A Volta da Raposa

59 O Veredito do Governador


Diego sabia perfeitamente tudo o que tinha feito durante seus anos como vingador mascarado e não via problemas no fato de o Governador também estar ciente disso. O que lhe trazia certa preocupação era saber que o relatório tinha vindo das mãos de Don Arturo e, portanto, poderia ter sido modificado por ele com a intenção de prejudicá-lo ainda mais.

— E o que exatamente esse relatório diz sobre mim, Sr. Governador? – perguntou o bandido sem conseguir conter a curiosidade.

— Muitas coisas interessantes, para falar a verdade. – respondeu Don Luíz, enquanto retirava algumas folhas de dentro do envelope. Ele não as leu naquele momento, pois já conhecia perfeitamente todo o seu conteúdo, apenas as folheou. – Após a leitura, eu pude ver que, dentre outras coisas, a maioria das queixas que existem contra você são de invasão, quase que exclusivamente ao quartel, para a libertação de prisioneiros. Convenhamos que este é um ato completamente ilegal, mas a acusação mais curiosa, que chamou realmente minha atenção, foi a de “exposição da força militar ao ridículo”.

— Bem, no caso dessa última acusação, não podemos dizer que a culpa foi inteiramente minha... E se não desejam que isso continue acontecendo, sugiro que o Exército de Sua Majestade treine um pouco melhor os seus soldados. – defendeu-se Zorro, já mais tranquilo por perceber que o relatório aparentemente falava a verdade.

— De fato. – O Governador precisou concordar com a alegação antes de prosseguir com suas considerações. – No entanto, apesar de todas as acusações contidas aqui, uma informação em especial, foi a responsável por consolidar minha decisão.

Zorro tentava manter-se tranquilo, mas era claro que seu destino já tinha sido decidido e não havia nada mais a ser dito ou feito em sua defesa. Ele ansiava pelo veredito de Don Luíz e o velho governador pareceu perceber isso, pois pela primeira vez, viu uma expressão mais séria no rosto do bandido.

— Quando li o relatório, criei uma certa imagem sua, que não era muito boa, mas também não era tão ruim como todos tentavam me fazer acreditar. Eu já desconfiava de Arturo na época, mas acho que ele só atendeu meu pedido com eficiência e prontidão porque acreditou que o relatório pudesse acabar definitivamente com qualquer dúvida que eu tivesse a respeito de sua culpa, mas, sem saber, ele acabou jogando a seu favor.

Ao ouvir aquilo, Zorro sentiu o corpo mais leve e a tensão que tentava esconder, desapareceu naquele instante. Parecia que o destino tinha lhe sorrido novamente e seu futuro, que há poucos minutos tinha se tornado sombrio, voltava a ser incrivelmente esperançoso.

— Inicialmente, eu não sabia se poderia acreditar na veracidade do relatório, — continuou o Governador. — mas ao final da leitura, concluí que sim, pois se Arturo quisesse acabar com você de uma vez por todas, bastava ele ter acrescentado assassinato à sua longa lista de acusações, já que ele sempre soube que esse é o único crime que eu considero realmente imperdoável, mas ele não o fez. Talvez estivesse preocupado demais com sua própria situação para pensar em fazer isso, ou apenas não tenha tido tempo, mas o que importa, é que essa acusação não pesa sobre você e isso me disse muito sobre seu caráter naquele momento.

Zorro sabia que aquilo era verdade, pois apesar dos inúmeros duelos travados, ele jamais tinha tirado a vida de outro ser humano. Infelizmente duas pessoas haviam morrido diante de seus olhos, mas a lâmina de sua espada não tinha sido a responsável por aquilo, e sim infelizes acidentes decorrentes do descuido de seus oponentes. Esse peso, ele, definitivamente, não carregava em sua consciência e naquele instante, ele só conseguia agradecer ao pai por, algumas horas antes, não ter permitido que ele se deixasse levar por sua fúria, e impedido que ele desse fim a Monastário.

— Como você bem sabe, eu não vim a Los Angeles com a intenção de decidir o seu futuro, afinal, não fazia ideia de que acabaríamos nos encontrando pessoalmente. – prosseguiu o Governador. – Sua prisão já tinha sido decretada e o cumprimento dessa ordem seria de responsabilidade do Exército, como de costume. Eu vim aqui apenas para tirar a limpo a situação de Monastário e também conversar um pouco mais com Don Alejandro, porque me parecia que ele ainda tinha muitas coisas interessantes para me contar. No entanto, graças a você, tive que mudar completamente meus planos assim que cheguei.

“Embora eu não goste de exercer a autoridade conferida ao cargo de Governador de poder condenar ou perdoar uma pessoa sem um prévio julgamento, dessa vez, após conversar com você de forma tão franca, percebi que minha consciência jamais permitiria que eu vivesse em paz se deixasse o seu caso na nas mãos da justiça e não tomasse a atitude que todos esperavam de mim. Confesso que você não me deixou muitas dúvidas a respeito de seu verdadeiro caráter e intenções, portanto, levando em consideração tudo o que li nesse relatório, somado ao que você mesmo acabou de me contar, só vejo uma solução para o caso do famoso bandido Zorro: anistia.”

“Anistia?” – pensou Zorro incrédulo. Seria possível que todas as suas aventuras poderiam acabar assim tão bem, sem nenhum tipo de punição?

— Anistia, senhor? – perguntou, apenas para ter certeza de que seus ouvidos não estavam sendo traídos por sua vontade de se ver livre.

— Sim, meu rapaz. – confirmou o Governador, aparentemente satisfeito com a decisão que tinha tomado. — Eu não costumo perdoar bandidos, mas você certamente não é um bandido qualquer. Apesar de você ter agido ilegalmente em inúmeras ocasiões, não posso dizer que vi crimes graves sendo cometidos aqui, só vi uma pessoa boa fazendo de tudo para ajudar a quem precisa, chegando, inclusive, a arriscar a própria vida nesse propósito. Se isso não é heroísmo, meu jovem, eu não sei o que é. Diga-me, como eu poderia punir uma pessoa por ser boa com seus semelhantes? Você me fez enxergar o mundo através dos seus olhos, através dos olhos do povo, e isso me deu muito no que pensar, e embora eu não possa dizer isso abertamente, confesso que gostaria que existissem mais pessoas com o seu coração e a sua coragem nesse mundo.

Zorro estava feliz e comovido por ouvir as palavras sinceras de Don Luíz. Ele, que sempre tinha uma resposta para tudo na ponta da língua, naquele momento sentia que as palavras lhe escapavam. A única coisa que conseguiu fazer, foi abrir um largo sorriso e se levantar para apertar a mão do Governador em agradecimento.

— Muito obrigado, senhor. Obrigado por entender meus motivos e também ver o lado do povo.

— Eu só faço o que acho certo. – disse o Governador, retribuindo o cumprimento, mas logo em seguida deixando o mascarado curioso. — Mas espere um pouco, rapaz. Você me fez prometer algo, então agora quem precisa me prometer algo é você.

— Se estiver ao meu alcance... – disse Zorro curioso, ainda segurando a mão do governador, mas agora, de forma estática.

— Com certeza está. Existe apenas uma condição para a concessão da anistia, que é a seguinte: prometa-me que Zorro deixará de existir e que não retornará sob circunstância alguma. Se ele reaparecer algum dia, voltará a ser um bandido procurado e terá a recompensa pela sua cabeça duplicada. Uma nova anistia ficará terminantemente proibida por decreto, e qualquer governador que venha a me suceder, jamais voltará a concedê-la. Temos um acordo?

O mascarado pensou por alguns instantes e imaginou como seria difícil não voltar a ser o Zorro caso o povo precisasse, mas pensou que talvez Diego pudesse começar a fazer um pouco mais, agora que todos na cidade conheciam sua verdadeira natureza. Ele não precisaria mais fingir uma passividade que não lhe era genuína e poderia agir mais de acordo com sua verdadeira índole. A mudança poderia não ser tão fácil no início, mas valeria a pena, pois ele não poderia dispensar o perdão concedido pelo Governador, já que aquela oportunidade com certeza jamais voltaria a se repetir.

— Acho que o Sargento Garcia não vai ficar muito feliz por perder a chance de ganhar a recompensa atual pela minha cabeça, mas eu aceito. A partir de agora, Zorro se retira de cena.

— A partir de agora, não. – disse Don Luíz.

— Não? – perguntou Zorro surpreso.

— Ainda não. O Zorro está convidado a comparecer amanhã às nove da manhã em frente ao quartel, onde teremos um ato solene para a oficialização de minha decisão perante toda a cidade. Acho que o povo ficará satisfeito.

— Com certeza, senhor. Então, amanhã eu estarei de volta e restabelecido. Obrigado.

Assim que disse isso, o aperto de mão, que tinha sido temporariamente paralisado, continuou de forma mais calorosa e terminou de selar o acordo que tinham acabado de fazer.