A arte da Guerra
2 Mentor
Notas iniciais

Hades sabia do efeito catastrófico que aquilo poderia causar. Poderia deixar Ares completamente louco a ponto de condenar todo o mundo à destruição total; poderia deixar o rapaz catatônico, recluso em sua própria mente. Mas precisava arriscar. Precisava que Ares levasse o choque que possivelmente definiria o resto de sua existência.
O Deus dos Mortos confiava nas habilidades e na astúcia de Ares, confiava nele com sua vida. Mas o que estava por vir seria muito mais do que qualquer guerra que já haviam participado e Hades preferia ver o sobrinho louco a vê-lo morto.
Podia ver a reação do Senhor da Guerra, mas embora tenha olhado para o espelho, não viu nada além do que restava de sua alma. Ares não queria que ele o visse, mas Hades não se importava com isso, afinal não tinha a intensão de expor o Deus, mesmo que o tivesse como um filho, não invadiria sua privacidade dessa maneira.
Sendo assim, o Deus dos Mortos deixou que Ares esvaísse sua ira e observou seu momento de aparente fraqueza e então se aproximou, baixando o olhar para evitar o próprio reflexo e apoiou a mão sobre o ombro do sobrinho, permanecendo calado.
Esperava com todas as forças que lhe restavam, que Ares se erguesse com uma nova visão de tudo, que suas ideias fossem mais claras e que sua determinação não tivesse mudado. Não havia o que dizer, ele apenas mantinha os olhos fixos no Deus, esperando a maré de emoções se esvair.
Era a primeira vez que chorava. Não se lembrava da ultima vez que havia sentido o gosto salgado e amargo de lágrimas em sua boca. O som distante da risada daquele demônio vermelho ainda ecoava distante, misturado ao som de cavalos de guerra, bigas e carros de combate. Mas nem mesmo o horror daquela visão foi suficiente para sobrepujar a imagem majestosa que veio a seguir.
Porque esse tempo todo Ares havia feito as perguntas erradas. Agindo como um lunático tão somente para provar que Zeus era incapaz de dar origem a um príncipe perfeito… Mas estava errado, errado o tempo todo. Porque esse príncipe existia. E esse príncipe era ele.
A mão de Hades o trouxe de volta dos devaneios, e o sobrinho ajoelhado diante do espelho se voltou para trás, encarando aqueles intrigantes olhos azuis com uma mistura inédita de tristeza, calma e obstinação.
— … Eu me fiz a pergunta errada todos esses anos, meu tio. — Disse, as lágrimas queimando e vaporizando ante o calor crescente de seu cosmo. — Sempre Me perguntei quem eu sou… Mas o que é a guerra não é a pergunta correta. A guerra é o que é… A pergunta é: Por que guerreamos? — E Ares sabia a resposta. Sabia agora. Cobriu a mão de Hades com a sua e levantou, fitando o tio diretamente. — … Eu não posso agradece-lo o suficiente, meu tio.
Hades respirou fundo, quase um suspiro de alívio ao ver que no final das contas, Ares parecia bem. Deixou o sinal de um sorriso se perceber em seus lábios, baixando o olhar em seguida, ainda confrontado por seu próprio reflexo no espelho atrás do sobrinho.
— Fico feliz que tenha compreendido a razão disso, meu caro. — A sinceridade raras vezes era tão explícita na voz do Deus dos Mortos. Respirou fundo novamente, mudando a expressão inexplicavelmente rápido. Parecia sentir uma dor que não era física.
Ele passou os dedos longos e finos pelos cabelos de Ares e encostou a testa na dele, num gesto de agradecimento. – Seja quem você nasceu para ser e não o que foi moldado.
Dito isso, se afastou ainda com o olhar baixo, agradecendo por ter conseguido um efeito positivo na primeira tentativa. Afinal, entrar naquela sala e olhar para seu reflexo era torturante por demais.
Sensatez era algo poucas vezes visto no Deus do frenesi de guerra. E até este dia Ares nunca imaginou que poderia encarar o universo com olhos diferentes daqueles que tinha desde sua tenra juventude, muitos milhares de anos atrás no alvorecer da humanidade.
Fúria e revolta foram o combustível de sua divindade até hoje, exatamente como o monstro de sangue refletido no espelho. Girando rios de sangue, rindo ao som de tambores de guerra e afundando vidas na escravidão… Mas hoje algo aconteceu. E ele viu que havia mais do que raiva em si, mais que o ódio assassino que alimentou por Zeus todo esse tempo.
Sua mente divina estava ainda confusa e perdida. Tantas coisas sobre si mesmo que ele até então desconhecia, tantas possibilidades. Pode a guerra ser boa? Positiva, construtiva. Quando o assassinato se torna algo bom?
Quando se defende alguém amado. Quando vidas são salvas em retorno.
Isso tudo era tão confuso. Ares sentia-se como se conhecesse um novo Deus. Hades o trouxe para perto, tocaram as testas uma na outra e Carnificina pediu em sua mente que ao menos uma pequena fração da sabedoria do Rei dos Mortos pudesse ser passada para si. Afastaram-se e Ares o fitou com olhos madrepérola luminosos naquela escuridão.
— Eu não compreendo tantas coisas, meu tio… Sinto-me estúpido e pequeno, é como se tudo que tivesse feito até o dia de hoje tivesse sido vão. — Um suspiro quente. — Preciso de direções.
Hades os tirou daquela sala que o fazia se sentir observado e perseguido. Só de pensar no lugar, estavam nele. Uma praia na Grécia, lugar deveras frequentado pelo Deus dos Mortos, especialmente quando precisava pensar ou ficar longe de tudo. O mar se estendia até onde a vista alcançava, o cais de madeira polida era longo e como se tivesse sido preparado para a visita dos Olimpianos, nenhum humano caminhava aos arredores.
O Deus dos Mortos caminhava lentamente com os braços para trás do corpo, o vento bagunçava os cabelos longos e pretos. Ele demorou certo tempo para falar, como se escolhesse as palavras, embora soubesse que não precisava medi-las na presença de Ares. Estava apenas perdido em seus pensamentos.
— Não quero que sinta que eu te joguei nisso e te deixarei afundar sozinho. – Falou calmamente. – Não sei o que viu naquele espelho, Ares, mas imagino que tenha sido algo que vai ocupar sua mente por algum tempo. Vai poder contar comigo para tudo, filho. O que precisar saber, eu lhe direi, o que quiser perguntar, será respondido. Se quiser apenas se trancar em um dos quartos do castelo e gritar ou destruir tudo, será bem-vindo.
Ele fez uma breve pausa, inspirando o vento salgado que soprava do mar. O sol não era forte, estava agradável para uma caminhada.
— Não lhe mostrei o espelho para que se arrependesse de tudo o que fez na vida, embora eu saiba que uma das consequências de ver — seja lá o que viu — seja questionar sua inteira existência. Fiz isso para que você saiba exatamente quem você é, para que nada possa lhe pegar desprevenido ou algo seja usado para lhe ferir. Quero que se conheça melhor do que qualquer um. Não se envergonhe de tudo o que fez. Em todas essas eras, aprendeu sobre o sofrimento e a miséria, a malícia os homens e todo o resto que você já deve estar cansado de saber. – Soltou a frase com certo humor, voltando ao tom compassivo em seguida.
— Estarei sempre aqui para você, meu caro.
Ares estava pensativo. Na verdade, pode-se dizer que ele estava chocado por ouvir o que seriam quem sabe as palavras mais gentis que lhe foram dirigidas em milênios. Ninguém jamais se referiu ao príncipe do Olimpo com tamanha amizade e respeito, como se soubesse exatamente o que se passava dentro da mente da divindade em suas camadas mais profundas e ocultas.
Ele era um Deus jovem se comparado a Hades, mas sentia com ele uma identificação tão íntima que era como se fossem verdadeiramente pai e filho ali. E Carnificina não conhecia esse tipo de relacionamento senão pelos sentimentos de mágoa e rancor que o tornaram o Deus violento e inconsequente pelo que era conhecido. Mas Hades… Hades ia muito além disso. Ele não falava com o Deus-Demônio, e sim com o menino-Deus que encontrou certa vez encolhido num dos cantos de seu castelo. Fazia o Senhor da Guerra pensar em quantas coisas terríveis Hades passou durante todo esse tempo sem ter com quem conversar, a quem recorrer. Sem um pai e rejeitado pelo próprio irmão… Tanto sofrimento, e mesmo assim nunca derramou uma única lágrima, nunca ergueu a voz mais do que um sussurro.
Ares compreendia agora por que Guerra e Morte andam tão juntas.
— Não posso mudar o que aconteceu. — Respondeu, acompanhando seu tio pela belíssima praia paradisíaca. Seus pés calçados em botas de couro afundavam na areia fofinha e branca. Ares andava com os braços dos lados do corpo, punhos sempre cerrados. Dando passadas largas e confiantes. — Mas quem sabe algum dia eu possa deixar de ser o que sou… O que Me tornei. — Havia um tom velado de lamentação em sua voz. Ares olhou para o Deus de cabelos negros e disse finalmente: — Meu tio sabe que pode confiar em mim, eu não irei mais embora, não abandonarei mais o Olimpo nem darei as costas aos nossos irmãos. Nem a ti… Saiba que eu também estarei sempre aqui para o senhor. — Ele não sabia como dizer, mas gostaria que Hades falasse de si mesmo. Como pediria tal coisa sem soar invasivo ou exigente? Ares não levava muito jeito para relacionamentos mais próximos.
— Também não pode mudar o que é… — Hades respondeu calmamente. – No fundo, o que somos é o seremos pelo resto de nossa existência. Talvez haja um modo de melhorar o comportamento e as aparências, mas nada muda realmente.
Hades adorava sentir a leve brisa na pele, o calor aquecendo o corpo, o cheiro do mar… As memórias que aquelas sensações o trouxeram, voltaram como um tsunami, devastando tudo. O Deus dos Mortos parou de andar, os olhos perdidos num ponto qualquer.
Lembrou-se da infância antes do nascimento de Zeus, de quando costumava fugir com Poseidon e Hera para brincarem na praia ou na floresta. Lembrou-se dos dias em que costumava sorrir e realmente ter motivos para tal; quando ele e Hera irritavam Poseidon por fazer coroas de flores para as ninfas…
A respiração de Hades pareceu sair do controle por um instante, assim como sua expressão, vagou entre a felicidade e o terror de alguém que tem tudo arrancado num segundo. Ele respirou fundo, piscando lentamente e então voltou a caminhar como se nada tivesse acontecido, o semblante impassível.
Com o passar dos milênios, Hades havia se tornado especialista em esconder qualquer coisa que quisesse. Sua expressão era sempre indiferente, qualquer fosse a emoção que estivesse sentindo. Para os mais novos, aqueles que não conheceram Hades antes das guerras, sua vida era um grande mistério e por isso muitos o julgavam mal, mas ele não fazia questão de provar que eram opiniões equivocadas. Ele apenas ouvia os rumores e se fechava cada vez mais para o mundo. Não confiava em ninguém, especialmente depois da traição do próprio irmão que o enviou aos confins do mundo, privando-o de tudo.
— Não tema o que fez ou o que isso fez você se tornar. Temor é a porta aberta que seus inimigos precisam. Qualquer sinal de arrependimento por qualquer ato em sua vida o levará a morte em algum momento, só bastará um inimigo à altura e esse tal é seu Pai.
Hades notava a curiosidade nos olhos de Ares, percebia que ele queria saber mais, queria entender e talvez até ajudar, mas era uma fraqueza que Hades não se permitia demonstrar. Havia construído um personagem que todos imaginavam e o mantinha sempre. Não se lembrava da última vez em que havia tirado a máscara para alguém.
Mas talvez Ares fosse capaz de fazê-lo despir-se.
Um inimigo à altura.
Seu Pai.
A família mais poderosa do universo, amaldiçoada por si mesma a destruir-se continuamente por toda a eternidade. Filhos que matam pais, mães que invejam filhas. Irmãos rivais que brigam feito cães loucos por uma herança que não virá nunca. Houve uma época em que Ares não acreditou ser capaz de derrotar o pai. Foram os tempos da Grécia clássica, Era de heróis e reis poderosos. Tempos de Troia e do cavalo de madeira. Tempos em que Ares agia como uma criança para tentar conquistar a atenção de Zeus.
Tolice… Tudo tolice.
Ele desapareceu do Olimpo pouco depois da queda de Troia. Envergonhado e furioso, sedento do sangue do próprio progenitor e alimentando brasas inextinguíveis de vingança dentro de seu espírito. Ares queria matar Zeus há muito, muito tempo. Em um duelo limpo, queria provar que a coroa dos trovões cabia melhor noutra cabeça que não a de Zeus nem Athena. Talvez nem na de Ares mesmo, só o que Carnificina queria era matá-lo. Somente isso. Hades talvez corresse certo risco por incentivá-lo desta maneira. Ares nunca foi conhecido por ser um Deus estável e temperado, pelo contrário, era considerado sábio não confiar nele. Mas justamente por ter recebido tal voto de confiança, Ares jurou a si mesmo que jamais trairia suas promessas a Hades.
Parou ao lado do Tio na beira da praia e ficou a observá-lo em silencio. Ares nunca esteve tão calmo como hoje. Viu que as feições Dele mudaram, mas não disse nada. Esperou por seu mentor para continuar a caminhada e assim seguiu ao lado dele. Olhos furta cor fitavam-no de lado vez ou outra, absorvendo tudo o que podia, aprendendo com Hades o máximo possível. Ares sentia-se um bárbaro ali, um bruto que pela primeira vez é apresentado à civilização. Queria falar, mas sentia-se desajeitado demais para começar. O que dizer?
— Então o senhor ainda é o mesmo de muito tempo atrás, meu tio? As coisas que dizem a seu respeito– Que é cruel e mau com os mortos, são todas mentiras. O senhor não é cruel. “Eu sou, completou mentalmente.” — Onde esconde sua raiva? Eu sei lidar com a raiva, com a ira. Sei o que é querer pendurar cabeças em espetos. Mas não vejo nada disso no senhor, nenhum desses desejos… Onde você os esconde? Como consegue ser tão… Tão calmo?
Era difícil sequer entender o que significava que alguém estivesse interessado em saber como era antes de tudo. Tantos milênios haviam se passado, que Hades precisava se esforçar para lembrar-se do que era antes de se tornar a criatura sem emoções que encarnava.
Ele conseguia se lembrar de muitas coisas, de momentos e sentimentos, mas jamais havia colocado em prática falar sobre eles. Tudo o que conseguia pensar, era se conseguiria fazer Ares sobreviver àquilo tudo sem acabar como ele…
Quebrado. Vazio.
Hades se limitou a deixar que o esboço de um sorriso se desenhasse em seus lábios finos, baixando o rosto brevemente.
— Receio que as circunstâncias tenham obrigado que eu me tornasse algo completamente diferente, Ares… Eu não sinto mais ódio, consigo apenas sentir pena de todos os que atentaram contra mim por alguma razão.
Ele olhou para o céu púrpura acima de suas cabeças, marcado pelos últimos resquícios do sol que se punha no horizonte. Por um momento, pareceu achar graça do que pensava, mas a expressão continuava a mesma.
— Sei que gostaria de entender, meu caro. Mas o que pode digerir agora, é que eu instruo você, pelo fato de que sou suficientemente destruído por dentro, para não conseguir lidar com a maioria das coisas que existe fora dos muros de meus domínios…
A brisa marinha trazia um cheiro salgado marcante, agitando os cabelos e as vestes dos dois deuses que pisavam na areia, mas não deixavam pegadas. A jaqueta vermelha de Ares agitava-se nas pontas, sem muita elegância. Mas as vestes de seu tio davam a ele uma aparência ainda mais fantasmagórica e sobrenatural, e o sorriso sutil conferia-lhe um aspecto tão plácido e perigoso quanto a superfície daquelas águas profundas.
Ares não se atreveu interromper seu silêncio, nem encher o espaço com inúmeras perguntas. Era impaciente e de espírito agitado, Seu desejo era subir aos céus e abrir o peito de Zeus com as próprias unhas, puni-lo pela maneira como tratava aqueles que lhe eram iguais… Mas verbalizar este desejo para Hades não adiantaria muita coisa. Hades não é como Éris, nem como Enio ou Heitor. Ares deveria ser, ou tentar ser, o mais paciente possível.
— O ódio sempre foi aquilo que me deu forças para continuar vivo. — Respondeu, lançando o olhar sobre as encrespadas ondas marinhas que vinham arrebentar um pouco adiante. — A raiva, a vontade de mudar tudo. Virar aquele lugar de ponta cabeça e destruir todos aqueles que concordam com o sistema do pai. A começar por ele mesmo.- Havia chamas em suas palavras. — Não sei como conseguiu se desfazer de um sentimento tão forte. E na verdade, acredito que ainda o sinta… Mas de alguma outra maneira. O senhor transformou seu ódio em alguma outra coisa… E se essa outra coisa servir a mim também, eu… — Fez uma pausa. — Estou disposto a aprender. Farei tudo que for necessário, meu tio, para livrar nosso povo da tirania.
— Sei que imaginar batalhas e o final de tudo isso é emocionante, meu caro. Eu já o fiz muitas vezes. Mas no final das contas, nada disso será glorioso.
Hades fez uma pausa, sem conseguir evitar pensar se Ares estaria o analisando de alguma forma. Temia que alguém o conhecesse por completo, afinal quem se aproximaria de um louco?
— Apesar do que Zeus se tornou, ele ainda é um de nós. Não deve sentir raiva por suas ações, e sim pena por ele ter sido fraco e cedido à tentação de ser desta forma. Não deve tornar-se como Zeus, filho. – O Deus dos Mortos falava com paciência e calma – Ele acabou por se tornar como seus antecessores. Essa é a maldição que ronda a coroa.
Hades parou, virando-se para Ares e olhando no fundo de seus olhos, como se varresse sua alma e descobrisse todos seus segredos.
— Não deixe que a sede por sangue e vingança o consuma. Ou tudo o que teremos é um novo Zeus, assim como Zeus é um novo Chronos e como Chonos foi um novo Urano. Enquanto tiver a visão de que Zeus é apenas alguém que deve ser morto ou pagar pelo que fez, não estará pronto para tirá-lo do trono.
Ares ouvia seu tio com atenção muda. Olhando-o nos olhos sempre, sobrancelhas louras um tanto franzidas dando ao Deus da Guerra uma complexão introspectiva e grave. Poucas vezes antes em sua vida prestara atenção com tanto cuidado nas palavras de outro Deus, e também poucas vezes antes se esforçou tanto para achar sentido nelas.
E há sentido nas palavras de um louco? O que era Ares então senão outro louco, buscando aprender com ele?
Porque Ares só entendia a guerra por si mesma, a destruição crua, o machado que cai sobre o inimigo, sangue jorrando e gritos de vitória e derrota misturados. Foi por esse sentimento maior que o ódio que Ares viveu até aqui. E de repente descobria, através do espelho e de seu tio, que tudo aquilo não passava de um sentimento… Vão?
O jovem deus de cabelos dourados e ombros largos evitava transparecer sua inquietação diante de tudo aquilo, mãos nos bolsos da calça jeans, botas afundando na areia, mas sem deixar marcas… Hades parecia tão calmo. E ao mesmo tempo, por algum motivo misterioso, profundamente perturbado. Restava apenas a Ares cogitar os motivos de seu sofrimento.
— Eu ouvi as histórias de Chronos e Urano na infância… Mas me foram contadas como lendas apenas para enaltecer o heroísmo do pai. Admito que por muito tempo não acreditei em nenhuma delas realmente, até o dia em que descobri odiar o pai como talvez ele tenha odiado o pai dele… — Falava em tom grave. Piscou devagar, aproximou-se do tio. — Se a resposta para vencê-lo é ter pena dele, meu tio… Admito que estou muito distante de estar preparado… Por favor…Por favor. Ensine-me a não odiar aqueles que nos fizeram tanto mal.”
— Neste caso, meu caro… Eu sinto que o desapontarei. — Hades segurou os pulsos atrás das costas novamente. — Não conheço a resposta para derrubar Zeus, ou do contrário eu já teria feito isso. Tudo o que posso fazer é instrui-lo para que não seja derrotado.
Hades respirou fundo, pensando em como poderia fazer Ares acreditar que aquele realmente era o caminho certo, quando até mesmo para ele era difícil manter a calma na presença do irmão mais novo. O Deus dos Mortos sabia que o sobrinho só poderia ter alguma chance se deixasse de acreditar que apenas a raiva e o ódio o ajudariam.
— Ares, não posso lhe dizer que é algo simples e que eu coloco em prática com muita facilidade… Até mesmo para mim é difícil não atentar contra Zeus quando sou obrigado a me encontrar com ele, mas você precisará tentar enxergar algo além do ódio que nutre por ele, mas jamais descarte esse sentimento, pois é ele quem faz a chama de sua vida continuar acesa.
Ele sentia que suas palavras não eram tão facilmente compreendidas, suas ideias eram complexas até mesmo para ele. Alguns ideais talvez não estivessem claros em sua mente e ensiná-los a Ares seria um desafio para o Deus dos Mortos.
— Aprenda a usar seu ódio como um aliado, nutrindo quando necessário, mas sem deixar que isso o guie. Trilhe seu caminho visando melhorar o que está errado, pois foi por cair na estrada do ódio puro que todos os Reis afundaram em desgraça.
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