A Vila Velha

2 Norgate em feudo.


Notas iniciais
Perdoem a demora, por favor...! *sorriso envergonhado*

Passaram-se dez pores-do-sol quando Halt finalmente chegou a Norgate. Trotando pela estrada principal feita com pedras lisas e cera, ele chamava atenção sendo uma figura sombria e coberta de suposições populares. Por onde passava, as pessoas abriam caminho em sinal de respeito, mas tanto comerciantes quanto compradores cochichavam uns com os outros, lançando algumas olhadelas nervosas ou curiosas. Não que o arqueiro ligasse para aquilo. Com indiferença fria, mantinha os olhos atentos no castelo do lugar, a cavalgada firme o embalando durante o trajeto.

Chegando à grande muralha que guarnecia um castelo simples, mas ponderoso, foi barrado por dois soldados de armaduras brancas e vinho e grandes lanças pontiagudas, revestidas duramente de metal.

– Quem é você, estranho? — perguntou o da direita em tom arrogante quando Halt viu-se obrigado a parar. — O que quer com nosso barão?

– Sou o novo arqueiro dele. — Halt respondeu em uma irritação perigosamente contida. – Agora saiam do caminho.

Os guardas não precisaram que a ordem fosse repetita: imediatamente liberaram passagem e o arqueiro passou em um silêncio de deixar todos os músculos tensos. Como pessoas em constante convívio da plebe, eles também acreditavam em boa parte das superstições e agora praguejavam contra si mesmos por não terem registrado todas as características que deixavam claras a posição do pequeno homem.

"Têm pessoas que com um pouco de poder já perdem a cabeça." resmungou Halt em pensamento com a testa franzida enquanto ia até o portão principal. Deixando Abelard mais ao lado, entrou, sem problemas, em passos silenciosos no interior do castelo abandonando o céu azul e limpo, juntamente com uma brisa fria que começava a soprar.

O interior da fortaleza era forrado exclusivamente de pedras, deixando o ambiente frio. O chão era feito de tábuas de madeira lisas e lustradas, assim como as relíquias e demais enfeites do saguão principal, onde se encontrava o arqueiro. Sendo um salão onde eram realizados todos os eventos nobres, também havia uma imensa lareira e alguns lustres delicados na abóboda alta. Não se detendo a detalhes do ambiente, Halt tomou logo a esquerda para subir os degraus da torre leste rumo a sala do rei. Passando por mais seis ou quatro guardas, chegou à mesma com o cenho levemente enrugado, apesar de oculto graças ao capuz que continuava em sua cabeça. Batendo na porta duas vezes, recebeu uma resposta automática de dentro do aposento.

– Entre.

Logo que obteve o consentimento, adentrou no cômodo pequeno e simples sem emitir qualquer som. Lá viu o barão responsável por Nogate sentado diante de quem aparentava ser o chefe de guerra da região graças a altura, corpo robusto, armadura requintada e espada longa e curva que trazia na cintura. Ao contrário de seu superior, ele permanecia de pé diante da mesa de carvalho, os braços cruzados ante o peito largo.

O barão, por sua vez, abriu um sorriso alegre logo que viu o arqueiro entrar.

Ha! Ei-lo! Disse-lhe, não foi, Cézanne? — falou vitorioso para o companheiro que estava cheio de seriedade. — Disse que chegaria antes do dia previsto! Não precisa mais se preocupar com trabalhos “além do planejado para cavaleiros” e me deve oito moedas de prata!

Gaugin Montblanc tinha o rosto liso, corpo magro e altura mediana, cabelos ralos e negros, além de leves rugas entorno dos olhos. Sua vivacidade era bem conhecida na região e Halt só não a criticava em pensamento pois o mesmo já presenciara a seriedade do barão no momentos adequados. Halt permaneu calado diante da mesa após um cumprimento respeitoso, mais para a ponta oposta de onde estava o guerreiro.

– É bom tê-lo aqui, Halt. — declarou Gaugin ainda sorridente. — Este — e indicou o cavaleiro ao erguer a mão esquerda — é Cézanne Klimt; melhor guerreiro e chefe de guerra. Meu braço direito! Falamos muito sobre você neste meio tempo.

Cézanne e Halt moveram suas cabeças para o lado a fim de encararem um ao outro. Sem expressão, pareciam analisar os olhos diante deles para ter noção do tipo de pessoa que teriam de conviver. Breves instantes depois, ambos se cumprimentavam com um gesto de cabeça, ainda fitando olhos que exalavam determinação, lealdade e raciocínio.

Logo depois o arqueiro estendia um documento enrolado e selado para o barão. Este riu ao ver o ato, divertido.

– Não é necessário! Saiba que apenas pegarei em vista as questões diplomáticas. – e logo Gaugin abriu o pergaminho com o selo do Corpo dos Arqueiros, leu o documento rapidamente e sorriu. Satisfeito, fechou e deixou-o sobre a mesa.

– Excelente. – Virando-se na cadeira, chamou olhando para uma porta nos fundos, espremida no meios de estantes cheias de livros. — Edward!

O som de dobradiças rangendo e uma voz baixa respondeu:

– Sim, meu senhor?

Edward Goya era o tesoureiro, sempre mergulhado em papelada. Sua organização, inteligência e responsabilidade exemplares o faziam reconhecido pelo barão, que confiava nele para a organização, inclusive, de pergaminhos com extrema importância. Aparentando pouco mais de 25 anos, era um pouco encorpado, de pele negra e olhos cinzas. O cabelo quase não era visto de tão curto e suas mãos de dedos longos seguravam alguns papéis com visível cuidado. Ao se aproximar, os olhos grandes estavam totalmente concentrados no barão, como se nada mais existisse.

– Poderia levar Halt à sua cabana, por favor? — pediu o superior com uma gentileza rara na alta sociedade. — É claro que, se estiver muito ocupado, não precisa. Posso arranjar outra pessoa. — acrescentou, olhando relutante para os papéis do companheiro.

Uma olhadela para o velho arqueiro e Edward respondeu com firmeza.

– Posso levá-lo sim, meu senhor. Não é necessário preocupação.

Sem enrolar voltou para sala e em questão de segundos retornou com as mãos vagas e com uma capa vinho sobre um dos ombros.

Já no pátio, o tesoureiro montou em um grande cavalo marrom que deixava Halt ridiculamente pequeno. Montado em Abelard, ainda notou olhares nervosos para ele enquanto seguia Edward para o oeste. Bochichos foram dobrados por se tratarem de duas figuras populares, ainda que bem distintas entre si na visão geral do povo.

– Arqueiro – Edward chamou formalmente Halt pela sua posição. Sabia que se dissesse o nome em voz alta poderia causar uma maior onda de sussurros, o que era incômodo para qualquer um.

Apertando levemente a barrigada do cavalo, Halt acelerou o trote até estar em paralelo com Goya. Logo, retornou ao passo normal e o encarou aparentemente sem expressão.

– Sim? – disse, mostrando disposição para a conversa sugerida.

– Desculpe, mas por que aceitou nosso convite de assumir o cargo como arqueiro de Norgate? — ele questionou com franqueza e leve curiosidade. — Já poderia se aposentar se quisesse. Ainda mais depois de tudo o que já lhe ocorreu.

– Não quero de uma vida monótona tão cedo. – disse sem rodeios. – Sou capaz de seguir neste ofício até a morte.

– Admiro sua decisão. – respondeu com um sorriso nos lábios grossos. – Na maioria das vezes...

Pare!

O aviso de Halt foi dado a tempo para evitar uma catástrofe. Abelard dera um pequeno aviso e parara logo quando percebeu que uma garota estava sendo brutalmente jogada em frente a eles. Ainda que o pônei travasse o passo com agilidade, o cavalo maior e o próprio Goya se assustaram com a figura repentina, caída sentada no meio da estrada e que poderia, no mínimo, quebrar algum osso caso fosse atingida por uma patada. Por acabar bem distraído pela conversa que tanto o interessava, o tesoureiro acabara puxando demais as rédeas por conta do susto e afligindo a sua montaria, fazendo-a empinar agitadamente. Os gritos da menina ao se dar conta da situação e o relinchar forte do cavalo agitando as patas dianteiras no ar se uniram assustadoramente por alguns momentos, chamando a atenção de todos ao redor. Antes que os cascos fortes do cavalo descessem, cavalgando apressado um borrão amarronzado firmemente agarrara a desconhecida pela gola do vestido e a levara dois metros adiante, arrastando-a no chão.

Largando o corpo ao seu lado para deixar que ele respirasse, o arqueiro sobre Abelard levantou a visão ao ponto do qual a jovem tinha sido jogada e assustou um grupo de três garotas que arregalaram mais ainda os olhos diante da expressão zangada de Halt e, suando frio, partiram em retirada. Franzindo o cenho pelas costas delas, o arqueiro foi ver direito a figura que choramingava no chão.