A alma que herdou a si mesma.

5 5 - Filha da Sacerdotisa


Os anos entre os cinco e os quinze passaram mais rápido do que Raphael imaginava.


Ou talvez essa fosse apenas a forma como a memória funcionava.


Quando era criança pela primeira vez, na Terra, dez anos pareciam uma eternidade.


Agora, carregando duas vidas completas dentro da cabeça, as estações pareciam correr.


Uma estação de chuvas.


Uma estação seca.


Outra estação de chuvas.


E de repente ele tinha oito anos.


Depois dez.


Depois doze.


Depois quinze.


A infância de Ninsu foi muito diferente da infância humana que vivera antes.


Primeiro porque a tribo era pequena.


Segundo porque ela era filha da sacerdotisa.


E terceiro porque ninguém esperava que ela se tornasse guerreira.


Essa função caberia a Nala.


Era quase óbvio.


As duas eram gêmeas, mas qualquer observador perceberia rapidamente a diferença.


Nala corria para o perigo.


Ninsu corria para as perguntas.


Nala queria aprender a caçar.


Ninsu queria entender por que certas ervas funcionavam melhor do que outras.


Nala queria impressionar os guerreiros.


Ninsu queria entender por que uma ferida infeccionava.


O pai dizia que elas eram duas metades erradas da mesma pessoa.


A mãe dizia que eram duas bênçãos diferentes.


Nala preferia a explicação do pai.


Ninsu suspeitava que ele também.


Aos oito anos ela começou a acompanhar Sahira durante boa parte do dia.


A sacerdotisa não era apenas uma líder espiritual.


Também era curandeira.


Parteira.


Conselheira.


Juíza em pequenas disputas.


Guardiã das tradições.


A posição exigia muito mais conhecimento do que fé.


E Ninsu adorava isso.


Ela observava tudo.


Como a mãe avaliava febres.


Como identificava desidratação.


Como reconhecia infecções.


Como limpava ferimentos.


Como preparava infusões.


Como armazenava ervas.


A maioria dos tratamentos era limitada.


O conhecimento da tribo havia sido construído por tentativa e erro durante gerações.


Mas Raphael carregava algo que ninguém ali possuía.


Mesmo sem lembrar detalhes complexos da universidade, ainda conhecia princípios.


Sabia que água fervida era mais segura.


Sabia que limpar feridas diminuía infecções.


Sabia que algumas plantas possuíam propriedades úteis.


Não sabia tudo.


Longe disso.


Mas sabia mais do que aquele mundo.


No começo, teve cuidado.


Não podia simplesmente aparecer dizendo que conhecia a resposta para tudo.


Então inventou uma explicação.


Uma simples.


Uma aceitável.


— Bast me mostrou em um sonho.


Sahira acreditou?


Provavelmente não.


Mas também não descartou.


Quando Ninsu sugeriu que água fervida fosse usada em um ferimento particularmente feio, a mãe permitiu.


O homem não morreu.


Quando sugeriu lavar as mãos antes de ajudar um parto difícil, a mãe permitiu.


A mulher sobreviveu.


Quando começou a identificar algumas plantas semelhantes a aloe vera, camomila e açafrão-da-terra, criando cataplasmas simples para reduzir inflamação e auxiliar cicatrização, os resultados apareceram.


Pouco a pouco.


Sem milagres.


Sem magia.


Mas apareciam.


Sahira nunca dizia:


— Você estava certa.


Ela dizia:


— Bast foi generosa nesse sonho.


Ninsu deixava passar.


Era mais fácil assim.


O pai, por outro lado, tinha menos interesse por ervas.


Ele queria ensinar sobrevivência.


E fazia questão de incluir as duas filhas.


Nala adorava.


Ninsu tolerava.


— Você segura a lança errado.


— Tenho nove anos.


— Exatamente. Por isso estou ensinando agora.


— Nala gosta disso.


— Nala gosta de tudo que envolve correr atrás de algo.


— E eu gosto de não morrer.


— Uma excelente razão para aprender.


O pai nunca desistia.


Nem Nala.


Os dois pareciam conspirar.


Eventualmente Ninsu aprendeu.


Não porque queria.


Porque sobreviver era útil.


Aos dez anos já conseguia usar uma lança curta.


Aos doze, um arco simples.


Aos quinze, não era uma guerreira.


Mas não era indefesa.


Nala, por outro lado, floresceu.


Virou exatamente o que todos esperavam.


Rápida.


Forte.


Corajosa.


Os guerreiros mais velhos começaram a treiná-la.


Os caçadores passaram a levá-la em expedições curtas.


O pai não escondia o orgulho.


Ninsu tentava não se importar.


Tentava mesmo.


Mas às vezes era difícil.


Porque parte dela sabia que era irracional.


Outra parte continuava sentindo.


Era ciúme.


Simples assim.


Não do amor do pai.


Nunca faltara amor.


Mas da admiração.


Da facilidade com que Nala parecia pertencer àquele mundo.


Enquanto Ninsu precisava pensar sobre tudo.


Analisar tudo.


Questionar tudo.


Nala simplesmente existia.


E era boa nisso.


Quando a irmã começou a voltar das caçadas trazendo histórias, cicatrizes e elogios, Ninsu descobriu uma emoção nova.


Ou talvez não nova.


Apenas mais forte.


Inveja.


Não uma inveja destrutiva.


Apenas aquela sensação irritante de olhar para alguém e pensar:


Por que isso parece tão fácil para você?


Curiosamente, Nala não ajudava.


Porque sempre voltava pedindo ajuda.


— Como eu trato isso?


— Com água limpa.


— Já fiz isso.


— Então pare de mexer.


— E isso?


— Também pare de mexer.


— E isso?


— Nala.


— O quê?


— Você foi mordida por um arbusto?


A irmã ria.


Sempre ria.


E continuava aparecendo com cortes, arranhões e perguntas.


No fim das contas, acabavam funcionando bem juntas.


Nala voltava quebrada.


Ninsu consertava.


Os anos seguintes trouxeram outro problema.


Um problema que Raphael jamais experimentara.


Puberdade feminina.


A primeira menstruação não foi traumática.


Foi irritante.


Extremamente irritante.


Primeiro veio o susto.


Depois a explicação da mãe.


Depois a constatação de que aquilo aconteceria regularmente.


Mas o pior não eram as cólicas.


Nem o desconforto.


Nem as limitações práticas.


O pior era perceber que seu humor podia mudar antes que ela decidisse mudá-lo.


Aquilo era revoltante.


Na vida anterior, quando ficava irritado, normalmente havia uma razão.


Agora às vezes acordava irritada.


Sem motivo.


Sem explicação.


Sem ter feito absolutamente nada.


E isso a deixava ainda mais irritada.


O primeiro ano foi o mais difícil.


Porque demorou para perceber o padrão.


Demorou para reconhecer que certas emoções não estavam necessariamente ligadas ao que acontecia ao redor.


Com o tempo aprendeu.


Não a controlar completamente.


Mas a reconhecer.


A dizer para si mesma:


Não é Nala.


Não é mamãe.


Não é papai.


Não é o mundo.


Você só está irritada.


A descoberta ajudou.


Muito.


Ainda ficava irritada.


Mas parou de descontar nos outros.


O que já era uma vitória.


Outro problema surgiu quase ao mesmo tempo.


Machos.


Raphael jamais teve de lidar com homens interessados nele.


A experiência era estranha.


Muito estranha.


Principalmente porque Ninsu era considerada bonita pelos padrões da tribo.


Filha da sacerdotisa.


Inteligente.


Saudável.


Com traços felinos considerados atraentes.


Isso atraía atenção.


Atenção demais.


Alguns jovens tentavam impressioná-la.


Outros traziam presentes.


Outros inventavam desculpas para aparecer perto das ervas medicinais.


Ninsu não fazia ideia do que fazer com aquilo.


Porque, mentalmente, ainda carregava décadas de experiência como homem.


Quando um rapaz nervoso aparecia tentando impressioná-la, sua reação instintiva era analisá-lo como analisaria um colega de trabalho.


O que obviamente não ajudava.


A situação piorava porque Nala parecia achar tudo hilário.


— Ele gosta de você.


— Eu percebi.


— Então por que você falou sobre infecções intestinais?


— Porque ele perguntou sobre água.


— Ele não perguntou sobre água.


— Perguntou.


— Não daquele jeito.


Ninsu suspirou.


— Vocês são exaustivos.


— Não. Você é estranha.


Talvez fosse.


Mas não conseguia evitar.


Ainda estava aprendendo.


Aprendendo a ser mulher.


Aprendendo a ser Ninsu.


Aprendendo a viver uma vida completamente diferente da anterior.


E pela primeira vez desde que acordara naquele mundo, começou a perceber algo importante.


Ela não estava apenas sobrevivendo.


Estava mudando.


Não apenas por fora.


Por dentro também.


As memórias de Raphael continuavam ali.


Sempre estariam.


Mas já não eram a única coisa.


Ninsu também existia.


Com seus próprios sentimentos.


Seus próprios medos.


Seus próprios desejos.


Suas próprias relações.


E pela primeira vez aquilo a assustou um pouco.


Porque significava que talvez estivesse se tornando alguém novo.


Não substituindo Raphael.


Mas crescendo ao lado dele.


Como duas vidas ocupando a mesma alma.


Quando completou quinze anos, observando Nala treinar com os guerreiros enquanto Sahira organizava ervas para o próximo ciclo de chuvas, Ninsu percebeu que estava feliz.


Não completamente.


Nunca completamente.


Mas feliz.


Tinha uma família.


Uma irmã.


Uma tribo.


Um lugar.


Pela primeira vez desde sua morte na Terra, sentia que talvez pudesse construir algo duradouro.


Não sabia que a vida tinha outros planos.

Notas finais
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