Acordo assustado de meu sono inerte com meu avô tossindo sem cessar, uma tosse que é aguda e esforçada. Levanto-me rapidamente, corro até a pia e encho um copo com a água que escoa preguiçosamente do cano. Depois que encho o copo até a risca, apresso-me em atravessar o cômodo para dá-lo de beber. Assim que o ajudo, com certa dificuldade, a sentar-se na cama, entrego a água e ele a bebe por inteiro, em goles curtos. Enquanto ele a bebe, semiacordado, sua tosse vai cessando e eu vou me acalmando aos poucos. Mesmo que esse ato já tenha se tornado rotina, eu ainda temo que um dia meu avô venha a tossir até a morte, assim como já vi acontecer a muitas outras pessoas daqui. A infecção bacteriana, além de te debilitar, abaixa sua imunidade, fazendo-o ficar à mercê de outras doenças, como gripes em geral, que foi o caso dele. Meu avô contraiu uma gripe fortíssima há oito meses e até hoje não se curou dela. Agora, além de estar apodrecendo de dentro para fora por causa da infecção, ele ainda sofre de gripe e, por consequência dela, sofre das tosses incessantes, as quais me põem esse medo. Mas, mesmo assim sendo, ainda tenho esperanças de que um dia ele se cure para que viva uma vida digna, depois de tanta luta contra a doença. Meu avô merece isso mais que tudo e todos.
Depois que coloco o copo vazio na pia, reparo que ele me fita com os olhos brilhando. Sua tosse já passou por completo, deixando somente o ruído rouco que é emitido quando ele respira, e agora ele está completamente acordado e sentado na cama. Talvez aquilo que escorria de seus olhos fossem lágrimas ou então alguma secreção que deriva da gripe. Não sei dizer ao certo, portanto apenas caminho para perto dele e me sento no chão gelado ao lado da cama, como sempre faço, e deito minha cabeça em seu colo. Ouço, ao fazer isso, o ronco que seu pulmão emite, mesmo estando relativamente longe dele. Inspiro e expiro o cheiro reconfortador de ranço que impregna o cobertor ao qual ele está enrolado. O cheiro de seu ranço me reconforta, talvez porque eu o associe a esse cheiro. Não tinha outro cheiro, porém, para associar a meu avô, considerando que eu não me lembro de ele não cheirar a ranço. Desde que me entendo por gente ele cheira assim, e isso me reconforta. Sentir seu cheiro, sua presença.
Sinto gotas de algo cair em minha cabeça e molhar meus cabelos. Elas caem como cascata e pingam como chuva. Seguido delas, ouço soluços que são, sem nenhum sucesso, forçados a parar pelo meu avô. Portanto concluo que minha tese “secreção derivada de gripe” não é válida. O que cai dos olhos do meu avô são lágrimas e, em conjunto com os soluços, formam seu choro.
Fico assim por um bom tempo, ouvindo/sentindo seu choro. Não tenho reação quanto a isso. Depois de longos minutos, o choro cessa por completo e o silêncio domina. É ele quem o quebra.
– Obrigado – ele sussurra com a voz embargada. – Obrigado, obrigado, obrigado... – ele continua a sussurrar enquanto me agarra em seus braços. Eu o abraço de volta, porém não consigo achar as palavras certas.
– Não há o que agradecer a mim, vovô – consigo dizer. – Estou aqui para isso, mais nada.
Sinto que ele volta a chorar e tento consolá-lo.
– Não precisa ficar assim, vai ficar tudo bem. Eu vou conseguir te tirar disso e... – não termino, porque ele me interrompe:
– Cézar, você acha mesmo que eu me importo comigo? – ele diz, agora olhando dentro dos meus olhos.
– Eu só quero que você largue dessa ideia de me salvar – ele continua. – Não há possibilidade de isso acontecer.
Quando ele pronuncia essas palavras, sou eu que começo a chorar. Não gosto quando as pessoas tiram de mim a esperança assim, sem dó.
Abaixo a cabeça para que ele não veja as lágrimas escorrendo, porém ele a levanta segurando em meu queixo. Acaricia meu rosto e limpa as lágrimas que, mesmo com minha força para que elas não saiam, insistem em cair.
– Cézar, querido – ele começa novamente, procurando agora as palavras certas. – Eu só quero te preparar para algo que está escrito que acontecerá. Eu vou morrer cedo. Por isso, pare de dizer que vai achar um jeito de me ajudar, porque você não vai. Abrace-me enquanto estou vivo, aproveite minha presença para que quando eu morra você não sinta minha falta.
– Mas, vovô, é impossível – eu consigo balbuciar em meio ao choro. – Eu não imagino meu mundo sem o senhor, não há vida para mim se a sua vida se acabar...
Ele me abraça depois que digo isso e em seguida fala:
– Não diga isso, Cézar, por favor. Não sabe o quanto me entristece quando diz isso, quando eu descubro que sou o motivo da sua tristeza. Eu quero que você seja feliz, não quero que fique preso a uma coisa passageira como eu. Agora, me prometa uma coisa – ele desfaz o abraço e faz com que eu o encare novamente.
– O quê? – eu pergunto, ainda chorando.
– Quero que você me prometa que não irá derramar uma lágrima sequer quando eu morrer – ele diz seriamente. – Prometa isso, ande!
Sei por que ele quer que eu prometa isso. Ele não quer ser responsável pela minha tristeza. Não quer sentir o peso de estar esquecendo-se de algo quando ele se for. Pensar na ideia de ele “se ir” me desespera, porém eu consigo fazer o que ele me pede. Consigo fazê-lo sorrir, mesmo que uma vez sequer.
– Eu prometo, vovô – digo, com a voz firme, ignorando o soluço que se forma em minha garganta. – Eu prometo.
Ele sorri e, mesmo que não seja um sorriso de completa alegria, eu me sinto bem. Nós nos abraçamos de um jeito desconfortável por um longo tempo, eu sentado no chão e ele sentado na cama, porém nem damos importância ao nosso conforto. O que eu queria mesmo era que aquele momento fosse eterno.
Conversamos por toda a manhã, meu avô várias vezes parando de falar sem mais nem menos e me observando com um olhar vago. Às vezes, enquanto fazia isso, ele pronunciava um “você não sabe o quanto eu te amo” e eu respondia “eu sei, eu também te amo muito”.
Algum tempo depois, antes de eu aquecer a água para que as batatas que nos serviriam como almoço pudessem ser cozidas, meu avô diz subitamente, como se tivesse descoberto que sabia pensar:
– Espere um segundo – ele fala. – Você não deveria ter ido à escola mais cedo?
Eu sorrio. O bom, velho e esquecido vovô...
– A escola está fechada hoje, vovô. Não se lembra de que hoje é Dia D?
– Ah, claro – ele diz, como se tudo fizesse sentido agora. – E você está ansioso? – ele pergunta porque sabe que é a primeira vez que participarei do sorteio.
– Não, nem um pouco. Antes de colocar o papel com meu nome na urna me deu um friozinho na barriga, mas não estou mais tão assim.
Ele me observa.
– E não está com medo de ser sorteado? – ele indaga. Eu penso na resposta que darei. “Eu estou com medo?” pergunto a mim mesmo.
– Não – respondo. – Não há porque ter medo, vovô. Não há chance alguma de eu ser sorteado.
Ele continua a me observar, pensativo. Por fim, diz:
– Está certo, você tem razão.
Assim que termino de comer e recolho o prato vazio do meu avô, ouço alguém bater à porta incessantemente. Jogo os pratos na pia e corro até à porta para encontrar, depois de abri-la, ninguém mais ninguém menos que Dani. Ela me encara incrédula.
– Você ainda está com a roupa de ontem? – ela solta quase que berrando, olhando-me de cima a baixo.
– Sim – respondo, não entendo a causa daquilo tudo. – E daí?
– E daí que nós temos de chegar cedo hoje ao Centro, senão o Sargento Ladeira come nosso...
– Ok, eu já entendi, não precisa continuar – eu a interrompo antes que meu avô a ouça. – Espere só um segundo.
Eu entro, fecho a porta e ouço-a dizendo que um segundo já passou, enquanto troco de roupa rapidamente. Termino de me vestir, me despeço de meu avô e abro a porta para sair. Antes que eu ponha meu pé fora do cômodo ele me chama.
– Cézar – ele diz, e eu me viro. Ele hesita e me encara por longos segundos, mas solta por fim: – Boa sorte.
– Obrigado, vovô – eu digo antes sair e fechar a porta atrás de mim.
No caminho para o Centro de Treinamento Intensivo, Dani ressalta o quanto está ansiosa para seu primeiro sorteio no Dia D e eu ressalto minha indiferença quanto àquilo tudo.
– E eu estou mais ansiosa ainda para saber o que eles pedirão – ela diz, pela milésima vez.
– Eu já entendi, Dani – respondo. Ela me olha com as sobrancelhas erguidas.
– Pelo jeito você acordou com o pé esquerdo, não é? – ela pergunta.
– Não acordei com o pé esquerdo. É que eu não aguento mais você repetindo que está ansiosa para o que vai acontecer hoje.
Ela revira os olhos. Depois de uns segundos caminhando calada, ela me pergunta como meu avô está, se ele está melhor, e eu simplesmente digo que ele está na mesma, mas que eu sei que ele conseguirá sair dessa.
– Eu sei pelo que você passa – ela conta. – Eu vejo o quanto as enfermeiras da Casa sofrem por causa da Jamie Ranevuë, uma menininha de oito anos que perdeu primeiro os pais para aquele ataque zumbi repentino que os nossos pais também se foram, depois perdeu o irmão, Hector, para o Dia D e ainda, pra ferrar mais a história, foi infectada com a mesma bactéria que seu avô está infectado...
Reconheço o nome da garota. Dani já falou dela uma vez, mas não me lembro de quando. Ela já havia contado toda a história de Jamie para mim, porém não me lembro da parte do seu irmão.
– O que houve com o irmão dela? – procuro saber.
– Ah, ele foi sorteado no Dia D a dois anos, eu acho, porém não retornou mais da missão, como acontece com muita gente. Presumiram que ele tinha morrido.
– Minha nossa... – é o que consigo dizer, devido à minha surpresa quanto ao tamanho da sorte de Jamie.
– Por isso eu digo – ela fala – que você deve sorrir mais, porque existem pessoas que estão muito piores que você. Eu vi pessoas assim hoje de manhã, quando ajudei as enfermeiras a levarem a Jamie à Sessão Hospitalar. Pessoas que estão entrando em estado de decomposição mesmo estando vivas...
– Ok, Dani, eu entendi. Vou tentar sorrir mais, prometo.
Ela sorri. Vira a cabeça para o lado e olha para o horizonte.
– Olha – ela fala, ainda olhando para o horizonte, e eu sei que ela fala comigo. – Eu refleti sobre aquilo que você me disse ontem e, realmente, é uma esperança boba minha. Agora, me escute, não quero ver você assim, todo pra baixo, triste. – Ela para de andar e entra na minha frente, me forçando a fazer o mesmo. Dani põe as mãos nas minhas bochechas e nivela nossos olhos para que eles estejam no mesmo patamar. E então continua:
– Mesmo se o pior acontecer, eu não quero te ver assim. Você deve entender que a vida é isso mesmo, Cézar. A vida é um grande jogo de perdas e ganhos, e nós não devemos nos render às perdas porque elas podem se tornar nossa prisão. Você tem de se acostumar com isso, ok?
– Ok – respondo vagamente. Ela caminha na minha direção e me abraça forte. Eu retribuo o abraço e afundo meu rosto em seus cabelos, aspirando o cheiro deles.
Depois do abraço, ela me põe à sua frente. Vejo que ela chora e movimento minhas mãos na direção de seu rosto, no intuito de limpar as lágrimas que escorrem, porém ela recua. Eu faço o mesmo e observo ela limpar seu próprio rosto. Enquanto limpa, diz:
– Prometa que vai aceitar o fato de que seu avô pode morrer a qualquer momento.
Eu a encaro, o rosto queimando, fazendo força para não abrir a boca e chorar.
– Você precisa fazer isso, Cézar – ela fala em tom de súplica. – Prometa isso pra mim, anda!
– Eu... – começo a falar, com a voz embargada. Pigarreio e tento novamente. – Eu prometo, Dani. Vou tentar aceitar isso.
Não aguento segurar mais e deixo as lágrimas rolarem. Ela me abraça novamente e nós ficamos estáticos por um tempo. Ela quebra a estática.
– Muito bem, agora vamos – ela diz, me pondo a caminhar junto dela. – Chega de choro.
Eu faço que sim com a cabeça e limpo as lágrimas, respirando fundo. E assim, abraçados, caminhamos em direção ao Centro de Treinamento Intensivo.
– Ainda estamos com sorte, olha – Dani diz ao ver o portão do Centro aberto, assim como ontem.
– Acho que o nome disso não é “sorte” – eu digo – e, sim, “Dia D”.
– Nem me fale, não sabe o quanto estou ansio... – ela para de falar assim que vê o olhar que jogo para ela. Ela ri.
– Não sabe o quanto estou A-N-S-I-O-S-A! – ela soletra em meio aos risos, jogando as letras na minha cara.
– Meu Deus, qual a idade desse ser mesmo? – eu pergunto irônico. – Quatro anos? Será mesmo que ela vai participar do sorteio sem atrapalhar as pessoas de ouvirem o Sargento Ladeira falar os nomes dos escolhidos?
– Engraçadinho – ela fala. Entramos pelo portão e nos dirigimos diretamente para as cadeiras que estão posicionadas em frente ao palanque, onde estão sentados à mesa – que foi arrumada por mim e por Dani – os líderes de Morada, tanto do Conselho quanto dos Armados. No meio da mesa está o governador de Morada, Augusto Tameirão, e na extremidade direita está o Sargento Ladeira. Eles são os únicos dos que estão sentados à mesa que conheço, portanto nem me preocupo em reparar nos outros.
Os outros meninos e meninas da minha idade, que ocupam as primeiras sete fileiras de cadeiras, estão em um verdadeiro alvoroço. Eles apontam para a urna de vidro que está posta no centro do palanque enquanto conversam. É difícil achar um lugar vago, mas depois de muito procurar, eu e Dani conseguimos nos sentar na terceira fileira. E bem em tempo, porque assim que sentamos Augusto Tameirão se levanta de seu lugar e toma o microfone.
– Bem vindos, jovens, a mais um Dia D – ele começa. Todos se levantam e aplaudem. Eu os imito. Depois que as palmas cessam, ele continua.
– Escolhemos vocês por sua força e coragem, e todos sabem que sem vocês, os jovens, não haveria mais vida em Morada. Porém, presumo que queiram saber o porquê disso tudo. Deixe que eu conte a vocês. Há muito tempo, depois do grande Ataque Z que devastou o mundo inteiro, e depois de os governadores dos Estados tomarem a decisão de fazer dos estádios de futebol seu abrigo, eles viram que não tinha como conseguir comida ou o que quer que eles precisassem sem que arriscassem a vida se aventurando além do Grande Portão. Nós estaríamos perdidos se meu pai, Reinaldo Tameirão, não tivesse proposto que, em todo semestre, um dia seria marcado como o Dia D, no qual sete jovens seriam sorteados para irem à cidade em busca daquilo que mais estivesse em falta no estádio.
O jeito como ele falava era como se toda a ida à cidade fossem somente flores. Como se os que fossem sorteados não tivessem de enfrentar a causa da destruição do planeta ou, para ser mais exato, a causa de estarmos ali, a causa daquele maldito Dia D. Como se os mortos-vivos que estivessem à espera deles fossem inofensivos.
– É claro que sabemos o que nos espera do lado de fora do estádio – ele diz, como se respondesse ao meu pensamento. – As primeiras expedições foram um completo fracasso, portanto os líderes decidiram criar uma academia especial onde os jovens pudessem ser treinados especialmente para matar os mortos-vivos.
Viro-me para Dani com um olhar que diz: “Viu? Não sou só eu que me dirijo aos seres pútridos como ‘mortos-vivos’”.
– Tivemos também de estipular a idade dos escolhidos, e decidimos que eles seriam colhidos na flor da idade, entre dezesseis e dezessete anos.
Olho em volta e reparo no número de jovens que estão sentados prestando atenção às palavras de Augusto. Juro que ele diz algo mais, porém perco a linha da atenção. Quando volto a mim, ele já está passando a palavra ao Sargento Ladeira para que ele inicie a cerimônia do sorteio.
– Desejo boa sorte a todos, e que os sete escolhidos vejam a ida à cidade como um ato de coragem e honra.
Augusto se senta à mesa e o Sargento Ladeira toma o microfone.
– Bom – Ladeira começa –, sem mais delongas, vamos à cerimônia. Peço para que os donos dos nomes que eu ler se posicionem ao meu lado direito.
Ele caminha até a urna e para à esquerda dela. Enfia a mão dentro e dela retira o primeiro papel. Ele o abre e o lê em voz alta.
– Marcos Costa Siqueira.
Olho em volta para ver o rosto do escolhido. O vejo se levantar desengonçadamente, talvez por causa do susto. Ele é alto e moreno, e não me lembro de ter me esbarrado nele durante o treinamento. Na verdade, ele podia muito bem nunca ter estado lá, porque não consigo me lembrar de sua fisionomia.
Ele se posiciona ao lado do Sargento Ladeira e ele dá prosseguimento ao processo. Tira mais um papel da urna, o abre e o lê em voz alta.
– Anna Carolina Fontes.
Olho para os cantos do Centro de Treinamento à procura dela, porque sei que é lá onde a encontrarei. Assim que a acho, isolada, vejo-a esboçar um sorriso triunfante. Talvez ela leve essa história de “honra” um pouco a sério demais. Ela ajeita seu rabo de cavalo e caminha ao palanque.
Depois que ela se posiciona, Ladeira continua sorteando os jovens. Ele retira o terceiro papelzinho, o abre e o lê em voz alta.
– Danielle Cardoso.
Tremo ao ouvir o nome de Dani, e por um segundo penso ter ouvido errado. Porém, quando olho na direção dela, Dani também está pasma. Ela volta a si e se levanta, caminhando em direção ao palanque. Minha visão, depois disso, se foca nela e em mais nada. Ladeira, porém, não me acompanha, apenas continua a recitar os nomes que, para mim, são somente nomes sem donos porque nem reparo no rosto deles. Apenas fito a Dani, que encara o chão com um olhar fixo. Depois dela, Ladeira chama mais dois garotos que meu cérebro inconveniente se recusa a processar quem são. Ele apenas processa a garota que é sorteada antes do último escolhido. Ladeira enfia a mão na urna, retira o sexto papelzinho, o abre e o lê em voz baixa. Arregala os olhos e prende a respiração, numa expressão de puro terror. Olha para os lados, como se procurasse a quem recorrer, mas todos esperam apenas que ele diga o nome do sorteado. E é o que ele faz.
– Clara Elisa Ladeira.
Reconheço primeiro o sobrenome dela, mas depois que a filha do Sargento Ladeira sobe o palanque e se posiciona ao lado dos outros meu cérebro processa sua fisionomia. Lembro-me de já tê-la visto cuidando dos doentes na vez em que algumas pessoas me ajudaram a levar meu avô à Sessão Hospitalar às pressas devido a uma crise de dores abdominais. O jeito com que ela sorria para eles e dizia que tudo iria ficar bem me fez sorrir naquele dia. Hoje, ao lado dos outros escolhidos, a filha do Sargento Ladeira não parecia tão otimista assim.
O Sargento se recompõe e retira o último papelzinho da urna. Ele o abre e o lê em voz alta, dando fim ao sorteio.
E o nome do último sorteado é um pouco familiar demais para mim. Assim que ele o pronuncia, sinto um arrepio percorrer minha espinha.
– E o nome do último sorteado é... Cézar Fernandes.
Perco o ar, me esqueço de como se respira. Forço para que meus pés saiam do lugar, porém é inútil. Com muito esforço consigo me dirigir ao palanque. Espremo-me entre Dani e o garoto que meu cérebro não processou. Eu e Dani nos entreolhamos e depois dirigimos nosso olhar para os que nos assistem.
– Estamos ferrados – Dani sussurra.
– Sim – eu concordo. – Muito ferrados.
– Redondamente ferrados.
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