A Vila Velha

3 Não gostei de você.


A garota era alta, magra, de olhos grandes e castanho claros e cabelos lisos, pretos e curtos os quais batiam no meio da nuca em corte reto e incomum. De sobrancelhas finas e bem marcadas, boca pálida e vestido longo de tecido simples, ela visivelmente esforçava-se para não chorar, o olhar baixo. Ainda assim, um único filete de lágrimas desceu pelo canto de seu olho esquerdo, o qual secou com o punho direito, irritadiça. O pulso esquerdo permanecia colado ao peito em posição que sugeria estar torcido. E doendo muito.

– Como você está? — perguntou Halt em voz fria por hábito, ainda que com uma ponta imperceptível de preocupação. Ainda montado, consequentemente a olhava de cima, dando-se um ar de superioridade.

A jovem somente balançou com veemência a cabeça de um lado para o outro, mordendo o lábio inferior. Sem dizer nada, girou sentada ainda no chão e tentou se erguer com o apoio da mão direita, dona de dedos magros e longos. No entanto, ao pisar com o pé direito e utilizá-lo como apoio enquanto buscou erguer o joelho esquerdo para esticar a perna, soltou uma exclamação de dor e caiu sobre as pedras da estrada.

Impassível, Halt desmontou de Abelard que relinchou baixo e brevemente.

– Sei que ela não está bem. Calma. — sussurrou pelo canto da boca com brandura. No fim das contas preferia sustentar a imagem misteriosa e séria dos arqueiros e a mesma certamente sofreria um risco caso as pessoas o vissem falando com um cavalo. Principalmente um pônei. Dos arqueiros. Mas um pônei.

Abaixando-se ao lado da garota caída no chão e sustentada novamente pela mão boa, pegou com jeito o pulso avermelhado dela com o olhar profundamente concentrado. Um leve movimento naquele pulso e a jovem soltou um barulhinho com a boca em demonstração de dor, ao mesmo que retraía a mão e a tirava dos dedos grossos do homem.

– Qual a gravidade da situação? — questionou Goya que se aproximara a pé, o cavalo baio deixado próximo à montaria de Halt. Seu tom era preocupado e em seu rosto havia rastros leves de suor frio, os olhos preocupados.

Fazendo um sinal com a mão para que esperasse, Halt pediu licença em seu tom natural e ergueu um pouco a barra do vestido com retalhos. Logo viu um tornozelo direito vermelho e roxo, além de bem inchado. Estreitando os olhos escuros instintivamente, respondeu em tom nada satisfeito:

– Ruim. Precisaremos de uma bolsa de água quente para melhorar isto. — e virando a cabeça para o moreno, completou sério — Melhor chegarmos logo onde devemos.

Assentindo, Edward prosseguiu olhando desta vez para a garota que os encarava atenta e imóvel.

– Entendi, irei me apressar. Vou levá-la em meu cavalo. Com licença, senhorita. — pediu antes que se aproximasse mais, dobrasse os joelhos e a pegasse nos braços.

A menina que aparentava quatorze anos corou subitamente ao ser erguida no ar pelo tesoureiro, segurando-se com firmeza no ombro dele quando ele dera o tranco inicial para levantá-la. Ela tinha os olhos arregalados e assustados, mas a boca mantinha-se calada e qualquer um começaria a suspeitar de que era muda. Menos Halt.

Mesmo com perguntas a serem feitas ele preferiu não perturbar a garota naquele momento. Vendo-a sendo posta sentada nas costas do cavalo e Goya montar, não demorou para com um pulo imitá-lo. Deixando uma multidão faladeira para trás entre comerciantes, crianças e mulheres fuxiqueiras, dirigiram-se para fora do vilarejo.

Durante todo o percurso não tiveram nenhuma surpresa ou palavra trocada. Enquanto isso, Halt não conseguia tirar os olhos da jovem abatida, que permanecia com um semblante vazio. Esta, por sua vez, notava-o pelo canto dos olhos. Consequentemente permanecia com as bochechas rosadas de vergonha, ao mesmo que agradecendo em pensamento por estar no cavalo do conhecido tesoureiro. De fato, nas poucas vezes em que saía, Edward atraía atenção por tratar a todos como seus iguais, além de ser muito prestativo. Depois do barão, não havia dúvidas de que ele era o mais amado pelo feudo.

O céu ameaçava exibir o crepúsculo quando chegaram à cabana de Halt. Sem delongas, entraram na pequena casa padrão do Corpo dos Arqueiros – feita de madeira, pedras, palha e com um estábulo – e se viram em uma sala de estar pequena e aconchegante, com uma lareira, hastes para pendurar chaleiras e caldeirões, duas poltronas e uma mesinha de carvalho. Abandonando o fim de um dia quente e ensolarado, Goya deixou a jovem na poltrona à direita enquanto Halt fechava a porta.

Com rapidez Edward dirigiu-se para a cozinha e pegou água da pequena bomba na pia, colocando-a em uma chaleira que pouco demorou para encontrar. Enquanto isso, Halt já encaixava uma aste nos buracos das paredes da lareira e acendia um fogo com as pedras deixadas em um canto perto. Uma fagulha e fogo se acendeu em uma pilha de lenha que ajeitara pouco antes. Dando-lhes cutucões com um cabo de ferro para garantir que o fogo fosse alimentado, se afastou para que o tesoureiro encaixasse a chaleira pela alça. Um clique duro e por alguns momentos ouviu-se apenas o crepitar do fogo que começara a dançar, as labaredas alaranjadas e vermelhas crescendo gradativamente.

– Conhece os pais dela? – questionou finalmente o arqueiro, fazendo um gesto firme com a cabeça para a menina que ainda encarava a cena em silêncio.

– Na verdade, ela é uma protegida. Creio que enganou os guardas novamente para fugir. – respondeu com um toque de advertência para a garota, a qual mirou antes desta evitar seu olhar.

– Sendo assim, avise o barão. Não pretendo começar uma caçada. – disse ficando de pé com o olhar duro para a lenha e dando, junto com Edward, dois passos para trás.

O moreno concordou com a cabeça e logo partiu após despedidas respeitosas.

O silêncio pesou ali depois que partiu. Durante alguns momentos ninguém teve reação. Quando Halt girou nos calcanhares viu um rosto tímido com uma pergunta clara nos lábios.

– Não, não lhe darei nenhuma erva ou coisa parecida — foi dizendo. — Ao menos por enquanto. Os remédios para torções são melhores com água fervente, por isso estou esperando.

Com essas considerações partiu a Abelard, que o esperava obedientemente do lado de fora exatamente onde havia sido deixado. Apanhando suas poucas coisas (artigos de higiene, roupas, arco, aljava e flechas reserva), Halt o conduziu para o estábulo, deixando-o livre no cercado e servindo-lhe aveia. Quando voltou para dentro, a “visitante” permanecia tão imóvel quanto uma estátua.

Após largar os pertences no quarto, sentou-se na poltrona da esquerda, observando-a com seriedade.

– Poderia saber o que raios fazia no meio daquela rua? – perguntou frio após um silêncio bem desconfortável.

– Não parei lá de propósito! – ralhou indignada e de imediato a menina em atitude instantânea de defesa, os cabelos curtos esvoaçando quando virou a cabeça para fitar o estranho com a voz firme, apesar da base angelical que a encobria. Ao mirá-lo direito, porém, desviou o olhar, intimidada. Baixando o tom de voz, prosseguiu num murmuro – Eu... só fui jogada.

– E por que foi jogada?

Ela demorou.

– Por brincadeira. — falou com certo tremor na voz..

– E também por brincadeira estouraram seu pulso e seu calcanhar? – retrucou com a certeza de que ouvia uma mentira.

– Não foi por querer... – Ela continuou encarando as próprias mãos. – Mas... por que está perguntando isso, senhor?

Halt deu-se de ombros.

– Se fosse “por querer”, simplesmente perguntaria o que vai fazer a respeito.

Ofendida, ela franziu o cenho levemente e Halt anotou a atitude mentalmente antes de continuar, a boca da garota já escancarada para retrucar.

– Afinal não garanto que estarei perto sempre que sofrer algo. — continuou antes que pudesse ouvir algo mais.

“Que chato” a outra insultou o arqueiro em pensamento, fazendo um beiço involuntário, mas logo apagando os rastros de seu mau-humor com medo do estranho ler seus pensamentos. Afinal, era membro da plebe e convivia com os boatos predominantes da região. Logo, mirou o estranho pelo canto do olho novamente e notou que este parecia analisá-la. Receosa, encolheu-se, apertando instintivamente mais o pulso ferido. Desviando o olhar novamente e baixando a cabeça até que a franja reta quase cobrisse seus olhos, prosseguiu constrangida:

– J-já disse que não foi nada, obrigada.

Halt deu-se de ombros e deixou a postura mais ereta na poltrona.

– Como queira. Só me diga seu nome. Estou cansado dessa falta de informação.

Após anos como arqueiro, tornara-se impulso o desejo de obter o máximo de informações sobre qualquer coisa em que acabasse envolvido.

– Camile Grinsbell. – respondeu após hesitar. Claramente o fazia por medo e não por educação.

– Certo, Camile, só vou lhe avisar que terá de passar algumas noites aqui. Mesmo com cuidados médicos, isso não vai sarar tão cedo e até lá, trate de não fugir, como fez com o barão Montblanc.

As últimas palavras tinham claro tom de quem não estava para brincadeiras e suando frio pela ideia de passar a noite na cabana de um arqueiro, Camile permaneceu quieta. No momento, além de intimidada pela voz do homem, perguntava-se como seria a estadia por lá, tensa. “E ele ainda parece não ir com a minha cara...” refletiu pesarosa, fitando um ponto cego no chão oposto ao lado de Halt.

De fato este voltara a analisá-la severamente, estreitando os olhos negros. Nada podia dizer que ele gostava ou não do que presenciava. Era uma incógnita a qual ameaçava o futuro, especialmente dos presentes naquela sala ainda privada do assobio frenético da chaleira.