A Volta da Raposa

56 Caem as Máscaras


Curiosamente, apesar de todo o espanto causado dentro da sala pela revelação de Monastário, o Governador parecia o único a não ser tomado pela surpresa. As máscaras finalmente começavam a cair.

— Como se atreve a insinuar que faço parte disso? – bradou o Vice-Governador indignado. – Eu já tinha percebido que você não era quem eu imaginava, mas jamais acreditei que fosse capaz de tamanho absurdo. Esse homem está completamente louco, Sr. Governador!

— Não, Arturo, ele não está louco. – disse Don Luíz calmamente. — Dessa vez eu acredito nele. Já pode parar com a encenação.

— Como pode acreditar em alguém que perdeu completamente a razão? – questionou Don Arturo, sem entender como o Governador poderia acreditar naquela acusação sem fundamento algum.

— Eu acredito, pelo simples fato de ele estar apenas confirmando algo que eu já desconfiava. – continuou Don Luíz com a mesma tranquilidade.

Ao ouvir tal declaração, Don Arturo se calou e pela primeira vez, sua expressão que antes era apenas de raiva, agora também demonstrava certo nervosismo. Ele olhava furioso para Monastário, que por sua vez, sorria abertamente. Os olhares trocados entre os dois foram suficientes para tirar as últimas dúvidas que ainda persistiam na cabeça do Governador.

— A conversa que tive em particular com Don Alejandro durante minha convalescença foi bastante instrutiva e me abriu os olhos para algumas coisas que não estavam bastante claras, mas que agora fazem todo o sentido. – disse Don Luiz, enquanto voltava para a cadeira, pois sua condição ainda exigia alguns cuidados e não permitia que ele permanecesse em pé por muito tempo.

— O senhor está dizendo que Don Alejandro me acusou de fazer parte de todo esse jogo sórdido? – perguntou Don Arturo incrédulo.

— Não foi preciso. Ele jamais acusou algum de vocês, apenas me aconselhou a prestar mais atenção em certas coisas. Eu segui seu conselho e em pouco tempo a verdade começou a se desenrolar à minha frente. Eu sempre soube que você era um homem ambicioso, Arturo, mas de inicio foi difícil acreditar que pudesse estar envolvido nisso. Eu tinha você como a um filho e me doía o coração só de pensar que isso pudesse mesmo ser verdade, mas infelizmente, agora eu percebo como estava cego. – disse tristemente, mas sem deixar de olhar seu vice nos olhos. — Eu só não sei ainda, se esse plano começou há três anos ou se foi algo recente.

— Isso eu faço questão de responder. – disse Monastário com um sorriso traiçoeiro. Seu acesso de fúria tinha passado e o Capitão Aurellana já não o continha mais, até mesmo porque, ele já estava algemado e indefeso. O solddo se sentou tranquilamente outra vez na beirada da cama e iniciou sua narrativa.

— Quando Arturo soube da minha prisão, ele foi me visitar e nesse dia reatamos nossa velha amizade. Depois de contar minha história e tudo o que eu tinha passado nas mãos do Zorro, ele viu que minha situação era complicada, mas deu um jeito de forjar provas de minha inocência. Eu fiquei muito grato por ele ter me livrado de uma condenação naquele momento, mas sabia que nada era de graça e que um dia ele voltaria para cobrar o favor.

“Pouco tempo depois ele tentou entrar para a política, mas como ainda não era influente o suficiente nem tinha grandes aliados, não conseguiu nada. No entanto, ele não desistiu e resolveu mudar um pouco os planos.”

“Tudo levava a crer que o senhor seria indicado ao cargo de Governador da Califórnia e ele tratou de se aproximar e cair nas suas graças. Sua atuação foi tão convincente, que o senhor mesmo acabou o convidando para ser seu vice.”

“Mas como o senhor mesmo disse, Arturo é ambicioso e queria mais. Ser seu vice era muito pouco para ele, ele queria o seu cargo. Ele é inteligente, mas é um desgraçado que não gosta de sujar as mãos. Ele age como uma cobra traiçoeira, escondida, até a hora de dar o bote. Então, pouco tempo depois, ele me procurou dizendo ter um plano que seria bom para nós dois, porque ele finalmente poderia assumir o cargo que sempre almejou e eu poderia voltar triunfante para Los Angeles e acabar com a raça do miserável do Zorro.”

“Eu estava devendo um favor, mas confesso que ele nem precisou jogar isso na minha cara para me convencer a ajuda-lo, porque eu gostei da ideia. O plano era ousado e perigoso, e precisaríamos de alguns meses para coloca-lo em ação. Arturo se encarregou de encontrar o momento perfeito para que eu pudesse matar o senhor e colocar toda a culpa no Zorro, e esse momento finalmente chegou há uns dez dias. Nós mataríamos dois coelhos com uma cajadada só, pois o amado Don Luíz de Alcazar teria sido morto pelo Zorro, deixando o cargo disponível para seu sucessor direto. Isso faria de Zorro inimigo de todos, até mesmo de seus leais seguidores, que jamais o perdoariam e deixariam de ajuda-lo, tornando as coisas mais fáceis para mim.”

“Mas o plano começou a dar errado quando descobrimos que o senhor não tinha morrido. Era para apenas um de seus homens ter sobrevivido ao ataque para denunciar o Zorro, mas graças a um deles, eu acabei errando a droga do tiro e precisei fugir. Mas mesmo assim, decidimos continuar com o plano, porque o ferimento era grave e sua morte parecia ser apenas questão de tempo. No entanto, como podemos ver, o senhor é um alvo difícil de exterminar.”

“Nosso maior erro foi não ter dado fim aos De La Vega logo de cara. Eu disse que eles seriam um problema, mas Arturo se acovardou e disse que não queria mais mortes e aí deu no que deu, e agora nós dois vamos juntinhos para o inferno!” – concluiu Monastário com uma gargalhada descontrolada enquanto Arturo tentava manter a calma.

— Seu desgraçado. – disse Contreras finalmente. – Eu devia saber que era um erro confiar em você!

— Olha só quem fala! Depois do atentado você teve todas as chances de acabar com o Governador e não o fez, porque é um covarde! Planejar é uma coisa, mas tirar a vida de alguém a sangue frio é outra completamente diferente e você jamais conseguiria, por isso precisava de mim. – retrucou Monastário.

Contreras estava furioso e talvez daquela vez, tivesse tido a coragem de sujar as mãos com o sangue de seu comparsa, mas não pôde, porque foi algemado imediatamente pelo Sargento Garcia, à mando de Don Luíz. Naquele breve momento de descontrole ele assinou sua confissão e não havia mais nada o que ele pudesse dizer em sua defesa, mas antes de ser retirado do aposento, ele ainda tinha uma última pergunta.

— O que me denunciou?– perguntou a Don Luíz.

— “Diga-me com quem andas, e eu te direi quem és.”- respondeu o Governador, deixando Contreras sem entender.

— Como?

— Você mesmo se entregou e Don Alejandro me ajudou a perceber isso. Por causa de sua amizade com alguém de caráter no mínimo duvidoso, havia uma possibilidade de você também não ser exatamente quem aparentava. Don Alejandro me aconselhou a rever minhas impressões sobre você e assim que comecei a recapitular os fatos com outros olhos, eles começaram a se encaixar. Eu me lembrei de ter feito várias alterações na minha rotina e compromissos depois de receber aquela carta ameaçadora. Por causa disso, praticamente ninguém sabia de meus itinerários, nem mesmo a minha esposa, mas uma pessoa sabia: você. E curiosamente o “Zorro” também sabia exatamente onde me encontrar, bem quando eu estava mais vulnerável. Interessante, não é? Foi aí que comecei a desconfiar de sua participação.

Nesse instante, Don Arturo se deu conta do erro infantil que tinha cometido e viu que tudo estava perdido.

— Depois de seguir os conselhos de Don Alejandro, não foi difícil ligar os pontos e chegar à conclusão de que havia algo muito errado nessa história. Por isso, dessa vez eu acredito em Monastário. Ou estou enganado e você deseja falar algo em sua defesa?

— Prefiro não me pronunciar. – respondeu Contreras derrotado.

— Ótimo. Para mim, isso já é confissão suficiente. Soldados, levem esses homens daqui! – ordenou o Governador. – Tirem essas cobras peçonhentas da minha frente imediatamente!

— Sim, senhor! – responderam os dois soldados que guardavam a porta.

Monastário já não lutava mais, parecia ter se conformado com seu destino. O Zorro tinha vencido e isso o deixava furioso, mas não tanto quanto perceber que confiar no aliado errado tinha sido a causa de sua ruína. Talvez se tivesse planejado sua vingança contra o bandido e agido sozinho, as coisas tivessem acabado bem diferentes. Contudo, ainda lhe restava um mísero consolo: Arturo lhe faria companhia na forca.

Os dois comparsas foram levados para as celas que até poucas horas antes estavam cheias de prisioneiros. Eles foram colocados em celas separadas, pois havia uma forte chance de os dois se matarem antes mesmo do julgamento, se permanecessem juntos. Aurellana os acompanhou até as celas e somente Garcia, ainda atônito com tantas revelações, permaneceu no quarto com o Governador.

Depois de os ânimos terem se acalmado, Don Luíz viu que era hora de tomar uma última decisão, a mais difícil de todas. Ele então levou a cadeira de volta para detrás da escrivaninha onde a tinha encontrado e sentou-se novamente. Passou as mãos pelo rosto cansado e pela barba, já bastante grisalha, e chamou por Garcia.

— Sargento Garcia, traga o Zorro até aqui.

— Pois não, Sr. Governador... O senhor vai prendê-lo? – perguntou timidamente.

— Só traga-o aqui, Sargento. – respondeu o Governador seriamente.

— Eu... poderia ter uma palavrinha com ele primeiro, senhor?

— Pode, mas seja breve.

— Sim, senhor, prometo que serei. Ele logo estará aqui. Com licença.

Assim que Garcia deixou o aposento, o Governador ficou sozinho e pôde relaxar um pouco. Ele ainda sentia dores no peito do tiro que tinha levado de Monastário, mas fazia de tudo para não aparentar fraqueza na frente se seus subordinados. Aqueles tinham sido tempos difíceis e os últimos dias, ainda piores. Tinha sido complicado manter as aparências para conseguir extrair alguma coisa de Arturo Contreras sem que ele desse conta de sua desconfiança. Cada dia que passava, Don Luíz sentia mais ojeriza por aquele homem que fingia ser seu amigo, mas que na verdade tinha tramado sua morte.

Apesar do cansaço e das dores, seu corpo parecia mais leve. Muitas preocupações tinham acabado finalmente e ele sentia que poderia voltar a dormir em paz, sem temer ser apunhalado a qualquer momento por seu vice.

Ele pensava em tudo o que tinha acontecido, mas infelizmente, nem tudo estava resolvido e aquele ainda não era o momento de relaxar. Ele respirou fundo, pois ainda tinha um grande problema nas mãos e o nome desse problema era Zorro.

O que vou fazer com você, Zorro? Se perguntava, em busca de uma solução enérgica, mas justa.