A "badalada" vida de Charly.
2 Rumo a "breguice".
Notas iniciais
Chris logo me encontrou na saída do elevador, e não se conteve, cochichando ao meu ouvido:
_ Já adquiriu para si o coração do Don Corleone? (disse fazendo sotaque). — Ou ainda o músculo está em processo de tradição para a sua posse? Se babar mais um pouco, você irá conseguir preencher a falta de água na Terra.
_ Bom, primeiramente você não consegue nem ao menos citar O Poderoso chefão, e "segundamente", ele é quem eu quero ser daqui a quatro anos, portanto preciso ter o máximo de proximidade com o rei da cocada preta! — eu o respondi, não ligando para a sua insinuação.
_ Ha ha ha, é porque você não o conhece, esse rei aí ta mais pra um monarca tirano de meia tigela, ele é tipo um homem bomba sempre esperando o máximo de pessoas para atingir, e você, minha cara, é um alvo perfeito para ele levar para a cova. Você só não percebeu porque ele não é um terrorista de etnia árabe, ele é loiro, nem eu saberia. Você deveria se espelhar na Jéssica, que é bem mais sucedida que ele.
_ Fazer o que? São ossos do ofício! Então, arranhei uma frase com sotaque: "Mantenha seus amigos por perto, e seus inimigos mais ainda", e isso, pessoa, foi uma citação do próprio Clássico, porém, te digo uma coisa, essa comparação do terrorista foi muito racista, senhor estagiário de DIREITO.
Ele me olhou de cima a baixo, mas logo, como sempre, já maquinou sua resposta: Me desculpe, Miss Simpatia *barra* sou toda certinha só que não, mas eu curso letras, e não Mentira, ops, DIREITO.
Fiquei brava? Claro! Respondi a altura para ele? Não! Eu quase engasguei de rir, já que tinha percebido que aquela linguinha a cada dia ficava mais afiada.
Cheguei na minha sala que continha uma infinidade de cubículos, porém nenhuma viva alma e fui perguntando ao Chris:
_ A Verônica atrasada? Nem choveu canivete hoje ainda!
_ A Vê tá cag....., digo, foi ao toilette" falou ele tirando uma com a cara dela.
_Hello, boys! Começou logo de manhã com as piadas sem graças, suco de fruta? — Disse Verônica, aquela que era tão piadista quanto ele, mas confesso que ela tinha em sua essência uma pitada a mais de maldade, que o bordão do personagem que ela citou já a denunciava.
Aquela era a sala dos estagiários, um lugar em que perdíamos dez horas do nosso tempo, incluindo as duas horas de almoço. Agora fazíamos parte da ralé do mundo do Direito, como se fôssemos internos, mas na área do Direito. Eles focados no objetivo de ganhar um bom salário, bem maior do que o da área deles, no entanto a minha busca ia além, pois eu ambicionava chegar ao topo da tão almejada carreira jurídica.
A manhã passou logo, e as onze, fomos chamados para a repartição de serviços. Meu chefe era um advogado recém-formado por nome de Henrique, com uma inteligência fora do comum, em que a sua memória fotográfica tinha se tornado um mero detalhe.
Ele já me conhecia da entrevista e disse o que eu tinha que fazer, que basicamente era fazer cafezinho, servir e tirar cópias. Nem me dei ao trabalho de aparentar eficiente, já que a candidata à vaga no dia da entrevista disse a ele que queria ter participação nos casos, e ele disse na cara dela que servir cafezinho seria o trabalho que ele oferecia, pois era o que ele não tinha condições de fazer.
Após o almoço, fui tirar as cópias do Henrique, era uma pilha enorme que eu até tentei ler, mas parecia latim (e algumas vezes até era). Apoio-me a maquina, quando a ruiva, chique de doer entra e pede:
_Termina isso logo senhorita Charles e vá comprar os itens dessa lista -Disse ela quase que gritando comigo.
Confesso que fiquei atônita, e mais confusa que o meme do John Travolta, e por incrível que pareça derrubei a pilha de papel impresso, amassando as folhas. Abri um mini-sorriso-forçado fantasiado de disfarce, porém a cara dela de questionamento da causa, razão ou circunstancia de eu trabalhar no mesmo local que ela era visível a quilômetros de distância.
Peguei o mais rápido possível as folhas e a lista, mas confesso que a única coisa que vinha a minha cabeça era a dúvida de como ela poderia saber o meu nome, se era o meu primeiro dia.
Deixo os papéis na mesa do Henrique e me dirijo ao meu destino. No caminho para o elevador encontro o Chris, com várias pastas na mão, e sem pestanejar já vou dizendo:
_ De estagiário a camelô de pastas, quem diria, que progresso, Senhor Christian.
_ Em primeiro lugar, depois eu que tenho preconceito, e depois, não sou idoso, então não me chame de Senhor! Só quem pode me chamar assim são os monarcas do doce do fruto do cocos nucifera! E quem me dera ser um camelô, pois tenho certeza deve ter muito mais vida do que quem trabalha nesse lugar de gente louca, fantasiado de empresa.
_ Bitch, pare que tá feio! Em que série do fundamental você tá mesmo? Que horror, você ainda cita nomes científicos! — Eu disse, fazendo pouco caso.
_ É, a gente faz o que pode... E você tá indo aonde? Pouco mais do meio do dia e já foi despedida? Acho que ganhei a aposta com a Verônica, já que eu me aproximei mais! — Ele logo abre aquele sorriso maquiavélico e continua: Eu disse um dia e ela um e meio.
Fitei-o com cara de má, e em seguida respondi:
_ Ainda bem que a fé em mim é grande, em? Na verdade uma pessoa que eu não conheço, mas que sabe até o meu nome me deu uma lista de compras de roupas! Vou ao Shopping, uruuu!, eu disse, demonstrando fingimento de euforia. — E nem posso comprar nada, óh que beleza!
_ Aposto que é a Eva! Boa diversão para você, mas vê se não compra outra coisa do que ela pede, senão você vai ver o que é bom pra tosse!.
Nos separamos, e eu sigo rumo ao ateliê de um tal Jacques Le Clair, famoso por sua alta costura. Entro, e ele olha para os meus pés, porém nem faz o percurso todo de olhar de cima a baixo, e já vai dizendo:
_ A semana da caridade é só semana que vem, e pode ficar tranquila que as roupas irão direto para o seu aposento. — Disse ele com um sotaque chegado a francês e "esnobês".
Na hora não acreditei no que ele disse, porém me supero do baque, e retruco:
_Não é aqui que trabalha o PROFISSIONAL, repito: PRO-FIS-SI-O-NAL, que tem por cliente Isaque Specter? — No começo ele fez cara de ruindade misturada com esnobação, mas tenho certeza que ao perceber que dos meus lábios tinham saído as palavras Isaque Specter, ele troca de feição, e caminha em minha direção com sua roupa um tanto quanto excêntrica (terno bordô com camisa cinza e gravata azul ). Pensei na hora perguntar se ele era o Zé Bonitinho e tentar descobrir onde estava o professor Raimundo, mas não cedi a Zoação.
Ele, no entanto me disse que tinha a gravata cinza azulada e a camisa em cinza claríssimo (“ainda bem!”, pensei, já que existem cinquenta tons de cinza). Porém só restavam dois ternos da marca requerida: um cinza escuro e um marrom, mas o primeiro, que era o pedido na lista, se acrescido ao preço da gravata e da camisa ultrapassaria o limite de compra da firma. Por indução então, escolhi o marrom e voltei para a empresa.
Fui até a mesa da ruiva, porém ela não se encontrava, então deixei os pertences do patrão em cima da mesa dele, em uma sala rodeada de relíquias como camisetas dos Ronaldos e a própria Jabulani. Assim, volto para fazer o café do meu chefe mediato.
Foram exatos vinte minutos de paz. Vinte minutos e meu telefone toca urgente, e a Eva diz para eu subir agora, onde do contrário ela me mataria, mas com uma linguagem formal bem menos enérgica. Subo as pressas e nem saio do elevador:
_ Você pensa que é quem? — Ralha ela.
_ A senhora sabe o meu nome, eu sou a Char... .
_ Eu sei o seu nome, eu sei quem é quem em cada andar dessa firma, eu sou a Eva! — e ainda continuou — Eu pedi um terno cinza escuro, você é daltônica?
_ Não, é q... — tentei explicar...
_ Não tem nada o que explicar — disse ela me interrompendo — o Isaque vai matar você, e eu vou ajudar a enterrar o seu corpo! Ele parece homem que usa terno cor de burro quando foge? Ele tem uma reunião com uma grande empresa de automotores e teve que ir com um terno horrível que não combina com nenhuma gravata, muito menos cinza!.
Eu encarei o chão, e percebi meus Scarpins marrons, e entendi a mini vingança daquela mente maquiavélica com um estilo mais brega do que o gênero musical da Calypso, e já que estava tudo ferrado mesmo pensei na hora que ia pedir a Verônica e ao Chris que não colocassem mármore cinza na minha lápide, mas meu bom senso falou alto, então expliquei a situação:
_ Ele disse que a empresa não poderia pagar por tanto!
_ E quem disse que o Senhor Specter precisa que a empresa pague por algo? Era para por na conta dele que depois, como sempre, ele ia acertar!.
Eu fiquei sem graça e ela nem mandou eu voltar pro trigésimo segundo andar nem nada, só me deixou lá, falando sozinha. Desci, e lá estava Chris e Verônica, que com certeza já sabiam o que havia acontecido porque já faziam aquela cara de pena de mim:
_ Nossa, aqui as notícias correm mais rápido que os próprios Quenianos! — Eu puxei assunto.
_ Aqui, Mona, a informação é tipo miojo — Respondeu a Verônica.
_Como assim Vê? Não entendi a referência! É amarelo, é comestível?- Chris tentava entender...
Eu e Verônica nos olhamos demonstrando estranheza para essa resposta totalmente fora do padrão, mas ela é quem responde:
_ Carinha que mora logo ali, eu me referi a ele ser instantâneo! Esqueceu de tomar o remedinho hoje? — Zoou ela.
_ Não fica assim Char, pelo menos você só fez as compras pessoais pra Eva, deve ser para algum dos namorados dela! — disse o Chris tentando me confortar.
_Na verdade eram pro Isaque... — Respondi devastada.
Ambos fizeram cara de tristeza, mas Verônica que não perde uma, já pergunta:
_ Se você for embora eu posso ficar com o seu grampeador de ferro e com o furador de folha? — Eu e Chris a fitamos com cara de negação — Que é? Os meus são de plástico, e tão pequenos, vivem quebrando!
_ Verônica, ela nem foi despedida ainda... — disse o Chris e continuou — Não fica assim, Char... Se você for embora eu racho o dinheiro da aposta com você, meio a meio — E ainda por cima, assentiu com a cabeça, mexendo-a de cima para baixo, como se fosse o Chaves.
_ Nossa Chris, sua bondade me toca... — Eu disse, deixando os dois para lá.
Sentei na cadeira do meu cubículo, como boa parte do dia eu tinha feito e percebi que até o bendito cubículo era cinza, na verdade a maior parte das coisas da empresa eram desta cor, porém não tinha reparado antes. Abaixo a minha cabeça, e começo a fazer uma lista de possíveis trabalhos que posso ir atrás, e começo a projetar um currículo mentalmente, algo como: "Moço, me dê um emprego? Por favor!".
De repente, o telefone, que já tinha se tornado meu inimigo, toca novamente:
_ Charly, sobe na sala do Isaque agora! — Diz o Henrique, com certa urgência na voz.
_ Para quê? Você está me dando auxilio ao suicídio, ou é coautor juntamente com ele de homicídio? Em ambos os casos, a sanção é grave!
_Quem vai sofrer a sanção é você, senão subir! — responde ele, e em seguida desliga na minha cara.
Me levanto e sigo ao elevador, e a cada andar, digito o número da emergência (vai que querem me matar mesmo), e no próximo andar, o apago.
Eva, como sempre me espera, e nem me deixa respirar, indo direto ao ponto:
_ Você nasceu virada para a lua, só pode! — Ela diz, com certo entusiasmo, e ainda continua: parece que por causa daquela breguice, o Isaque fechou o negócio. O dono da empresa partilha do mesmo mau gosto que você, e estava vestido da mesma maneira que ele! A opinião dele é que o suposto gosto do Senhor Specter é simples e, portanto, honesto. Bom, cada um define breguice como quer, já que esse é um país que prevalece a liberdade de pensamento.
_Sério? Eu não acredito! Pensei que vocês iam me despedir! — Eu respondo sem conseguir disfarçar minha alegria.
_Maaas, Isaque disse que a próxima vez que você ousar usar, ou dar para alguém usar, ou mesmo sonhar com algo com cor de burro quando foge, é melhor que a Senhorita que comece a fugir! Bom, você já sabe onde fica a saída para a inferioridade.
Eu nem curti minha humilhação, fui descendo nas nuvens para o trigésimo segundo andar para contar aos meus amigos que eles felizmente não tinham se livrado de mim. Agora era só conseguir que também a Verônica não ganhasse a aposta.
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