A Violinista Cega
9 Depois do Confessionário Está Aberto o Coração
Notas iniciais
“Com passos suaves e delicados, Lucy finalmente chega em casa. Ao seu lado, Victor, quase como um guardião, vigiando-a até que estivesse sã e salva.
Haviam caminhado em silêncio após as confissões apaixonadas. Lucy ainda sentia seu coração batendo fortemente, como se quisesse atravessá-la e sair de seu corpo. Imaginava como ele deveria estar se sentindo; se estava alterado também ou se apenas ela estava à beira da loucura, imersa num mar de emoções.
— Lucy...
Ela o observou curiosa. Finalmente o silêncio havia se partido em pedaços. Estava aflita, e agora que podia pensar melhor, se sentia mal por não ter dito muito enquanto estavam na floresta. Os olhos de Victor cruzaram os seus. Estremeceu.
— Prometo vir vê-la mais tarde – continuou ele – Deve estar cansada, e eu também tenho que resolver assuntos na cidade... Com calma conversaremos. Tenho de te explicar melhor o que disse...
A moça levantou a mão como sinal de protesto. O silêncio que havia sido plantado entre os dois teve como função mantê-los imersos na emoção. Palavras apenas estragariam tudo o que sentiam e isto era o que ela menos desejava.
— Estarei aguardando-o ansiosamente.
Victor assentiu e começou a se retirar. Antes de virar-se completamente de costas, a olhou mais uma vez e sorriu. Gostava de ver a emoção nos olhos de sua amada.
— Cuide-se até que eu volte para protegê-la dos males da escuridão. – Ambos sorriram mais uma vez, antes de seguirem seus caminhos.
Lucy entrou em casa sorrateiramente; sua mãe não podia saber que havia fugido para tocar violino. Subiu as escadas até seu quarto em silêncio, guardando o instrumento em segurança. Com fome e percebendo que já deveria ser hora de almoçarem, desceu as escadas ao encontro de sua mãe, que cozinhava o que parecia ser uma galinha recém abatida.
— Bom dia Lucy! Dormiu bem, querida?
— Perfeitamente. – mentiu abrindo um largo sorriso. – Precisa de alguma ajuda?
Mary assentiu, entregando a galinha à Lucy.
— Pode ir cuidando disto enquanto começo a cortar os vegetais do caldo?
E começaram a trabalhar no que viria a ser o almoço. Ficaram ali por quase uma hora, quando ouviram batidas na porta da frente. O irmão caçula de Lucy foi correndo atender à porta, de onde a figura esbelta de Victor surgiu com um ramalhete de rosas brancas e uma cesta. Mary e sua filha pararam o que estavam fazendo para receber o visitante em parte, inesperado.
— Achei que não viesse, Victor.
Ambos sorriram, enquanto trocavam olhares desconcertados.
— É sempre bom vê-la. E eu sou homem de promessa! – rapidamente entregou as flores à amada. – E isto é para você.
Lucy abriu um sorriso mais largo que o anterior. Estava emocionada ainda pelo gesto de mais cedo, com flores e um poema. Se as coisas continuassem no ritmo que estavam, muito em breve sua casa seria feita apenas de flores.
— E isto é para você, Senhora Peterson. – disse entregando a Mary uma cesta repleta de mantimentos, como legumes, verduras e cereais.
Mary se animou com o presente e o agradeceu. Convidou-o então para que entrasse e participasse da refeição em família que muito em breve aconteceria com a chegada de seu marido e seus outros dois filhos. Victor aceitou o convite, apenas por poder apreciar Lucy, já que nem fome sentia.
Lucy guardou o ramalhete no mesmo vaso em que mantinha as flores antes recebidas de presente. Já não cabiam mais ali e aquele era o único vaso que possuíam. Suspirou.
— Talvez queira se sentar e esperar até que eles cheguem. – comentou Mary da cozinha. – O almoço está quase pronto, então não vai demorar muito até que estejam aqui esfomeados.
— Agradeço-lhe humildemente pela proposta, Senhora Peterson. Mas prefiro ajudá-las com o preparo da refeição.
Mary virou-se bruscamente para observá-lo. Um convidado se oferecendo para ajudar era quase como uma ofensa para ela.
— De forma alguma! Você nos propicia a honra de sua companhia, honrosamente nos traz presentes e ainda quer fazer nosso trabalho? Por favor, fique onde está. Visitas na casa dos Peterson jamais se incomodam.
— Senhora Peterson, me incomodo em não ajudar. Entretanto, não me incomoda ajudá-las na cozinha. Aliás, isto seria um prazer.
E foi o que Victor fez. As ajudou a preparar o almoço, cozinhando a galinha, cortando-a em partes para o ensopado, picando legumes frescos. Vez ou outra ainda olhava para Lucy e a observava sorrir. Sem conseguir se segurar, sorria também.
Não tardou até que os irmãos e o pai de Lucy chegassem para comer. Todos se sentaram ao redor da mesa, famintos. O pai de Lucy ficou feliz com a visita inesperada de Victor, oferecendo o que havia de melhor em sua produção particular de vinhos.
Todos riram e conversaram. Contaram sobre suas aventuras, sobre o dia que tiveram. Várias coisas vinham à mente de todos enquanto ouviam as histórias que o Senhor Peterson tinha para contar. Que ele era louco, que aquilo era impossível. Em alguns, até mesmo o medo. Era fascinante. A todos cativava, ao fim de um longo e árduo dia de trabalho.
E como se todos ao redor desaparecessem, Lucy e Victor trocavam sorrisos envergonhados. Mais tarde sairiam para um passeio até o lago, desta vez sem luzes fortes, como Victor havia antes prometido. Tudo para o bem de Lucy.”
— Todos sorrindo, todos felizes e extremamente animados com o dia, com as companhias, com a reunião. – comentou Margarete. – Esta história poderia muito bem acabar por aqui e ter um final feliz. Mas nenhuma história acaba, crianças. Ela apenas é contada até onde convém ao contador ou ao ouvinte. Além disso, existem muitas coisas não resolvidas. Eu poderia dizer que Sara viu a felicidade nos olhos de Lucy e a deixou em paz. Mas nenhuma história é assim realmente. Essa história ainda não acabou e se mantém distante do fim.
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