A Violinista Cega
8 Confissões
Notas iniciais
“Lucy acordou pela manhã sentindo os olhos latejarem com a luz forte que atravessava o vidro da janela. Levantou praticamente de olhos fechados e conseguiu fechar as cortinas negras para que então, em meio á escuridão do quarto, pudesse abrir os olhos normalmente.
Vestiu mais um de seus vestidos negros. A saia comprida formava camadas que a avolumavam. Pegou seu violino e a fita que usava para cobrir os olhos e desceu as escadas tentando fazer o mínimo de barulho possível para assim não despertar a atenção de sua mãe, que havia implorado que ficasse em casa.
Pegou uma maçã num cesto que destacava o centro da mesa em que se reuniam para os jantares em família. Suspirou.
Foi até o jardim e observou sua mãe pendurando algumas roupas que havia acabado de lavar. Seu irmão caçula estava ao lado da mãe, segurando a tina cheia de roupas molhadas. Lucy deu meia volta em retirada e saiu correndo.
Deu uma mordida na maçã e começou a desaparecer por entre as árvores e os arbustos, tentando se esconder e evitar ao máximo que sua mãe notasse que havia desaparecido. Prendeu a fita escura no rosto, cobrindo-lhe os olhos e continuou correndo, sem nem fazer ideia por onde andava. Apenas deduzia sua posição, quase como uma bússola adivinha.
Percebeu que havia chegado na trilha que dava acesso ao pátio do vilarejo – local onde sempre tocava suas melodias – e começou a andar normalmente, tentando manter o controle de sua respiração ofegante.
— Lucy! – ouviu uma voz que conhecia bem a chamando e virou-se podendo sentir a presença de Victor ao seu lado. – O que está fazendo aqui? Achei que não viria hoje. Passei em sua casa para acompanha-la e sua mãe disse que ia tirar o dia de folga. Imaginei que ainda estivesse dormindo e iria buscá-la para irmos até o lago mais tarde.
— Resolvi fugir. Preciso fazer um favor à alguém. Depois disso, irei para casa. Eu juro.
— Tome cuidado. Aonde tem de ir?
— Até a casa de um menino empobrecido tocar violino para sua avó doente. Toquei poucas músicas ontem e ela me recompensou indevidamente. Eu não merecia recompensa alguma por ter feito tão pouco.
— Aposto que você deve ter alegrado o dia daquela senhora – disse o rapaz abrindo um largo sorriso, desejando que Lucy pudesse vê-lo naquele instante. – É só seguir reto e você chegará em uma rua cheia de crianças. Lá elas indicarão o caminho que você deve seguir.
— Obrigada, Victor.
— Ah, e Lucy! Tenho um presente para você – disse estendendo um papel dobrado – abra apenas quando estiver em paz, sozinha.
A moça sorriu enquanto tateava sua bolsinha de moedas para guardar o presente.Virou-se murmurando algo em despedida e seguiu até onde Victor havia a informado para seguir. Lá pode ouvir o barulho de várias crianças brincando e correndo, até que o grito de uma a aliviou:
— Gente! Aquela é a moça cega que tocou violino ontem para a minha avó! – e várias crianças correram gritando na direção de Lucy.
— Sim, sou eu mesma – disse se ajoelhando para tentar ficar na mesma altura que as crianças – e hoje vou fazer uma surpresa para a sua avó. Vou tocar mais um pouco de violino para ela. Você poderia me levar até lá?
— Mas é claro! Vovó ficou tão emocionada com as músicas que você tocou que acabou criando coragem para se levantar da cama. Nossa família está muito feliz. Ah, e cuidado por onde pisa. Esses degraus são traiçoeiros.
O menino foi conduzindo com delicadeza Lucy, que sem poder enxergar qualquer coisa, caminhava em desespero em meio ao desconhecido daquela moradia.
Se pudesse ver, de certa forma apreciaria a casa. Apesar de pequena, era bem organizada e colorida. As cortinas sempre ficavam abertas, fazendo com que o ambiente se tornasse mais claro e aconchegante. Lucy gostava de coisas coloridas, de lugares iluminados. O que a entristecia naquele momento era o medo de não poder ver mais o lago num dia ensolarado. De não poder caminhar ao entardecer pelo jardim com Victor. De não poder mais ver o que mais apreciava.
— Vovó! Venha até a sala, por obséquio! Há uma senhorita que gostaria de vê-la! – A idosa foi caminhando até a sala o mais rápido que podia, mesmo que fosse bem devagar. Ao ver a Violinista Cega em pé, na sala, seu rosto se iluminou num largo sorriso que atravessava sua face.
— Então você é quem me surpreende com a visita, senhorita? É uma honra recebê-la, mesmo que a casa não esteja em condição para tal. – deu uma leve tossida – Ou até mesmo que eu não esteja em condições melhores para tal. Em que poderei servi-la?
— Vim tocar mais um pouco para a senhora. Soube que apreciou muito a minha música de ontem, e como pensei ter tocado um repertório muito reduzido devido à pressa, hoje irei tocar mais músicas. Todas elas, as minhas preferidas, além de... – fez uma pausa.
— Além de...?
— Até o presente momento, uma composição minha que não está completa. Tenho poucas notas.
— Não vejo problemas quanto à isso, senhorita. Aprecio a sua música mais do que qualquer outra música tocada por um estranho. Você me deixou bastante animada, minha cara. Estando bom ou estando ruim, eu tenho certeza de que aprovarei.
Lucy se posicionou a começou a tocar uma de suas músicas preferidas. Não sabia o nome da mesma, porém a adorava. Havia sido uma das primeiras músicas que aprendera e todos a consideravam uma música de elevado nível de dificuldade, coisa que a moça discordava insistentemente. Amava o que fazia, mesmo estando sendo torturada ao vende-la para ouvintes não muito críticos ou intelectuais. De qualquer forma, pensou, é a mesma dor de vender para qualquer um. A música não foi feita para ser vendida, e sim para ser sentida – filosofava enquanto finalizava a primeira composição.
Tocou por pouco mais de uma hora, finalizando com sua incompleta composição sofredora. Ao fim, foi aplaudida de pé por todos da casa – e mais alguns vizinhos que pararam para vê-la tocando seu majestoso violino – abaixando em reverência a todos ali presentes.
Ia se preparando para se despedir dos anfitriões quando sentiu seus pelos se eriçarem com o toque de alguém em seu braço. Com o susto, se virou como se pudesse ver quem a havia tocado. Nada disse, apenas aguardou qualquer reação por parte da misteriosa pessoa que ali estava.
— Então você é a Violinista Cega?
— Victor – disse quase que em sussurro –, o que faz aqui?
— Estava aqui ouvindo você tocar. Está ficando cada vez melhor na arte.. – Lucy ia sussurrar algum agradecimento quando sentiu o rapaz puxando-a pela mão – Vamos embora? Creio que já cumpriu com seu dever de hoje.
— Prometo voltar num futuro próximo, senhora. – virou-se fazendo reverência à idosa que a observava amistosamente.
— Sem problemas, minha querida. Está divina, como sempre.
O tilintar de várias moedas rodeava Lucy, que mal sabia o motivo daquilo. Começou a caminhar para fora da casa mais lentamente, acompanhada de Victor. As pessoas aplaudiam e gritavam ao gesto de Lucy, sua solidariedade e atenção ao tocar especialmente para a senhora. O menino que a acompanhara anteriormente recolheu as moedas e as entregou à moça que ainda estava confusa com tantos sons.
— Aqui estão as moedas que você ganhou, senhorita.
— Oh, muito obrigada, mas... eu não esperava tal reação do povo. Eu pensei apenas em tocar por caridade à sua avó e...
— Senhorita, qual o problema se eles gostam de ver e ouvir o que vossa senhoria toca? Eles estão querendo recompensá-la por tocar tão bem e alegrar o dia de cada um, inspirando-os a passar mais um dia apreciando e se inspirando nos momentos melódicos e muitas vezes nostálgicos que você os proporcionou com um violino e um arco. Eu também a admiro, senhorita. – Emocionada, Lucy pegou as moedas e, mesmo sem ver os valores de cada uma, entregou a metade das que havia acabado de ganhar ao menino que a fitou confuso.
— Tome, são para você.
— Mas por quê?
— Um apreciador das artes merece reconhecimento. Agora volte para sua casa. Há muitas pessoas ao redor da porta, então tome cuidado.
O menino sorriu enquanto se despedia de Lucy e Victor que o aguardavam entrar em casa. Deram meia-volta e saíram, a caminho da floresta e da trilha recoberta de árvores que teriam de seguir.
Percorreram boa parte do caminho em silêncio, provavelmente recheados de sonhos e pensamentos. A leve brisa chacoalhava as folhas calmamente enquanto os pássaros voavam animados em busca de insetos e frutas. Victor não se aguentou e quebrou o silêncio entre os dois.
— Acho que estou apaixonado.
— Perdão?
— Eu não entendo Lucy. Não entendo como posso conhecê-la há tão pouco tempo e ainda acabar me apaixonando por ela. Estou cada vez mais confuso com isso...
— Eu não sei o que dizer, Victor.
— Tampouco eu sei o que fazer. Prefiro a ignorância, nesse caso peculiar. Gosto de sofrer assim.
— Não chame de sofrimento o que desconhece.
— Medo talvez.
— Medo de que não seja um sentimento recíproco?
— Medo de que seja impossível. Também de que não seja correspondido.
— Se o sentimento é recíproco ou não, você mesmo diz ter medo da resposta e estar confuso com o que sente. Talvez seja, talvez não seja. Já teve a ousadia em perguntar?
— Tem razão. Mas seria grosseria da minha parte perguntar se ela também está apaixonada por mim sem ao menos lhe entregar flores.
— Se ela é uma boa moça e educada, de boa família, certamente lhe faltaria com o cavalheirismo se não a entregasse flores. – enquanto falava, Victor se abaixou e pegou algumas flores. Virou-se pra Lucy e prosseguiu:
— Seria também, terrível de minha parte, se eu não lesse um poema à ela?
— Talvez. Se o poema for romântico ou cuidadosamente escrito, é de se esperar melhores resultados. — Victor se ajoelhou e pronunciou o poema que havia memorizado dias antes:
“O sorriso desconhecido,
num belo dia recém desperto,
Tudo o que desejo por perto,
Mesmo que não sejas eterno,
O semblante calmante,
No rosto amanhecido.
O ardor de uma paixão,
que se esvai pelo coração,
Uma paisagem cheia de cores,
Desperta por ti, meus mil amores,
A bela artista, é a violinista,
Cega se faz, mas do meu sentimento
não volto atrás.”
Levantou-se para poder ver Lucy claramente, que o olhava seriamente. Antes de dizer qualquer coisa, a moça suspirou.
— Você quem escreveu este poema?
— Sim, senhorita.
— E este poema…
— É para você, Lucy — disse entregando as flores à ela — . Creio que me apaixonei por você e estou cada vez mais confuso. Tenho o pavor de que me abandone depois disso, por medo.
— Por que eu teria medo?
— Também não sei. Eu estou com medo de que o que sinto não seja correspondido por ti…
— Victor…
— Pois não?
— Você é a luz em meio a minha escuridão.”
Fale com o autor