A alma que herdou a si mesma.

9 9 - A Estrada Pede Olhos


O Salão de Pedra Velha era um dos poucos lugares de Tamragiri onde até os ecos pareciam disciplinados.


Escavado diretamente na rocha do vale muito antes do nascimento de Durik, suas paredes eram formadas por enormes blocos de granito polido que pareciam crescer naturalmente do chão. Colunas espessas sustentavam um teto alto, ornamentado por relevos representando os grandes feitos da história anã. Não havia ouro em excesso, nem tapeçarias exuberantes, tampouco esculturas feitas apenas para demonstrar riqueza.


Tudo ali possuía um propósito.


Até mesmo a beleza.


Os relevos serviam para ensinar.


As inscrições gravadas na pedra registravam datas importantes.


As colunas eram largas porque sustentavam parte da montanha.


Nada existia apenas para impressionar.


Era exatamente o tipo de lugar que um anão admiraria.


Durik também admirava.


Mas, naquela manhã, mal prestava atenção ao salão.


Seu olhar passava pelos rostos dos dez anciões sentados diante dele.


Homens e mulheres.


Barbas longas ou cuidadosamente aparadas.


Roupas simples, mas impecavelmente confeccionadas.


Nenhuma coroa.


Nenhum trono.


Cada um ocupava um assento praticamente idêntico ao dos demais.


Ali não havia um rei.


Havia um conselho.


E aqueles dez anões não estavam ali porque nasceram em famílias importantes.


Estavam porque, em algum momento de suas longas vidas, haviam contribuído mais do que qualquer outro para o crescimento do povo anão.


Era esse o único requisito.


Contribuição.


Durik respeitava profundamente aquilo.


Talvez por isso soubesse, antes mesmo de a reunião começar, que teria trabalho para convencê-los.


A anciã Varkana foi a primeira a falar.


Mesmo aposentada havia anos do comando de Dwarapala, sua voz continuava firme como quando comandava soldados.


— Durik, filho de Harad.


— Anciã.


Ela fez um pequeno gesto com a mão.


— Seu pedido foi analisado.


Durik manteve a postura relaxada.


Durante os primeiros anos naquela vida, aprendera rapidamente que os anões desconfiavam de exageros.


Uma continência rígida demais parecia teatro.


Uma postura largada demais parecia desrespeito.


Com o tempo aprendera que, para eles, confiança era construída pela naturalidade.


— Imagino que sim.


Borun, mestre dos armazéns de Tamragiri, soltou um resmungo.


— Ele ainda consegue responder como se já soubesse a conclusão.


Durik sorriu discretamente.


— Trabalho com relatórios há sete anos.


— E?


— Depois de algum tempo aprendemos a reconhecer um relatório antes mesmo de ele ser lido.


Alguns dos anciões trocaram olhares.


Thargrim soltou uma risada baixa.


— Continue.


Durik assentiu.


— Pelo silêncio de todos quando entrei... pela ausência de qualquer documento sobre a mesa para assinatura... e pelo fato de eu estar diante dos dez anciões, imagino que pretendam negar meu pedido.


Borun cruzou os braços.


— Pelo menos você continua observador.


— Espero continuar por muitos anos.


Varkana finalmente pegou uma pequena placa de bronze.


— Você solicita afastamento temporário de Dwarapala para atuar em campo durante cinco ciclos de rota, com autoridade comercial e administrativa representando Tamragiri.


— Sim.


— O Conselho considera esse pedido inadequado.


Durik não respondeu imediatamente.


Apenas esperou.


Aprendera outra coisa vivendo entre os anões.


Silêncio fazia parte das conversas.


Não precisava ser preenchido.


Varkana continuou.


— Não porque o pedido seja absurdo.


— Mas?


— Porque você é mais útil onde está.


A resposta veio de Borun.


Sem rodeios.


Como era seu costume.


— Você reorganizou três sistemas de registro. Reduziu desperdícios de mantimentos. Padronizou relatórios comerciais. Criou classificações para cargas estratégicas. Melhorou o acompanhamento de ferramentas militares. Encontrou desvios de bronze antes que se transformassem em prejuízo para o reino. Você aumentou significativamente a eficiência de Dwarapala.


Borun apoiou as mãos sobre a mesa.


— Você é um recurso valioso demais para sair da montanha.


Durik ouviu tudo sem interromper.


Quando Borun terminou, apenas perguntou:


— Posso responder?


Varkana fez um gesto afirmativo.


— Sempre.


Durik respirou devagar.


Não pretendia vencer uma discussão.


Pretendia convencê-los.


Havia aprendido isso em mais de uma vida.


Um professor não mudava a opinião de um aluno esmagando-o com uma resposta.


Uma curandeira não acalmava uma mãe assustada recitando certezas.


Um bom oficial não arrancava a verdade de um mercador apenas chamando-o de mentiroso.


Pessoas chegavam melhor às respostas quando eram guiadas até elas.


Olhou para os dez.


— Antes de responder... posso fazer algumas perguntas ao Conselho?


Borun arqueou uma sobrancelha.


— Está invertendo a reunião?


— Apenas tentando explicar meu ponto de vista.


Mairva, a mais velha entre eles, assentiu.


— Pergunte.


Durik caminhou lentamente até o centro do salão.


Não havia pressa.


— Quantos dos senhores atravessaram pessoalmente o Passo Oeste nos últimos dez anos?


Varkana ergueu a mão.


Depois dela, apenas outro ancião.


Dois.


Durik fez um pequeno aceno.


— Quantos acompanharam uma caravana inteira, do início ao fim, durante esse mesmo período?


Dessa vez apenas Varkana permaneceu com a mão levantada.


— Quantos conversaram pessoalmente com comerciantes humanos neste último ciclo?


Nenhuma mão.


Borun respondeu antes.


— Temos oficiais para isso.


Durik sorriu.


— Sim. Eu sou um deles.


O silêncio voltou ao salão.


Não um silêncio desconfortável.


Um silêncio atento.


— Não faço essas perguntas por desrespeito. Na verdade, eu também nunca fiz essas coisas por tempo suficiente. Foi justamente isso que começou a me incomodar.


Thargrim apoiou os cotovelos nos joelhos.


Interessado.


— Continue.


— Durante anos achei que bons registros bastavam. Peso. Quantidade. Origem. Destino. Taxa. Perdas. Tudo organizado. Tudo catalogado. Tudo extremamente útil.


Ele tocou a própria tábua de anotações.


— Mas um relatório conta apenas aquilo que alguém decidiu escrever. As pessoas contam muito mais.


Mairva perguntou calmamente:


— O que um homem pode contar que um relatório não conte?


Durik sorriu.


Gostava daquela pergunta.


Não porque tivesse uma resposta pronta.


Mas porque era o tipo de pergunta que levava alguém a pensar.


— Posso responder com outra pergunta?


Borun soltou um longo suspiro.


— Claro... já esperávamos.


Alguns dos anciões sorriram discretamente.


Durik apontou para uma das colunas do salão.


— Quanto pesa essa coluna?


Borun respondeu imediatamente:


— Aproximadamente cento e vinte toneladas.


— Excelente.


Durik assentiu.


— Agora me diga... quem a construiu?


Borun permaneceu em silêncio.


Outro ancião respondeu:


— Não sabemos.


— Exatamente.


Durik voltou a olhar para todos.


— O número nos diz quanto ela suporta. Mas não nos diz por que foi construída. Quem teve a ideia. Quantos morreram durante a obra. Quanto tempo levou. Quais erros quase fizeram tudo desabar. Os relatórios são assim. Eles contam o que aconteceu. As pessoas contam por que aconteceu. E, muitas vezes, o “porquê” vale mais do que o “o quê”.


Thargrim abriu um sorriso discreto.


— Você conduz uma conversa como quem prefere fazer os outros chegarem à resposta.


Durik sorriu de volta.


— Descobri há muito tempo que as pessoas raramente mudam de ideia porque alguém disse que estavam erradas. Mudam quando encontram a resposta por conta própria.


Borun o observou com olhos estreitos.


— Isso é útil com mercadores?


— Mais do que ameaças. Embora ameaças também tenham seu lugar.


Varkana quase sorriu.


Quase.


Durik continuou.


— Mercadores diferentes descrevem as mesmas regiões. Povos diferentes falam dos mesmos conflitos. Rotas distintas apontam para as mesmas mudanças. Separadamente parecem coincidências. Juntas... começam a formar padrões.


Borun cruzou novamente os braços.


— Está falando das suas “Observações Complementares”.


— Sim.


— Da região dos homens-leão.


— Entre outras.


— Da escravidão.


Durik assentiu.


— Também.


Borun respirou fundo.


— Você tem uma antipatia incomum por esse comércio.


Durik sustentou o olhar do ancião.


— Gostaria que fosse uma antipatia comum.


— Não respondeu.


Durik permaneceu alguns segundos em silêncio.


Depois respondeu com calma.


— Porque nunca vi uma sociedade baseada em escravidão permanecer pequena. Ela cresce. Precisa de mais pessoas. Depois de mais terras. Depois de mais guerras. Depois de mais escravos. É um ciclo que se alimenta sozinho. Mesmo que deixemos a moral de lado... é um problema logístico. Um problema militar. Um problema comercial. Um problema para qualquer povo que pretenda existir durante séculos.


Os anciões trocaram olhares.


Era um argumento que fazia sentido para eles.


Porque não começava pela emoção.


Começava pela estabilidade.


E estabilidade era quase uma religião entre os anões.


Foi então que Thargrim falou novamente.


Sua voz era mais baixa que a dos demais.


Mas quando ele falava, ninguém interrompia.


— Durik. Você sabe por que muitos de nós acreditamos que um dia poderá ocupar um destes assentos?


O jovem anão não respondeu.


— Porque você pensa décadas à frente. Não dias. Nem anos. Décadas. E isso é raro. Mesmo entre nós.


Thargrim sorriu.


— Se permanecer aqui... tenho poucas dúvidas de que, quando minha barba voltar à pedra... será você quem ocupará meu lugar.


Durik permaneceu imóvel.


Aquilo não era um elogio.


Era uma oferta de futuro.


Talvez o maior reconhecimento que um anão pudesse receber.


Harad provavelmente nunca imaginara ouvir algo assim sobre o filho.


Miri choraria de orgulho.


Durante alguns segundos, Durik imaginou essa vida.


Continuar em Dwarapala.


Melhorar registros.


Reformar estradas.


Entrar para o Conselho.


Envelhecer entre aqueles homens e mulheres.


Era uma boa vida.


Uma vida tranquila.


Uma vida útil.


Uma vida que fazia sentido.


Mas então outra lembrança veio.


Não sangue.


Não gritos.


Não morte.


Ninsu.


Sentada ao lado de Sahira, esmagando ervas medicinais enquanto as duas riam de alguma história sem importância.


A felicidade era tão simples naquela lembrança.


E mesmo assim acabara.


Durik respirou profundamente.


Olhou diretamente para Thargrim.


— Ancião... se um dia eu merecer sentar neste salão, quero merecer porque conheço o mundo. Não porque passei minha vida imaginando como ele é.


Thargrim não pareceu ofendido.


Pareceu triste.


— Lá fora há febres que não conhecemos. Passos que caem. Povos que não respeitam placas de autorização. Mercadores que vendem informação falsa. Senhores tribais que acham anões pequenos o bastante para serem testados.


— Por isso pedi escolta.


— Escolta pode morrer.


— É um risco que acho valer a pena correr, pelo conhecimento que podemos ganhar.


Varkana inclinou a cabeça.


— Essa resposta é jovem.


Durik aceitou a crítica.


— Talvez. Mas não é impensada.


Borun bufou.


— Você fala de morrer como se fosse detalhe.


Durik segurou a resposta por um segundo.


Porque poderia dizer demais.


Porque morrer não era detalhe.


Morrer era o único padrão estável de sua existência.


Mas eles não sabiam disso.


— Morrer é falha permanente de planejamento — disse por fim. — Justamente por isso prefiro planejar e evitar morrer.


Mairva tocou uma placa com a unha.


— E se negarmos?


Durik esperava a pergunta.


Mesmo assim, sentiu o peso dela.


— Então pedirei dispensa ao fim do ciclo.


O salão ficou completamente silencioso.


Borun descruzou os braços.


Varkana não piscou.


Thargrim fechou os olhos por meio segundo.


— Você ameaçaria abandonar seu posto? — perguntou Borun.


— Não ameaço. Informo.


— Isso é chantagem.


— Não. Chantagem seria exigir algo injusto. Quero fazer em nome da montanha o que farei sozinho se a montanha se recusar.


— Você sairia sem autoridade?


— Sim.


— Sem escolta?


— Se necessário.


— Sem proteção legal?


— Se me obrigarem.


Varkana falou baixo:


— Isso seria estupidez.


— Concordo.


— Ainda assim faria?


— Sim.


— Por quê?


Durik demorou a responder.


Não podia dizer: porque talvez minha vida anterior tenha morrido em uma região que vocês chamam de rota comercial.


Não podia dizer: porque precisava saber se seus mortos continuaram existindo depois que ele partiu.


Não podia dizer: porque talvez não estivesse pulando entre mundos.


Então disse a verdade possível.


— Porque algumas perguntas ficam mais perigosas quanto mais tempo são ignoradas.


Mairva estreitou os olhos.


— Isso é resposta de sacerdote.


— Cresci perto de uma mulher que sabia ouvir feridas antes que apodrecessem.


Outra frase perigosa.


Mas verdadeira o bastante para soar como metáfora.


Durik continuou:


— Aru-Samat não é apenas um nome em relatório. É uma mudança de peso nas rotas. Clãs fugindo. Preços subindo. Ferramentas sumindo. Intermediários comprando bronze para quem não quer aparecer. Se eu estiver errado, volto com mapas melhores e histórias úteis. Se estiver certo, teremos visto antes dos outros.


Borun olhou para ele como se ainda quisesse trancá-lo no arquivo.


— Você entende que, se for como encarregado da nação, suas palavras terão peso — disse Thargrim.


— Sim.


— Seus erros também.


— Sim.


— Se insultar um chefe tribal, não será Durik insultando. Será Dwarapala.


— Então escolherei melhor minhas palavras do que escolhi hoje.


Borun ergueu uma sobrancelha.


— Isso foi uma admissão?


— De que posso melhorar? Sempre.


Mairva soltou um som baixo de aprovação.


Varkana assumiu novamente.


— Se negociar mal, prejudicará rotas.


— Negociarei devagar.


— Se for capturado?


— Minha escolta terá ordens de impedir. E eu terei ordens de não facilitar.


— Você trata perigo como problema resolvível.


Durik balançou a cabeça.


— Não. Trato perigo como problema que piora quando fingimos não vê-lo.


Varkana sustentou o olhar por alguns segundos.


Talvez tenha entendido algo.


Não tudo.


Mas algo.


— Você não quer ir por curiosidade.


— Também por curiosidade — admitiu Durik. — Curiosidade não é defeito. Só não é meu único motivo.


Thargrim sorriu.


— Essa resposta foi melhor.


— Estou aprendendo durante a reunião.


Borun resmungou:


— Ótimo. Agora ele evolui enquanto fala.


Dessa vez, Durik sorriu de verdade.


Pouco.


Mas sorriu.


A tensão no salão diminuiu um grau.


Mairva se recostou.


— O pedido original era de cinco ciclos de rota. Negado.


Durik sentiu o estômago afundar.


Ela continuou:


— Dois ciclos.


Borun virou-se para ela.


— Mairva.


— Dois ciclos — repetiu ela. — Escolta de seis. Autoridade limitada a inspeção, registro, pedágio, condição de rota e negociação de passagem. Sem tratados. Sem promessas militares. Sem compra ou venda de escravos sob selo anão. Sem intervenção em conflitos locais sem autorização de superior presente.


Durik não respondeu de imediato.


Era menos do que queria.


Mas mais do que tinham intenção de dar.


— Aceito.


Borun apontou para ele.


— Ainda não terminamos.


— Então aceito a parte que já gostei.


Thargrim riu baixo.


Mairva balançou a cabeça, mas havia sombra de humor nos olhos.


— Relatórios completos ao retornar.


— Terão mais páginas do que desejam.


— Isso já esperávamos.


— Quero permissão para manter cópias pessoais das observações não estratégicas.


Os anciões se entreolharam.


Thargrim perguntou:


— Por quê?


— Comparação futura.


— Futura como?


Durik pensou em vidas.


Pensou em anos que talvez não fossem seus.


Pensou em rastros que ainda não sabia que começaria a deixar.


— Longa.


Mairva soltou um som baixo.


— Anão.


Durik inclinou a cabeça.


— Tento ser.


Varkana apontou para ele.


— Você parte no próximo ciclo de abertura do passo oeste. Antes disso, treinará com a escolta designada. Aprenderá nomes, línguas comerciais básicas, sinais de rendição, insultos que não deve usar e quais alimentos externos provavelmente tentarão matá-lo.


— Sim, comandante.


— Não sou mais sua comandante.


— Uma vez comandante, sempre comandante.


Ela pareceu satisfeita, embora jamais admitisse.


Thargrim levantou-se com dificuldade. O salão inteiro pareceu ajustar-se ao movimento dele.


— Durik, filho de Harad, o Conselho concede designação de campo limitada, sob selo de Dwarapala e supervisão de Tamragiri. Você irá como olhos da montanha.


Durik levou o punho ao peito.


— Voltarei com o que eles virem.


Thargrim desceu um degrau da plataforma e se aproximou o bastante para falar mais baixo.


— E se encontrar o que realmente está procurando?


Durik ficou em silêncio.


Thargrim o encarou.


— Todos os anões guardam uma pedra escondida no peito. A sua é mais antiga do que você.


Por um instante, Durik não soube o que dizer.


Então respondeu:


— Se eu encontrar, tentarei entender antes de registrar.


Thargrim sorriu.


— Melhor. Menos mentira.


Durik quase riu.


— Estou aprendendo.


Quando deixou o Salão de Pedra Velha, não sentiu vitória.


Sentiu peso.


A estrada que pedira agora existia.


Com autorização.


Com escolta.


Com selo da montanha.


Não era mais apenas uma ideia guardada em uma caixa de relatórios.


Era rota.


Data.


Dever.


Do lado de fora, o ar de Tamragiri estava úmido e frio. Névoa corria entre as construções como se a cidade respirasse pelas pedras. Ao longe, martelos batiam em alguma oficina. Em algum lugar, talvez Harad estivesse trabalhando. Talvez Miri estivesse reclamando com ele por bater metal tarde demais.


Durik olhou para o oeste.


Para além das muralhas.


Para além de Dwarapala.


Para além das rotas conhecidas.


Ninsu não estava lá.


Não literalmente.


Talvez nunca tivesse estado.


Talvez tudo fosse apenas coincidência acumulada sobre trauma.


Mas agora ele poderia descobrir.


Antes, porém, precisava se preparar.


Treinar.


Organizar.


Escolher cada palavra que levaria para fora da montanha.


A estrada podia matar bons anões.


Mas a ignorância, Durik começava a entender, também matava.


Só demorava mais para aparecer nos registros.


Antes de voltar para Dwarapala, Durik foi para casa.


A oficina de Harad ainda estava acesa quando chegou.


Claro que estava.


O pai dizia que uma forja apagada antes da noite era sinal de doença, luto ou preguiça. Como Harad não admitia nenhuma das três sem testemunhas confiáveis, o fogo continuava vivo.


Miri foi quem o viu primeiro.


Estava do lado de fora, sacudindo um tecido grosso tomado por pó de pedra, quando parou no meio do movimento.


— Você está com cara de quem venceu uma discussão e perdeu a tranquilidade.


Durik soltou uma respiração curta, quase um riso.


— Dois ciclos de rota.


Miri ficou imóvel.


A voz de Harad veio de dentro da oficina.


— O quê?


Durik entrou.


O pai estava diante da bigorna, martelo em uma mão, pinça na outra, uma peça de bronze ainda rubra entre as brasas. Olhou para o filho como se tivesse ouvido um defeito no som do metal.


— O Conselho aprovou — disse Durik. — Designação de campo limitada. Escolta de seis. Autoridade de Dwarapala e supervisão de Tamragiri.


Harad encarou-o.


Depois colocou a peça de volta no fogo com cuidado excessivo.


— Dois ciclos fora da montanha.


— Sim.


— Indo para o oeste.


— Primeiro para o oeste. Depois para o sul, conforme a rota permitir.


Miri entrou atrás dele, mais silenciosa do que costumava ser.


— Você pediu isso.


Não era pergunta.


Durik assentiu.


— Pedi.


Harad tirou as luvas devagar.


— E se eu disser que é uma ideia ruim?


— Eu diria que o Conselho concordou com você por quase toda a reunião.


— Anciões sensatos.


— No fim, concordaram comigo.


— Então a idade não protege ninguém da burrice.


Miri deu um tapa leve no braço do marido.


— Harad.


— O quê? Chamei o Conselho de burro, não nosso filho.


— Isso não melhora.


Durik sorriu.


Sentiu o peso da reunião diminuir um pouco.


Era estranho.


Diante do Conselho, conseguira sustentar cada palavra.


Diante dos pais, a mesma decisão parecia mais difícil de carregar.


— Eu não vou sozinho — disse. — E não vou como aventureiro. Vou com selo, autorização, escolta e limites claros.


Harad apontou para ele.


— Limites claros não impedem flechas.


— Armadura ajuda.


— Flechas ruins encontram frestas boas.


— Por isso vou treinar antes de partir.


Miri cruzou os braços.


— Você está tentando nos tranquilizar ou listar modos de morrer com preparação adequada?


Durik abriu a boca.


Fechou.


— A segunda coisa sem querer.


Harad soltou uma risada baixa apesar de si mesmo.


Miri não riu.


Aproximou-se e tocou o rosto do filho com as duas mãos. Mesmo adulto, mesmo anão feito, mesmo oficial, Durik percebeu que para ela ainda havia algo do bebê que nascera sob pedra e névoa.


— Você procura alguma coisa — disse ela.


Durik ficou quieto.


Harad também.


O fogo estalou na forja.


— Não apenas rotas — continuou Miri. — Não apenas comércio. Você fala disso como trabalho, mas seus olhos ficam como ficavam quando acordava pequeno, antes de lembrar onde estava.


Durik sentiu a garganta apertar.


Não estava preparado para aquilo.


Conselhos eram mais fáceis.


Relatórios eram mais fáceis.


Até mercadores mentirosos eram mais fáceis.


— Eu preciso entender algumas coisas — disse.


Miri esperou.


Ele não continuou.


Ela aceitou o silêncio, mas não o soltou completamente.


— Então entenda. Mas volte.


Harad grunhiu.


— E volte inteiro.


— Farei o possível.


— Resposta fraca.


— É a mais honesta.


O pai pegou alguma coisa de uma prateleira próxima. Uma pequena faca de bronze, curta, simples, de cabo escuro. Não era arma de guerra. Era ferramenta. Uma lâmina de trabalho, boa para cortar corda, couro, tecido, comida ou, se necessário, pele.


Harad a entregou ao filho.


— Fiz quando você tinha doze anos. Ia te dar quando assumisse a forja.


Durik olhou para a faca.


— Pai...


— Não está assumindo a forja. Mas ainda sabe respeitar uma ferramenta.


Durik fechou os dedos ao redor do cabo.


A lembrança de uma lâmina de pedra atravessou-o por um instante.


Pequena.


Desesperada.


Sangrenta.


Esta era diferente.


Feita por mãos que o amavam.


— Obrigado.


Harad desviou o olhar.


— Não perca.


— Não vou.


— Não venda.


— Também não.


— E não use para abrir jarro de betume. Isso estraga fio.


Miri fechou os olhos.


— Harad.


— Isso é importante.


Durik riu.


Dessa vez, riu de verdade.


Pouco depois, sentou-se com eles para comer. Falou da reunião. Não de tudo, mas do suficiente. Contou que Varkana ainda tratava ordens como marteladas. Que Borun queria trancá-lo no arquivo. Que Thargrim havia percebido mais do que deveria. Harad xingou Borun por princípio. Miri defendeu Thargrim por intuição.


Por algum tempo, a viagem deixou de ser presságio e virou assunto de família.


O que levar.


Que botas usar.


Quais alimentos evitar.


Como reconhecer febre de planície.


Que tipo de mercador sorria demais.


Quando enfim se levantou para partir, Miri o abraçou primeiro.


Harad esperou.


Depois colocou uma mão pesada em seu ombro.


— A montanha não corre atrás de filho teimoso.


— Eu sei.


— Mas deixa caminho marcado para ele voltar.


Durik assentiu.


— Eu volto.


Saiu da casa com a faca presa ao cinto e o cheiro da forja ainda grudado na roupa.


Do lado de fora, Tamragiri respirava névoa.


Durik olhou uma última vez para a luz da oficina.


Depois seguiu para Dwarapala.


Ainda havia relatórios a organizar.


Homens a escolher.


Línguas a estudar.


Rotas a comparar.


E, agora, uma promessa a cumprir.

Notas finais
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