A Volta da Raposa

58 Uma Conversa Franca


Assim que deixou Zorro no quarto do Capitão, Garcia se retirou a pedido de Don Luíz, pois aquela seria uma conversa particular.

O mascarado, por sua vez, entrou no aposento e se sentou na cadeira que havia sido trazida especialmente para ele. Seu espírito já estava preparado para o tão aguardado reencontro com o Governador, mas curiosamente, seu interlocutor se manteve em silêncio. Zorro não pretendia se manifestar até ter permissão para isso, então precisou esperar, pois o homem a sua frente permaneceu calado por intermináveis quase cinco minutos, antes de dizer a primeira palavra.

Apesar de apreensivo, Zorro percebeu que talvez nem tudo estivesse perdido. Ele tinha se dado conta de que, em momento algum, lhe tinham solicitado que entregasse sua espada. Isso era bom e indicava que o Governador não temia por sua segurança, mesmo estando sozinho em sua companhia.

Zorro tinha razão, pois Don Luíz realmente não acreditava que ele pudesse fazer algo inesperado ou causar-lhe algum mal. Ele se mantinha em silêncio apenas porque ainda ponderava algumas últimas questões e também aproveitava aqueles minutos para voltar a observa-lo atentamente.

Ao olhar firmemente os olhos por detrás da máscara, o velho governador não viu medo neles, muito pelo contrário, viu bravura e segurança. “Se está preocupado, está escondendo muito bem. O miserável é corajoso, eu tenho que admitir!” – pensou, convencido de finalmente ter tomado uma resolução. Ele tinha decidido que Zorro seria o responsável por seu próprio destino. Se aquela conversa fosse realmente franca, como ele imaginava que seria, sua libertação ou prisão dependeriam apenas das respostas dadas às perguntas que lhe seriam feitas, e a hora de descobrirem isso tinha chegado.

— Vejo que não está mais deixando seu rastro de sangue pelo chão. – observou o Governador.

— É verdade. Agradeço por ter permitido que eu fosse atendido pelo médico. — disse Zorro meneando a cabeça, enquanto tocava a aba do chapéu respeitosamente. — Aquele sangue todo já estava começando a me fazer falta.

O Governador sorriu com o comentário e continuou.

— Mas diga-me, está preparado para o que o aguarda, Zorro?

— Sim, senhor. Desde o momento em que coloquei a máscara pela primeira vez, estou preparado para tudo.

— Fico feliz em saber. Então não perderemos mais tempo e vamos direto ao assunto.

— Eu agradeço. – concordou Zorro.

— Eu acredito que mesmo não estando presente à minha reunião com o Capitão Monastário, o senhor já deva ter uma ideia do que aconteceu.

— Sim, senhor. O Sargento Garcia me contou, embora eu já desconfiasse da coisa toda. Mas gostaria de pedir para que não o punisse por isso. – pediu Zorro, mantendo a promessa feita ao soldado.

— De maneira alguma. O Sargento me parece ser um bom homem. Meio atrapalhado, é verdade, mas um bom homem. Eu já imaginava que isso pudesse acontecer, quando ele me pediu para falar com você antes de trazê-lo aqui. É curioso como me surpreendo a cada instante que passo em Los Angeles... – confessou o Governador, achando graça dos próprios pensamentos. — Em qual outro lugar eu encontraria um Sargento conversando amigavelmente com o bandido responsável por quase tirar a vida de seu oficial comandante, logo depois de um duelo sangrento?

— Ah, mas isso não é mérito da cidade, e sim do humilde bandido que vos fala. – respondeu Zorro, com uma piscadela.

— Talvez você tenha razão, afinal, cá estamos nós, também conversando amigavelmente. – concordou o Governador, mas já voltando a adotar um tom mais sério. – Bem, eu ainda não sei quais serão os destinos de Monastário e Contreras, até mesmo porque, isso será a justiça quem decidirá, mas garanto que os dois não voltarão a importunar o povo de Los Angeles. Tem a minha palavra.

— Fico muito feliz em confirmar que o senhor é um homem justo e sensato.

— Por incrível que pareça, posso dizer o mesmo de você. Nunca imaginei que um dia diria isso a um fora da lei. Por isso... tomar uma decisão fica cada vez mais difícil. – disse pensativo, passando a mão pela barba já quase totalmente embranquecida pelo tempo.

— Bem, se a decisão de me condenar imediatamente não está sendo tão fácil como parecia que seria, significa que eu devo ter feito algo certo durante esses anos. – disse Zorro abrindo um sorriso. – Eu não sei tornarei sua decisão mais fácil ou mais difícil, mas gostaria de dizer algumas palavras em minha defesa, se me permitir.

— Mas é claro. É justamente por isso que estamos aqui.

— Bem, não mentirei dizendo que jamais infringi as leis, — começou Zorro olhando seriamente para o Governador. – mas minha consciência está tranquila e posso afirmar que só fiz o que julguei necessário. Não culpo ao senhor ou aos seus antecessores por terem criado essa necessidade, pois tenho plena consciência de que os governantes não sabem tudo o que acontece pelos cantos do país. Isso nem seria possível. Por isso essas funções são delegadas a outras pessoas, como nosso amigo Monastário, por exemplo. Mas como sabemos, elas nem sempre cumprem suas funções como deveriam, principalmente porque acabam deixando a ambição e a ganância lhes subir à cabeça. Enriquecer rapidamente se torna algo muito atrativo, afinal, o que é mais tentador do que explorar àqueles que já são explorados há tanto tempo? É tudo muito fácil, porque provavelmente ninguém jamais saberá da verdade e se souberem, a quem darão ouvidos? Aos comandantes e magistrados ou ao povo? Pois é... o senhor já sabe a resposta. Quando o povo grita e clama por socorro, o senhor não consegue ouvir, mas eu ouço e tenho ouvido por quase toda a minha vida. Como apenas mais um cidadão comum, eu não sou capaz de fazer muita coisa para ajudá-los, mas protegido atrás da máscara e do manto de Zorro, nada mais é impossível.

— Entendo... – concordou o Governador tristemente. – Mas corrija-me se eu estiver errado, porque a mim parece que o senhor não passou pelas mesmas mazelas que a maioria da população. Eu vejo aqui um jovem inteligente, educado e pelo que soube, também um grande espadachim. Então por que arrisca sua liberdade e até mesmo sua vida por eles? – perguntou o Governador, como uma forma de avaliar melhor o caráter daquele rapaz incomum. – Você poderia continuar vivendo sua vida tranquilamente, sem se envolver em nada disso. Por que resolveu se tornar o Zorro?

Antes de responder, Zorro pensou por um instante, pois entendeu a importância daquela resposta. Ele ainda não tinha certeza se o Governador deveria saber toda a verdade, mas sabia que apenas uma resposta honesta seria capaz de fazê-lo entender seus motivos e mostrar que ele era digno de sair de lá como um homem livre. Ele então tentou ser o mais sincero possível e se isso trouxesse sua identidade à tona, paciência. Era uma possibilidade que ele precisava encarar.

— Eu não nego que não tenho a origem humilde da maioria das pessoas daqui, mas nem por isso o sofrimento deles me dói menos, muito pelo contrário. Meus pais sempre me ensinaram que ter um pouco mais do que a maioria não significa ser superior ou ter algum direito de humilhá-los ou explorá-los. As riquezas dos grandes fazendeiros também vêm das mãos dessas pessoas, do suor deles, e por isso é preciso agradecê-los e recompensá-los da forma que merecem. Se você é justo e os respeita, você também será respeitado e eles trabalharão não apenas por estarem sendo pagos por isso, mas também por amor ao que fazem, por amor pelas terras que cultivam ou pelo gado que pastoreiam. Eu venho seguindo esses ensinamentos por toda minha vida e fico feliz em poder comprovar que meus pais sempre tiveram razão.

“No entanto, nem todos partilham dessa mesma visão de mundo e por muito tempo eu presenciei, impotente, a crueldade humana e vi pessoas humildes sendo exploradas e índios escravizados por toda a parte. Por sorte, as coisas nem sempre eram tão ruins, mas parece que quando Monastário chegou aqui, há alguns anos, tudo passou a ir de mal a pior. Então, eu vi que a situação tinha se tornado insustentável e algo precisava ser feito. Alguém precisava se erguer contra a tirania, e naquele momento eu entendi que eu poderia ser essa pessoa, mas também entendi que para fazer isso eu precisaria agir contra as leis, porque essas, em sua maioria, beneficiavam apenas os ricos ou o próprio governo. E foi assim, num momento de revolta e desespero, que Zorro surgiu.”

“Eu nunca agi contra alguém que não merecesse, isso eu posso garantir. Também garanto que as punições que lhes infligi nunca foram maiores do que eles pudessem aguentar. Eu sempre me vi como um protetor do povo e, infelizmente, eu tive que protegê-los dos próprios governantes. Sempre soube que agir como um vingador um dia teria seu preço, mas antes que o senhor me diga qual é, gostaria de ouvir de sua boca que esse povo não vai mais precisar ser protegido, nem do senhor, nem de ninguém. Se eu tiver sua promessa a esse respeito, aceito minha punição resignado, mesmo que isso custe minha vida.”

Não havia dúvidas de que todas aquelas palavras eram sinceras e o Governador não sabia o que dizer e precisou de alguns instantes para prosseguir.

— Rapaz... você não sabe o efeito que suas palavras tiveram em mim. – disse o Governador com a voz embargada. Era possível ver a tristeza em seu olhar. — Desde que assumi o cargo de governador, eu tentei fazer o melhor que pude e realmente achei que estivesse indo bem, mas depois de quase perder a vida, comecei a rever meus atos. Estava claro que alguém estava descontente com minha política, mas quem? Minhas medidas estariam irritando os pobres ou desagradando os ricos? Era difícil saber, mas no fim das contas, descobrimos que não era uma coisa nem outra e que tudo não passava de um plano de Contreras e Monastário. O povo nada tinha a ver com aquilo. No entanto, toda essa situação me fez pensar e ver que ainda posso ser uma pessoa melhor. Eu sinceramente gostaria de prometer que nunca mais haverá corrupção, violência, injustiça ou que os impostos deixarão de existir, mas infelizmente eu não posso. O que posso prometer é que os impostos cobrados serão justos e usados para o seu verdadeiro propósito, que é o de manter o povoado e fazer melhorias que beneficiem a todos. Também prometo que continuarei trabalhando para que as pessoas não precisem mais de Zorros para protegê-las, afinal esse é o dever dos governantes. É para isso que existimos, para ajudar nosso reino e nossas colônias a se tornarem lugares nos quais o povo viva bem e trabalhe em cooperação, para que todos possamos prosperar juntos.

— Para mim isso é suficiente, Don Luíz. Eu só queria viver para ver o dia em que o Zorro não seria mais necessário e acho que esse dia finalmente chegou. Agora posso descansar em paz. – respondeu Zorro com o coração mais leve.

— Eu compreendo seus motivos e com certeza eles são válidos e nobres, mas como você mesmo disse, você agiu de forma ilegal. Eu não estive presente durante o tempo em que você exercia suas “funções”, mas tomei o cuidado de me informar sobre você, meu jovem. Don Arturo pode até não ter sido um bom amigo, mas obedeceu ao meu pedido e conseguiu um relatório de suas atividades antes de viajarmos até aqui. – enquanto falava, Don Luíz retirava de dentro da gaveta da escrivaninha um envelope de cor marrom e o colocava diante de Zorro.

— Neste envelope estão coisas muito importantes que me ajudaram a tomar uma decisão final.

Zorro realmente foi pego de surpresa com aquela nova informação. Ver aquele dossiê sobre ele, trouxe-lhe uma ponta de apreensão. Ele imaginava o que o Governador teria concluído daquela leitura.