A "badalada" vida de Charly.
3 Capitulo 3: Rumo a nostalgia.
Notas iniciais
Saindo daquele dia de cão, pouco mais que oito horas da noite, fomos ao bar do Bill, a dois quarteirões dali. Chegamos, e nos acomodamos naqueles banquinhos de madeira giratórios frente ao balcão, onde Bill, já em seu posto de costume, limpava o mármore, como se deixasse a reputação do seu bem mais precioso mais intacta a cada passada de pano.
Era um modelo comum e simples de bar, mas com certeza o bar mais charmoso da cidade, elogio mais que merecido, por se tratar de um modelo americano, que abrigava no seu espaço várias mesas encostadas nos cantos com suas cadeiras estofadas em coro marrom, e uma prateleira de bebidas de todos os tipos, mas principalmente velhas, sem contar o pequeno, porém charmoso palco de karaokê que dividia alternadamente a trilha sonora com a jukebox.
– E aí pinguços?- Disse Bill dando a volta no balcão – O possante de vocês só fazem um dia após encher o tanque? – Brincou o Bill, tirando uma com a nossa cara, já que quando íamos ao bar, nunca nenhum de nós três bebíamos algo forte.
– Somos egocêntricos, gostamos do mundo girando ao nosso redor! – disse a Verônica, entrando no embalo do Bill.
– E aí... Billie Jean is not my lover, she's just girl who claims that I am the one – Começa a cantar e dançar o Chris, quando aperta a mão do Bill.
Bill revira os olhos e depois o fita com cara de reprovação. Chris, já com certo medo, tira cada um dos dedos, um de cada vez, para não deixa-lo ainda mais zangado.
– Você devia fazer amizades novas, minha menina! Pessoas do ramo do circo já estão fora de moda faz algum tempo, e muito mais quem cita Billie Jean! – Diz Bill, com seu sorriso maldoso entre dentes, quase me sufocando ao me puxar para o abraço.
Nos separamos, e eu imediatamente respondo:
– Eu curto pessoas com nariz vermelho! – Eu falo, enquanto ele me solta, já quase sem ar.
Eu e ele nos olhamos por alguns segundos, sorrindo da cara de surpresa que ambos faziam, ao me ver abraça-lo, coisa basicamente inédita para eles, mesmo sabendo que eu o conhecia e que ele e meu pai eram amigos de longa data.
Aquele moreno era osso duro de roer e muito mais que um mero amigo, pelos mais de vinte anos de amizade, que o levou a adquirir o título de padrinho de casamento do meu pai.
– Já que estamos tão perto de você, senão viesse nos ver, eu ia te sequestrar na própria Nucci&Diniz! – Diz Bill, com firmeza na voz, pois desde o fim do ensino médio eu o via basicamente somente nos churrascos de fim de semana em casa – Cometia um crime, mas já trazia a advogada pra resolução do caso! – Continua ele.
– Também to com saudade de você, Bill! Faz muito tempo que não nos vemos! Tipo, desde ontem... Vinte e quatro horas corridas, e sofridas! – Digo a ele, que logo solta uma gargalhada junto comigo, mas que nós dois sabíamos que era uma maneira de encobrir a verdade da real causa de não ir tanto ao bar, que antes era frequentado por mim diariamente.
– Espera, espera, espera... – “Chris começa a desconfiar – O Bill disse “ESTAMOS tão perto de você”, “senão viesse NOS ver”... Olha meu português não é perfeito, mas ambas as frases estão no PLURAL! – Ele complementa, fitando a mim e ao Bill com cara de desconfiança fingida, ao diminuir os olhos e fechar a boca com lábios finos.
Bill me olha por longos segundos, e o silêncio prevalece nesse intervalo de tempo, até que o mesmo o responde:
– E você vem todos os dias aqui e não sabe que o meu bar é como se fosse uma pessoa para nós? E vale dizer que é uma pessoa bem mais interessante que você! – Ele joga as palavras na cara de Chris, com ar de desprezo que se torna mais nítido ao subir a uma sobrancelha.
Chris fica sem graça, mas a Verônica não aguenta e solta uma risada com som de porco, que logo é acompanhada da minha, da do Bill e do próprio Chris, que tinha convertido a chamada de atenção em piada.
No mesmo momento a porta bate, e só os dois continuam com as gargalhadas, Bill balbucia algo como "a mentira dessa vez tá é coxa", enquanto minhas pernas bambeiam e meu coração dispara, dificultando a minha respiração.
Ele tinha parado na frente do balcão, segurando o seu agasalho cinza, que eu já conhecia, e ficou ali, quase que paralisado. Seus olhos, com o azul mais escuro que eu já tinha visto me olhavam sem piscar, no entanto de seus lábios não saiam uma palavra sequer. A nostalgia me tomava, mas confesso que eles pareciam bem mais carnudos e rosados do que eu me lembrava.
Aquele silêncio tinha se tornado ensurdecedor, até que sai da minha boca alguns grunhidos que deveriam ser um “Olá". Ele continua em silêncio, vira-se e segue rumo ao balcão, como se não tivesse ouvido nada, pega uma bebida e vai rumo a um grupo de pessoas na outra ponta, logo puxando conversa com supostos amigos.
Após aquela cena, Chris e Verônica, que juntamente comigo reparavam cada passo que ele tinha dado, viram a cabeça como se fossem a garota do exorcista, e contendo em seus rostos a mesma expressão assustadora dela, dizem a mim, ambos, como a fossem um coral de quinta categoria:
– O que a senhorita aprontou com ele?
Eu tento me explicar com uma desculpa qualquer, no entanto os mesmos grunhidos tomam conta das palavras que estavam saindo da minha boca, até que eu consigo me recompor e falo:
– Não dá pra explicar aqui, a historia é grande e complicada demais... Depois eu explico OK? – Eu nem termino a frase, pego minha bolsa, aceno pro Bill e saio dali, o mais rápido possível.
Espero o Chris no carro dele, que dá carona para mim e para a Verônica. No caminho sou bombardeada com perguntas, mas logo que percebem que não conseguiriam tirar nada de mim, ficam em silêncio. Despeço-me deles e vou para a minha quitinete.
A noite é longa, pelo fato de cenas, palavras e sentimentos terem saído do cofre da minha mente e agora me assombravam. Eu não sabia o que estava sentindo, se era ódio dele, por naquele dia ter sido tão frio comigo, ódio da minha vida que mais uma vez tinha aprontado comigo, ou mesmo do Walcyr Carrasco, que era o autor da novela que era essa minha vida, ou talvez fosse de mim, por continuar sendo tão covarde, não tendo reação aquela criancice dele.
De manhã, me dirijo à faculdade com a minha Ceci, e aguento como posso as duas aulas maçantes de Direito Administrativo e em seguida de Constitucional, mas em nenhum momento minha mente folga, revisando a situação do dia anterior e formulando várias maneiras de reações mais enérgicas a ele.
Vou embora para a empresa sem ao menos me dar conta de reparar as pessoas que estão a minha volta, e de repente já estou no elevador, sozinha, apertando o número do andar, e antes que o elevador feche, o braço de alguém o segura, e a figura logo entra, ficando exatamente do meu lado. Ele me olha de cima a baixo, e sem hesitar pergunta:
– Você é a advogada que vai tratar da empresa Winchester? – ele diz, em seguida dando um sorriso, com os dentes brancos, que me fez pensar que ele deveria usar algum fotoshop em tempo real.
Olho ele, meio assustada, já que com certeza o meu vestido de quinze reais deveria ter denunciado a minha posição deficitária na hierarquia da empresa.
– Não, Senhor! Eu sou estagiária do Senhor Henrique! – Falo baixinho.
– Bom, agora eu sei que o SENHOR Henrique deve ser bem velho! E eu não sou nem ao menos casado, então não me chame assim. – ele diz, piscando para mim com aqueles olhos possuidores de um verde extremamente vívido.
A vergonha me toma, e na hora eu fico sem graça e sem pensar, respondo a ele:
– Ahh sim, senhorito! – onde sem querer sai um pouco de deboche em minha voz no final da minha frase.
Ele me olha, e faz cara de estranheza, diminuindo os olhos e me fitando por alguns segundos.
– Digo, Daniel! Da — ni — el, eu soletro calmamente, até que percebo que além de eu ter usado o nome dele com um tanto de intimidade, em momento algum ele tinha falado o nome dele.
– Huum, então você sabe quem eu sou? Então já é meio caminho andado – Ele diz com tom maquiavélico, e dando o seu belo sorriso com seus dentes pequenos e certinhos, exceto por um filho único, um certo canino do lado direito que era poucos milímetros para cima e ligeiramente mais afiado que os outros, que tornava-o ainda mais radiante e charmoso.
Eu engulo seco e sem pestanejar, já vou logo explicando:
– Os Winchesters são bem famosos, Senhor! – Eu respondo seriamente, e com vergonha, mas ele não se contém e dá um gargalhada, até que o bendito elevador chega ao trigésimo segundo andar.
– Tchau. – Me despeço rapidamente e quase correndo, e ele logo responde:
– Tenha um bom dia! Foi um praz... – Ele nem termina a frase e a porta do elevador fecha. Eu suspiro aliviada, e sigo rumo a minha cubiculândia.
Verônica e Chris já tinham chegado e já editavam os seus contratos, em seus poucos metros de quadrado cinzas, e ao me verem giram suas cadeiras para a minha direção, cruzando ambos as pernas me interditando em um verdadeiro interrogatório policial.
– Você vai falar o que aconteceu ontem ou vamos te torturar? Eu trouxe alguns canivetes com designs chiquérrimos! Tem até um de cabo vermelho pra combinar – Verônica revela, o que me traz a dúvida se seu verdadeiro objetivo realmente era saber a respeito do ocorrido de ontem, já que as frases a respeito da utilização do canivete em mim tinha feito os olhos dela brilharem.
– Eu dei oi pro Tom, e ele me ignorou! Foi o que aconteceu! Agora que sabem posso ter um pouco de paz? – Respondo com um tom ofensivo, já ligando o meu computador.
– Char, você entendeu a nossa pergunta... O moço te olhou como se você fosse uma caixa de chocolate da Ferreiro: Gostou do que viu, pois os olhos dele brilharam, mas assim que você mostrou o seu preço ele saiu correndo, sem olhar para trás! O que você disse mesmo? "highthia — RO lha"? Direito subiu pra cabeça e você começou a falar Latim lá – Disse o Chris se acabando de rir do estado catatônico em que fiquei.
– Eu falei oi, ué! – Eu digo quase sussurrando, por causa da grande vergonha que eu sentia.
– Pensei que fosse a Tim que não dava área! Querida, você precisa mudar pra vivo, ou pra uma língua que os vivos usam – Diz Verônica, indo também no embalo do Chris.
– Vocês não entendem, ele e eu éramos tipo melhores amigos, mas nos afastamos por causa da faculdade, e ele deve pensar que eu não quero mais a amizade dele só porque mudei um pouco desde o colégio.
– Whaaaat? – Verônica fala com surpresa e certo drama na voz – Você está dizendo para nós que nessa eternidade de tempo que nos conhecemos você tem outro melhor amigo e não disse nadica de nada para nenhum de nós dois?
Chris, só consente com ela, mexendo a cabeça de cima para baixo, interpretando o Chávez.
– Dá licença? Da pra focar no meu drama? – Respondo aos dois, e continuo – Ele é amigo de infância, e desde que eu disse a ele que não daria para vê-lo todos os dias, ele ficou chateado, e não fala mais comigo. E eu não disse nada dele porque vocês não perguntaram!
– Claro, porque a gente imaginava que você não falaria dele. Na verdade eu e a Verônica somos videntes, e possuímos várias bolas de Cristal que dizem: oi, bom dia. A Charly conhece alguém e não contou a vocês. – Chris refuta, imitando a voz de um robozinho.
– Ok, ok, Charly! Você conhece o gatão e só quis ele pra você! Confessa que fica mais bonito. Vou colocar o apelido dele de Garfield. – Ela diz entre risos.
– Viu? Vocês pensam algo errado de mim com ele, mas minha amizade é como se fosse a do Chris, sem malícia. E desde quando ele é gordo pra ser o Garfield?
– Na verdade eu arrastava um bonde por você – Chris responde rindo, e eu instantaneamente arregalo os olhos – Mas só se fosse pra jogar em tu – continua Chris me tirando.
O fito com cara de homicida, e Verônica toma a palavra:
– Huuum, então gatão ele é! – Ela replica, dando uma uma piscadela para mim, e continua – Ele queria te possuir, Char! Você é tão complicada com as pessoas! Faz lasanha pra ele, que ele te desculpa! – Verônica me diz com uma sinceridade falsa revelada em sua voz.
Os dois quase engasgam com aquela piada idiota de Verônica, e eu os deixo na sala indo pegar água no corredor.
Quando volto, paraliso com a figura que está sentada na minha cadeira, girando- a como se sua fosse. Assim que vê, já pergunta:
– O sem emoção, não vai dar um abraço na sua própria irmã? – pergunta ela, mas já na metade do caminho para o abraço.
Ela me solta, e eu já retruco:
– Você não é minha irmã, pois se fosse saberia que eu não curto abraços!
Ela me olha de cima abaixo, e me fita com a mesma cara de negação de sempre.
– Você esqueceu que tem família? Estou dizendo a todos que me tornei filha única! Você só aparece nos fins de semana na casa da mamãe, e só come e vai embora. Até o meu dinheiro some menos que você! – Ela fala, com certa preocupação na voz.
– Eu estudo e trabalho, Mari – Tento explicar.
– Ela é sua irmã, né? – Chris entra na conversa – Mari, Bond? – Ele faz a piada tentando diminuir a tensão, mas ela e eu olhamos para ele por quase um minuto com cara de negação.
– Bom, agora que você me viu, eu preciso trabalhar, OK? – Digo a ela, me direcionando ao meu computador.
– Na verdade, essa semana você está comigo – ela diz como se fosse a coisa mais natural do mundo. Eu me viro, com uma cara de pós-filme de terror e ela continua:
– Eu consegui emprego aqui, vou ser sócia Júnior! Specter me contratou. – Ela me joga a bomba – Pensei que os seus amigos tivessem te contado. As cópias estão na minha mesa, é só ir buscar – Ela joga a bomba calmamente e sai da sala, dando duas batidas na parede perto da porta.
– Eeeeeu não acredito que não me disseram que a "melhor" versão de mim vai ser minha chefe! Com amigos assim pra que inimigos? – Eu meio que grito com ambos.
Eles se olham com medo, e vendo que nenhuma explicação me deixaria com menos raiva, Verônica responde baixo:
– O assunto do gatão ganhou prioridade! Fui..
E cada um sai para o seu destino, com seus respectivos papéis que eu juro que não tinham nada a ver com o serviço daquele dia.
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