A Vida Pós Apocalíptica de Cézar
3 Desaparecido
– Acho que nossa sorte excedeu de uma hora para outra – diz Dani, sem se virar para mim. Estamos numa saleta pouco iluminada que fica ao lado do Centro de Treinamento Intensivo, sentados em cadeiras que estão caindo aos pedaços, junto dos outros cinco “buscadores”, como o Sargento Ladeira nos chamou quando nos levara para lá. Após o sorteio e minha completa desorientação, Ladeira havia nos conduzido àquela saleta, onde estamos agora, e dito que voltaria logo. Não sei onde ele foi, mas o lugar é longe, porque seu “logo” nunca chega.
Não respondo à afirmação de Dani, não por descaso nem ignorância. Eu simplesmente não consigo formular uma resposta. Depois de, há uma hora, processar meu nome dito por Ladeira em alto e bom som, meu cérebro parara de trabalhar e entrara em um completo estado de estática. Eu não consigo parar de pensar no que acontecerá depois que eu sair da saleta, depois que eu sair de Morada. Estarei à mercê das coisas de que tenho mais medo mundo. E em pior lençol estará quem eu amo. Minha mente está vazia e ao mesmo tempo cheia, mas mesmo assim sendo, não consigo parar de pensar em meu avô, em como ele sobreviverá sem mim. Quem o levará à Área Hospitalar quando for preciso? Afinal, quem se preocupará com uma pessoa que espera a morte com um sorriso no rosto? Pensar nisso me dói, e Dani percebe que estou chorando. Ela, que está sentada na cadeira ao meu lado, avança e me abraça apertado. Ficamos assim por um bom tempo. – Cézar, por favor – ela fala, acariciando meus cabelos –, nós temos de ser fortes. Eu sei que é amedrontador, sei que foi de repente e que nós não esperávamos por isso. Também sei exatamente o que se passa pela sua cabeça, porque é o que também se passa pela minha. Mas nós não podemos nos render a isso, não podemos... – Você não sabe de nada, Dani – eu digo entredentes. – Não faz nem ideia do que eu estou sentindo, então não me venha com essa de que está compartilhando da mesma dor que eu. Ela recua, parando de acariciar meus cabelos e se distanciando um pouco de mim. – Está errado, Cézar – ela sussurra depois de um tempo. Olho para ela e vejo que ela fita o chão. – Quando eu partir na missão, assim como você, também estarei deixando alguém com quem me importo muito para trás, você sabe disso melhor que ninguém. Porém não posso fazer mais nada quanto a isso... Ela começa a falar mais algo, porém para, como se tivesse desistido. Eu paro e penso, então descubro que sei realmente do que ela fala. Lembro-me de como ela falara mais cedo de Jamie Ranevuë, a “garota sortuda”, que perdeu os pais e o irmão e contraiu a superbactéria. Ela falara dela de um jeito doído, como se a doença de Jamie afetasse-a também. Tudo isso porque há dois anos Dani se oferecera para ajudar as enfermeiras da Casa dos Sem-Lar a cuidar de Jamie e, nesse meio tempo, ela havia criado um laço bem forte com a garota. Querendo ou não, Dani agora tinha um sentimento de ser responsável por ela. E, depois que eu penso melhor, parece que, ao contrário do que eu achei, compartilhamos da mesma dor afinal. Ou quase isso. Eu encaro o chão, assim como ela está fazendo. Fecho os olhos e respiro fundo, mandando mais oxigênio para o cérebro na tentativa de que ele funcione como deveria. Recordo-me de quando Dani me contou sobre Jamie pela primeira vez. Ela havia me contado vagamente, sem muitos detalhes, em um dia chuvoso agora perdido no tempo, e havia chorado muito. Na época, eu não dei muita importância. Agora penso que realmente preciso pensar um pouco mais antes de falar. – Perdão – é o que consigo balbuciar. – Eu havia me esquecido de Jamie... – Tudo bem, Cézar – é o que ela responde, mas vejo que nada está bem. Permanecemos na mesma posição inerte até que eu decido observar os outros buscadores. Levanto a cabeça devagar e perpetuo meu olhar sobre cada um. Primeiro meu olhar passa pelo moreno alto, Marcos, o primeiro a ser sorteado. Sua expressão é indecifrável, não expressa nada. Totalmente vago ao momento. Movo meus olhos em direção à filha do Sargento Ladeira, Clara, que está sentada a quatro palmos de distância de Marcos. Na verdade, eu e Dani somos os únicos da saleta que estamos próximos um do outro. Os outros estão distantes de nós e de uns dos outros. Continuo observando Clara, que há poucos minutos estava chorando. Deduzo isso por causa do seu rosto, que está inchado e vermelho como um pimentão. Seus cabelos cor de mel, que caem em ondas até seus cotovelos, estão arrumados em uma trança, que ela desfaz e faz novamente de um jeito ansioso. Lembro-me vagamente da vez que a vi cuidando das crianças na Área Hospitalar. Ela não está mais com o sorriso daquele dia no rosto. Avanço com o olhar para a pessoa que está ao lado de Clara. Ele é um dos dois garotos dos quais eu não conheço e que, no decorrer do susto ao ouvir o nome de Dani, não consegui processar seu nome dito por Ladeira. Ele é extremamente alto, o mais alto da sala, e pode ser facilmente dado como mais velho. Seu cabelo é um conjunto de cachos bem definidos que descem até sua nuca oleosa. Na verdade, toda sua pele facial parda é oleosa, e em algumas partes do seu rosto a acne predomina. Observo sua expressão de ansiedade, o cenho franzido e os pés batendo na cadeira. Viro-me devagar para Dani. – Você, hm... – eu procuro as palavras. – Você sabe o nome dele? – sussurro a pergunta a ela acenando de leve em direção ao garoto alto de cabelos cacheados. Ela faz que sim com a cabeça. – O nome dele é Matheus – ela responde. Eu sorrio e nós trocamos olhares. Por fim, Dani sussurra ao meu ouvido: – Ele é estranho, não é? Eu concordo e nós reprimimos o riso. Continuo a observar as pessoas da saleta agora com Dani a me acompanhar e vejo, no canto da sala, isolada dos demais, Anna Carolina. Ela está escornada na cadeira com os braços cruzados e com um sorrisinho torto triunfante – não sei o que ela triunfa – e quase malvado estampado no rosto. Seus cabelos negros estão presos em um rabo de cavalo comum, como ela sempre está. Percebo que ela também estuda os outros buscadores e nossos olhares se cruzam por um momento. Ela sustenta o olhar e levanta uma sobrancelha, como se estivesse me desafiando. Eu abaixo os olhos e o triunfo domina seu sorrisinho. Não sei se é imaginação minha, mas eu penso tê-la ouvido sussurrar entredentes a palavra “fraco”.
O último a ser perpetuado pelo meu olhar é o garoto que está a cinco palmos de distância de mim. Ele é o segundo que eu não havia processado o nome. Tem a mesma altura que eu, com poucos milímetros a mais, e tem a pele branca como leite. Quando olho em sua direção, percebo que ele olha para Dani de um jeito estranho, quase feroz, e que seus olhos verde-oliva brilham. Eu olho para ela também e percebo que ela nota o olhar que ele joga para ela. E ela simplesmente cora e encolhe os ombros. Sinto uma coisa estranha dentro de mim enquanto os dois trocam olhares e não entendo o que é isso, portanto apenas ignoro. Mais tarde perguntarei a ela o que significa. Todos pulam da cadeira quando da porta irrompe o Sargento Ladeira com o governador Augusto Tameirão logo atrás dele. Estamos quase dormindo quando Ladeira a abre de supetão e entra se posicionando à direita do governador de Morada, que fica à nossa frente. Augusto sorri e corre o olhar pela sala, visualizando cada rosto. Junta as mãos e entrelaça os dedos. – Primeiramente – ele começa – quero dizer que estou muito feliz. Como eu disse lá fora, se não fossem por vocês, tanto os novos quanto os velhos buscadores, a raça humana já estaria extinta. Vocês são nossa esperança, nossa salvação. Nós nos entreolhamos e, talvez, compartilhamos do mesmo pensamento por um segundo. – Eu vim – continua Augusto – para ressaltar qual será o Alvo de vocês na expedição desse semestre, novos buscadores. Estive conversando com os responsáveis pela medicação do povo de Morada. Eles me disseram que os surtos da superbactéria estão afetando a população de tão rápido modo que, em três anos, eles presumem que todos estarão contaminados com ela. Então, de que adianta nos escondermos do Grande Vírus se aqui dentro nós temos nossa própria “Grande Bactéria”? – ele movimenta dois dedos das duas mãos, fazendo as aspas com eles. – Perguntei aos medicadores se tinha algo, qualquer coisa, que curasse ou pelo menos amenizasse a transmissão, e adivinhem a resposta que eles me deram! Ele para e espera que nós digamos algo, porém ninguém diz nada. – Ninguém chuta a cura para a infecção bacteriana? – ele pergunta. A filha do Sargento Ladeira, Clara, levanta a mão direita timidamente. Augusto aponta para ela. – Bem... – ela começa. Sua voz é aguda e firme. – Se é uma infecção bacteriana, o remédio que pode ser usado contra ela é o antibiótico produzido a partir do fungo Penicilium chrysogenum – ela faz uma pausa, depois continua: – Que é mais conhecido pelo nome de penici... – Isso mesmo, garota! – Augusto berra, interrompendo-a. Ele tapa a boca com ambas as mãos e quase salta de entusiasmo. Olho para Clara com os olhos arregalados. Como ela pode saber disso tudo? Talvez ajudar na Área Hospitalar tenha apurado os conhecimentos dela... Não sei dizer. – É uma pena que você tenha partir na expedição, mocinha. – Augusto fala depois de se recuperar dos saltinhos. – Seria tão útil... – Ele olha pensativo para Clara e diz isso como se não houvesse chance de nós voltarmos vivos da missão, e parece que todos entendem exatamente isso. Olho para Clara e vejo que ela cora. Depois perpetuo meu olhar em Ladeira, que outrora sorria de orgulho da filha, mas que agora encara o governador com um olhar assustado. – Amanhã – ele diz, agora se dirigindo a todos nós –, antes de partirem, cada um de vocês receberá uma mochila com suprimentos e armas necessários para sua sobrevivência. E também receberão um mapa da cidade semelhante a esse – ele tira um mapa colorido do bolso, que tem como título: Principais Pontos Turísticos de São Paulo. Ele aponta para o canto inferior do mapa e pergunta: – Estão vendo essa parte em azul? Sim, onde se lê “Estádio Cícero Pompeu de Toledo, o Morumbi”. Aqui, no canto inferior, estamos nós. Vocês terão de partir daqui – ele tira o dedo da parte azul – e ir até aqui – ele aponta para o canto superior direito do mapa, que está em vermelho. Onde está marcado, lê-se: Centro Farmacêutico de São Paulo. – Na distância gráfica, parece ser perto, mas não se deixem enganar, meus caros novos buscadores. O que vocês encontrarão no caminho fará a viagem parecer eterna. Ele faz uma pausa e nos encara. Meu coração acelera. Só de pensar em sair de Morada, meu lugar seguro, me faz ter palpitações. – Deixarei que o Sargento Ladeira termine minha fala, ele sabe melhor que ninguém como se aventurar fora daqui. O Sargento estufa o peito. Augusto continua: – Desejo a vocês, novos buscadores, toda a sorte do mundo. Espero que vocês sejam bem sucedidos na sua expedição. Depois de dizer isso, Augusto Tameirão sai da saleta, deixando-nos na companhia do nada bem-humorado Sargento Ladeira.O Sargento Ladeira nos libera depois de cinco horas da sua palestra que tinha somente dois tópicos; primeiro: dizer-nos, nos minuciosos detalhes, o que devíamos pegar ao adentrarmos o Centro Farmacêutico, ou seja, o nosso Alvo, que seria o máximo de frascos de penicilina que conseguíssemos adquirir enfiando dentro das mochilas que eles nos entregarão amanhã antes de partirmos. Ele tenta nos explicar o método como os médicos de Morada manipulariam a penicilina nos pacientes infectados com a bactéria, mas eu não tive nenhuma vontade de prestar atenção nessa parte da explicação. Eu não sou médico e não vou aplicar injeção de penicilina em ninguém e, além do mais, minha mente estava ocupada com uma coisa mais importante que isso. No segundo tópico – o mais importante, em minha opinião – o Sargento ressalta trilhões de vezes que o que enfrentaremos fora dos portões é letal, como se já não soubéssemos disso. Ele exemplifica mil e uma formas de “matar” um morto-vivo e fala sobre o tempo que o vírus leva para tomar conta do corpo de um humano, caso um de nós tenha contato com ele. Dá exemplos das formas que podemos contrair o vírus: bebendo água contaminada (por isso nos darão água tratada daqui para levarmos conosco), entrando em contato com a secreção pegajosa que os zumbis expelem (que algum dia foi seu sangue), e a forma mais comum de sermos contaminados que é sendo mordido por um deles. Depois ele dá mais mil e uma maneiras de sairmos vitoriosos num embate contra os mortos-vivos, sendo a maneira mais eficaz de derrota-los acertando algo na cabeça deles, fazendo com que seus miolos sejam esmiuçados. Anna Carolina ri quando o Sargento Ladeira se embola falando a palavra “esmiuçados” e ele a olha com uma expressão não muito amigável, fazendo-a parar de imediato. Quando ele volta a falar e tira seus olhos dela, ela levanta o dedo médio e o roda no ar, apontando na direção de Ladeira. Eu praguejo, porque quero muito que o Sargento Ladeira a pegue fazendo isso, porém ele continua falando e não se vira para Anna. Não me lembro de mais nenhuma palavra do Sargento Ladeira depois disso. Apenas me dou conta de que a palestra realmente termina quando Dani se levanta da cadeira e me cutuca. Saindo da saleta, posso ver que Dani e o garoto de olhos verdes se entreolham do mesmo jeito de antes novamente. Ignoro a cena. Ladeira acompanha todos nós até o portão do Centro de Treinamento Intensivo e nós seguimos rumos diferentes. Pelo canto do olho posso ver que Clara ficou ao lado de Ladeira no portão. Ele a abraça e ela enrijece, não devolvendo o abraço.– Então... Amanhã é o dia – Dani diz enquanto caminhamos lado a lado. A frase soa um pouco forçada. Não digo nada, o silêncio predomina. Escutamos apenas nossos próprios passos. – Presumo que você não tenha prestado atenção no que o Ladeira disse – ela tenta novamente estabelecer uma linha de conversa. – Temos que estar no Centro de Treinamento depois do almoço para poderem nos preparar com os suprimentos, conversar mais com a gente, essas coisas... – Eu não vou partir na missão, Dani – interrompo-a. Ela se surpreende. – Como não vai? – ela me pergunta. Eu não respondo, portanto ela para de andar e segura meu braço, forçando-me a fazer o mesmo. – Me explica isso direito, Cézar – ela quer saber. – O que você vai aprontar? – Nada – respondo. – Não vou aprontar nada, Dani. Apenas não vou ir à expedição. Ela me encara incrédula. – Você sabe o quanto isso é perigoso pra você? Eles vão te deserdar, Cézar! Olho para a grande arquibancada. – Não me importo. Ela balança a cabeça em negativa e dispara a andar em minha frente. Eu a sigo.
– Olha – eu digo enquanto tento alcança-la –, eu simplesmente não posso fazer isso. Meu avô não vai ter ninguém que lute por ele se eu partir... Ela para de andar novamente. Vira-se e me encara. Vejo que chora. – Eu preciso te contar uma coisa que não consigo mais guardar pra mim – ela respira fundo. – Hoje mais cedo, quando ajudei as enfermeiras a levarem a Jamie à Área Hospitalar, eu ouvi a conversa de dois soldados que guardam as proximidades da Área... Ela para e comprime os lábios, balançando a cabeça. – Continua, ora! – Insisto. – O que você ouviu? Ela continua balançando a cabeça em negativa, como se desistisse de algo. Por fim, diz: – Não. – Não o que? – quase grito. – Não é nada, Cézar. Você não precisa saber disso. Ela começa a andar novamente. Eu a sigo e puxo seu braço. – Agora você vai me dizer! O que houve? Continuamos a andar, comigo agarrado em seu braço. – Cézar, não se preocupe. Não é nada demais, é coisa da minha cabeça. Nem devia ter tocado nesse assunto com você... Solto seu braço e paro, deixando-a seguir sozinha. Não insisto mais que isso, porque sei que quando Dani diz não é realmente um não.Não nos falamos durante o resto da caminhada. Ao chegarmos à entrada da Casa dos Sem-Lar, Dani se senta num dos degraus mal acabados e eu a imito. Eu enfio a mão nos bolsos e ela abraça as pernas, trazendo-as para junto de seu peito. – O que foi aquilo na sala do Ladeira? – pergunto a ela, tentando quebrar o clima ruim que predomina. – E “aquilo” seria o quê? – ela diz. – Aquela troca de olhares entre você e aquele garoto de olhos verdes que estava do meu lado. – Ah. Isso. – Sim, exatamente isso. Ela sorri e olha de um jeito sonhador para o horizonte. – Não sabe o que significa flertar, Cézar? Eu coro. Sei muito bem o que significa flertar. – Ah – respondo. – Então era isso. Ela dá um risinho tímido. Ficamos segundos sem que qualquer um diga qualquer coisa. – Prometa que vai repensar essa sua ideia de não partir na expedição, ok? – ela me pede. Faço que sim com a cabeça. Estou prometendo tanta coisa pra tanta gente nesses dias... – E você...? – eu pergunto. – Tem certeza de que não tem de me contar aquilo? – Certeza absoluta – ela responde. – Não quero que mais nada imprudente se passe pela sua cabeça. Comprimo os lábios e assento com a cabeça. Novamente ficamos em silêncio. Vejo que o sol se põe no horizonte e que as ruelas começam a se iluminar com a parca luz que a nós é oferecida. Tenho que ir embora para dar algo de comer a meu avô, que a essa hora já deve estar preocupado com minha demora. – Eu tenho que ir, Dani – digo, me virando para ela. – Ia te perguntar isso agora – ela responde, também se virando para mim. – Ia te perguntar se havia se tornado um sem-teto. Nós rimos, ainda olhando um para o outro. Aos poucos o riso vai se acabando, mas eu continuo olhando seus olhos, agora mais profundamente. Posso quase me ver refletido no âmbar-escurecido deles. E é assim, olhando um para o outro, que nós nos beijamos. Depois do beijo, nós nos levantamos e nos abraçamos como despedida. – Até amanhã, Cézar – ela diz. Eu apenas sorrio. Se tentasse dizer algo, não sairia nada. Estou tremendamente estranho. E é uma estranheza boa. E, assim, aos pulos impossíveis de serem contidos, me movimento ao cômodo que eu e meu avô chamamos de casa.Adentro o cômodo com os dentes à mostra, num sorriso quase medonho. Fecho a porta às minhas costas e meu sorriso desaparece quando percebo que ele está vazio. A cama de meu avô está vazia. – Vovô? – eu chamo. Ninguém responde. – Vovô? – eu chamo novamente, agora gritando. Ninguém responde novamente e meu coração acelera. Corro e me abaixo, procurando-o debaixo da cama, o único lugar de todo o recinto onde meu avô poderia caber se quisesse se esconder. Mas por que ele iria querer isso? Não o encontro debaixo da cama e me desespero. Passo a mão pelos cabelos, totalmente perdido. Observo sua cama. Ela está remexida, os lençóis embolados junto com a coberta que tem cheiro de ranço, porém não há nenhuma pista do lugar para o qual ele foi. Na verdade, na situação em que ele se encontra não teria como ele ter saído da cama sem a ajuda de alguém. Ele não foi a lugar nenhum. Foi levado por alguém. Minha respiração se entrecorta e mil coisas se passam pela minha cabeça, porém nenhuma delas faz sentido. Corro até a porta e, quando vou abri-la, vejo que há um papel pregado no topo dela. Arranco-o e guardo o papel no bolso. Então abro a porta e corro para a noite recém-chegada, em direção à Casa dos Sem-Lar. Quando chego, subo a escadaria de pedra da entrada pulando dois degraus a cada passo. Bato à porta insistentemente, e quem a abre é exatamente a pessoa que espero que a abra. – Acho que você realmente virou um sem-teto, Cézar – Dani diz rindo ao abrir a porta. Ela para de rir quando vê minha expressão de terror estampada no rosto. – O que foi? O que aconteceu? Está branco como um osso... – Dani – eu digo ofegando. – Meu avô desapareceu.
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