A Voz do Tordo
1 Algo Perdido
Notas iniciais
Katniss e Peeta estão sentados na mesa de jantar de sua casa na antiga Vila dos Vitoriosos. Eles comem em certo silêncio que é interrompido apenas por algum comentário de Peeta sobre seu dia na padaria e pelos gansos que vagam pela calçada.
“Me encomendaram um bolo de dois andares hoje. Para um casamento. É o primeiro que faço em anos.” Peeta mexe a sopa no prato, um sorriso triste se formando no canto da boca. Quando mais jovem, era seu pai que sempre preparava esse tipo de bolo.
“Que bacana. De quem é o casamento?” pergunta Katniss, alheia às lembranças que invadem a mente do marido.
“É da filha de um ferreiro que veio do distrito 11. Acho que você já deve ter visto ela na padaria algum dia. Ela sempre compra pastéis de carne para o irmão mais novo.”
“Acho que lembro. É aquela de cabelo castanho? Olhos grandes?” Peeta assente para ela em concordância. “Estranho, não sabia que ela estava noiva. Nenhum anel.”
“Também não sabia. Acho que ela não se importa muito com esse negócio de usar anel de compromisso. Algumas pessoas não gostam dessa coisa mais tradicional. Você mesma demorou para usar sua aliança.” Peeta continua, apontando agora sua colher para Katniss enquanto sorri.
Katniss termina de engolir parte da sopa quando protesta da observação dele: “Não era porque eu não queria usar. Só tinha medo de perder quando fosse caçar ou coisa assim. Inclusive, você já perdeu a sua algumas vezes preparando massa.”
“É verdade. Mas ela está aqui, intacta apesar de tudo.” Ele levanta a mão esquerda, mostrando o dedo anelar com a aliança para provar seu ponto. Então, aponta para a mão de Katniss, que está envolvida na colher.
“E cadê a sua?” pergunta, levantando a sobrancelha, não chateado, apenas curioso.
“A minha aliança?” Katniss finalmente percebe a ausência do anel que carregava diariamente. “Ah, pensei que tivesse com ela. Devo ter esquecido no banheiro quando fui tomar banho. Voltei imunda da floresta pela manhã. Acho que tirei pra lavar o cabelo.”
“Conseguiu abater algo bom?” Peeta lhe pergunta, terminando seu jantar e afastando o prato.
“Não. Só alguns patos selvagens e uns esquilos.”
“Que pena, queria testar uma receita nova que Grease Sae me passou com carne de cervo. Mas fica pra próxima.”
“Com o inverno chegando, não tenha muita esperança.”
Algumas horas depois, eles estão no andar de cima se preparando para dormir. Peeta está no topo da cama, ajustando os travesseiros, enquanto Katniss está escovando os dentes.
“Não estou achando minha aliança. Você viu por aí?” Katniss fala, saindo do banheiro que os dois compartilham.
“Olha no box. Às vezes você deixa no cantinho perto do seu sabonete.”
“Não, não está lá. Nem na pia. Nem no armário do banheiro.” A voz dela sai abafada devido a sua cabeça estar enfiada no guarda-roupa. “E também não devolvi ao porta-joias.”
“Você deve ter tirado pra limpar a caça ou colocado no bolso da sua calça.” Peeta está sentado na cama, observando os passos frenéticos da esposa pelo quarto.
“Vou dar uma olhada lá embaixo.” Katniss sai do quarto e desce as escadas para chegar ao banheiro do primeiro andar. Ela costuma usar esse para se lavar quando chega da floresta, para só então poder tomar um banho real no de seu quarto.
Ela volta alguns minutos depois, ainda mais frenética.
“Já procurei em todos os lugares e não achei.”
“Olhou na sala? Vai que caiu entre as almofadas do sofá. Ou na bancada da cozinha.”
“Não está lá, Peeta. Eu já olhei. Revirei tudo lá embaixo.”
“Katniss, tá tudo bem. Amanhã você procura melhor. Tá tarde, vem dormir.”
“Você devia estar me ajudando. Já olhou nas suas coisas? Posso ter deixado sem querer lá. Anda, levanta, vai.”
“Não está lá. Por favor, só vamos dormir. Tô exausto.” Ele diz isso se derretendo debaixo das cobertas.
“E se eu tiver perdido na floresta? Nunca mais vou encontrar.”
“Tudo bem. Te compro outra, mais cara e extravagante, que seja impossível de perder.” Peeta a obriga a deitar na cama, puxando levemente seu braço. Ela reluta, mas acaba cedendo.
“Não é isso, Peeta. Não é sobre preço. Ela era especial.” Katniss se recosta no travesseiro com os braços sobre a barriga, com o rosto sério agora.
“Era nossa aliança de casamento. Você me deu no dia em que a gente torrou os pães na nossa sala. Não é algo substituível.”
Ele leva a mão para envolver a dela, entrelaçando seus dedos sobre os lençóis. Ele se mantém em silêncio enquanto Katniss continua.
“Por isso tinha medo de usar o tempo todo. Não queria perder. Ela me lembrava de você, sabe? Do que a gente tem.” Ela faz uma pausa. “De que isso é real.”
“Mas, independente de uma aliança em nossos dedos, isso é real, Katniss. Sempre foi.” Peeta se aproxima, descansando a cabeça junto à dela no travesseiro.
“Um anel não muda nada. É apenas um lembrete da decisão que tomamos lá atrás, em frente à lareira... Eu te amo desde que me lembro. Você poderia usar um barbante enrolado no dedo que eu ainda não ia me importar.”
Ele pontua as palavras unindo seus lábios em um beijo lento, como aqueles que eles vêm trocando nos últimos treze anos desde que voltaram ao distrito após o fim da guerra. Há promessa e esperança em cada respiração compartilhada.
“Você é muito brega às vezes.” Katniss fala quando eles se separam, passando as mãos pelos cachos loiros dele.
“Sou mesmo. Mas você adora isso. Não negue.” Ele sorri quando ela concorda, se aninhando nele.
“Não vou. Gosto de tudo em você.”
“Espero que se lembre disso quando eu te disser o que fiz há alguns dias.”
Katniss o encara, tirando o rosto que estava enfiado em seu peito. “Depende. O que você fez? Posso gostar muito de você e ainda assim ficar muito brava dependendo do que aprontou.”
“Calma. Não foi nada de ruim.” Peeta se desvencilha da esposa, se inclinando para pegar um pacote no criado-mudo.
“O que é isso?”
“Sua nova aliança de casamento. Bem, na verdade não é nova. É a antiga, mas reformada.”
“Por que você fez isso?”
“Nosso aniversário tá chegando e queria te fazer uma surpresa. Me desculpa se te fiz achar que tinha perdido ela.”
“Tem seu nome gravado nela.” diz Katniss, quando vê a marca dourada no interior da peça.
“Sim. E tem seu nome na minha.”
“Isso é adorável, Peeta. E meio cafona também.” Ela lhe dá um selinho rápido, colocando a aliança de volta.
“Acho que isso faz bem o nosso estilo. Adorável e cafona.” Eles sorriem um para o outro.
“Obrigada pela surpresa. Gostei muito. Mas eu não tenho nada para você. Pensei que ainda tivesse tempo para me planejar, já que nosso aniversário de casamento é só daqui a duas semanas.”
“Eu sei disso. Não se preocupe. Vou esperar até lá!” Eles se acomodam na cama depois que Peeta desliga o abajur. “Apesar de que você sabe que sou uma pessoa ansiosa.”
“Peeta…” Ela diz, divertida, cutucando sua costela.
“Tudo bem, tudo bem. Vá no seu tempo. Espero por você. Sempre.”
Ela não fala mais nada, apenas esconde o rosto na curva do pescoço dele, absorvendo seu cheiro de roupa limpa e sabonete.
O vento frio que entra pela janela aberta do quarto anuncia que o inverno está próximo. Porém, Katniss nunca se sentiu tão aquecida quanto agora.
A verdade é que ela tem um presente para Peeta. Um que ele vem querendo há anos. Uma surpresa que a assusta e a anima, tudo ao mesmo tempo. E ele terá que ser bem mais paciente, porque sua espera vai durar pelo menos nove meses.
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