A Violinista Cega

10 Ninguém Conhece a Realeza


Notas iniciais
Olá leitores! Foram meses de turbulência para mim. Desde que postei o capítulo anterior, iniciei uma jornada em busca de um beta - e quase desisti. Por fim, luzes surgiram no fim do túnel e agora a fic está sendo betada pelo Lorde Duki (nome imponente, não?) Agradecimentos ao favoritos da NellyCake e ao acompanhamento da ValentinaV. Agradeço também a paciência dos leitores que ficaram meses sem capítulo. Feliz Ano Novo e boa leitura!

Pássaros cantavam enquanto repousavam nos galhos das árvores, atrás de sombras para protegerem suas penas brilhantes e coloridas do sol. Outros faziam acrobacias pelo ar, bailando pelo céu perante as músicas oferecidas pelos que ficaram nos galhos, assistindo-os..

Abaixo deles, no chão, um casal de maltrapilhos bateu aos portões do Castelo Real Husgentargen. A moça mantinha uma pose imponente, com o nariz arrebitado, olhando para o lado. Enquanto isso, George tentava negociar com o porteiro, sem sucesso.

— Senhor! Esta é a princesa Sara Husgentargen! Sou eu, George, serviçal próximo à rainha! Por favor, deixe-nos entrar.

— Não sei do que fala... George? Enfim. Não o conheço, nem nunca vi essa moça que o acompanha na minha vida! Que ultraje! Chamar uma reles plebéia pelo nome da princesa...

Sara, sem paciência, retirou brutalmente o tecido esfarrapado que usou para cobrir a cabeça e jogou-o no chão. Aproximou-se do guarda e levantou o tom de voz.

— Abra os portões imediatamente! Será possível?! Não está me reconhecendo?! São meus pais que pagam o seu salário!

— Senhorita, perdoe-me, mas nunca a vi! Nem mesmo a princesa que mora neste palácio encheu meus olhos com sua ternura... Mesmo que você fosse a princesa Husgentargen, eu não saberia.

Sara abriu a boca para praguejar ainda mais com o pobre homem, quando foi impedida por George.

— Tudo bem. Vamos dar a volta.

— É um caminho muito longo! Meus sapatos não foram feitos para isso! Meus pés doem, minhas pernas doem e minha cabeça...

— Eu te carrego se for pra você não sentir dor.

Sara hesitou, mas aceitou logo em seguida. Apesar de ir contra as regras de etiqueta ser carregada por um rapaz que não fosse seu pretendente ou da realeza, não queria andar toda a distância ao redor do palácio.

George a carregou por boa parte do trajeto até o portão dos serviçais. Chegando lá, Sara resolveu andar com as próprias pernas e fazer o que seria sua grande entrada, mesmo que num lugar que não apreciasse nem um pouco.

O rapaz abriu a porta cuidadosamente, dando entrada a um saguão não muito grande e iluminado, dividido em diversas passagens que mantinham o mesmo estilo. Não era um lugar com o cheiro das flores do jardim orvalhadas pela manhã; haviam baldes cheios de dejetos, alimentos estragados e água podre. O odor fétido deixou Sara enjoada e, por um segundo, pensou em desmaiar. Apenas pensou, pois desmaiar ali seria asqueroso.

Alguns lacaios passam por eles, entrando nos túneis que pareciam centopéias desaparecendo pela escuridão à frente. Alguns reconheceram George, e o cumprimentaram; outros pararam um pouco e puxaram assunto.

— Bom dia, George! – desejou a humilde senhora que carregava cortinas pesadas.

— Bom dia, Dona Gertrudes. Quer ajuda com as cortinas?

— Oh, não, não... Consigo me virar com elas sozinha. – comentou olhando para os tecidos coloridos em seus braços. Levantou o olhar e pareceu notar a moça ali pela primeira vez. – É sua amiga?

George ficou envergonhado. Queria dizer que Sara era o amor de sua vida, mas não podia. Carregá-la nos braços, dizer que a amava e que seria capaz de morrer por sua vida, mas era incapaz de pronunciar tais palavras.

— Sim, senhora.

— Ela é linda. – comentou a idosa. – Tem a pele tão branca e suave... Nem parece que é serviçal! E esses cabelos... Deixe-me ver a beleza dos teus cabelos dourados...

Sara se esquivou. A senhora também.

— Você tem muitas semelhanças fisionômicas da rainha... Deveria conhecer a filha dela! Uma mege...

George a interrompeu.

— Com licença, Dona Getrudes. Tenho que levar a moça para conhecer as salas que irá limpar. Conversaremos depois, está bem?

A velha, que parecia tão entusiasmada em profanar a imagem da princesa, logo se libertou da imagem que criara. Sorriu de novo, acariciou delicadamente o rosto dos dois e saiu dali rapidamente com passos ligeiros e curtos.
Sara, que observava aterrorizada as silhuetas imundas ao seu redor, se permitiu prestar atenção em George apenas para saber como sair dali o quanto antes.

— Temos que seguir aquele corredor. Chegaremos praticamente no seu quarto.

E saíram apressados. Sara teria feito questão de ir à frente, latindo ordens a todos, no entanto, mal conhecia os aposentos onde se infiltrara. Era um lugar pavoroso, repleto de pessoas por quem nutria asco e com um cheiro horrível. Era como se todos os horrores de seus pesadelos se juntassem ali de uma só vez.

Não tardou até chegarem ao quarto de Sara, esta, que foi apressadamente estapear uma menina por não ter preparado seu banho ainda. George preferiu ignorá-la. Tais atos já não tinham mais tanto de sua atenção, sabe-se lá por quê. Resolveu caminhar pelo castelo, apreciando cada uma das sutilezas até ser convocado mais uma vez aos aposentos de sua amada.

Subiu as escadas, tocando e apreciando cada uma das perfeições e imperfeições do corrimão de madeira que havia tomado dias e dias dos artesãos que o entalharam. Apreciou a curva que os degraus faziam até o andar de cima, contornando as estatuetas dos antigos Husgentargen que ali viveram e governaram seu feudo.

Ouviu vozes furiosas vindo do quarto do rei e da rainha. Curioso, aproximou-se para ouvir a conversa. Não que esse fosse realmente seu objetivo, mas a curiosidade era tanta ao ouvir o nome de sua amada entre as palavras sussurradas altas, que precisava ter conhecimento daquilo.

A rainha andava de um lado ao outro, preocupada. O rei se mantinha impassível, sentado na cama, observando suas unhas brilhantes.

— Mas eu estava esperando que eles viessem mais tarde! Pensei que os pretendentes de Sara só viriam no próximo solstício! – exclamou a rainha.

— Não há muito que possamos fazer. Recebemos diversas propostas interessantes e agora cabe à nossa filha escolher com quem se casar.

— Certo, mas... Eu não sei. – A rainha se sentou na cama, ao lado do marido e abrigou suas mãos com as próprias, depositando-as em seu colo – Pode até parecer a solução de nossos problemas financeiros, mas... Sara?! Ela não é a pessoa mais doce do feudo, eu e você sabemos bem disso, além dos mensageiros e do povo...

— Querida – começou o rei –, vai dar tudo certo. Ela vai escolher o rapaz certo para ela. Você vai ver. E nossos problemas estarão resolvidos por um bom tempo.

George se afastou. Então era certeza. Sara definitivamente iria se casar com um dos príncipes, mas antes teria de escolhê-lo. George mais uma vez quis gritar, berrar, dizer que a amava, fugir com ela dali para poderem ser um casal livre das pretensões reais e felizes à sua maneira.

Virou-se rapidamente e saiu correndo em direção às escadas. As desceu tão rápido quanto a ventania de verão e foi até a porta do quarto de Sara, que já estava vestida, penteando os cabelos. Tomou um impulso fervoroso e enlouquecido de coragem e decidiu dizer tudo o que sentia por ela, sua princesa, e de mais ninguém. Nenhum príncipe haveria de tirá-la de seus braços!

Abriu as portas numa só batida e foi desesperado ajoelhar-se ao seu lado. Lágrimas ameaçaram escorrer por suas bochechas rosadas, mas mantiveram-se em seus lugares. Abriu os lábios para se declarar, mas tudo o que saiu foi ar, logo que fora interrompido por Sara.

— Ah, aí está você! – exclamou ela ao percebê-lo. – Eu queria mesmo conversar contigo. Você viu as roupas da tal violinista? Que coisa feia! Ela usa aquelas roupas pretas para a sujeira não salientar-se, mas convenhamos, não há sucesso algum. E aquelas moedas sujas que ela pôs naquela bolsa imunda? Fez-me ter vontade de vomitar... Não tanto quanto quando você me fez passar por aquele saguão subterrâneo imundo. O que é aquilo, afinal? Nunca vi tanta gente pobre, suja e nojenta num só lugar!

George não conseguia prestar atenção numa palavra sequer do que ela dizia. Só queria dizer o quanto a amava e como não queria perdê-la para um bando de imbecis que desejavam apenas o poder do sobrenome dela, mas não conseguia. O discurso de ódio que Sara proferia era forte e avassalador demais para competir com as doces palavras que ele ensaiava há tantos anos.

Ficou em silêncio, apenas. Ouvindo, mas não escutando o que Sara dizia. E assim foi, até serem interrompidos pela rainha, que queria conversar com a princesa sobre as supostas “visitas” que viriam dali alguns dias.

O restante do dia passou como um borrão: Sem luz, sem forma e sem gosto. Apenas declarou-se presente, e nada mais fez sentido nele. George sentia-se horrível e talvez não houvesse cura para a dor que emanava por seu corpo.

Naquela noite teve febre. Vomitou. Teve tontura e caiu dormente à cama mais de uma vez. Tudo por causa de um bendito amor e um maldito coração partido.

Notas finais
Agora, com o auxílio do Duki, regularizarei as postagens novamente. No entanto, não serão mais a cada quinze dias, e sim uma vez por mês (muito provavelmente na última semana). Espero que tenham gostado. Até o próximo!
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.