? — ela perguntou para a tela, aplicando uma camada espessa de tinta preta sobre os ombros da figura de Derick, isolando-o ainda mais na sua nova realidade de terno alinhado e sorrisos que não eram para ela.
Ela pintou até que os seus braços doessem. A pintura tornou-se um inventário detalhado de suas duas dores: a dor da saudade que já tinha cinco anos e a dor da rejeição que tinha apenas alguns dias. Na tela, o fantasma de Jace parecia flutuar como uma lembrança lírica e eterna, enquanto a figura de Derick se afastava, sólida, real e inalcançável, deixando a silhueta da própria Anya presa na fenda do meio.
Quando o relógio marcou quatro da manhã, Anya deu dois passos para trás, deixando a espátula cair no chão de cimento com um estalido metálico. Suas mãos estavam sujas, sua camiseta manchada, e seu peito arfava como se tivesse corrido uma maratona.
A obra estava pronta. Chamava-se "A Anatomia do Tempo Que Sobrou".
Ela olhou para o quadro e, pela primeira vez em dias, sentiu o ar entrar completo em seus pulmões. A dor não tinha sumido, e Derick não voltaria por causa daquela tela. Mas agora, a sua agonia estava presa ali, naquela moldura de madeira e óleo. Anya Drake tinha transformado o seu pior inverno em arte, aceitando que a sua punição e a sua cura seriam assistir, da borda da tela, ao homem que ela amava viver a sua própria primavera.
Fale com o autor