A arte da Guerra
1 O espelho
Notas iniciais
Obrigada por vir até aqui!
Espero que goste dessa história. Temos aqui Hades e Ares conversando muito tranquilamente, afinal a guerra e a morte andam lado a lado.
Hades continuou caminhando na direção das trevas, sentindo as sombras o abraçarem como se sentissem sua falta. O Deus não precisava enxergar, a total falta de luz não o atrapalhava em nada, estava acostumado com a mais profunda escuridão.
A atmosfera ali era diferente, pesada a ponto de ser esmagadora. O ar era sufocante, as paredes pareciam se fechar em volta do que consideravam um intruso. Era como se o peso de todas as almas do Inferno estivessem sobre aquele lugar.
Hades parou ao que parecia ser o fim do corredor e então ouviu-se o clique de uma maçaneta e uma porta foi aberta. Ele deu passagem para o sobrinho e então entrou na sala, fechando a porta.
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— Sangue por toda parte, não poderia haver férias melhores. — Respondeu com um grande sorriso. — Mas estou de volta, para felicidade de uns e infelicidade de outros… Notícias de nosso inimigo comum, Meu Tio?
— Ora, podia ter queimado com o sol, mas duvido. Imagino eu, que ele esteja sentado com sua bunda avantajada naquele trono, comendo maçãs. Que andas matando, Ares?
— É um rei imprestável. Mas me agrada que esteja gordo e acomodado, tornará mais fácil e legítima sua queda. — O Deus se sentou (quase se jogou) numa cadeira e serviu-se de uma garrafa de vinho. Bebeu lentamente e apoiou os dois pés sobre a mesa. — Matar Humanos é parte de minha natureza, Tio, assim como é sua natureza dar a eles um lugar apropriado para passar a Eternidade. Mas não apenas Humanos contam na lista de presas que cacei. Quer ouvir histórias de seu sobrinho? Eu adoraria contá-las ao senhor.
— Sabe que gosto de ouvir suas artimanhas realizadas mundo afora. — O Deus se sentou e cruzou as pernas com as mãos sobre os joelhos. – Não saias por aí se gabando, mas vez ou outra, me inspiro nos seus feitos.
Ares riu como se já soubesse disso desde sempre, o que não era verdade. Estava quase lisonjeado com aquilo, mas seu orgulho o impedia de agradecer apropriadamente pela consideração de seu tio. Cruzou os pés sobre a mesa e tomou outro gole na taça dourada.
— Um dragão de Jotunheim, meu tio. — Disse com orgulho na voz. — Da altura do Parthenon, dentes grandes feito espadas e muito amolados, dilacerou minha couraça com um único golpe. Foi uma aventura e tanto. Eu o convido a uma caçada na próxima vez, o que achas?
Hades sorriu, em parte orgulhoso da astúcia de Ares, em parte escondendo certa preocupação que ele o causava, mas se reprimiu logo em seguida, afinal Ares não era mais o garoto que ele escondia de Zeus.
— Um… Dragão. – Hades cerrou os olhos, rindo em seguida. – Ora Ares, deixo as aventuras para você, afinal o Inferno precisa de atenção especial e eu já não sou tão jovem.
Hades apreciava a jovialidade, mas já não saía há algum tempo. Sua mente o havia convencido de que estava velho demais para certas coisas.
O Deus da guerra fitou o senhor do inferno com um olhar de lado dessa vez, percebendo uma pequena diferença na expressão de Hades, mas sem saber exatamente do que se tratava. Será que se preocupava com o fato de Ares se meter em batalhas perigosas mesmo para Deuses em lugares desconhecidos? Não, isso era absurdo. Hades era um bom tio, mas não se preocuparia consigo a esse ponto.
— Sim, enorme de escamas brancas e lisas exatamente como a neve do lugar onde vivia. Meu tio, o senhor tinha que estar lá para ver, meu machado atravessou o estômago da criatura e juro que choveu sangue… Fiquei cego por um tempo, minha vista tomada pelo sangue da criatura abatida. Realmente, muito divertido. — Não mencionou que o dragão estava matando gigantes inocentes que viviam numa caverna ali perto, não queria que Hades (nem ninguém) soubesse que Ares era, de fato, capaz de boas ações.
— Bem, eu aposto o crânio do dragão que o senhor daria um excelente arqueiro, mesmo hoje em dia. Mas muito bem, seja como desejar, o convite estará sempre de pé. — Tomou outro gole do vinho de Dionisio. — Me conte tio, de seu cotidiano no inferno. Quero saber de ti também.
— Ora, ora… Bom saber que você anda se divertindo por aí Senhor da Guerra. — Deixou o traço de um sorriso marcar os lábios finos — Assim tenho mais tempo para pensar em torturas mais interessantes para as vítimas de suas festas…
Hades pegou a taça de vinho que repousava sobre a mesa havia vários minutos, correndo os dedos longos e finos pela borda de vidro. Os olhos fixos em um ponto distante da sala, pensativo. As expressões do Deus dos Mortos sempre foram enigmáticas, nunca demonstrando demais; imparciais. Seu rosto raramente mudava e isso o dava um ar misterioso.
— Está tudo normal, monótono e calmo. As almas parecem ter-se aquietado como se aceitassem o destino que lhes foi reservado. Isso me chateia. — Ele soltou as palavras como se as jogasse ao vento, como se falasse sozinho como fazia frequentemente, quase se esquecendo de que Ares atava ali presente, ouvindo e julgando suas palavras. Mas Hades nunca se mostrou são o suficiente para que palavras estranhas lhe fizessem parecer louco.
Louco.
Sim, se Hades queria passar essa impressão, ele fazia com muita habilidade. Mas Ares mesmo nunca foi exatamente são, muito menos sábio.
— Então, tio querido, o senhor está literalmente em família aqui. Se vamos planejar destronar o Deus Todo Poderoso ou rir de nossas próprias desgraças, façamos juntos.
Olhos cor de madrepérola acompanharam com atenção feral os movimentos da sombra que pegou a taça de vinho. Hades movia-se com suavidade e elegância, ao menos comparado ao sobrinho. Por um lado, Ares não compreendia como ele conseguia ser tão calmo. E por outro, desejava ser parecido com o Deus dos Mortos algum dia no futuro. Sábio, antigo, cheio de feridas ocultas e pensamentos distorcidos. Ares daria muitas coisas para conhecer melhor o que se passava naquele vórtice negro que era a mente dele. Não se envergonhava em admitir que queria saber mais sobre Hades. Aprender com ele, até. Mas quem sabe Hades fosse ocupado demais para tomar um pupilo tão teimoso e caótico.
— Digo que deveríamos ir até lá incomodá-los. — Respondeu, tirando os pés da mesa e colocando a taça ruidosamente sobre a mesa. — Espetá-los com pinças, queimá-los, faze-los brigar entre si. Uma arena dos mortos! Um campeonato!
Hades não pôde deixar de rir e mesmo que contido, o riso foi sincero. Bebericou o vinho de sua taça, analisando-o por um longo tempo e resolvendo deixar a taça onde a encontrou. Passava a impressão de que às vezes estava ali, às vezes não. A mente ia e voltava de longas viagens pelo palácio de sua memória. Absolutamente tudo sobre Hades era intrigante, hora sensato, hora fora de si. Ele demorou longos minutos para responder Ares, mas para ele não passaram de segundos. Seu tempo era diferente, mais lento.
— Não se apresse querido sobrinho. — Respondeu vagarosamente — Eles não são o tipo de carne que costumamos espetar, há mais veneno naquelas cobras raras. — Dizia com a naturalidade de quem discute o café da manhã. – E não se irrite por eu dizer para se acalmar. Sei que quando a hora certa chegar, seus dias serão de pura glória… Quem sabe. — Deixou a última parte flutuar no ar, como se propusesse uma incógnita a si mesmo.
A lentidão na resposta do tio o deixou impaciente. Ares se levantou, serviu-se de mais bebida e tomou um grande gole sem tirar os olhos luminescentes dele. Mesmo conhecendo Hades, ainda esperava alguma resposta entusiasmada. Alguma coisa mais para ‘Sim, vamos lá atormentá-los e lembrá-los de que isso é o INFERNO’, mas é claro que as coisas não foram bem assim. O mais novo apenas levantou uma sobrancelha loura, então deu de ombros.
— Que seja, que seja… O inferno é seu, tio. As regras são suas.
Mas a última parte das palavras de Hades ficaram no ar e fugiram à compreensão do sobrinho. Ares piscou algumas vezes, franziu o cenho.
— O senhor sabe que paciência não é uma de minhas maiores virtudes, tio. Mas não é como se eu pudesse fazer algo a respeito. Se o desobedecer, serei chutado daqui e isso certamente não está entre meus desejos… E quanto à Glória, bem… Só posso torcer para que esteja certo. Seja lá do que estiver falando.
— Ares, tenha certeza de que se algum dia você for chutado de meus domínios, terá feito algo extremamente grave e estúpido além de minha compreensão.
Ares sorriu ante aquela afirmação. Com tranquilidade e afeto, sim, porque sabia que havia pelo menos UM deus em que poderia confiar, fora sua irmã e aliada Eris. Acenou para Hades, mas mais uma vez foi impedido de agradecer pelo seu orgulho.
Correu os olhos pela sala, como se tivesse acabado de se situar.
— Diga-me Ares… Conheces a sala na última torre deste castelo? Já esteve lá alguma vez? — Ele perguntou finalmente deixando os olhos inquietos pairarem sobre o rosto do sobrinho.
— Eu estive em muitas salas de seu castelo. Mas a última torre não conheço. — Respondeu, inclinando o rosto, verdadeiramente intrigado por aquela súbita mudança. — Pelo menos não que me lembre, o que há lá?
— Eu costumo dizer que é sala da reflexão. – Hades se levantou, caminhando na direção do sobrinho ligeiramente mais alto. Passou por ele fazendo sinal para que o seguisse. – Já vi o mais humilde dos camponeses se ajoelhar e implorar por perdão dentro daquela sala. Vi os mais sábios deuses descobrirem o que realmente são e chorarem lágrimas de sangue. – O Deus dizia num tom calmo, como quem fala sobre o tempo do lado de fora da janela.
Hades fez um sinal para que seu sobrinho seguisse e ele assim o fez, silencioso feito um grande felino que se move entre as folhagens da savana, olhos atentos prestando atenção em cada detalhe enquanto seus ouvidos guardavam cada palavra. Seguiram por longos corredores em meio às sombras misteriosas e inquietantes, Ares chegou a pensar que tivessem passado pelo mesmo cruzamento duas vezes, mas algo no fundo de sua mente lembrou-o de que aquele lugar — ou ao menos parte dele- era muito conhecido.
Subiram as intermináveis escadas até o último andar do enorme castelo. Os passos leves de Hades davam a impressão de que ele flutuava sobre o carpete negro que cobria os degraus. A escada acabava em um corredor comprido pelo qual a luz não se atrevia passar.
Hades continuou caminhando da direção das trevas, sentindo as sombras o abraçarem como se sentissem sua falta. O Deus não precisava enxergar, a total falta de luz não o atrapalhava em nada, estava acostumado com a mais profunda escuridão. A atmosfera ali era diferente, pesada a ponto de ser esmagadora. O ar era sufocante, as paredes pareciam se fechar em volta do que consideravam um intruso. Era como se o peso de todas as almas do Inferno estivesse sobre aquele lugar. Parou ao que parecia ser o fim do corredor e então ouviu-se o clique de uma maçaneta e uma porta foi aberta. Ele deu passagem para o sobrinho e então entrou na sala, fechando a porta. O recinto era iluminado por chamas azuis que pareciam sair de lugar nenhum. Em oposição à porta, havia um enorme espelho que cobria toda a parede.
Hades não ousou olhar para seu reflexo. Embora soubesse que Ares só poderia ver o que ele realmente refletia, se lhe desse permissão, ele não conseguia olhar.
— A maldição nesse espelho é um presente de Chronos. – Pronunciou o nome do pai com desdém palpável .– Ele mostra o que você realmente é. Aquilo que escondemos no mais profundo de nossas almas. O pior de nós. Reflete a própria alma, nua exatamente como ela é.
O Deus dos Mortos olhou para Ares, sem subir os olhos para o espelho.
“O que você vê, Ares?”
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Um pequeno Deus-menino de cabelos louros cacheados, vestido em seda branca e ouro buscou abrigo do ódio de seu pai naqueles mesmos corredores muitas eras atrás. Encolhido feito um carneirinho no canto de uma fria parede, o Deus-menino foi encontrado por seu tio… Uma mão branca e firme surgiu da escuridão espessa, estendida tão somente para ajudá-lo. A mesma voz mansa e profunda falando algo tranquilizador… Fazendo Ares sentir-se seguro pela primeira vez em sua vida fora dos braços da mãe.
Lembrava-se de parte daqueles corredores, mas não da escadaria. Na verdade, não fazia ideia de que o lugar era tão extenso. E a medida em que avançavam sombras adentro, as chamas do Espírito da Guerra pareciam mais oprimidas em seu peito, mais enclausuradas sob a força implacável da mórbida escuridão… Aquele era o reino de Hades, e nele o Deus dos Mortos era Onipotente. Seguiu-o sem medo algum, até que chegaram à sala com o espelho.
Não olhou de cara, ainda um pouco cego pelas sombras. Levou alguns minutos para acostumar-se ao ambiente. Na mente do Deus da Guerra ainda muitas perguntas sem resposta.
— Um espelho? Não compreendo, por que me trouxe aqui? — Olhava para o tio, divisando sua forma nas sombras refletindo as fracas chamas azuis. O que Hades queria consigo? E no que um ‘Presente’ do famigerado Chronos poderia ajudar na revolta contra o Pai do Olimpo? Ares ouviu o que o tio disse, parou por um instante e percebeu que aquele era um convite a olhar diretamente para sua reflexão…
Aproximou-se então, pés calçados em sandálias de tiras pisando cuidadosamente o chão de pedra. Olhos luminescentes refletindo a luz, e então ele viu alguma coisa.
“… Eu Vejo…” Um ser de sangue, deformado e gigantesco, rindo com seus dentes amolados e enormes, borbulhando, deliciando-se na carnificina da guerra gratuita. O espírito do assassinato que mata indiscriminadamente apenas por matar, a sede de morte insaciável e eterna girando rios de sangue como um moinho ou uma roda. Garras e corpos dilacerados, um monstro, um demônio. Não era glorioso nem belo, e Sua circunspecção trouxe a Ares uma perturbação tão profunda que o Deus estremeceu ante a Maldade que havia naquele reflexo.
Risos e gargantas cortadas.
“Este… Este sou eu…?” Ergueu uma mão em defesa, e o monstro escarlate fez a mesma coisa. O estômago do Deus da Guerra revirou e ele caiu de joelhos achando que ia vomitar. Começou a tossir, lágrimas pularam de seus olhos e uma voz dentro de sua mente começou a repetir ‘salve aquelas pessoas, salve aquelas pessoas’. — Eu-Eu não Sou assim! Este não Sou Eu!”
Furioso.
A RAIVA corroeu sua razão e Ares ergueu-se, punhos cerrados para destruir aquele maldito espelho. Um rugido furioso e o chão estremeceu, as paredes racharam e o teto soltou poeira, Ares ergueu-se para destruir aquilo, tal criatura não deveria JAMAIS existir. “ESTE NÃO SOU EU! Não Sou Eu… Não Sou Eu…”
Foi quando seu reflexo mudou… O sangue desapareceu, e os risos, e o mal.
O demônio deu lugar a um rosto masculino. Pele e ouro, uma coroa brilhante pairando majestosamente sobre sua cabeça. Cabelos encaracolados e um olhar tão manso e quase tão triste quanto o do próprio Senhor do Inferno. Olhos de águas profundas. Aquele era o rosto da guerra, mas não como Ares a imaginou até hoje.
A guerra por igualdade, guerra por direitos. Guerra por liberdade. Guerra por justiça. Guerra que transforma crianças em mulheres e homens, que prova o espírito e enobrece o ser. Este é o verdadeiro rosto de Ares.
O Senhor da Guerra… Ele despertou de seu transe com mãos e joelhos apoiados no chão, sentindo olhos e nariz gotejarem salgado. Não respondeu à pergunta de seu tio, não houve palavras para isso. Ele tremia, arranhando o chão. Confuso… Deslumbrado. Chorando.
Notas finais
Espero que tenham gostado! Estou sempre aberta para críticas.
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