A Vocalista Da Banda Do Meu Irmão
14 Capítulo 13 - Ferrou!
Notas iniciais
– Ferrou! — Disse baixinho para Chris e Carol que estavam agaixados, próximos a mim.
– Te fiz uma pergunta, Ever. — Pelo tom de voz do Michael, pude perceber que ele estava desconfiado.
– Er... oi, Michael! — Me virei, ficando de frente para Michael, tentando sorrir amigavelmente, sem obter muito sucesso, pois meu queixo tremia de nervoso.
– O que faz na sala de ensaios? — Ele cruzou os braços, me olhando torto.
– Eu... eu... esqueci a chave de casa, é! Aí eu quis pular a janela, foi isso! — Tentei parecer despreocupada mas eu tremia por dentro. Não é todos os dias que você acaba de ser flagrada pelo seu arqui-lindo-inimigo com a boca na botija.
– E porque você não tocou a campainha? — Anjinho se aproximou mais de mim e isso fez com que eu me sentisse em um filme policial, cheio de interrogatórios.
– Porque eu não quis! Não quero que o Jeremy veja que eu esqueci a chave, eu queria passar despercebida. — Até que as minhas desculpas estavam boas. Não faziam sentido, mas davam pro gasto.
– Porque eu tenho a ligeira impressão de que você está mentindo? — Porque eu estou mentindo, oras! Falei mentalmente.
– Ah Michael! Sem interrogatórios ok? Estamos na MINHA casa e eu entro por onde eu quiser, pelo cômodo que eu quiser e como eu quiser! — Elevei meu tom de voz e isso não o abalou nem um pouquinho.
– Tudo o que envolve você é suspeito, Ever! Já está praticando a sua vingancinha boba contra a banda? Pensei que com a morte de seu tio você amadureceria, mas nem isso te fez amadurecer, não é? — As palavras de Michael abriram feridas em meu peito que nem haviam cicatrizado.
– Você não sabe nada sobre mim! Não coloque meu finado tio nisso! Não é porque estou triste que vou deixar de viver! E se você não quer acreditar em mim, que se dane! — Despejei toda a minha ira em meu cadarço preso.
Puxei meu pé com tanta força que o cadarço não só desprendeu-se dali como eu me desequilibrei caindo para dentro da sala novamente, de bruços.
– AHAHAHAHAHA... — Pude ouvir a risada escandalosa e totalmente irritante do meu arqui-lindo-inimigo.
– Ai... — Gemi de dor ao sentir a minha testa latejando.
– Você está bem? — Michael agaixou-se ao meu lado, ficando extremamente perto de mim. Tão perto, que eu podia sentir a sua respiração calma que estranhamente ditava o ritmo da minha.
Seus olhos estavam mais claros do que o de costume e pensei que eu fosse me perder ali, naquele olhar, que me deixava cada vez mais encantada e incapacitada de falar alguma coisa.
Parecia que meu corpo não obedecia mais os meus comandos, ele agia com vontade própria naquele momento. Percebi isso no instante em que minha mão tocou a sua face. Um toque tímido, no qual eu senti um leve formigamento.
Michael parecia estar no mesmo transe que eu, seu olhar que antes era frio como gelo se mostrava agora, carinhoso.
Continuei tocando sua face, eu parecia uma criancinha curiosa, por mais que eu quisesse parar com aquilo, eu não conseguia. Afinal, eu estava gostando e o Michael estava deixando.
No instante em que ele levantou sua mão para tocar a minha face, alguém aparece na porta:
– Ever! Estão todos lá na sala vendo meu show. Chris e Carol também estão lá! — O cabeçudo do Yuri empolgado nos chamou, para logo depois retirar-se da sala.
– Er... acho melhor eu ir. — Eu disse, sem jeito, jé me levantando.
– Ever, espera! — Michael puxou-me pela mão e eu pude sentir a minha face queimar de tanta vergonha.
– Por favor... não atrapalhe a banda. — Michael parecia que estava sendo torturado, sua expressão denunciava isso.
– Mas... — Pisquei os olhos, confusa.
– Eu vou indo. — Logo o olhar frio de Michael voltara, fazendo-me encolher.
E foi aí que ele saiu e eu fui logo em seguida, encontrando os descerebrados bebendo, ao som de Ching a ling, enquanto Yuri e Chris dançavam loucamente na sala.
– Mas que porcaria é essa? — Perguntei ao ver Yuri mexendo o quadril para lá e para cá.
– É isso que eu estou me perguntando até agora! — Disse Carol parando ao meu lado. — Não acredito que esses dois andam com a gente! — Carol estava morta de vergonha.
Não só ela né, aqueles dois nem pareciam que estavam dançando, pareciam duas gazelas com dor de barriga.
Os descerebrados se acabavem de rir e Paul, filmava tudo com seu celular super descolado.
– Isso vai parar no Youtube! — Falei, já imaginando que o mico seria visto no mundo inteiro.
(...)
Passado o surto psicótico dançante do Yuri e do Chris, os descerebrados foram para a sala de ensaios. Percebi que depois do estranho ocorrido entre eu e Michael que ele estava evitando olhar para mim e isso me fez praguejar mentalmente.
O que havia dado em mim naquela hora? parecia que meu corpo e principalmente meu mundo preto e branco estava girando, girando em torno do Michael. O tempo todo.
– Ever, vamos! — Carol me deu um puxão que fez todos os meus pensamentos malucos se dissiparem na hora.
– Pra onde? — Eu estava tão estranha que era capaz de nem me lembrar do meu próprio sobrenome.
– Espiar os sem cérebro! Eles vão ensaiar. — Respondeu Chris impaciente.
O Yuri havia ido para a casa mais cedo alegando que não queria apanhar. Bicha!
Eu e meus dois amigos caminhávamos até o quintal de minha casa, onde a janela que ficava a sala de ensaios estava posicionada.
Engatinhamos pelo quintal até ficarmos embaixo da janela. Nós não podíamos levantar muito, pois era arriscado demais.
– Vamos tocar qual música hoje? — Pude ouvir a voz do Jeremy.
– Vamos começar com Snuff! — Disse o meu arqui-lindo-inimigo.
Carol, Chris e eu, levantamos um pouco a cabeça para olharmos os descerebrados e quando eles começaram a tocar, a bateria do Jeremy desmontou, espatifando-se no chão, o baixo do William estava faltando duas cordas e o burro nem havia notado isso. As cordas do violão do Rafael praticamente saltaram, atingindo o olho do mesmo. O teclado do Daniel estava sem som e as guitarras do Paul e do Michael estavam sem as cordas e o microfone do anjinho fazia um barulho agudo e ensurdecedor.
– Mas que droga está acontecendo aqui? — Perguntou Daniel, tampando seus ouvidos pelo barulho do microfone.
– Desliga isso! — Disse William.
Eu e meus amigos começamos a rir, abaixados debaixo da janela, foi quando percebemos que era hora de dar no pé pois a coisa ia ficar feia.
– Quem foi o infeliz que sabotou meus instrumentos? — Jeremy estava irado.
– CORRE! — Eu e meus amigos saímos correndo feito um foguete, passamos pela sala da minha casa mais rápido ainda.
Assim que subimos todo o lance de escadas e estávamos no corredor, vi o projeto sardento do meu irmão controlando seu carrinho de brinquedo, que eu acabei pisando e caindo de cara no chão. De novo.
– AHAHAHAHAHA — O pestinha começou a rir e meus amigos o acompanharam. Me levantei rapidamente e disse:
– Vamos, vamos! — Ignorei o chato do meu irmão, puxando meus amigos para o quarto, enquanto ríamos a beça.
Fechei a porta atrás de mim, me jogando na cama junto com meus melhores amigos e caímos na gargalhada.
– Vocês viram como foi engraçado? Aqueles idiotas finalmente tiveram o que merecem! — Disse Chris entre arfadas.
– Isso ainda é pouco pra eles! Eles tem que ser humilhados em praça pública. — Quando eu estava me recuprando da crise de riso, a porta do meu quarto se abruptamente, fazendo com que eu e meus amigos pulassem de susto.
– Eu sabia que você estava aprontando alguma! — A voz angelical e totalmente irritada do Michael adentrou meus ouvidos e eu percebi que seria a segunda vez naquele dia que eu falaria a minha palavra favorita:
– FERROU! — Praguejei baixinho vendo meus amigos se encolherem de medo. Eu devia ter trancado a porta.
– Como ousa entrar no quarto desta maneira? — Me levantei da cama, pronta para peitar o Michael.
– Da mesma maneira que você ousou sabotar os instrumentos da banda! — Michael estava quase irreconhecível de tão furioso que ele estava.
– Como você sabe que foi eu que sabotei hein? — Cruzei meus braços desafiadoramente.
– Está na cara! Eu peguei você no flagra na sala de ensaios! Tentou me enrolar com as suas desculpas esfarrapadas! — Como eu não tive forças para retrucar, ele continuou:
– Ainda teve cúmplices! — Ele apontou para meus amigos que abaixaram a cabeça envergonhados.
– Agora a guerra está declarada, Ever! — Michael olhou-me com olhos repletos de fúria e eu encolhi meus ombros.
Michael saíra dali muito irritado e eu estava ciente de que ele falara sério.
A guerra estava declarada.
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