A Volta de Gwen Stacy
1 A Culpa Foi Toda Minha
Notas iniciais
Já era tarde, chovia muito em Nova Iorque, as rosas já estão postas, assim como as margaridas e orquídeas, mas por que flores? Quem inventou essa droga de que colocar flores em um túmulo é algo positivo? Talvez não seja, as flores me lembram de morte e dor, uma dor que eu causei, eu provoquei, ela está morta, e foi por minha culpa, eu nunca mais irei me perdoar, nunca irei esquecer, o que fiz pra você, e tudo por que não fui rápido o suficiente, não fui forte o suficiente, ou ao menos esperto para prever que isso poderia acontecer, de qualquer forma, aqui estou eu, gritando, chorando debaixo da chuva, bem vestido e com meu guarda chuva cinza escuro, descanse em paz, Gwendolyn Stacy, meu amor.
Passaram-se três meses desde que ela morreu, ainda não me conformo, por que eu? Eu sempre tentei ser uma boa pessoa, ter meus poderes e responsabilidades, o capitão Stacy morreu, meu tio Ben morreu, minha amada Gwen morreu, e detalhe, ambas as mortes foram causadas por mim, pelo meu ego cretino, pela minha imensa vontade de sempre ser o melhor, é por isso que a S.H.I.E.L.D. não me quer, eu sou um infantil, o Cap. Rogers é um herói de verdade, Tony Stark é um herói de verdade, mas eu? Eu não, eu sou só um garoto que deu um azar na vida, o azar de ter sido amaldiçoado por esse inseto miserável que só me trouxe uma coisa até agora: Dor.
Olha lá, minha tia May, vindo até mim, são 4 horas da manhã agora, pra variar, é domingo, e já é 5 vez que eu acordo gritando e suando no meio da noite.
- Outro pesadelo querido? – Ela me pergunta, com aquele doce olhar cansado de ver seu sobrinho de 18 anos quase desempregado, que ainda mora na casa dela.
- Sim tia May, mas está tudo bem. – Minto, não estou nada bem, mas ela sabe.
- Eu sei – Não disse? Ela sabe de tudo. – O que aconteceu com você foi algo terrível, não pode se culpar por isso.
- Tem razão tia, a culpa é do Homem Aranha.
- Ah, eu duvido, ele tentou salvá-la, e...
Enfureço-me, sem nenhuma razão, tolo.
- ELE FALHOU, ELE FOI FRACO, UM INÚTIL.
Por que diabos eu fiz isso? Acho que acordei a vizinhança inteira, que besta quadrada que eu sou, vou me desculpar com a Tia May.
- Me des---
- Não, Peter, olha, eu entendo que esteja furioso com Deus e o mundo, mas você precisa entender, a culpa não foi sua, e não deve culpar a ninguém, eu amava a Gwen, sabe disso, era uma garota muito mais do que especial, mas veja, o Homem Aranha desapareceu, não é estranho? — Essa não – Ele deve estar acabado, deve estar se sentindo muito mal pelo erro que cometeu, e se deve culpar alguém, culpe aquela criatura horrível e monstruosa naquela maldita prancha de metal voadora. Se tiver alguém que matou Gwen, foi aquilo.
Tia May está certa, ela sempre esteve certa, me sinto bem em ter alguém como ela, não posso perder mais pessoas.
- E outra coisa Pete, a vida continua, eu perdi seu tio, e perdi seus pais, mas todos nós devemos seguir em frente. – Ela está certa outra vez, essa mulher sempre soube o que dizer.
Amanhece em Nova Iorque, que cidade linda, palco de tanta violência e hambúrgueres, mas tem lá o seu valor, acordo cedo, abro meu armário, pra variar, muito bagunçado, parece que não mexo ali há meses, é não mesmo, três meses, quando se perde alguém, essa pessoa leva embora para o túmulo dela, a sua vontade de levantar, de trabalhar, de viver, bom, acho que devo seguir o conselho da Tia May, e abrir o túmulo de Gwen, e pegar minhas expectativas de volta, claro, tudo metaforicamente. Meu quarto está cheio de fotos nossas, como ela era linda, os cabelos loiros como o sol, os olhos azuis como o céu, e a inteligência de uma bioquímica perfeita. Ela era perfeita. Reviro as caixas velhas e empoeiradas, encontro meus livros de química e física da Midtown, bons tempos, talvez eu volte lá qualquer dia e torcer pra ninguém enfiar a minha cabeça em um vaso. Encontro a caixa certa, e escuto um grito.
- Peter, desça logo, café da manhã.
Estou faminto, mas preciso fazer isso, abro a caixa, e ali está, meu velho amigo, é como se tudo se reconectasse novamente, sinto minha pele arrepiar, meu coração bate mais forte, e me lembro da excursão até a Oscorp, onde a aranha picara minha mão, foi tão rápido, eu nem ao menos notei, e depois, me lembro de minha teia não ter chegado antes em seu tórax, um ou dois segundos antes, e ela estaria aqui, do meu lado. Acho que de certa forma, a culpa foi minha sim. O uniforme está em péssimo estado, preciso lavá-lo antes de usá-lo novamente, meu Deus, o que eu faço? Lavanderia municipal? Fora de questão. Lavanderia de casa? Não, não posso usar a desculpa da bandeira outra vez, e é verdade, quem em sã consciência lavaria uma bandeira? Talvez o Capitão América, afinal, ele deve lavar o uniforme dele não é? Ah, se Gwen estivesse aqui, ela riria muito dessa piada, ela a única que ria, e minhas piadas eram muito mal contadas no começo, depois eu fui aprimorando meu sentido aranha humorístico.
- PETER, eu fiz panquecas.
Eu desço à toda a velocidade, qual nova-iorquino que não ama panquecas no café da manhã? Ou em qualquer hora do dia? Vou comer logo, tentar lavar meu uniforme e voltar a ser quem eu sou, o amigo da vizinhança, o Homem Aranha, como diria o Dream Theater, o espírito segue em frente, é uma ótima frase, talvez eu até tatue qualquer dia desses.
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