A Volta da Raposa
55 Sua Vez, Capitão
Quando entraram na sala, finalmente se encontraram com Monastário. O homem parecia uma fera enjaulada, andando furiosamente de um lado para o outro. Ele tinha curativos em ambo os braços cortados pela espada de Zorro e seu rosto estava em realmente péssimo estado. Vários cortes nos lábios, um no supercílio, alguns nas maçãs do rosto, um olho roxo e a falta de um dente, foram o resultado do acesso de fúria do mascarado.
— Garcia, seu inútil, me deixe sair daqui! Como se atreve a desrespeitar seu Comandante? – bradou assim que viu o soldado abrir a porta. Sua raiva era tamanha que só conseguia ver Garcia a sua frente. Sequer se deu conta das pessoas importantes que o acompanhavam.
— Por enquanto o senhor ainda é o comandante, mas precisamos de algumas explicações, Capitão Monastário. – disse Don Luíz, fazendo-se notar pela primeira vez pelo Capitão, que ficou sem saber como agir momentaneamente.
— Sr. Governador, Arturo, que surpresa recebê-los aqui! – disse tentando desfazer a péssima primeira impressão que tinha causado. — Sente-se, Don Luíz.
— Obrigado. – agradeceu o Governador secamente, enquanto puxava a cadeira para se sentar. Os outros permaneceram em pé, já que aquela era a única cadeira no quarto. — Então quer dizer que o senhor é o famoso Enrique Sanchez Monastário, motivo de tantas discórdias? Vejo que o bandido Zorro fez um belo estrago no senhor.
— Não nego que ele tenha me pego desprevenido, mas garanto que o estado dele é muito pior do que o meu. – reconheceu, mas sem se deixar ser menosprezado.
— É verdade. Nesse momento ele está lá em seu escritório... Como foi que ele disse mesmo? – parou por alguns segundos, tentando se lembrar das palavras exatas usadas pelo bandido. – Ah, sim! “sangrando em seu tapete”.
— Quer dizer que ele está preso? – alegrou-se o Capitão por um instante. – Finalmente você fez algo que preste, Garcia!
— Ele não está exatamente preso... – respondeu Garcia quase sussurrando, temendo um novo acesso de fúria e de insultos de seu comandante.
— Não?
— Ele está sendo mantido vigiado temporariamente, até terminarmos essa conversa, que será bastante séria. – respondeu o Governador no lugar de Garcia.
— Pois não, Sr. Governador. O que deseja saber? – perguntou Monastário tentando se acalmar e disfarçar sua inquietação, enquanto se sentava na cama.
— Don Arturo me disse que conhece o senhor há muito tempo.
— Sim, é verdade. Minha família não tinha muitas posses, mas meu pai fez questão que eu estudasse em uma das melhores escolas da Espanha e foi nela que conheci o Arturo. Depois que nos formamos, nossas vidas seguiram rumos diferentes, até que o destino quis que nos reencontrássemos vários anos depois.
— Quando fui atacado, o senhor prontamente afirmou não ter dúvidas de que meu agressor era o mesmo bandido que havia lhe causado tantos problemas, inclusive sua exoneração e prisão.
— Eu só gostaria de frisar que minha prisão foi um ato de conspiração e que nada do que foi alegado contra mim era verdade. Eu creio que o vice-rei tenha se irritado demasiadamente pela confusão causada por Zorro e se deixou levar pela emoção do momento. Mas graças à competência de Arturo, minha inocência foi comprovada meses depois.
— Mas hoje vejo que posso ter me enganado...– disse o governador interino com pesar.
— Como assim, Arturo? – Perguntou Monastário consternado.
— Don Alejandro de La Vega nos procurou e levantou algumas questões e fatos curiosos a respeito do tal Zorro. Fatos que você, como a suposta autoridade no assunto, deveria saber. – respondeu o Vice-Governador, olhando seriamente para o soldado.
— Que fatos?
— Por exemplo, que ele nunca teve um bando!
— Mas isso não quer dizer nada! Não confie no De La Vega, principalmente, porque o filho dele é o próprio Zorro!
— Não me venha com isso outra vez, Enrique! – disse Don Arturo, começando a perder a paciência.
— Mas agora está comprovado. O povoado inteiro viu! – retrucou Monastário, visivelmente já perdendo a linha. — É só perguntar para qualquer um, inclusive os soldados! Garcia, venha aqui!
Nesse momento Garcia sentiu seu sangue congelar em seu corpo, porque não sabia como responder à pergunta que certamente lhe seria feita. Se perguntava como faria para defender Don Diego sem ir para a corte marcial. Ele já previa um enforcamento por traição, mas seu bom coração falou mais alto e ele decidiu reunir toda sua coragem para responder a pergunta da forma que ele achava certa.
— Pois não, Capitão.
— Garcia, você é testemunha, junto com toda a cidade, de que Don Diego de la Vega é o Zorro. – disse Monastário calmamente, tentando não perder a razão, pois buscava justamente a ajuda do soldado a quem tanto já tinha humilhado na vida. – Ele tirou a máscara diante de toda a cidade e me enfrentou, não foi?
— Bem, Capitão... eu só posso dizer que vi o senhor duelando com o Zorro. Aquele com certeza não era o meu bom amigo, Don Diego. Aquele era o Zorro. – de certa forma ele não se sentia um mentiroso, afinal, o Diego que ele conhecia jamais seria capaz de duelar com Monastário. Aquele duelando, definitivamente era o Zorro.
— Seu gordo estúpido e mentiroso! Como se atreve a mentir para o Governador? Prendam esse traidor! Enforquem-no! – Nesse momento Monastário saiu completamente de si e tentou pular no pescoço do Sargento. Ele até conseguiu agarra-lo pelo uniforme, mas foi contido pelo Capitão Aurellana e não pôde dar cabo de estrangula-lo. A única reação de Garcia foi dar um passo para trás, assustado.
— Segurem esse homem! – ordenou o Governador, já se levantando da cadeira e indo em direção ao soldado descontrolado. – Contenha-se, Capitão! O senhor já não dá mais ordens aqui! Eu reitero as ordens dadas pelo Sargento Garcia: o senhor está preso!
— Como pode me prender, senhor, quando ele está claramente mentido?! Não está, soldados? Confirmem que eu falo a verdade! – quase suplicou aos dois soldados que também estavam dentro do aposento, guardando a porta.
— Bem, Capitão... nós.. nós não estávamos na praça no momento do duelo. Estávamos de vigia dentro do quartel... – respondeu um deles, também assustado com a reação de seu Comandante.
— Inúteis! Então chamem um dos soldados que estava na praça! – bradou Monastário.
— Fiquem onde estão, soldados! – ordenou o Governador. — Não precisam chamar ninguém.
Monastário quase chegava a espumar pela boca de tanta raiva. Seus olhos faiscavam de fúria, enquanto ainda era seguro por Aurellana, que era cerca de 20 centímetros mais alto que ele.
— Capitão Monastário, — começou o Governador, quando já estava bem próximo do soldado. — eu não o conhecia até este momento e achei muito difícil acreditar em todas as acusações que lhe foram feitas, principalmente pelo fato de Don Arturo ter me falado tanto das suas qualidades. Eu não estava em condições de fazer muita coisa depois de ter sofrido aquele horrível atentado e então acreditei no que ele me contou e não me opus à sua ideia de manda-lo de volta a Los Angeles. Porém, eu sou um homem bastante prático e vir até aqui foi a melhor coisa que fiz. O pouco tempo em que estou na cidade, já foi suficiente para começar a ter uma ideia de seu verdadeiro caráter, ainda mais depois de ter sido informado sobre seu disparo a sangue frio contra uma jovem indefesa. Esse fato, com certeza, tem toda a cidade por testemunha.
— Mas, Excelência... – disse Monastário numa tentativa inútil de começar a se defender.
— Espere, porque eu ainda não terminei. – interrompeu-o o Governador em um tom bastante severo. — Agora também tenho certeza de que as acusações que causaram sua prisão há três anos eram verdadeiras. Agradeça a Don Diego por ele não ter seguido adiante com a acusação contra o senhor por tê-lo prendido injustamente e quase tê-lo matado. Esse rapaz provou ser um cavalheiro, não demonstrando rancor por essa ofensa injustificada. Porém, mesmo depois disso tudo, eu também tenho uma acusação muito séria a fazer contra o senhor. Eu o acuso de ter tentado me assassinar e ter matado os leais soldados de minha guarda!
Todos se surpreenderam com a denúncia, que dessa vez, vinha da boca do próprio Governador.
— O senhor tem certeza disso, Governador? – perguntou o Vice-Governador perplexo.
— Sim, não tenho a menor dúvida disso.
A essa altura, Monastário já não tentava mais se defender, pois as coisas só pioravam cada vez mais para o seu lado. Ele apenas olhava furioso para seu acusador e foi justamente esse olhar que o denunciou.
— Eu jamais esqueceria esses olhos, Capitão. Olhos azuis e frios como um oceano congelado. Esses são os olhos de meu algoz, não os daquele rapaz com quem acabei de conversar por quase uma hora. Esses olhos ficaram gravados na minha memória e eu os reconheci assim que entrei na sala. Não tente negar.
— Não tentarei. – disse Monastário agora mais conformado com o destino que começava a se desenhar para ele. – Eu confesso, e meu único pesar foi ter falhado! Se tivesse conseguido, nada disso estaria acontecendo.
— Mas, Capitão! – exclamou Garcia não acreditando no que ouvia. Ele conhecia Monastário há tantos anos e apesar de saber que ele não era a melhor pessoa do mundo, jamais achou que ele fosse capaz de um ato tão covarde.
— O que foi, sargento traidor? Duvida que eu tenha feito? – perguntou Monastário ao ver a expressão de incredulidade estampada no rosto de Garcia.
— Agora já não duvido de mais nada. – respondeu tristemente.
— Eu tentei mata-lo Governador e sei que serei preso e enforcado por isso, mas não vou sozinho, e sabe por quê? – perguntou Monastário com um sorriso sádico. — A mente covarde por trás de todo esse plano já provou que merece me fazer companhia na forca, não é mesmo, Arturo?
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