A Volta da Raposa
54 O Senhor me Intriga, Sr. Zorro
— Agora que tenho a oportunidade de estar frente a frente com os senhores, – disse Zorro — eu gostaria de tirar uma dúvida.
— E qual seria ela? – perguntou o Governador.
— Bem, eu entendi os motivos que levaram Don Arturo a restituir Monastário ao comando do quartel de Los Angeles, mas ainda não entendi muito bem como foi que ele se livrou de uma corte marcial há três anos. Ele alega ter sido enganado pelo Dr. Pina, mas eu lhes garanto que Pina nada mais era de que seu cúmplice. Os dois eram culpados, mas Monastário era a verdadeira mente criminosa por trás de tudo, e se as denúncias tivessem sido investigadas, a verdade certamente teria vindo à tona.
— Eu temo que parte disso também tenha sido culpa minha. – respondeu Don Arturo envergonhado — Na época, Don Luíz ainda não era o Governador e eu apenas pensava em seguir a carreira política, enquanto atuava como advogado. Quando soube o que tinha acontecido com Enrique, que era um velho amigo, fui ver se poderia ajuda-lo. Ele então me relatou toda a situação e apresentou provas convincentes de sua inocência. Todos os documentos me pareceram legítimos e, por isso, passei a defendê-lo. O juiz também se convenceu da legitimidade dos documentos e pouco tempo depois declarou sua inocência. Enrique só não tinha provas para uma de suas alegações e, portanto, decidi não levá-la adiante.
— E qual foi essa alegação? – perguntou Don Alejandro, também curioso em busca de respostas.
— Todas as provas de corrupção levavam a Pina, mas Enrique disse que sua prisão não era culpa dele, e sim de Zorro e... – nesse instante, Don Arturo ficou sem graça para continuar, mas resolveu falar mesmo assim — e de seu filho, Don Alejandro.
— Diego chegou a me contar sobre essa história maluca. Não sei de onde Monastário tirou essa ideia estapafúrdia! Parece até que está obcecado com a ideia de prejudicar o meu filho! – indignou-se Don Alejandro, e dessa vez, foi Diego quem achou graça da atuação do pai.
— Ele, inclusive, afirmou que Don Diego era o Zorro e que tudo não passava de um plano dele para fazê-lo se passar por tolo diante do vice-rei. – completou Don Arturo.
— Isso é uma loucura! – replicou Don Alejandro – É com certa vergonha que digo isso, mas meu filho sequer sabe manejar uma espada. Ele não está aqui conosco no momento, porque quando veio me ver hoje cedo, me encontrou em péssimo estado e isso foi demais para os seus nervos frágeis. Sequer teve condições de voltar para casa e precisou alugar um quarto na taverna. Agora ele está lá, à base de calmantes.
Diego se esforçava para não rir diante da ótima atuação do pai, repleta de desculpas convincentes.
— Eu ouvi mesmo dizer que seu filho era um rapaz de índole tranquila e também me espantou ver a veemência e o ódio com que Enrique o acusava. – revelou Don Arturo – Ele parecia sair de si quando falava de Don Diego e então comecei a achar que toda aquela situação tinha sido demais para ele e seus nervos pudessem estar abalados. Ele nitidamente precisava de repouso e auxílio para voltar a ser o soldado valoroso que eu tinha conhecido um dia. Fiquei feliz em poder provar sua inocência quanto à acusação de corrupção, mas lhe expliquei que não poderíamos levar adiante a acusação contra o jovem Sr. De La Vega por falta de provas, e foi com muito custo que consegui fazê-lo entender.
— Compreendo... – respondeu Zorro, ainda não completamente convencido. – Só não sei como ele conseguiu essas tais provas tão convincentes... No entanto, também concordo com sua opinião de que seus nervos estivessem bastante abalados na época. Ele chegou a colocar a vida de Don Diego realmente em perigo e se eu não tivesse chegado a tempo, o rapaz poderia não estar vivo hoje.
— Agora percebo que talvez tenha me enganado quanto ao caráter de Enrique, — entristeceu-se Don Arturo — mas assim que o Governador foi atacado, eu me lembrei do que ele tinha me contado sobre o tal bandido misterioso que tanto tinha o importunado e fui pedir seu auxílio. Já havia se passado um bom tempo desde o julgamento e ele parecia ter voltado a ser o homem que conhecia, então não tive dúvidas de que ele seria a pessoa mais indicada para caçar o bandido. Porém, quando Don Alejandro veio me ver e contou coisas completamente opostas às declarações de meu amigo, fiquei muito confuso, assim como o Governador Alcazár, que sugeriu que viéssemos até aqui para colocar as coisas a limpo. Inicialmente eu fui contra essa longa viagem por causa de seu estado ainda delicado, mas agora percebo que foi a decisão mais acertada.
— Foi uma decisão sábia e corajosa, Vossa Excelência. – cumprimentou Zorro.
— Muito obrigado. – agradeceu o Governador — O que eu não imaginava, era que essa visita me colocaria justo em frente ao senhor, Zorro.
— Posso dizer o mesmo, Sr. Governador. – concordou Zorro.
— Agora eu só tenho mais uma dúvida. – disse Don Luíz, enquanto se levantava e caminhava lentamente pela sala com a ajuda de sua bengala.
— E qual é, Sr. Governador? – perguntou Don Alejandro.
— Como pude ver, todos os senhores aqui presentes já tinham tido contato com o Zorro anteriormente. – concluiu Don Luíz – Então pergunto, se todos poderiam afirmar sob juramento e sem nenhuma sombra de dúvidas, que esse rapaz sentado aqui, diferente de tudo o que eu imaginava, é realmente o fora da lei conhecido como Zorro?
— Eu posso jurar, Excelência. – respondeu Don Alejandro prontamente.
— Eu também posso, Sr. Governador. – disse Garcia bastante convicto.
— Eu não tive tanto contato com ele quanto Don Alejandro ou o Sargento Garcia, mas também posso afirmar, sem sombra de dúvidas, que esse é o Zorro que conheci enquanto estive a encargo do quartel do povoado de Los Angeles. – afirmou o Capitão Aurellana.
— Pois bem. – disse o Governador – Então, nesse caso, precisarei concordar com Don Alejandro. Eu também afirmo, sem correr nenhum risco de estar enganado, que esse homem não é o mesmo que tentou me matar.
— Eu sabia que o senhor veria a verdade quando o conhecesse! – jubilou-se Don Alejandro.
— Obrigado por reconhecer minha inocência nesse caso, Excelência. – agradeceu Zorro, com um sorriso sincero e uma leve reverência.
O Governador se aproximou de Zorro, se sentou na beirada da mesa e se inclinou para frente para poder olhar bem de perto o bandido mascarado.
— Você realmente me intriga, rapaz. – confessou o Governador, após alguns segundos de silêncio.
— Eu costumo causar esse efeito nas pessoas. – brincou Zorro.
— Depois de conhecê-lo, não sei o que pensar. Você cometeu atos ilegais, mas ao que pude perceber, seus motivos foram nobres e eu não sei o que fazer com você. Sinto que se prendê-lo terei uma revolta no povoado que nem todo o Exército de Sua Majestade será capaz de controlar. Mas se deixa-lo livre, mostrarei que o governo é fraco e que permite que outros ajam em seu nome...
— Eu entendo a sua posição, senhor, mas não se preocupe. Eu não tentarei fugir, até mesmo porque, eu obviamente não tenho condições de fazer isso, ou então já teria feito, se é que o senhor me entende. Portanto, até que o senhor se decida, eu ficarei aqui, sangrando tranquilamente no tapete do Capitão. – disse Zorro, enquanto usava a capa para pressionar o ferimento e tentar estancar o sangramento que já não era mais tão intenso.
O Governador achou graça do comentário do bandido enigmático que o deixava totalmente desconsertado.
— Está certo, Zorro. Agora eu preciso falar com Monastário e depois voltaremos a conversar. Sargento, deixe dois soldados de guarda do lado de fora da porta, porque não quero que nosso convidado se vá antes da hora, mesmo ele dizendo que não fará isso.
— Sim, senhor. – obedeceu Garcia.
— Não me diga que já voltou a desconfiar de mim? – perguntou Zorro em tom de brincadeira – E eu aqui achando que já fôssemos bons amigos...
O Governador não respondeu, mas esboçou um sorriso que tentou disfarçar.
— Não se preocupe, Vossa Excelência, eu prometo que serei um bom menino. – assegurou Zorro, enquanto prestava uma continência.
Confiante de que o bandido cumpriria sua palavra, Don Arturo se pôs de pé novamente com a ajuda da bengala e seguiu em direção à porta.
— Sargento Garcia, leve-nos até o Capitão.
— Pois não, senhor.
Assim que eles abriram a porta, encontraram com o Dr. Ernesto, que já estava aguardando para atender ao Zorro, como havia sido solicitado pelo Governador.
Apenas o médico, Don Alejandro e Zorro permaneceram na sala, enquanto os outros se dirigiam ao quarto de Monastário. No rápido percurso até lá, o Governador teve alguns instantes para poder trocar impressões com seu suplente.
— Não sei o que pensar desse tal Zorro, Arturo. – disse ele.
— Confesso que estou na mesma situação, senhor. – respondeu Don Arturo, sem poder ajuda-lo.
— Eu não queria admitir, mas gostei do miserável! – disse finalmente Don Luíz, achando graça da situação estranha em que se encontrava, pois jamais teria imaginado que um dia simpatizaria com um bandido.
— É aqui, senhor. – interrompeu-os Garcia.
O Governador viu que os aposentos do Capitão estavam sendo guardados por dois soldados e não entendeu o que estava acontecendo.
— Sargento, o que estes soldados armados fazem aqui?
— Bem... é que o Capitão está preso, senhor. – respondeu Garcia, percebendo só naquele momento, que tinha se esquecido de contar aquele pequeno detalhe ao Governador.
— Preso? E por quê? – perguntou o Vice-Governador.
— Eu fui obrigado a dar voz de prisão ao Capitão depois que ele, durante o duelo, disparou contra uma moça desarmada no meio da multidão. – revelou Garcia, temeroso por receber alguma advertência por seu ato de insubordinação, mesmo sabendo que tinha razão.
— Meu Deus, Sargento! – Exclamou Don Luíz bastante surpreso, mas tendo cada vez mais certeza de que tudo o que lhe tinham contado sobre o famoso Capitão Monastário, infelizmente era verdade. — Quem era essa moça e como ela está?
— Era a senhorita Guadalupe Robles, filha de Don Miguel Robles. Ela foi levada para a casa do Dr. Ernesto e as notícias que temos é que, apesar da gravidade do ferimento, sua condição é estável.
— Menos mal, Sargento. – disse o Governador, aliviado por saber que a moça estava viva — O Senhor agiu corretamente.
— Gracias, Sr. Governador. – respondeu Garcia com um sorriso também aliviado.
— Soldados, descansar. Nós vamos falar com o Capitão. – disse Don Arturo aos dois soldados que faziam a guarda. Eles se afastaram no mesmo instante e deram passagem ao Governador e seus acompanhantes.
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