A Violinista Cega
1 Prólogo
Notas iniciais
Margarete começou a andar delicadamente em direção à porta quando se pôde ouvir a campainha tocar pela terceira vez. Era uma fria manhã de domingo, podia até se ver a neve caindo cintilante do céu escurecido pelas nuvens.
A senhora abriu a porta delicadamente e observou os três pimpolhos que a observavam, esperando qualquer reação. A velha sorriu e fez sinal para que entrassem. Uma mulher de cerca de trinta anos os seguiu e passou algumas informações para a mais velha, logo se retirando da casa e indo embora.
Um vez sozinha, a velha se aproximou das crianças que a aguardavam pacientemente na sala. Todas abriam imensos sorrisos que seriam capazes de atravessar suas cabeças.
— Em que posso ajudá-los hoje?
O mais velho deles, Frank, de cerca de nove anos, se aproximou e pronunciou-se:
— Vovó, poderia nos contar alguma história hoje?
— Ora, Frank, mas eu conto histórias sempre, por que não contaria mais uma hoje?
Frank colocou os bracinhos para trás e voltou a encarar a avó.
— Queríamos uma história sobre algo que aconteceu de verdade. Estamos cansados de Chapeuzinho Vermelho, Os Três Porquinhos, João e Maria... Queremos ação – fez um gesto engraçado com a mãozinha esquerda que fez Margarete rir.
Margarete refletiu alguns segundos a respeito e se pronunciou:
— Está bem. Mas se vocês não dormirem à noite, não reclamem para a mãe de vocês!
Os três sorriram maliciosamente para avó que dera meia volta e fora buscar alguns biscoitos e leite. Na volta, os pimpolhos já estavam todos sentados e organizados ao redor da velha poltrona arroxeada. Margarete colocou o prato de biscoitos no chão e os copos de leite na mesinha. Deu uma leve tossida de lado, como quem quer preparar as cordas vocais para algo importante e começou:
“Era uma vez, há muito tempo, um antigo vilarejo cercado de grama e muradas de pedregulhos fortíssimos. Nesse vilarejo vivia Lucy, uma jovem de dezesseis anos que morava com os pais e três irmãos.
A família era muito pobre e pagava exorbitantes impostos, forçando todos a trabalhar muito. Lucy era muito inteligente e querida por seu rico tio Bartolomeu. Pensando no futuro da sobrinha afilhada, lhe deu de aniversário um violino que a menina aprendera a tocar com incrível facilidade.
Tocava o violino desde os seis anos de idade e o tomava como sua paixão, ocupando-lhe a maior parte do tempo em seu dia. Era tão fervorosa com seu violino que na maior parte das vezes eram inseparáveis. Por ser um tanto anti-social, o tinha como um real amigo. Assim, quando estava triste, mais leves e melancólicos eram seus acordes; quando estava feliz, mais animados e rápidos eram as notas percorridas pelas quatro cordas do instrumento. O tempo fora passando e seu maior passatempo ficando de lado.
O tio havia lhe ensinando diversas artes, tornando-a a mais bem dotada de estudos da família. Quem dera pudesse viver apenas disso! Com as dificuldades que a família agora passava lhe restara apenas duas opções: Ir viver com o tio numa grandiosa mansão ou continuar a ver sua família. Não pensou duas vezes e resolveu que não abandonaria seus pais e irmãos, o que acabou deixando seu tio imensamente aborrecido.
— As portas sempre estarão abertas, Lucy. Estarei à sua espera quando desistir – disse Bartolomeu já saindo da casa da garota.
A menina encarava o portão se fechando e refletia sobre sua escolha. A opção tentadora de estudar, ir embora dali, ser alguém superior a contornavam. Apesar de tudo, não estava arrependida. Observou seu tio subir à condução e partir acenando. Deu meia volta e foi para seu quarto tocar alguns acordes duvidosos quando pôde-se ouvir o clique da porta se abrindo. Os pais de Lucy logo entraram no cubículo, parando em frente a filha, que deixara o instrumento de lado para ouvir o que tinham a dizer. Olhou fundo nos olhos da mãe, que a observava preocupada.
— Lucy – disseram em uníssono –, precisamos conversar.
— O que houve?
— Estamos passando por uns tempos difíceis. – disse Bruce, pai de Lucy – E como sabe, eu e sua mãe já estamos trabalhando e nos esforçando o bastante para garantir comida para vocês, mas ainda assim há muita fome. Nos falta roupas e, apesar de tudo, esta casa não é das melhores.
Bruce pegou na mão de sua esposa que começava a retorcer um olhar choroso de preocupação.
— Você terá de trabalhar, assim como seus irmãos.
— Mas, pai...William tem dez anos! Como o fará trabalhar?
— As coisas andam difíceis, porém ainda existem bons corações... O ferreiro Kimby arranjou um bico para o pequeno, já seu irmão Damon irá trabalhar para a senhora Gertrudes na quitanda. Félix vai ajudar sua mãe com costuras, e quem sabe assim ela faz alguns vestido mais chicosos. Você poderia tocar violino na praça para conseguir uns trocados.
Lucy se enfureceu. Vender sua paixão por alguns trocados?! Era impossível, não aceitaria. Não podia! A música não estava ali para ser vendida. Estava para ser sentida, amada e conservada para sempre em seu coração, não para conseguir algumas moedas brilhantes. A jovem olhou novamente para seus pais, vendo o quanto se esforçavam para manter a família de pé, com suas barrigas cheias e roupas no corpo.
— Está bem. Começo amanhã.
O casal à sua frente se animou. Houve naquela noite um abraço coletivo entre todos da casa. Lucy quase nem jantou, dando preferência à seu irmãozinho Félix que ainda chorava de fome. Após o frustrante jantar, colocou seus irmãos mais novos para dormir e foi-se encaminhando para o cubículo vulgarmente apelidado de quarto.
Dividia o quarto com seu irmão mais velho, Damon. Sentou-se no amontoado de tecidos e palha e notou o largo sorriso presente no rosto dele.
— Posso saber do que tanto sorri?
— Não vem a te interessar...
— Se não fosse importante, eu não teria perguntado.
O mais velho se levantou e foi em direção à irmã. Se aproximou dela como se fosse contar o segredo mais precioso do mundo e sussurrou:
— Promete que não vai contar para ninguém?
— Prometo.
— É a Sara… Torna meu coração mais feliz e mais fortalecido!
— Você está namorando uma menina da nobreza?! – disse Lucy espantada – Quando foi que você enlouqueceu?!
— Silêncio! Não quero que ninguém saiba de nada. A propósito, não estamos namorando. Quem enlouqueceu foi você! Dei uma rosa para ela, e ela me abraçou, fiquei envergonhado e vim correndo para casa... Ela jamais olharia para mim.
Lucy deu um imenso suspiro de alívio e virou para o lado tentando dormir. A família não precisava de mais problemas com Damon se envolvendo com a nobreza.
— Prometa-me que vai ficar longe de encrencas?
Aguardou um pouco e percebeu que o mais velho havia dormido. Delicadamente, levantou-se e pegou uma pequena caixinha de madeira. Abriu a janela e sentou-se no telhado do casebre, colocando a caixa ao seu lado. Abriu a mesma e de lá tirou algumas linhas,lápis e um caderninho surrado em que fazia anotações desde pequena. Rasgou um pedaço do babado de seu vestido e começou a costurar algo com ele.
— Se for para fazer isto, que seja sem dor.
Terminou seu serviço e guardou tudo na caixa que havia trazido. Entrou novamente no quarto e se pôs a dormir.
Na manhã seguinte, pouco antes do Sol nascer e o vilarejo se encher de pessoas, Lucy pegou o tecido costurado na noite anterior e vendou seus olhos. Suas vestimentas já eram pretas para que sujeiras, rasgos e entre outras coisas não fossem notadas.
Pegou seu violino e começou a seguir a tão conhecida trilha que levava até o vilarejo. Apesar dos olhos tampados, ainda sabia bem por onde seguia. Chegou até o meio da praça, subiu cerca de dois degraus e começou a tocar uma música qualquer.
Conforme as pessoas iam passando, iam se surpreendendo com a tamanha habilidade da garota ao tocar o instrumento, ainda mais por não o estar vendo. Animados com o talento de Lucy, jogavam algumas moedas no pequeno baú que havia posto ao seu lado. Cada vez que uma moeda era jogada, ouvia o barulho e se chateava por ter de vender sua arte.
Passou o dia todo tocando, sem errar uma nota sequer. Emendava uma música na outra para evitar ter de ouvir os aplausos.Tocou até o anoitecer e esperou até que as ruas esvaziassem para ir pra casa. Fez todo o percurso de volta ainda com a venda em seus olhos, retirando-a apenas ao chegar na porta de sua casa.
Entregou o dinheiro à sua mãe e foi para seu quarto, escrever em seu caderninho.”
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