A arte de se expressar
4 4 - Aquele que não é treinamento
Notas iniciais
Jirou caminhou com a cabeça inclinada para trás, as mãos na nuca e os olhos semifechados pela sala comum em direção à cozinha. Ela havia vestido suas roupas mais confortáveis depois de passar meia hora embaixo do chuveiro. Ela deitou na cama com os cabelos ainda molhados e tentou dormir um pouco, contudo, a fome não a deixou em paz. Depois de um bom quarto de hora ela decidiu jantar de uma vez para dormir o resto da noite.
— Fico feliz que acordou, Jirou-san – ela ouviu uma voz familiar que ela não reconheceu de imediato então ela só gemeu de volta em concordância e seguiu em frente.
— Hey, Jirou. O nosso amigo aqui está esperando você há uns dez minutos – ela ouviu Kaminari dizer.
Foi quando, franzindo o cenho, ela olhou para onde as vozes vinham. Yoarashi estava em pé, com o rosto empolgado, enquanto Kaminari, Kirishima estavam sentados em um sofá e Midorya e Fumikage estavam em outro.
— O que você está fazendo aqui? – perguntou Jirou monotonamente.
— Esperando pelo meu treinamento – respondeu Inasa com um sorriso excitado.
— Do que ele tá falando? – perguntou Kaminari franzindo a sobrancelha.
— O quê, agora? – indagou Jirou confusa. Ignorando kaminari completamente.
— Eu quero começar o quanto antes! – respondeu Inasa erguendo um punho a frente. Kyouka gemeu um pouco — Algum problema?
— Eu pretendia jantar.
— Eu posso esperar!
— Eu demoro bastante – respondeu ela tentando desanimá-lo.
— Não será um problema! Eu tenho a noite inteira.
Essa frase foi um problema. Ela sabia que ele sairia desapontado quando ela dissesse que não queria ajuda-lo agora.
— Yoarashi-san – chamou Midorya – Se não se importar em me responder, mas você disse que estaria treinando com Jirou-kun?
— Ah, sim! – respondeu ela virando-se bruscamente para o garoto de cabelos verdes.
— Que bom! Que tipo de treinamento?
— Jirou-san incrivelmente se ofereceu para me ajudar com meu comportamento. – respondeu Inasa pondo as mãos na cintura e sorrindo orgulhoso – Vocês tem uma pessoa incrível com vocês! Mesmo depois de agir mal com ela, ainda assim se ofereceu para me ajudar! Uma verdadeira heroína – terminou ele rindo acaloradamente para ela.
— Cala a boca – resmungou ela corando.
Agora me diga: Como decepciona alguém depois disso? Talvez ela pudesse enrolá-lo com algo simples e dizer para continuarem amanhã. Cinco minutos não é o fim do mundo, certo?
— Eu disse algo errado? – Inasa perguntou confuso. Ele olhou para Kaminari e Kirishima que estavam segurando o riso e entendeu menos ainda.
— Nada, mas parece que Jirou tem seu primeiro fã – brincou Kaminari ainda prendendo o riso.
— Idiota! – rosnou Jirou para o loiro – Espere aqui, eu já volto – murmurou ela para Inasa antes de ir para a cozinha.
— Que sono! – bocejou Mina se espreguiçando.
Ela, Momo, Asui e Uraraka estavam na cozinha jantando quando Kyouka entrou.
— Achei que fosse dormir antes de jantar, Kyouka-chan – disse Momo ao ver a amiga entrar no recinto.
— Acredite eu tentei – chorou a garota.
— Você não dormiu no avião não é? – perguntou Uraraka sorrindo – deve estar bem cansada.
— Uhum. – concordou Kyoka abrindo o armário e pegando uma pequena vasilha descartável circular e transparente – Para completar, eu odeio segundas – acrescentou ela indo em direção às panelas.
— Por que você não está usando um prato para se servir, Kyouka-chan? – perguntou Asui
— Hm... Eu não vou comer na cozinha – respondeu ela remexendo os armários de talheres – Yoarashi está me esperando na sala comum, então eu vou comer enquanto o ajudo, assim eu posso dormir o mais rápido que eu puder.
— Por que você não manda ele embora?! – perguntou Mina irritada – Você já está ajudando esse idiota e ele ainda é exigente? – acrescentou ela cruzando os braços.
A garota alien realmente estava irritada com Yoarashi, ele ameaçou a segurança de seus amigos, ela não estava perdoando isso fácil.
— Eu vou despachá-lo rápido – informou Jirou pondo uma porção de comida na boca – Eu não gosto da ideia dele muito tempo no meu quarto.
— Seu quarto? – perguntou Momo – Kyouka-chan, já está quase na hora de dormir. Mesmo que não fossem proibidos garotos no quarto das garotas nesse horário, você acha que isso seria uma boa ideia?
Kyouka ponderou por um tempo enquanto mastigava. Momo tinha razão, ela meio que esqueceu o fato que Yoarashi era um cara. Bem, não exatamente. Ah, que seja, você entendeu. Enfim, dos meninos, só Kaminari e Bakugou entravam em seu quarto com a mesma frequência das garotas, Kaminari porque, bem era Kaminari, então basicamente uma garota para ela, e Bakugou porque às vezes ele queria tocar a sua bateria. O que ela só permitia porque ele realmente a ajudou a melhorar nesse instrumento.
— Você tem razão – ela teve que concordar com sua amiga – Eu vou indo – despediu-se ela saindo com seu jantar na mão.
Yoarashi havia sentado novamente e estava discutindo com Midorya sobre alguma coisa, Jirou deduziu que fosse sobre sua peculiaridade, desde que Deku anotava tudo em um caderno em suas mãos.
— Ei, Kaminari! Vou pegar seu casaco, tudo bem? – Perguntou Jirou em direção à saída. Ela ouviu um “Ok” em tom de pergunta de seu amigo elétrico. Servia como permissão – Oh, dos ventos – ela chamou Inasa enquanto vestia o casaco de Kaminari – Pegue seu casaco, estamos saindo.
Ela não esperou resposta de Yoarashi para abrir a porta e sair no ar frio. Ela desceu alguns degraus e estava pondo mais uma porção de comida na boca quando ouviu a porta batendo atrás dela.
— Estou muito ansioso para começar! – Exclamou ele ao alcança-la – Então, o que vamos fazer?!
Kyouka mastigou lentamente, em parte porque ela estava planejando o que dizer, e a outra parte foi só para irritar o garoto otimista com a demora. Ele a olhou o tempo inteiro, como se isso a ajudasse a mastigar mais rápido e lhe oferecer uma resposta.
— Primeiro de tudo, você precisa entender que isso não é um treinamento – respondeu Jirou depois de engolir sua comida. O garoto suspirou um pouco decepcionado – Isso mesmo, eu não estou te treinando, eu estou te ajudando. E só posso fazer isso te conhecendo – terminou ela pondo mais uma porção na boca.
— Me conhecendo? – Inasa questionou pensativo – Como gostos e histórias?
— Uhum – gemeu Kyouka ainda de boca cheia.
— Bem, o que eu posso dizer? – começou ele para adiantar o processo – Eu nasci em Shizuoka. A cidade é incrível! Frequentei uma escola longe de casa e sempre que ia para lá passava pela UA. Quando eu soube o que era um herói eu decidi me tornar um! Eles têm tanta paixão e ardor! – Inasa gesticulou bastante — Eu gosto de tudo, não tem muitas coisas que eu não goste. Acredito que as coisas só precisam do ponto de vista certo para serem apreciadas.
Jirou ouvia em silêncio, apenas aproveitando seu jantar enquanto eles andavam sem rumo pelo campus da UA. Estava realmente frio, então ela começou a comer mais rápido para não perder o calor da comida.
— Bem, eu nunca me importei com a opinião dos outros sobre meu jeito de ser. Eu prefiro pedir desculpas por exagerar que me arrepender de não ter feito o que queria. – continuou ele enfiando as mãos no bolso e olhando para o nada. – Mas desde que eu estou treinando para ser um herói eu percebi que ser como eu sou pode fazer mais que irritar as pessoas...
Nessa hora Jirou parou. Inasa continuou por dois passos antes de perceber a pausa da garota, virou-se e a olhou de frente, esperando suas palavras.
— Ser você não é o problema. – Foi o que ela disse levemente irritada com o pensamento distorcido do garoto. Ele não devia se culpar por ser intenso, isso era realmente bom.
Os dois ficaram em silêncio alguns segundos.
— Então? – Yoarashi perguntou impaciente.
— Eu estou pensando, idiota! – resmungou Jirou mudando seu peso de uma perna para outra e olhando para baixo – Não é tão simples explicar algo tão subjetivo.
— Entendo – respondeu Inasa olhando para a vasilha, agora vazia, onde Kyouka tamborilava os dedos.
— Como eu vou explicar isso para você? – suspirou Kyouka olhando ao redor.
Foi quando ela percebeu um pequeno banco coberto de neve e uma lixeira ao lado.
— Pode retirar aquela neve com seu vento? – perguntou ela
— Claro! – exclamou ele já ativando sua individualidade e soprando toda a neve do banco com tanta precisão que o assento não estava nem mesmo úmido.
— Bom – sorriu Kyouka sentando-se – Aqui – chamou ela batendo a seu lado no banco.
Inasa sentou-se ereto e olhando para frente sério.
— Bem, vamos lá... Está vendo aquela árvore? – perguntou Jirou apontando para um enorme carvalho ressecado e sem folhas que se destacava das demais árvores mortas pelo frio do inverno.
— Sim, o que tem ela?
— Descreva-a para mim.
— Descrever? Como assim?
— O que você acha dela? No que ela faz você pensar, sentir ou imaginar? – explicou a garota sem retirar os olhos da grande árvore.
— O que isso tem a ver?
— Só faça! – ordenou ela irritada. Inasa enrijeceu o corpo e olhou para a árvore tentando responder as perguntas de Jirou.
— Eu acho... acho que ela... é linda.
— Por quê?
— Como assim?! Olhe para ela, está tão frio e ainda assim ela está lá, viva, pode parecer que não, mas está. Quando o sol chegar ela vai despertar e ser tão frondosa que as outras mal vão aparecer na frente dela. Elas mal aparecem agora! – explicou ele com tanta emoção que Kyouka teve que sorrir, ele era empolgado demais – Além disso, olhe o movimento que ela faz contra o vento, tão fluida e firme ao mesmo tempo. Como ela consegue? Queria fazer isso também – confessou ele estendendo os braços para frente.
Kyouka não conteve uma risada fazendo o controlador dos ventos olhá-la curioso.
— Viu? Você vê o mundo de uma maneira muito otimista. Para mim, aquele carvalho não está tão vivo assim, na verdade, para mim, ele parece estar à beira da morte, brigando com cada centímetro de si para chegar à primavera, abrindo mão das coisas mais bonitas que ele tem na vida para sobreviver. Eu quase posso ouvi-lo chorando – Jirou fechou os olhos e relaxou os ombros – Pedindo a qualquer ser divino por mais um dia... E isso não faz dele menos bonito para mim do que é para você. – terminou ela abrindo os olhos e encarando Inasa.
— Isso é... – ele começou e não encontrou palavras, então encarou o carvalho novamente – entendo...
— Uhum... – gemeu Kyouka satisfeita também retornando a olhar o carvalho – Só porque temos visões diferentes do mundo não quer dizer que um dos dois está errado. O carvalho está lutando pela vida, está rezando pela primavera, e isso não quer dizer que ele não é fluido e firme, e com certeza ele vai ser bem frondoso quando o sol voltar.
— Sim, posso ver isso agora. Mas o que isso tem a ver com meu treinamento?
— Ei, não é um treinamento – corrigiu Jirou, logo depois ela ergueu a mão para impedir um pedido de desculpa que Inasa estava preparando – Eu ainda não terminei a explicação. Vê? Eu e você, nossas individualidades... Eu posso ouvir além dos demais, não é algo que eu possa desligar sem muito esforço. Para mim, o mundo se resume a timbres e tons, frequências e ondas. Se eu fechar os olhos e ampliar minha individualidade eu tenho um mundo novo, só meu – explicou ela sorrindo novamente fechando os olhos por alguns segundos – Mas isso seria um desastre se a humanidade não tivesse inventado a arte. – terminou ela brincando.
— Arte? – perguntou ele surpreso e confuso com o tópico aparentemente desconexo.
— É, sabe, aquela coisa que nós usamos para nos expressar – comentou ela sarcástica.
— Expressar! Foi isso que você mencionou antes, depois da prova! – exclamou ele ignorando o tom do comentário anterior.
— Sim – sorriu Jirou, era difícil não achar engraçado esse jeito dele, era quase inocente... – Música funciona para mim, não importa se eu tive um dia feliz, triste, irritante ou cansativo, eu posso por tudo para fora quando eu toco. Então eu me expresso ao invés de guardar tudo isso para mim. É isso que falta para você.
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