A arte de se expressar

5 5 - Aquele que o Inasa brinca na neve


Notas iniciais
Provavelmente o menor de todos. E também aquele com mais coisas fofas e momentos filosóficos (até agora).

Jirou sorriu, era difícil não achar engraçado esse jeito dele, era quase... inocente.

— Música funciona para mim, não importa se eu tive um dia feliz, triste, irritante ou cansativo, eu posso por tudo para fora quando eu toco. Então eu me expresso ao invés de guardar tudo isso para mim. É isso que falta para você.

— Então você vai me ensinar a tocar um instrumento?! Que incrível! Eu posso aprender mais de um? Nós podemos tocar juntos se...

— Ei, relaxa! Você tá gritando de novo – interrompeu Kyouka empurrando Yoarashi que agora estava perto demais. Jeeeez, ele precisa muito de uma pausa.

— D-desculpa, Jirou-san! – disse ele pondo-se de pé.

— Tanto faz. Olha, de qualquer jeito, não acho que música vá resolver seu problema. – começou Jirou se remexendo desconfortavelmente no banco, estava frio demais para o gosto dela. Outro fato que ela odiava em seu corpo magricela era a baixa resistência ao frio.

— Tem certeza? Então não tem nada que eu possa fazer? – indagou Yoarashi receoso, ele ainda lembrava-se dela dizendo que se não o consertasse em dois dias ele seria imprudente para sempre.

— Eu n-não disse isso – respondeu ela começando a bater os dentes de frio.

— Aqui, por favor, se aqueça – Yoarashi prontamente retirou seu casaco e o pôs em volta de Jirou quando percebeu que ela estava com frio.

— Ei, você vai congelar sem um casaco! – ela o repreendeu recusando.

— Não exatamente. Eu sou bem resistente ao frio, quanto maior a altura menor a temperatura, e eu vivo voando bem alto – explicou ele recolocando o casaco nela.

— Tem certeza?

— Claro! Além do mais – começou ele apontando orgulhosamente o polegar para si – Eu gosto de frio.

— Tch. Tem alguma coisa que você não goste? – debochou ela com um sorriso.

— Ah, bem, eu não gosto de ódio sem sentido – confessou ele franzindo a testa com o breve esforço para lembrar algo que ele odiasse.

— Ok, vamos fazer uma nota mental para te ensinar o significado de Sar-cas-mo.

— Ah, Fumikawa sempre diz que eu deveria aprender isso também. – comentou ele com um sorriso – Eu prefiro ser mais direto, mas posso usar sarcasmo se você preferir, Jirou-san.

— Nem que sua vida dependesse disso, Yoarashi – revidou Jirou com uma pequena risada. Inasa a olhou e sorriu satisfeito. – O quê? – retorquiu ela sem perder o deboche.

— Você tem uma risada contagiante. – respondeu ele sincero.

Bem, pelo menos agora Jirou não precisaria mais do casaco extra. Ela corou tanto que sentiu o rosto esquentar.

— Vem – murmurou ela tímida levantando-se do banco – Vamos voltar antes que você congele.

— O quê? Mas já?! – reclamou Inasa seguindo atrás dela – Jirou-san, ainda não tenho ideia do que fazer. E só tenho mais um dia ou não vai conseguir me consertar, lembra? – argumentou ele vividamente.

— O quê? – perguntou ela parando bruscamente e erguendo uma sobrancelha.

— Bem, foi o que você disse mais cedo – resmungou ele desviando o olhar. Agora ele percebeu que esse poderia ser outro comentário sarcástico e se sentiu tolo por acreditar nessas palavras.

— Eu não posso te consertar. – afirmou ela revirando os olhos e voltando a andar – Você não está quebrado.

— Bem, eu sei. Eu só... – ele limpou a garganta – se um instrumento não pode me ajudar, não imagino o que mais pode.

— Relaxa – suspirou Jirou, para alguém tão forte e inteligente, ele era meio denso nessas coisas, até mais que ela – É para isso que existem tantos tipos de artes. Eu não sei porquê, mas acho que você precisa de algo mais visual, tátil. Talvez artes plásticas, sabe? – refletiu ela mais para si do que para Yoarashi.

— Não. Por favor, explique.

— Ah, bem. Algo que suje mais as mãos. Pinturas, esculturas, essas coisas.

— Esculturas?! Como bonecos de neve?! – indagou animando-se novamente.

— Não, não vamos fazer bonecos de neve à noite. – negou Jirou incisiva, então ela se sentiu horrível, parecia um daqueles dias que ela via um novo instrumento e sua mãe não a deixava tocar. Mas Yoarashi não era uma criança, certo?

— Não precisa montar comigo – insistiu Yoarashi com paixão – Eu gostaria de sua companhia, mas se quiser voltar para seu dormitório, não impedirei!

Kyouka suspirou, se ela o deixasse ali provavelmente o garoto ia congelar na neve. Ela poderia pelo menos fazê-lo voltar para a cama antes disso se ficasse.

— Está bem! – cedeu ela apertando o grande casaco militar da farda da Shiketsu contra si. Havia bastante espaço ali, devido à diferença de tamanho entre ela e Yoarashi – Mas eu não estou me metendo na neve, e quando eu disser que precisamos ir, você tem que prometer que vai parar.

— Sim! – acordou ele já correndo para fora do caminho de pedras e movendo a neve em uma bola.

Ele foi bem rápido, não demorou muito e ele estava empolgado demais para não usar sua individualidade. Não havia nevado hoje, o que havia no chão era da noite anterior, então estava suja. Então quando Inasa começou a usar seu vento para moldar melhor o boneco de neve ele começou a se desfazer.

— Olha como desfaz rápido! – comentou ele movendo os dedos para que o vento os imitasse e circulasse o boneco de neve mais rápido. – Tem certeza que não quer se juntar a nós – convidou ele apontando o dedo para si e o boneco de neve.

— Oh, tenho. Alguém tem que manter seu casaco seco, algo me diz que o resto do seu uniforme não vai se ficar. – brincou ela erguendo a gola da do casaco de Yoarashi para proteger seus lóbulos da orelha do frio.

— Tudo bem, mas não é tão divertido sozinho — confessou ele ainda montando o boneco empolgado.

— Sério? Não parece – Riu Jirou, o garoto parecia tão focado e empolgado que fazia sua fala soar falsa.

— Olhe! Lama! – Exclamou ele. Parecia a descoberta do século — Talvez eu consiga moldar ela melhor do que a neve.

Então ele se ajoelhou e começou a moldar a lama com as mãos e com vento. Pelo que Jirou pôde ver, ele estava tentando moldar o carvalho sobre o qual conversaram. Entretanto, quando ele estabelecia com seu vento a forma que queria, não podia parar sua individualidade sem que a lama voltasse a ser uma massa confusa.

— Talvez devesse usar as mãos? – sugeriu Jirou dando um passo mais perto.

— Eu só queria que meu vento secasse a lama. – disse ele concentrado – Talvez se eu aumentar a pressão do vento, então...

POW.

Uma bola de lama explodiu em Yoarashi. Jirou deu um pulo para trás e não recebeu nenhuma sujeira. O garoto dos ventos havia aumentado demais a pressão e, ao invés de enrijecer a lama como queria, ela voou em direção a ele.

Eles ficaram alguns segundo paralisados, com o rosto assustado. Até que Jirou gargalhou bem alto e Yoarashi olhou para ela do chão e começou a rir também.

Demorou até que eles finalmente parassem de rir. Foi quando Jirou respirou fundo para recompor-se. O rosto vermelho e a barriga doendo. Yoarashi levantando-se lentamente do chão.

— É melhor, deixarmos a escultura para lá, dos ventos – comentou ela pondo a mão no rosto para não ter outro acesso de riso. Ela respirou rápido e fundo para continuar – Está tarde, e nós temos um dia bem cheio amanhã.

— Não podemos parar agora, Jirou-san! – declarou Inasa dando um passo a frente – Ainda não decidimos o que eu deveria fazer.

— Fique aí mesmo – reagiu ela dando um passo para trás. Ele estava todo coberto de lama – Já tivemos muito progresso para um dia.

— Mesmo?!

— Sim. – informou ela acenando com a cabeça – Além do mais. Seus dedos devem estar azuis. Isso é, estariam se desse para vê-los debaixo de toda essa lama – debochou ela com um sorriso arrogante.

— Parece que estamos quites, certo? – sorriu ele confiante – Agora sou eu que estou coberto de lama – afirmou ele pondo as mãos na cintura e erguendo o rosto.

Jirou riu novamente. Sinceramente, se não estivesse tão frio, ela poderia ficar ali o resto da noite. Ah, o frio! Kyouka lembrou que Yoarashi estava molhado e sem casaco naquele frio.

— Ei, aqui, seu casaco – chamou ela abrindo o casaco dele.

— Não, por favor, continue com ele.

— O quê?! Você tá louco? Vai ter uma hipotermia desse jeito! – repreendeu ela.

— Não se preocupe, eu vou me aquecer depois que ficar limpo – afirmou ele – Fique com ele por enquanto. Além do mais, não queremos o nome da Shiketsu na lama também, não é? – brincou ele pontando para o nome de sua escola bordado no casaco.

— Isso foi uma piada? – perguntou Jirou ligeiramente surpresa.

— Mais ou menos – ele sorriu torto.

— Olha só, parece que alguém tem senso de humor – brincou Jirou batendo no canto do ombro de Inasa, um dos poucos lugares limpos de sua camisa. – Ok, eu vou mater o casaco. Com uma condição – alertou ela – Você vai direto para o seu dormitório tomar um banho quente e se aquecer. E você tem que busca-lo amanhã.

— heh. Então são duas condições – retrucou ele.

— Hm... quase – gemeu ela brincando – Mas você não é do tipo sarcástico. Mesmo assim, bela tentativa – Terminou ela antes de começar a andar em direção ao seu dormitório.

— Então, amanhã na mesma hora? – perguntou Yoarashi excitado.

— Uhum. – concordou Kyouka fechando novamente o casaco dele para manter o calor – Mas tente não me sujar tanto na próxima vez, eu gosto do meu jantar quente, e não vou conseguir isso se eu demorar tanto no banho. – acrescentou ela sem virar para trás.

Jirou sabia que Inasa havia não havia se movido logo, ela demorou a ouvir seus passos. O que ela perdeu foi o sorriso calmo e o olhar curioso e interessado que ele tinha nela.

Depois que Kyouka ouviu Yoarashi correndo na direção oposta a sua, ela decidiu apressar o passo para chegar logo. Ela ficou feliz de não ter cedido ao cansaço e o mandado embora, foi realmente divertido. Engraçado, ela não se sentia tão cansada agora.

Quando entrou na sala comum da Aliança 1-A não havia mais ninguém. Ela supôs que estavam todos dormindo. Então, após guardar os dois casacos emprestados que a aqueceram – o de Kaminari pendurado na entrada e o do Yoarashi em seu quarto –, Kyouka escovou os dentes e foi para a cama. Ela dormiu como não dormia há dias.

Notas finais
Isso é uma eterna queima lenta, desculpa mas eu adoro essas coisas.