A Vingança
4 3.
Notas iniciais
Depois de dez minutos – que mais pareceram duas horas -, o médico apareceu. Estava com uma cara indecifrável. Naquele momento, Gabriela, mãe de Bia, já estava lá também.
O médico se aproximou do trio preocupado. Os três olharam-no, com um olhar pedante. Então, o médico declamou:
– Ela vai ficar bem. O corte foi fundo, mas daremos alguns pontos. Você é Gabriela, mãe da Bia? – Gabriela assentiu. – Olhe, não deve deixar os pontos infeccionarem, ok? Senão, só vai piorar a situação... Venha lhe darei algumas dicas de como cuidar dela. Vocês dois, fiquem aí.
Marcos suspirou. Estava aliviado. Bia ficará bem. Ela é forte. Quando ele olhou para o lado, deu de cara com uma Carla que ele nunca vira. Ela estava chorando.
– E-eu sa... Eu sabia q-que ela ia se s-safar... — exclamou Carla, soluçando. Ela sorria, mas não conseguiu conter as lágrimas de felicidade. Chorou litros d'água, mas estava feliz.
Marcos olhou-a perplexo. "Carla? Chorando?" Não era uma cena comum. Por compaixão, abraçou a amiga da sua namorada.
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Bianca passou a tarde no hospital. Eles perderam as atividades na quadra, mas nem se importavam com isso. Quando estava quase anoitecendo, os médicos a liberaram. Bianca atravessou a porta do hospital apoiada na mãe, e logo viu Carla e Marcos. Os dois se levantaram e correram ao seu encontro.
Carla já chegou abraçando Bianca. As duas choravam. Marcos ficou atrás, esperando sua vez. Depois de poucos minutos de abraço, Carla deu passagem a Marcos. Ao invés de abraçá-la, Marcos a pegou no colo. Beijos foram dados e abraços também. Gabriela olhava tudo isso sorrindo.
Marcos e Carla insistiram em ir à casa de Bia, acompanhá-la. Queriam saber de tudo sobre o acidente.
– Bia... O que aconteceu? Pode nos contar? — indagou Marcos, enquanto eles entravam no carro.
– Marc, me ajude a entrar no carro. Não posso fazer muito esforço — disse Bianca, mudando de assunto.
– Bia, deixe disso! Conte logo, por que se foi alguém... Vai receber minha mão na cara!
Bianca ficou quieta. Respirou fundo, arrumou o cinto de maneira que não tocasse no corte, e encarou os dois. Ela não queria contar. "E se Liz vier atrás de mim para se vingar?" Bia tinha medo de dizer algo.
– Mas e se...
– Se... ? — indagou Carla.
– Mas e se ela vier atrás de mim, porque contei? — sussurrou Bia.
– Ela quem, Bia? — perguntou Marcos.
– A Liz. — sussurrou Bianca, depois de alguns segundos de receio.
– Liz... ? Quem é Liz? — perguntou Carla, ansiosa. Então, naquele instante, as memórias da infância de Carla voltaram. Lembrou-se de uma menina excluída e esquisita, chamada Elizabeth. — Ah... Não pode ser... Aquela "Liz"?
– Sim.
Marcos era o único que não estava entendendo nada. E ninguém explicava nada, pra variar. Bia estava com as mãos no rosto. Carla estava com o rosto perplexo e pálido. Gabriela foi a única que falou:
– Marc, "Liz" é uma menina que estava no orfanato com as meninas... Não é, gente? Lembro-me de Bia contando o nome de todas as crianças do orfanato. Ela disse que Liz era uma menina só, não é?
– Mamãe... Foi ela que me atacou.
– Ela? Mas por que diabos ela faria isso?!
– Não sei... — sussurrou Bia, falando tão baixo que parecia ter medo que alguém na rua a ouvisse. — Carla... Ela disse que se lembrava de minhas "piadinhas" com ela...
– Ai meu Deus... Filha, você fazia brincadeirinhas de mau gosto com ela?
Bianca apenas assentiu. Gabriela olhou para a filha através do espelho retrovisor, com uma cara de negação, mas de ao mesmo tempo piedade. Vingança era algo desprezível para Gabriela. Nenhuma palavra foi dita após este momento. O carro foi parando: chegaram em casa.
Com a ajuda de Marc, Bia desceu do carro. Abraçou-o fortemente, escondendo o rosto na camisa suja. "Me proteja, Marc." Marcos, em resposta, disse em sua orelha: "Claro."
Todos entraram. Gabriela fechou e trancou a porta.
– Olhe, vou fazer uma sopinha para Bia. Vão até o quarto, e fiquem lá com ela. Por favor.
Carla e Marcos concordaram. Carla foi subindo na frente, enquanto Marcos pegou Bianca no colo — novamente.
Chegando ao quarto de Bia, Carla fechou a porta. Marcos colocou Bianca na cama. Os três sentaram na cama, e Carla foi a primeira a dizer algo:
– Bia, deite-se. É melhor para você.
Bia obedeceu.
– Liz disse que se lembrava do que mesmo?
– Lembrava das nossas "brincadeirinhas"...
– Mas — e Carla fez uma pausa. Pensou um pouco, e continuou — Mas se ela lembra de nossas piadas com ela, e ela fez isso como vingança... Meu Deus, ela quer nos matar.
O silêncio predominou.
O medo era grande para todos.
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