A Vingança
3 2.
Notas iniciais
Bianca foi ao pátio acompanhada da amiga, curiosa para saber como foi o pedido de namoro de Marcos.
– E aí? Como foi? Me conta tudo! – disse Carla, quase aos pulos de tanta curiosidade.
Carla acompanhou Bianca em toda a sua vida. Viveram no orfanato juntas. Brincavam juntas, corriam juntas, riam juntas, dormiam no mesmo quarto, enfim, faziam tudo juntas. E nunca se cansaram uma da outra.
Quando Bianca foi adotada por Gabriela, choraram muito. De tristeza, e de felicidade. “Me promete que vamos nos ver de novo, tá? Promete?” E Carla respondeu “Prometo”. E cumpriram a promessa. Gabriela tinha uma amiga que queria adotar uma criança também. Claro que a criança desejada foi Carla.
Visitavam-se todo dia. Entraram na mesma escola. Carla repetiu o ano uma vez, por não entregar o trabalho da recuperação na data estimada. E assim, acabaram ficando na mesma sala.
Claro que a mãe de Carla, dona Patrícia, não gostou nada disso.
– Carla, foi maravilhoso! E lindo também! Você nem imagina o que ele me disse antes de me deixar em casa!
– O que? Me diz, me diz!
– “Eu vou ficar com você para sempre... Bia, eu te amo.”. Ele é muito fofo, né?
– Eu sempre disse que vocês iam namorar, mas você não me ouvia...
– Irei te ouvir na próxima previsão! – e riram muito.
Bianca parou de rir. Onde estava Marcos? Bianca olhou ao redor, em todo lado, mas não o encontrou. Onde ele foi parar?
– Calma, ele já vem. – afirmou Carla à amiga.
E Bianca se afastou. Carla não foi atrás. Bianca rondou o pátio, à procura de seu novo namorado.
No muro, que fazia a divisa da escola com a rua, estava uma menina apoiada. Bianca a viu. Parecia conhecida... Mas não estava uniformizada. Quem será que era? Bianca ficou com medo. Será que é uma mendiga, traficante, usuária de drogas...? Mas a curiosidade e a vontade de saber quem era a estranha eram maiores. Bianca foi se aproximando, e a tensão só aumentando.
– Ah... Oi. Seja bem vinda. É aluna nova?
A menina não respondeu. Continua com a cabeça baixa, e os braços cruzados. Bianca continuou falando:
– Qual é seu nome? ... Se quiser que eu te mostre a escola, não tem problema!
A menina levantou o rosto pouco a pouco, e levou os braços às costas. A menina era tão misteriosa que dava até medo. Com um sussurro baixo, respondeu:
– Meu nome é Elizabeth.
Neste momento, Bianca percebeu que conhecia a menina.
– Elizabeth...? Ah, é você então! Sou eu, Bia! Lembra-se de mim? Morávamos no orfanato...
– Ah! Lembro sim – a voz de Liz soou irônica. Era assim que a chamavam na época: Liz. Elizabeth levantou a cabeça e olhou fixamente nos olhos da antiga colega. Deu um sorrisinho.
– Você era uma que me irritava também, não é? Lembro-me de suas “brincadeirinhas”... – e sorriu como quem não queria nada.
– Isso... Não que eu me orgulhe disso. Não foi legal, com certeza... Mas nossa, que saudades Liz!
Bianca abraçou Elizabeth. Esta se esquivou, ainda com os braços atrás do corpo.
– Ah! Diz que tem saudades e me chama pelo apelido... Que ironia.
– Como assim? Não era esse o seu...
Bianca não disse mais nada. Sentiu seu corpo sendo penetrado por algo, e caiu no chão, desmaiada. A dor era forte. Elizabeth tinha em mãos uma faca ensanguentada. Sorriu. Olhou para Bianca. “Não te mato agora porque tem muitas testemunhas... Até o dia em que vou te matar, sua desgraçada.”
Todos do pátio correram para ajudar Bianca. Carla chegou primeiro:
– Ai meu deus do céu... O que é isso?! Chamem uma ambulância, pelo amor de Deus! Chamem alguém! – e disse para a amiga, que não escutava nada – Bia vou te tirar dessa... Quem fez isso com você? – Claro que não houve resposta.
Carla se desesperou. Estavam todos lá, atônitos. Sem fazerem nada. Apenas chocados. Carla pegou o corpo da amiga no colo, e com muita dificuldade, foi andando até a sala da enfermaria. Virou-se para um menino que estava mais perto e disse:
– Chame o Marcos. Agora!
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Nem foi necessário que tal menino chamasse Marcos. Ele já estava lá. Marcos correu até ela, desesperado e chocado. Tinha muitas perguntas a fazer, mas a hora não era essa. Sem dizer nada, pegou Bianca do colo de Carla e a levou.
Subiu a escadaria correndo. A supervisora já estava ciente do acontecido, e a ambulância ainda não tinha chegado. Desesperado e ensanguentado, Marcos começou a chorar novamente.
Muitos foram chegando querendo ajudar. Mas não podiam fazer nada, afinal. Apenas esperavam a ambulância chegar. Carla estava ao lado de Marcos, ligando para a mãe de Bianca; a enfermeira da escola tentava estancar o sangue, em vão; professores e alguns funcionários tentavam acalmar o resto dos alunos.
Finalmente, a sirene da ambulância ficou audível. Marcos, com a ajuda de Carla, levou Bianca para a ambulância.
– Eu vou com ela.
– Eu também. – concordou Carla.
– Tudo bem, sem problemas. Mas não pode vir mais ninguém, certo? – disse o enfermeiro, com cara severa.
– Sem problemas. Vamos logo, pelo amor de deus... – disse Marcos.
A viagem, em si, foi um silêncio. Marcos estava absorto em seus pensamentos de medo e preocupação, e Carla olhava apreensiva para a amiga, e segurava sua mão com delicadeza. Marcos chorava, Carla não. Ela nunca foi de chorar. Ela engolia o choro, e ficava corada.
Chegaram ao hospital. Os dois ofereceram ajuda, mas não eram permitidas as visitas. Eles teriam que esperar o atendimento.
Os dois sentaram nos bancos encardidos do hospital e se acomodaram. Esperavam ansiosa e nervosamente. Depois de muito tempo de silêncio, Marcos suspirou e perguntou:
– O que aconteceu?
– Também não sei... Ela foi te procurar, de repente, todos estavam em volta dela, e ela lá... Caída no chão... Ensanguentada. Ninguém fazia nada, estavam chocados, olhando para ela. Eu verifiquei o pulso e ela estava viva...
Carla não aguentou. Quase chorou, mas novamente engoliu as lágrimas, e corou. Mas Marcos também não precisava saber de mais nada. O resto tinha visto com os próprios olhos. Carla tinha pego Bianca no colo e seguiu em frente, buscando ajuda.
Ele olhou para si mesmo. Estava deplorável. Todo cheio de sangue, e fedia muito. Carla também.
Mas isso não importava no momento.
Todos que passavam no saguão do hospital viam dois jovens sujos e desarrumados. Todos os ignoravam.
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