Eu queria poder sorrir mais, de verdade. Queria poder gargalhar como as crianças na sua mais tenra idade gargalham, porém, quando tento, só sai um ruído rouco que é logo sugado pela atmosfera desesperada do lugar onde vivo. Por isso, não costumo rir muito. Não é que eu não aprecie os risos e sorrisos, é porque eu simplesmente não consigo fazê-los aparecer em meu rosto. E, também, não há muita coisa que nos leve a sorrir por aqui. Não nos dias de hoje.

Não que o lugar que eu viva seja o pior do mundo. Não é isso, tanto que se não fosse por ele, o enorme estádio de futebol que vivemos que, antes de ser chamado de Morada – como é chamado agora – recebia o nome de Estádio Morumbi, todos nós, os sobreviventes do Ataque Z, estaríamos mortos ou se arrastando pela cidade em ruínas à procura de cérebros para devorar. Morada não é a causa de nossa tristeza nem de longe. O que dá origem ao nosso sentimento de aprisionamento e nos faz sentir esse vazio enorme é o que nos cerca fora de Morada, o que nos espera fora dos portões. Mas, é claro como água limpa, que aqui não é nenhum céu. Vivemos com o pouco que conseguimos plantar e colher, e com os poucos remédios que conseguimos encontrar através das expedições suicidas para fora de Morada, e não tem nada de alegre nisso. Nada que te faça querer acordar no dia seguinte para ver a mesma coisa de sempre: os seres-humanos restantes no planeta Terra lutando para sobreviver à Grande Pandemia. Tal pandemia que nem sabemos de onde veio. Na verdade, eu não sei como toda essa história de mortos-vivos andando entre os humanos começou. Não sei de onde veio, nem como veio. O vírus pode ter vindo ao vento, pode ter sido depositado na água. Na escola improvisada que eu e todos os outros jovens da minha idade frequentamos a professora de História já deve ter falado sobre isso, porém eu nunca presto atenção no que ela diz. Nunca prestei. Há coisas piores fora daqui, do lugar seguro onde os sobreviventes, me incluindo, vivem. Coisas que merecem mais preocupação da nossa parte. Há coisas que podem te matar e comer seu cérebro em questão de segundos. Fora daqui, há zumbis. Por isso e por muito mais, eu não sorrio muito.

Mas há sempre aquilo – ou alguém – que te faz esboçar uma sugestão de sorriso no rosto.

– Sente falta deles? – meu avô me pergunta com a voz entrecortada por um chiado profundo, seguido de tosses estridentes. Ele está deitado na cama que fica no canto escuro do cômodo que chamamos de casa, debaixo de uma janela-basculante, da mesma forma de sempre: com a barriga virada para cima e as mãos trançadas em cima do peito, como se estivesse esperando a chegada da Morte. Meu avô sofre do mal que, ultimamente, vem assombrando a vida da população de Morada: a infecção bacteriana crônica, que só perde, nos dias de hoje, para o Grande Vírus, que é capaz de te transformar numa coisa não muito civilizada.

Ele me faz a pergunta enquanto encaro o meu almoço, um prato de sopa de batata-doce que está posto à mesa, à minha frente, sem muita vontade de colocar aquilo pra dentro. Sei a quem ele se refere quando diz “eles”. Refere-se a meus pais, que há alguns anos atrás foram convocados para proteger os portões de Morada contra um ataque repentino de mortos-vivos. Eles, assim como os pais de muitas outras crianças, foram mortos, me deixando somente na companhia de meu avô, que na época havia descoberto que estava com a infecção bacteriana. Eu agradeço aos céus por meu avô, porque se não fosse por ele, eu seria como as outras crianças que ficaram órfãs e tiveram de ser levadas para A Casa dos Sem-Lar, que não é um lugar muito agradável pelo fato de que você deve dividir até mesmo suas roupas de baixo com seus colegas de cômodo. Mas, mesmo tendo a companhia do meu avô, não era isso que nos daria uma vida dali pra frente. Como ele havia contraído a doença e estava debilitado, eu fui obrigado a arrumar uma forma de nos alimentar. Com nove anos, eu estava à procura de um trabalho. Hoje posso dizer que, de acordo com a qualidade de vida dos outros cidadãos de Morada, a nossa é mediana.

– Não, vovô – respondo. – Não há porque sentir falta deles e, além do mais, eu não tenho mais idade para isso.

Ele me encara com seus olhos escuros como ébano, depois assente com a cabeça devagar. Ele percebe que eu ainda olho para ele.

– Eu perguntei isso porque... – pausa para tossida, depois continua: – ...eu percebi seu olhar para o prato de sopa, e queria lhe dizer que ela não tem culpa de nada. Por um segundo, pensei que ela fosse saltar do prato e sair correndo.

Ele dá uma risadinha seguida de tosses, e eu consigo esboçar um sorriso. Meu avô é um dos únicos que conseguem realizar a proeza de me fazer sorrir. Nós ficamos nos observando por alguns segundos até ele falar novamente.

– Cézar, venha cá – ele diz, me chamando para perto dele. – Isso, chegue mais perto.

Depois que eu me abaixo e me sento ao pé da cama, ficando a centímetros dele, ele diz:

– Eu quero que você realmente seja feliz, sabia? Não quero que você perca sua juventude tentando achar um jeito de me ajudar, querido. Eu sou um caso perdido. E você, tão jovem, tem uma aparência tão séria... Sei que nos dias de hoje é quase impossível se divertir, porém nós devemos ver também o lado bom das coisas da vida. E eu daria tudo do resto que tenho pra te ver sorrir pelo menos uma vez por... – ele começa a tossir incessantemente e eu preciso correr até a pia e encher um copo com água. Eu o sento na cama e ele bebe a água, mas logo depois vem outra sessão de tosses que o faz cuspi-la. Levanto seus braços, agoniado por não poder fazer nada mais eficaz. Ele somente me pede para que eu espere, enquanto tosse. Eu permaneço segurando seus braços para cima e espero. Aos poucos a tosse vai amenizando até que resta somente o ruído rouco da sua respiração. Sei que depois disso ele não consegue falar mais nada, portanto digo a ele:

– Eu não vou te abandonar, vovô, nunca. Enquanto eu viver vou permanecer aqui, ajudando o senhor. Não vou te entregar assim, de bandeja, para a Morte. Não adianta o senhor dizer essas coisas pra mim, eu não vou deixar que você morra. Não tem mais nada que me faça ter vontade de viver nesse lugar além do senhor. O senhor é minha vida.

Parece que depois de eu dizer isso uma nuvem de tristeza paira sobre seu rosto. Ele não reage nem responde, apenas se vira para o canto da cama. Fico com medo de ter dito algo de errado, e sei que disse. Mas essa é a verdade, querendo ele ou não. Ele é a minha vida e eu farei de tudo para preservar a vida dele o tempo que for possível.

Depois de terminar a sopa, coloco o prato na pia e me despeço do meu avô com um beijo na sua cabeça calva. Ele não reage, portanto presumo que dormiu.

Saio de casa e caminho pela ruela estreita que é delimitada por barracões semelhantes ao nosso. O chão, que antes era gramado, agora é terra seca. Olho para longe, para o horizonte, enquanto caminho, mas não há para que olhar. Apenas para a arquibancada que cerca o campo, vazia, sem até mesmo os assentos, que foram retirados por nós e adaptados para cadeiras que usamos em nossas casas. Reflito sobre quantos outros campos de futebol semelhantes à Morada foram usados como abrigo para os sobreviventes. Sei que há mais outros campos que foram usados porque meu avô me contou sobre isso. Depois do Ataque Z, quando os mortos-vivos surtaram e atacaram, época que meu avô era ainda adolescente, os líderes armados dos Estados viram que a única forma de salvar os sobreviventes não contaminados com o Grande Vírus era isolarem-se em locais que comportassem um grande número de pessoas. Os enormes estádios foram a primeira coisa que pensaram, e assim foi até os dias de hoje. Este é o nosso lugar seguro, nossa casa. Não temos mais nada fora daqui, o que há fora dos portões dos campos não nos pertence mais. Somos escravos das coisas que habitam fora daqui.

Chego em poucos minutos ao centro de Morada, meu destino, e me dirijo à uma grande construção inacabada, a Casa dos Sem-Lar. Espero uns minutos encostado à parede, mas logo entro em estado de ansiedade, pois não sou uma pessoa que gosta muito da ideia de esperar os outros e odeio aqueles que marcam um horário e atrasam.

Porém, Dani insiste em demorar sempre, portanto estou me acostumando com isso.

Quando eu a avisto saindo pela porta, não dou um cumprimento civilizado, apenas solto:

– Por que diabos você faz isso? – pergunto a ela.

– Oi pra você também, sir Cézar, imperador de Morada – ela ri e em seguida me dá um soco no braço esquerdo. – O que você quis dizer com “isso”?

– Com “isso” eu quis dizer “demorar” – eu esclareço carrancudo. – Você sabe que eu odeio esperar.

– E desde quando eu ligo para o que você odeia ou deixa de odiar, garoto? – ela diz em meio aos risos. Enquanto ela ri, observo seu rosto, em especial seus olhos, que se comprimem enquanto sua risada encantadora soa. Seus cabelos estão soltos e caem como uma cascata de cachos negros que vão até a metade das costas. Ela é linda, mas esconde essa beleza agindo de um jeito meio durão demais.

Lembro-me do dia que a conheci no Centro de Treinamento Intensivo. O jeito com que ela manuseia a katana me faz delirar, e eu ficava horas e horas a fio a observando treinar, até que um dia ela percebeu meu olhar vidrado e me chamou para conversar. Depois desse dia viramos grandes amigos, os quais amigos inseparáveis somos até hoje.

– Estou dizendo, se o Sargento Ladeira nos der uma bronca eu nunca mais te faço companhia no caminho para o treino – eu digo, me pondo a andar, fazendo-a ser obrigada a me acompanhar. Eu sei, no fundo, que nunca teria coragem de deixar Dani, mas eu preciso impor respeito. Porém, com ela isso não funcionaria nem seu fosse um morto-vivo. Ela é o tipo de pessoa que não aceita ordens vindas de ninguém. Isso eu presumo que seja por causa do estilo de vida que ela levou após a morte dos pais dela, que morreram do mesmo jeito e no mesmo ano que os meus, e por ela ter sido obrigada a viver depois do incidente na Casa dos Sem-Lar e lutar para conseguir o que tem hoje. Acho que isso tudo a levou a ser assim. Mas uma coisa que eu admiro nela é que, mesmo tendo passado por tudo o que eu passei e ainda um pouco mais, ela acha mil motivos para sorrir. De onde ela os tira eu não sei.

– O Sargento Ladeira é um babão, isso sim – ela cospe. – Nunca gostei dele e quando soube, há três anos, que era ele quem iria nos treinar até quando fizéssemos dezoito, eu quase arranquei os cabelos. Aquele velho resmungão... URGH!

Eu entendo o porquê da antipatia que Dani sentia pelo Sargento Ladeira, só não consigo sentir o mesmo que ela. Ele é um homem carrancudo e exigente, mas também era para ser assim, pois o velho é o líder militar de Morada, é quem inspeciona as armas dos outros soldados e é quem treina os adolescentes de 13 a 17 anos para o Dia D, que ocorre semestralmente, e que consiste em sete jovens de entre 16 e 17 anos, dentre os que são treinados por Ladeira, que são sorteados para irem numa missão suicida em busca do que quer que eles peçam. Geralmente, eles pedem para que os jovens vão atrás de remédios ou de objetos de construção para que possam ser usados para a melhoria da vida dos cidadãos de Morada. Porém, a chance de voltar vivo de uma expedição dessas é quase que de zero por cento. Eu conheço várias famílias que perderam seus filhos nessas expedições. E, em muitas delas, nenhum dos jovens retorna, tornando a missão um verdadeiro fracasso. Por isso, a ideia de eles nos enviarem para fora dos portões e enfrentar os mortos-vivos me causa arrepios. Porém, se alguém é sorteado no Dia D, é obrigado a ir, porque se não for, recusando a convocação, é “deserdado”, que significa que você não é mais considerado cidadão de Morada, tendo que lutar mais ainda para poder sobreviver.

– Cézar... – Dani me chama. Ela está do meu lado, e estamos andando, ainda a caminho do treino diário.

– O que foi? – respondo, me virando para ela.

– Você acha que nós vamos algum dia presenciar a descoberta da cura? – Ela pergunta séria. Eu respiro fundo.

– Não seja boba, Dani. Isso de “cura” não existe. É esperança besta que as pessoas inventam. O mundo está ruim e só vai piorar. Só isso.

Ela suspira, depois volta seu olhar para o horizonte. Depois de um tempo, se vira na minha direção novamente.

– Eu gosto de ter esperança, sabe? É isso que me faz querer sorrir. Essa esperança é meio que algo a que se prender. É algo que te segura, algo que você almeja. E você, sir Cézar, acaba de me fazer ter um pouco menos de vontade de viver.

Ela ri depois de dizer isso, o que mostra que não falava sério. Eu esboço um sorriso sem-graça.

– Olha, estamos com sorte – ela diz, apontando para longe. Sigo seu dedo e vejo que ela aponta para o portão de entrada Centro de Treinamento Intensivo, o lugar para o qual estamos nos dirigindo. Entendo o porquê de ela ter dito que estávamos com sorte. Os portões, que raramente ficam abertos, estão escancarados. Corremos até eles antes que se fechem, e assim entramos no Centro.

O Centro de Treinamento Intensivo é para onde os jovens de 13 a 17 anos são enviados diariamente até atingirem a maioridade. Lá nós aprendemos a fazer uso de armas variadas, sejam de fogo ou manuais. Temos que passar também por um duro treino físico. Isso tudo para que nós, o povo de Morada, estejamos prevenidos caso um ataque zumbi repentino aconteça e também para os jovens que forem sorteados no Dia D saibam pelo menos como atirar uma faca de uma forma que atinja o alvo e o debilite.

Hoje, porém, é um dia atípico. Eu, Dani, e todos os sessenta e sete demais jovens estamos ajudando com os preparativos para o tão esperado – por quem eu não sei – Dia D deste semestre, que ocorrerá amanhã. Enquanto ajudo Dani a arrumar a mesa que está posta sobre o palanque, a mesa que será usada pelos líderes de Morada durante a execução do sorteio, eu tento saber o que será que eles pedirão para os jovens daquele semestre buscarem fora dos portões.

– Você tem alguma ideia do pedido desse semestre? – sussurro a Dani.

– Nem imagino o que seja. – Ela responde. – O que foi que eles pediram no semestre passado mesmo?

– Foram sementes variadas – digo. – Os líderes deram um mapa da cidade para eles e circularam um lugar chamado Floricultura Central. Disseram que era lá que eles iriam encontrar as sementes. Lembro que na hora em que eles saíram pelo Portão Principal, uma horda de mortos-vivos os atacou e...

– Por que você insiste em chama-los de “mortos-vivos”? Que coisa mais cafona, Cézar! O nome certo é zumbi! Z-U-M-B-I!

– Eu chamo as coisas pútridas do jeito que eu quiser, entendeu? – protesto. – Agora, onde eu estava? Ah, sim, no ataque dos zumbis ao grupo do semestre passado...

– Não precisa continuar, eu me lembro muito bem dessa parte – ela diz. – Eles são atacados, dois dos sete morrem e os outros cinco conseguem fugir para a cidade. Porém, depois de dois meses, quem volta é só um deles, Marconi Bonini, com as sementes em mãos, porém muito ferido.

– Ele agora é rico e mora na área nobre de Morada, só pra constar.

– Sim, e foi mais que merecido – Dani acrescenta.

Somos repreendidos pelo Sargento Ladeira que passava por ali enquanto falávamos. Para ele, se uma pessoa conversa não produz nada, então, na presença dele, devemos agir como surdos-mudos.

Depois de um dia inteiro trabalhando nos preparativos, todos somos levados para a Sala de Inscrição, onde assinamos nossos nomes nas listas para marcar presença e, excepcionalmente hoje, depositarmos nossos nomes na urna do sorteio de amanhã. Meu estômago treme um pouco antes de eu soltar o papel dentro da urna, talvez porque esse é meu primeiro semestre com dezesseis anos e, por consequência, minha primeira inscrição para o Dia D, porém, depois de solto o papel, certo alívio percorre meu corpo. Talvez por saber que as chances de eu ser sorteado são mínimas.

Despeço-me de Dani com um beijo no rosto depois de deixa-la na porta da Casa dos Sem-Lar. Ela entra e então eu viro as costas e vou embora. Após adentrar o cômodo que eu e meu avô chamamos de casa, percebo que ele já dorme. Faço o mesmo, nem me importando em trocar a roupa. Assim que me deito, caio num sono profundo, pesado e sem sonhos.