Aos vinte e cinco anos, Durik finalmente tinha uma vida que fazia sentido.


Não perfeita.


Não fácil.


Mas compreensível.


Isso, por si só, já era uma novidade.


A primeira vida havia sido curta demais para fazer sentido. Doze anos de infância, aldeia, doença e morte. Ele mal tivera tempo de entender onde estava antes de tudo acabar.


A vida como Ninsu fora diferente.


Mais longa.


Mais profunda.


Mais real.


Mas terminara em sangue, fogo e ódio.


Agora havia Dwarapala.


Havia pedra sob os pés.


Havia muralhas.


Havia horários.


Havia relatórios.


Havia deveres que começavam ao nascer do sol e terminavam apenas quando o último registro era conferido.


Durik gostava disso mais do que admitia.


Rotina não era prisão.


Não para ele.


Rotina era uma cerca ao redor do caos.


E depois de duas mortes curtas e uma vida despedaçada pela violência, uma cerca ao redor do caos parecia quase luxo.


O trabalho de logística comercial não tinha glória.


Ninguém cantava sobre anões que contavam fardos.


Nenhuma criança brincava de ser o oficial que corrigia taxas, conferia peso de estanho, verificava qualidade de couro, registrava atraso de caravanas ou comparava nomes de mercadores com listas antigas.


Mas Dwarapala dependia disso.


Uma fortaleza não sobrevivia apenas com muralhas.


Muralhas sem comida eram túmulos altos.


Muralhas sem ferramentas eram pedras esperando rachaduras.


Muralhas sem registros eram portas abertas para mentiras.


Durik aprendera isso rápido.


E aprendera a gostar.


Pela manhã, conferia entradas.


À tarde, revisava cargas estratégicas.


À noite, atualizava relatórios enviados a Tamragiri.


Entre uma tarefa e outra, ouvia.


Ouvia mais do que falava.


Mercadores falavam muito.


Humanos, principalmente.


Falavam para convencer.


Falavam para distrair.


Falavam para esconder números ruins.


Falavam para parecer mais importantes do que eram.


Homens-fera falavam de outro modo. Alguns eram diretos, especialmente bovinos. Outros mediam cada palavra, principalmente lobos. Os felinos, dependendo do clã, alternavam silêncio e arrogância com uma naturalidade irritante.


Durik registrava tudo.


Não por desconfiança apenas.


Por hábito.


Nome.


Origem.


Carga.


Destino.


Taxa.


Atrasos.


Perdas.


Informações secundárias.


O último item era sua contribuição pessoal.


No modelo antigo, os escribas anotavam mercadorias e valores.


Durik acrescentara observações.


Clima nas rotas.


Condição de pontes.


Rumores de conflito.


Mudanças em preços.


Presença de doenças.


Movimento incomum de tribos.


Brumal, seu antigo sargento, chamava aquilo de “fofoca com números”.


A comandante chamava de “irritante”.


O Conselho, aparentemente, chamava de útil.


Foi por causa dessas observações que Durik estava presente quando o comerciante chegou.


O homem era humano.


Meia-idade, pele castigada pelo sol, barba mal cortada e olhos de quem media salas como se todas fossem mercados. Trazia peles, betume, resina seca e uma pequena quantidade de sal em sacos bem fechados. A caravana não era grande, mas vinha de longe.


Do sul.


Mais precisamente, das rotas quentes que desciam para além das planícies humanas e tocavam as terras dos homens-fera.


Durik o recebeu no salão de pesagem de Dwarapala, uma construção larga, parcialmente escavada na rocha, onde o ar cheirava a couro, poeira, suor, metal frio e tinta mineral.


— Nome — disse Durik.


O comerciante sorriu.


— Varran, filho de Tesh.


— Origem.


— Três cidades, dependendo de quem pergunta.


Durik ergueu os olhos da placa.


O sorriso do comerciante diminuiu.


— Zamad, ao sul das terras secas.


Durik anotou.


— Carga.


— Peles de cabra, antílope e felino menor. Betume em oito jarros. Resina em cinco. Sal em três sacos. E informação, se o preço for justo.


— Informação não entra sem forma.


— Sempre entra. Só não pesa.


Durik olhou para ele.


O homem suspirou.


— Peles, betume, resina, sal.


— Melhor.


A negociação seguiu normal.


Pesagem.


Taxa.


Verificação de qualidade.


Discussão sobre perda de carga em estrada.


Protesto do comerciante.


Correção do protesto.


Novo cálculo.


Mais protesto.


Ameaça educada de inspeção total.


Silêncio.


Assinatura.


Tudo como sempre.


Foi quando um dos assistentes anões comentou que as peles felinas estavam mais caras que no ciclo anterior.


Varran soltou uma risada curta.


— Vão ficar mais.


Durik não levantou os olhos.


— Por quê?


— Os homens-leão do sul continuam expandindo.


A mão de Durik parou.


A ponta do estilete ficou imóvel sobre a argila úmida.


O salão continuou ao redor.


Um anão empurrou uma balança.


Um humano reclamou de taxa em outra mesa.


Alguém tossiu.


Um jarro foi aberto para inspeção.


Nada mudou.


Exceto Durik.


— Expandindo para onde? — perguntou.


A voz saiu calma.


Boa.


Varran pareceu satisfeito por ter atenção.


— Oeste e norte, pelo que ouvi. Tomaram clãs menores. Felinos pequenos, lobos do deserto, alguns bovinos das terras baixas. Estão formando algo parecido com reino, se é que homens-fera conseguem manter um rei sem morder a própria cauda.


Um dos anões próximos riu.


Durik não riu.


— Reino?


— É o que dizem.


— Nome?


— Depende da língua. Os humanos da rota chamam de Aru-Samat. Os felinos chamam de outra coisa, mais difícil de pronunciar sem parecer que está engasgando.


Durik anotou.


Aru-Samat.


Não conhecia o nome.


Ainda assim, algo se moveu dentro dele.


Um desconforto antigo.


— Comércio?


— Muito.


— Com quem?


— Quem tiver coragem. Eles pagam bem por ferramentas.


— Ferramentas?


— Lâminas, correntes, grampos, cinzéis ruins, machados, pontas de lança. Bronze, se conseguirem. Cobre serve. Pedra boa, se não houver metal.


Durik sentiu a nuca enrijecer.


Correntes.


— E o que oferecem?


Varran deu de ombros.


— Peles. Marfim. Betume. Sal. Às vezes escravos.


O mundo não parou.


Essa foi a parte estranha.


Ninguém no salão congelou.


Ninguém gritou.


Ninguém golpeou o comerciante.


Ninguém sequer pareceu particularmente interessado.


Escravos eram uma palavra feia, mas não desconhecida. Alguns povos comerciavam. Outros fingiam não comerciar. Alguns anões condenavam. Outros separavam moral de contrato com uma facilidade que Durik sempre achara conveniente demais.


Para os demais, aquela frase era informação comercial.


Para Durik, era outra coisa.


"Sahira no chão.


Nala desaparecendo na fumaça.


O pai de Ninsu ajoelhado.


Rostos de homens-leão.


A lâmina de pedra.


Eu vou lembrar."


Lembrou.


Por um instante, a mão dele apertou o estilete com força demais.


A ponta quebrou.


Varran olhou para a argila.


— Problema?


Durik encarou o pedaço quebrado entre os dedos.


Respirou.


Uma vez.


Duas.


— Ferramenta velha.


Pegou outro estilete.


— Continue.


O comerciante continuou.


Falou de rotas.


Falou de preços.


Falou de clãs menores fugindo.


Falou de guerreiros-leão usando intermediários humanos para comprar metal, porque alguns postos se recusavam a negociar diretamente com escravistas.


Falou com a leveza de quem comentava clima.


Durik anotou.


Tudo.


Quando a negociação terminou, Varran saiu satisfeito.


Os jarros foram lacrados.


As peles encaminhadas ao depósito.


O sal registrado.


O betume marcado como item de interesse para o Conselho.


E a vida seguiu.


Durik ficou sentado por alguns momentos, olhando para a placa de argila.


Homens-leão.


Clãs menores.


Escravos.


Sul.


Expansão.


Aru-Samat.


Estranho.


Foi tudo que pensou.


Estranho.


Não concluiu que era o mesmo mundo.


Não concluiu que Ninsu fora real naquele lugar.


Não concluiu nada.


Vários mundos poderiam ter homens-fera.


Vários mundos poderiam ter homens-leão.


Vários mundos poderiam ser cruéis.


A existência de coincidência não era prova de conexão.


Raphael, o professor, ainda existia o bastante dentro dele para saber disso.


Uma hipótese não era conclusão.


Então fez o que um bom anão faria.


Arquivou.


Não na memória apenas.


Na placa.


Na cópia.


No relatório.


E seguiu trabalhando.


Os anos seguintes não giraram ao redor daquela frase.


Isso era importante.


Durik não se tornou obcecado.


Não acordava pensando em homens-leão.


Não dormia repetindo Aru-Samat como uma oração.


Tinha trabalho.


Tinha dever.


Tinha patrulhas comerciais.


Tinha auditorias de carga.


Tinha relatórios para superiores que achavam qualquer observação acima de três linhas uma forma de agressão pessoal.


A vida continuava.


E, pela primeira vez, continuava por tempo suficiente para se acumular.


Aos vinte e seis, Durik reorganizou o sistema de marcação de cargas perecíveis, reduzindo perdas de comida em caravanas internas.


Aos vinte e sete, propôs que ferramentas destinadas a postos externos fossem registradas não apenas por peso, mas por função. Cinzéis, lâminas, grampos, pregos, pontas, correntes. Isso permitia rastrear melhor o que desaparecia nas rotas.


Aos vinte e oito, foi chamado de “irritantemente necessário” por um oficial de Tamragiri.


Considerou elogio.


Mas as coincidências continuaram aparecendo.


Pequenas.


Espaçadas.


Nunca suficientes sozinhas.


Um mercador lobo mencionou que clãs guepardos estavam abandonando antigas rotas.


Um carregador bovino falou, bêbado, sobre famílias inteiras vendidas após uma derrota.


Um intermediário humano perguntou, com cuidado demais, se Dwarapala aceitava couro vindo de Aru-Samat.


Um relatório antigo, copiado por outro oficial, falava de uma “cidade nova” erguida por homens-leão próximos aos vales secos do oeste, onde escravos eram reunidos antes de seguir para diferentes mercados.


Cidade nova.


Escravidão como comércio principal.


Homens-leão.


Clãs menores.


Ferramentas.


Correntes.


Uma parte dele continuava dizendo:


Coincidência.


Outra parte respondia:


Quantas?


Aos trinta anos, Durik já não conseguia esquecer.


Ainda não era obsessão.


Era uma pedra dentro da bota.


Pequena.


Suportável.


Mas sempre presente.


Trabalhava.


Comia.


Treinava.


Escrevia.


E, em algum momento do dia, uma palavra voltava.


Aru-Samat.


Ou homens-leão.


Ou escravos.


Ou clãs menores.


Aos trinta e um, durante uma noite fria em Dwarapala, ficou sozinho no arquivo secundário, reorganizando relatórios de rotas do sul. A maioria era tediosa.


Taxa.


Carga.


Atraso.


Deslizamento.


Animal morto.


Pedágio recusado.


Depois encontrou três relatos separados sobre a mesma região.


Um mencionava homens-gato de corpo leve, bons corredores.


Outro mencionava sacerdotisas felinas ligadas a uma deusa com rosto de caça noturna.


O terceiro falava de clãs mistos — gatos, lobos e touros — unidos por medo dos leões.


Durik leu a última linha três vezes.


Clãs mistos.


Gatos.


Lobos.


Touros.


Unidos por medo dos leões.


A sala pareceu ficar menor.


Não era prova.


Ainda não.


Mas era mais do que estranho.


Ele apoiou as duas mãos na mesa.


Ninsu voltou com força.


Não no último momento.


Não no sangue.


Mas antes.


Nala rindo.


Sahira esmagando ervas.


O pai chamando as filhas de pequenas caçadoras.


Guepardos.


Lobos.


Touros.


Uma tribo pequena tentando sobreviver à sombra de homens-leão maiores.


Durik fechou os olhos.


Vários mundos podem ter histórias parecidas.


Era verdade.


Mas, pela primeira vez, a frase pareceu fraca.


Aos trinta e dois anos, tomou a decisão.


Não foi dramática.


Não houve juramento diante de fogo.


Não houve oração.


Não houve grito.


Apenas uma conclusão, formada no silêncio de uma mesa coberta de registros.


Tenho tempo.


Mais tempo do que jamais tive.


Essa era a diferença.


Na primeira vida, morrera antes de entender o mundo.


Na segunda, morrera antes de crescer.


Como Ninsu, morrera antes de poder fazer qualquer coisa além de lutar no fim.


Mas agora não.


Agora era anão.


Agora seu povo vivia mais.


Agora tinha posição.


Acesso.


Registros.


Autoridade limitada, mas real.


Pela primeira vez, podia investigar algo sem correr contra a própria morte.


Não precisava abandonar tudo.


Não precisava fazer loucura.


Não precisava convencer ninguém de uma hipótese absurda.


Precisava agir como anão.


Organizar.


Então começou.


Não uma investigação oficial.


Não ainda.


Apenas cópias.


Relatórios duplicados.


Mapas marcados.


Nomes de tribos.


Nomes de rotas.


Nomes de cidades.


Produtos ligados a Aru-Samat.


Padrões de compra.


Padrões de venda.


Ferramentas solicitadas.


Correntes.


Grilhões.


Lâminas.


Quantidades.


Intermediários humanos.


Mercadores dispostos a falar.


Mercadores dispostos a mentir.


Durik criou uma caixa própria no arquivo.


Sem título chamativo.


Sem marca suspeita.


Apenas:


Rotas do Sul — Observações Complementares.


Nenhum anão questionou.


Ele já fazia esse tipo de coisa.


Era irritantemente necessário, afinal.


Mas, pela primeira vez, Durik não estava apenas registrando para Dwarapala.


Estava registrando para si.


E começou a se preparar.


Não para fugir.


Não para uma vingança.


Não para uma missão pessoal mal explicada.


Para algo mais eficiente.


No próximo ciclo de avaliações, solicitaria trabalho de campo.


Como funcionário do reino anão.


Com escolta.


Com placas de autorização.


Com direito de negociar.


Com capacidade de falar não apenas como Durik, filho de Harad.


Mas como representante de algo maior.


Dwarapala.


Tamragiri.


O Conselho.


A montanha.


Essa diferença importava.


Ninsu havia sido uma jovem presa em uma tribo pequena.


Durik era um anão com registros, rotas, escolta e autoridade.


Não era poder suficiente para mudar o mundo.


Mas era suficiente para fazer perguntas que Ninsu nunca pôde fazer.


Naquela noite, fechou a caixa de relatórios e passou os dedos sobre a madeira.


Não sabia ainda o que procurava.


Não exatamente.


Talvez confirmação.


Talvez negação.


Talvez apenas uma resposta que permitisse dormir sem que a palavra coincidência parecesse cada vez mais mentirosa.


Apagou a lamparina.


Saiu do arquivo.


Lá fora, Dwarapala permanecia firme sob o vento frio.


Pedra.


Muralha.


Portão.


Registro.


Durik respirou fundo.


Estranho, pensou outra vez.


Mas agora a palavra tinha peso.


E, pela primeira vez, ele decidiu segui-la.

Notas finais
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