A alma que herdou a si mesma.
4 4 - Dois Corações Outra Vez
A morte continuava desagradável.
Essa foi a primeira conclusão que Raphael teve quando voltou a existir.
A segunda foi que ela claramente não funcionava do jeito que deveria.
Não havia céu.
Não havia inferno.
Não havia julgamento.
Não havia sequer surpresa.
Quando a consciência retornou, ele simplesmente soube.
Outra vez.
A sensação era diferente da primeira reencarnação.
Da primeira vez havia existido confusão.
Pânico.
Tentativas desesperadas de entender o que estava acontecendo.
Agora não.
Agora havia reconhecimento.
A escuridão.
A ausência de corpo.
A estranha sensação de existir sem realmente existir.
Ele já conhecia aquilo.
Então esperou.
Não porque soubesse exatamente o que aconteceria.
Mas porque sabia que alguma coisa aconteceria.
E aconteceu.
Primeiro veio a sensação de estar envolvido.
Calor.
Pressão.
Proteção.
Uma fronteira ao redor de si.
Como se estivesse mergulhado em água morna.
Raphael teria suspirado, se tivesse pulmões.
Em vez disso, apenas pensou.
Estou de volta.
A ideia era absurda.
Ainda mais absurda do que na primeira vez.
Porque agora havia uma pergunta nova.
Por quê?
Ele lembrava de tudo.
Do Texas.
Da universidade.
Da mãe.
Do carro.
Da tribo humana.
Da infância.
Da cobra.
Da febre.
De cada detalhe importante.
Aquilo não fazia sentido.
Memórias deveriam desaparecer.
Pelo menos era o que ele acreditava.
Mesmo que existisse alguma forma de vida após a morte, por que continuava sendo ele?
Por que ainda lembrava?
Por que não virava outra pessoa?
Por que não começava do zero?
Nenhuma resposta veio.
Então ele observou.
Como sempre.
Passou um tempo impossível de medir.
Então ouviu o primeiro coração.
Tum.
Tum.
Tum.
Tum.
Regular.
Familiar.
Raphael quase sorriu.
Aquilo já não o assustava.
Sabia o que significava.
Ou pelo menos acreditava saber.
Então ouviu o segundo.
Mais distante.
Mais lento.
Tum.
Tum.
Tum.
Também familiar.
Sua mente começou imediatamente a organizar as informações.
Meu coração.
O coração da mãe.
Como da outra vez.
Simples.
Resolvido.
Mas então ouviu o terceiro.
Raphael congelou.
Tum.
Tum.
Tum.
Um terceiro ritmo.
Diferente dos outros dois.
Próximo.
Muito próximo.
Por um momento, acreditou que estivesse confundindo ecos.
Depois acreditou que estivesse imaginando coisas.
Depois concluiu que não.
O terceiro coração continuava ali.
Constante.
Real.
Então uma ideia surgiu.
Uma ideia tão simples que demorou para aceitá-la.
Gêmeos?
A palavra atravessou sua mente.
Gêmeos.
Aquilo explicaria tudo.
O terceiro coração.
A proximidade.
Os movimentos ocasionais que sentia ao redor.
Outra criança.
Outro bebê.
Outra vida.
Ao lado da sua.
A descoberta trouxe uma sensação estranha.
Durante sua primeira reencarnação havia acreditado estar sozinho.
Agora não.
Havia alguém ali.
Alguém que sequer sabia que existia.
Alguém que provavelmente nunca saberia.
Sua irmã.
Ou irmão.
Ainda era impossível saber.
Então esperou.
Mais uma vez.
Os meses passaram.
Ou pelo menos Raphael acreditava que eram meses.
A percepção do tempo melhorava a cada reencarnação.
Os sons ficaram mais claros.
As vozes mais distintas.
Os movimentos mais perceptíveis.
Seu cérebro crescia.
Seu entendimento também.
E então uma diferença começou a aparecer.
As vozes não eram humanas.
Não exatamente.
Demorou para perceber.
No começo eram apenas sons.
Depois entonações.
Depois palavras.
Mas havia algo estranho.
Um ronronar suave em certos fonemas.
Uma vibração diferente.
Pequenas alterações que seu cérebro demorou a identificar.
Quando finalmente começou a entender a língua, percebeu que os sons vinham acompanhados de ruídos estranhos.
Como se os falantes possuíssem uma anatomia diferente.
Isso o intrigou.
Mas não o preocupou.
Ainda acreditava que talvez estivesse em algum povo humano isolado.
Então nasceu.
A experiência continuava horrível.
Pressão.
Movimento.
Frio.
Luz.
Dor.
Ar.
A inevitável sensação de que alguém estava tentando arrancá-lo do único lugar seguro que conhecia.
Depois veio o choro.
Instintivo.
Incontrolável.
Humilhante.
Outra vez.
Raphael odiava o fato de que nascer obrigava alguém a começar chorando.
Mas não tinha voto na questão.
Foi erguido.
Limpo parcialmente.
Enrolado em algo macio.
E então abriu os olhos.
Ou pelo menos tentou.
A visão era borrada.
Confusa.
Mas suficiente.
E o mundo parou.
Não.
Não.
Não podia ser.
A criatura que o segurava não era humana.
Tinha corpo humanoide.
Braços.
Pernas.
Mãos.
Mas também possuía pelos curtos cobrindo o corpo.
Orelhas felinas.
Olhos felinos.
Focinho.
Bigodes.
Raphael ficou imóvel.
A mulher chorava.
Falava algo.
Sorria.
Mas Raphael não a ouvia.
Porque sua mente estava presa em outra coisa.
Ela parecia saída de um filme.
Especificamente de uma lembrança distante.
Uma personagem antiga.
Capitã Amelia.
Planeta do Tesouro.
Só que real.
Viva.
Respirando.
Segurando-o.
Ele tentou olhar para si.
Levou semanas até conseguir observar direito.
Quando finalmente conseguiu, a confirmação veio.
Suas mãos.
Pequenas.
Cobertas por pelos claros.
Com garras.
Garras pequenas.
Mas garras.
Raphael passou vários dias em silêncio absoluto.
Não porque fosse incapaz de pensar.
Mas porque precisava reorganizar tudo.
Primeiro havia acreditado ter renascido no passado.
Depois acreditara estar em outro povo humano.
Agora...
Agora isso.
Pessoas-gato.
Homens-fera.
Se existiam pessoas-gato...
O que mais existia?
Magia?
Dragões?
Demônios?
Deuses caminhando pelo mundo?
A imaginação correu solta.
Pela primeira vez desde a morte, sentiu algo parecido com entusiasmo.
Talvez estivesse em um mundo fantástico.
Talvez existissem coisas incríveis.
Talvez...
Os cinco anos seguintes destruíram cuidadosamente essa teoria.
Primeiro porque não encontrou magia.
Nenhuma.
Zero.
Nada.
Nem uma única demonstração.
Nem um ritual.
Nem um milagre.
Nem uma faísca.
A mãe era sacerdotisa.
O pai era guardião da tribo.
Se magia existisse, alguém próximo deles deveria utilizá-la.
Ninguém utilizava.
As orações eram apenas orações.
Os rituais eram apenas tradições.
As bênçãos eram apenas palavras.
Segundo porque o mundo continuava absurdamente primitivo.
Pedra.
Madeira.
Osso.
Peles.
Fogo.
Outra vez.
Mais avançado que a tribo humana onde crescera.
Mas não muito.
As ferramentas continuavam rudimentares.
A sobrevivência continuava difícil.
A mortalidade infantil continuava alta.
A fome continuava existindo.
Aquilo não era um mundo de fantasia.
Era apenas um mundo diferente.
E isso talvez fosse ainda mais interessante.
Sua mãe chamava-se Sahira.
Sua irmã gêmea chamava-se Nala.
E ele...
Ou melhor.
Ela.
Chamava-se Ninsu.
Aceitar isso foi mais fácil do que esperava.
A primeira grande diferença era o corpo.
A segunda era o sexo.
Na vida anterior, fora homem.
Agora era menina.
No começo aquilo parecia estranho.
Depois deixou de parecer.
Afinal, tinha quatro anos.
Depois cinco.
A maior parte do tempo estava ocupada sendo criança.
Brincando.
Aprendendo.
Correndo.
Caindo.
Observando.
O corpo simplesmente era.
Não havia muito sentido em lutar contra isso.
Aos poucos, passou a pensar em si mesma como Ninsu quando estava naquela vida.
Raphael permanecia.
Mas Ninsu também.
As duas identidades coexistiam.
Sem conflito.
Sem guerra.
Apenas como duas camadas da mesma pessoa.
A irmã gêmea ajudou.
Nala era praticamente seu oposto.
Impulsiva.
Barulhenta.
Curiosa.
Raphael observava.
Nala agia.
Raphael pensava.
Nala corria.
Raphael analisava.
Nala escalava algo que claramente não deveria ser escalado.
Ela passava metade do tempo tentando arrastar Ninsu para problemas.
E a outra metade tentando convencê-la de que os problemas eram aventuras.
Os pais pareciam achar graça.
Principalmente o pai.
Um homem-guepardo enorme, com ombros largos e cicatrizes antigas espalhadas pelos braços.
Ele chamava as filhas de pequenas caçadoras.
Nala adorava.
Ninsu fingia não gostar.
O que fazia o pai repetir ainda mais.
A tribo era pequena.
Mas diversa.
Homens-gato.
Homens-lobo.
Homens-touro.
Viviam juntos.
Caçavam juntos.
Migravam juntos.
Raphael levou alguns anos para entender por quê.
A resposta veio em conversas entre adultos.
Em histórias contadas ao redor do fogo.
Em cicatrizes.
Em olhares.
Homens-leão.
Os grandes clãs.
Os dominadores da região.
Os caçadores de escravos.
Os inimigos.
Foi a primeira vez que ouviu falar de escravidão naquele mundo.
E não gostou.
Nem um pouco.
Porque sabia exatamente o que significava.
Ainda era apenas uma criança.
Mas começou a prestar atenção.
A ouvir.
A aprender.
A juntar informações.
Porque algo dentro dele dizia que aquilo seria importante.
Muito importante.
E talvez perigoso.
Aos cinco anos, enquanto observava o acampamento se mover sob a luz avermelhada do entardecer, chegou a uma conclusão simples.
Uma conclusão que carregava tanto alívio quanto preocupação.
Aos cinco anos, ela já tinha certeza de duas coisas.
Ela não estava morta.
E não estava na Terra.
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