Antes que eu possa reagir, a cabeça do morto-vivo que vinha em minha direção rola pelo chão, decepada pela katana de Anna, que me encara com um sorriso diabólico no rosto.

Ela acabou de salvar a minha vida.

Ela desvia, por fim, o olhar de mim, não me dando tempo para agradecer. Corre em direção a outro morto-vivo que está atrás de Clara. Ela grita e dá tiros para todos os lados, mas nenhum deles acerta o zumbi. Anna, em um movimento rápido, decepa em um único golpe o braço esquerdo do ser, que desaba no chão guinchando e expelindo um líquido preto pela ferida.

– Lembrem-se do que o Ladeira disse – grita Dani, em algum lugar atrás de mim, ao som de sua katana cortando o ar. – Não deixem o sangue deles entrar em contato com a pele!

Sinto um arrepio subir pela minha espinha. Sei muito bem o que acontece se o sangue deles entrar em contato com a nossa pele, caso exista alguma ferida aberta nela. Se o sangue deles, contaminado, entrar em contato com o nosso sangue são, nós seremos um deles.

Olho em volta. Clara está tão apavorada quanto eu, estática e de olhos arregalados, a pistola pendendo na mão direita, inutilizada. Observa atentamente a situação, assim como eu, que não conseguiria mover um músculo nem se eu quisesse. Respiro com dificuldade, o cheiro pútrido impregnado nas minhas narinas. Conto quantos deles nos ataca. Ao todo são doze. Quatro já se estendem pelo chão, deixando-nos com oito.

Ouço um tiro bem atrás de mim, tão perto que faz meus ouvidos zumbirem. Viro-me e encaro o garoto de olhos verdes, que não sustenta meu olhar. Ele apenas encara o corpo, agora inanimado, do morto-vivo que ele acaba de matar.

Agora são sete, penso. Um para cada um.

Ouço um grito estridente e reconheço sua dona. É Clara, que novamente está sendo perseguida por um deles. Anna está ocupada, junto de Marcos. Ela tenta afugentar dois zumbis para que Marcos possa acertá-los com sua metralhadora, mas estes são muito mais rápidos e ágeis que os outros. Procuro Dani e a encontro junto de Matheus, levantando-o do chão. Quando ele se levanta, percebo que manca. Deve ter torcido o pé na correria. Assim que ele se estabiliza, mira em um dos zumbis que persegue o garoto de olhos verdes. Ele dispara e a bala acerta em cheio a cabeça do morto-vivo, que despenca no chão, levantando poeira. Ainda há um zumbi atrás do garoto de olhos verdes, que atira cegamente. Dani corre em direção a ele, disposta a ajuda-lo. Bufo e vejo que Clara ainda foge do zumbi, correndo de um lado ao outro, com a pistola já descarregada. Não me resta opção senão ajuda-la. Ando até ela, procurando não fazer barulho, mas, mesmo assim, o morto-vivo percebe minha presença. Por um segundo ele hesita, confuso se corre atrás de mim ou se continua atrás de Clara. Porém eu pareço ser mais apetitoso, porque ele cambaleia e se arrasta na minha direção. Meu coração dispara. Ver a criatura cuspindo e rangendo os dentes, cada vez mais perto de mim, me faz entrar em estado de choque. Mas preciso fazer algo. Preciso me mover.

Sem pensar, levanto minha pistola e aponto para o monstro, apertando os olhos e disparando. Abro os olhos e o vejo estatelado no chão, o furo da bala em sua testa.

Eu o derrubei. Eu consegui.

Não sei por quanto tempo permaneço encarando o corpo sem vida do zumbi, mas quando Dani encosta a mão em meu ombro, eu pulo e enrijeço.

– Está tudo bem, Cézar – ela diz, levando as mãos ao alto, como se se rendesse. – Já acabou. Acabamos com todos.

Eu assinto de leve. Um mal estar que eu não tinha notado antes por causa do choque de adrenalina toma conta de mim. Olho em volta. Todos ainda estão perplexos, balançando a cabeça e ofegando. Dani me puxa em direção ao garoto de olhos verdes e Matheus, que estão sentados no chão. Quando chego perto deles vejo que o garoto de olhos verdes ajuda Matheus com seu pé machucado. Ele retira, devagar, a bota de seu pé. Matheus se contorce de dor.

– Desculpe – diz o garoto de olhos verdes.

– Tudo bem – Matheus responde. – Pelo menos não fui devorado por nenhum deles.

Ele ri de sua própria piada, mas ninguém o acompanha, fazendo seu riso sumir aos poucos. Quando o garoto de olhos verdes remove a bota por completo, observo que o calcanhar de Matheus está inchado e roxo, e a unha do seu dedão está estilhaçada e empapada de sangue.

O garoto de olhos verdes torce o nariz e Dani desvia o olhar. Eu continuo encarando o pé por um longo tempo, e ninguém diz nada. Ouço passos caminhando em nossa direção. Assim que chega perto o bastante para que possamos ouvir, Marcos diz:

– Já recarregamos as nossas armas – ele se refere a ele e Clara.

– A coisinha ali não sabia nem diferenciar o cano da pistola com a entrada das balas – Anna diz debochada. Ela aponta para Clara, que franze o cenho e murmura algo, depois se aproxima de Matheus.

– O que houve com ele? – ela pergunta.

– Parece que ele quebrou o pé – o garoto de olhos verdes responde. Ela balança a cabeça.

– Se ele tivesse fraturado o pé não conseguiria mexer os dedos – ela aponta para os dedos inquietos do pé de Matheus. Anna revira os olhos e bufa, mas Clara a ignora e continua: – Ele deve ter só torcido o calcanhar.

– O que vamos fazer com ele, então? – Anna pergunta. Todos a encaram, exceto Marcos, que assente.

– Eu tenho um kit de primeiros socorros na mochila – Clara diz. – Posso ajuda-lo.

Ela tira a mochila das costas e a abre. De dentro dela sai uma caixinha de plástico branca com uma cruz vermelha no centro.

– Mas você sabe usar isso? – Dani pergunta, mas eu já sei a resposta. Clara ajudava as enfermeiras da Área Hospitalar a cuidarem das crianças doentes e machucadas quando nós estávamos em Morada. É claro que ela sabe usar isso.

Como resposta à pergunta de Dani, Clara desenrola um pedaço de gaze e a encharca com um óleo marrom e fedorento. Coloca sobre o inchaço no calcanhar de Matheus e massageia de leve. Ele arqueja e tenta retirar o pé.

– Quanto mais rápido eu fizer isso, mais rápido o inchaço e a dor vão embora – fala Clara. Matheus assente, e ela continua. Retira um pedaço de faixa do kit de primeiros-socorros e começa a desenrola-la.

– Essa lesão é antiga – fala Matheus, rangendo os dentes, enquanto Clara passa a faixa em seu calcanhar. – Estava quase curada por completo, mas então nós fomos obrigados a correr e eu, sem querer, pus força demais e meu pé não suportou...

– Eu imaginei que já estivesse machucado – Clara responde. Ela termina o trabalho, guarda o kit na mochila e se afasta de nós. Ajudo Matheus a se levantar e ele apoia o braço em meus ombros. Ele me agradece com um sorriso, e seguimos em frente.

Estou carregando Matheus às minhas costas há quase uma hora e quase não sinto mais minhas pernas.

Estamos em uma rua larga, cheia de casas grandes e luxuosas que foram bonitas algum dia. Sob a luz da lua que se levanta cada vez mais, tudo se torna sombrio. A escuridão nos engole cada vez mais, mas mesmo assim ainda consigo imaginar esse mundo antes do Vírus. Hoje ele está destruído, as casas luxuosas caindo aos pedaços, como se o Vírus também tivesse tomado conta delas.

Na verdade, é como se o Vírus tivesse tomado conta de todo o cenário do mundo fora dos portões de Morada. Os céus estão cinzentos, como se estivessem prontos para derramar chuva, mas não chove. O mundo aqui fora é tão silencioso que consigo ouvir a respiração de Anna, que está a metros de distância de mim, à frente do grupo. Ela e Marcos, que está ao seu lado, estão nos guiando. Cada um segura um mapa fornecido pelo Sargento Ladeira, indicando para onde devemos ir.

Não me sinto muito bem em pensar que estou sendo guiado por uma pessoa como Anna. Ela é hostil e sem coração, e não há como manter um diálogo decente com ela. Sei disso porque convivi com ela desde que entrei para o Centro de Treinamento Intensivo. Não sei como Marcos está conseguindo lidar com ela sem discutir ou ser socado. Lembro-me de que toda vez que algum instrutor a repreendia, ela partia para a agressão verbal. Depois para a física. Penso até que ela esteja aqui como uma punição, por tudo o que aprontou em seu tempo no Centro. Mas parece que ela não está encarando isso como tal coisa. O sorriso diabólico de satisfação que ela me lançou quando salvou minha vida decepando a cabeça daquele zumbi não pareceu nada triste com a expedição.

E ela salvou minha vida.

Tento afastar esse pensamento, porque não suporto pensar que devo algo a ela. Olho em volta. Vejo que Marcos e Anna, que estão relativamente longe de nós, debatem sobre algo. Apontam para o mapa e depois para o caminho, e desenham algo no ar com os dedos. Desvio meu olhar deles e observo Clara. Ela anda sozinha, vacilante, olhando para os lados de um jeito quase compulsivo. Deve estar com medo.

Eu estou com medo.

Saí do meu único lugar seguro, onde sempre pensei – ou pelo menos achei – que estava protegido, e agora estou aqui, à mercê de seres letais que querem me devorar...

Pela primeira vez desde que saí sinto saudade de casa. Talvez eu ainda não tenha sentido porque não deu tempo de sentir, e na hora do ataque não era o momento oportuno. Mas agora sinto um vazio enorme dentro de mim. O mesmo vazio que senti quando fui sorteado para sair de Morada e deixar meu avô. O mesmo vazio que senti quando vi meu avô morrer diante dos meus olhos e não pude fazer nada. O mesmo vazio que estou sentindo nesse momento, quando vejo Dani tão perto do garoto de olhos verdes. Os dois riem e trocam olhares.

Acho que Matheus percebe que eu estou olhando os dois demais.

– Eles são namorados ou algo assim? – ele pergunta, se referindo a Dani e ao garoto de olhos verdes. Endireito meu corpo, ajeitando o braço dele em meus ombros, e paro de olhar para eles.

– Não sei – é o que respondo. – Eu não sei de mais nada.

– Eu te entendo – diz ele. Matheus suspira e observa o horizonte. A noite já caiu por completo e a temperatura baixou um pouco, mas não tanto para que seja preciso se agasalhar.

– Pelo que eu vi você tem uma família – digo. – Então acho que você não me entende.

Ele abre a boca para dizer algo, mas se interrompe. Talvez fosse me perguntar o que houve com a minha família, mas desistiu por achar imprudente fazer isso. Também não conto a ele sobre o acontecido.

Minhas pernas doem e eu arfo. Minha blusa está empapada de suor e minha garganta está seca. Preciso de água e descanso, mas não me atrevo a pedir para que eles parem.

Matheus geme ao meu lado. Presumo que seja pela dor no pé machucado. Ou talvez seu outro pé também esteja doendo, por estar sustentando todo o seu peso, quando este devia estar sendo divido em dois.

Acho que Dani percebe que estou com dificuldade em continuar, porque ela vem em direção a mim e pergunta se preciso de ajuda.

– Não, está tudo bem – respondo. – Eu aguento mais um pouco.

– Não seja bobo, Cézar – ela me repreende. – Eu te ajudo.

Ela levanta, então, o outro braço de Matheus e, quando vai coloca-lo sobre seus ombros, o garoto de olhos verdes se aproxima e intervém.

– Não posso ver você fazer isso e ficar de mãos abanando – ele diz sorrindo para ela e ela encolhe os ombros, abobada. Ele avança e toca a mão dela de leve, passando os braços de Matheus para os seus ombros. Tento não fazer contato visual com ele e percebo que Dani não desgruda os olhos dos dele. Ignoro a cena e todo o resto, apenas focando em observar o mundo novo que se expande à minha volta.

Quando decidimos parar e montar acampamento para podermos descansar, minha cabeça lateja de dor e os músculos da minha perna formigam.

Posicionamos as mochilas na calçada e visualizamos uma casa que parece estar vazia. Marcos arromba o portão com a metralhadora e depois Anna se junta a ele para que, juntos, eles possam derrubar a porta aos chutes. Assim que a porta cai, pegamos nossas mochilas de volta e entramos por ela. Anna, Marcos, Dani e o garoto de olhos verdes vasculham a casa rapidamente enquanto Clara, Matheus e eu esperamos no andar de baixo.

– Nenhum sinal dos cabeças-de-bagre desgraçados – Anna diz quando volta. – Vamos passar a noite aqui e, quando amanhecer, vamos partir novamente. Marcos, vede a entrada da casa com a porta. Não quero que meu sono seja interrompido por zumbis.

Marcos assente e faz o que ela pediu. Depois, os dois sobem as escadas e não retornam mais, o que significa que dormirão lá em cima.

Percebo que Dani e o garoto de olhos verdes não retornaram para dar a notícia de que a casa estava limpa, permaneceram lá em cima. Uma raiva que eu não sei explicar ferve dentro de mim. Tento fazer parar, mas é quase impossível de controlar.

– Vai dormir agora, C...? – Matheus pergunta, e então solta uma risadinha. – Qual seu nome mesmo?

– É Cézar – respondo. Ele está escornado em um dos sofás da sala de estar, com os olhos fechados. Clara está sentada no sofá ao lado do dele, olhando a janela pela fresta da cortina. – Não estou com sono – é o que respondo. Minto, é claro.

– Pois eu estou – ele boceja. – Hoje foi difícil. E estranho. E novo. Há muitas formas de descrever o dia de hoje, mas a forma que mais abrange é...

– Nojento – murmura Clara, tão baixo que penso que foi coisa da minha cabeça.

– Exatamente – concorda Matheus. – Hoje foi, definitivamente, o dia mais nojento da minha vida.

Ele ri, mostrando os dentes. Não consigo reprimir um sorriso que se forma em meu rosto, e Clara também esboça um sorriso sem-graça.

Ficamos em silêncio por um tempo, até que eu me aproximo deles e me sento no enorme tapete que cobre a sala de estar bem abaixo do sofá onde Clara está sentada.

– Acho que alguém cedeu ao cansaço – Matheus diz, sem olhar para mim. Eu rio.

A certa altura, quando penso que Matheus e Clara já dormiram, me deito no tapete felpudo e me forço a fazer o mesmo, mas não consigo pregar os olhos. Fico apenas encarando o vazio e pensando em Morada, nas vidas que foram sacrificadas pelo tal “bem maior”...

Clara se levanta, de repente, do sofá, e eu permaneço onde estou. Ela passa por cima de mim sem fazer barulho e caminha pela casa, observando a decoração. Ele se detém em um amontoado de porta-retratos em cima de uma mesa. Pega um deles e o estuda minuciosamente. Sento-me no chão devagar, para que ela não me ouça levantar.

– Também está sem sono? – pergunto, depois de um tempo apenas observando-a. Ela treme e deixa o porta-retratos cair no chão.

– Você me assustou, droga!

– Desculpe – digo.

Ela solta o ar pela boca, fazendo um barulho engraçado.

– Tudo bem... – ela responde. – É difícil não se assustar depois de hoje...

Eu assinto, mas não sei se ela vê, por causa da escuridão.

– Eu não consegui pregar o olho – ela diz, enquanto caminha para o sofá novamente.

– Nem eu – respondo. – Mas também acho que não quero pregar o olho. Não sei se os cabeças-de-bagre, como a Anna diz, sabem arrombar portas.

Ela ri.

– Não gosto dela – ela confessa, e eu sei de quem fala.

– Eu também não – concordo. – E gosto menos ainda da ideia de ela ser a líder.

– Quem disse que ela é a líder? – ela questiona. – Ela que se auto intitulou líder. Ninguém a pôs no comando.

– É, você tem razão. Mas diga isso a ela.

Clara bufa e passa os dedos pelos cabelos, desfazendo a trança ensebada por causa do suor.

– Nós deveríamos estar unidos, mas ela não facilita... – ela reflete e eu faço que sim com a cabeça.

Matheus começa a chutar o ar e a falar coisas que não fazem sentido e eu o cutuco com pé. Ele se levanta de uma vez, ensopado de suor. Diz que teve um pesadelo. Zumbis estavam comendo seu pé, que agora dói incessantemente. Clara o assegura que o óleo fará efeito daqui a algumas horas.

– Ah, moça... – ele procura as palavras certas. – Eu... Eu não sei como te agradecer por aquilo... Sem você, acho que a Anna tinha obrigado a todos me deixarem pra trás.

Nós rimos.

– Meu nome é Clara – ela diz. – E eu só espero que tenha valido mesmo a pena salvar você.

– Mas você só enfaixou a perna dele – eu digo sarcástico. – Qualquer um faz isso.

Ela me olha com falsa incredulidade, como se eu a tivesse desafiado.

– Vá dormir, garoto, sua hora já passou – ela ironiza.

Nossos risos aumentam cada vez mais. Nunca ri como estou rindo agora, e a sensação é boa. Os músculos da minha face se contraindo, o tronco enrijecendo e relaxando quando respiro para pegar ar e rir mais. Matheus empolga e resolve contar “piadas infames”, como ele diz. Não entendo a maioria delas, mas rio da risada de Clara, que contagia qualquer um. Enquanto estou aqui, junto deles, rindo como nunca ri antes, quase me esqueço das responsabilidades, do mundo lá fora, do Vírus, da saudade de meu avô, e da tristeza que me acompanha desde que nasci. Nunca senti isso antes...

Sinto-me vivo.



Depois que Matheus esgota todo o seu repertório de piadas infames, ele decide voltar a dormir. Também decido que está na hora de tentar pregar os olhos de novo.

Deito-me no tapete felpudo e tiro da mochila o cobertor de meu avô, que eu trouxe junto de mim. Enrolo-me nele e aspiro o cheiro de ranço que faz com que eu me lembre dele. Retenho as lágrimas, mas elas vencem, como sempre.

– Você está chorando? – Clara pergunta, deitada em no sofá, acima de mim.

– Não – digo, com a voz embargada. Fungo e limpo as lágrimas, mesmo sabendo que ela não consegue me ver por causa da escuridão.

– O que você achou naqueles porta-retratos em cima da mesa? – pergunto, para tirar qualquer coisa que esteja pensando sobre mim de sua cabeça.

– Ah... – ela começa. – Eram fotos de família, pelo que pareciam. As pessoas que foram algum dia os donos dessa casa... E que agora devem estar vagando por aí comendo cérebros ou mortos.

Estremeço, porque o que ela diz é realmente a verdade.

– Eu só queria... – ela vacila nas palavras, talvez porque começa a chorar. – Eu só queria achar um jeito de fazer isso tudo parar... Porque nós vamos algum dia acabar não existindo mais. Vamos nos extinguir... Eu tenho medo disso... Eu tenho medo...

Ela não diz mais nada depois disso. Ouço seu choro e forço para não acompanha-la.

– Eu costumava não acreditar que algum dia seria possível eles descobrirem uma cura – digo, quando seu choro se torna quase inaudível, me lembrando de Dani insistindo que existia uma cura há alguns dias atrás. – Mas, depois do que eu vi hoje, não vai ter uma noite que eu não reze para que eles achem uma cura logo.

Ouço-a suspirar.

– Meu pai também acha que quem acredita na cura e dá sua vida para encontra-la é fraco – ela fala. – Ele me chamava de fraca, assim como minha mãe. Tudo o que aprendi foi com ela, inclusive o amor à vida. Por isso não suporto ver os outros sofrendo...

Lembro-me de quando o pai de Clara se aproximava dela e ela não demonstrava sentimento algum por ele. Se meu pai também dissesse que o que eu acredito é uma fraqueza eu faria o mesmo. Se eu tivesse um pai, na verdade.

Não sei o que dizer para confortá-la. Nunca confortei ninguém, na verdade. O confortado da história sempre era eu, e era Dani quem fazia isso. Acho que preciso começar a praticar o ato desde já.

– Você deve esquecer isso agora, Clara... – digo. Você pode se sair melhor, digo a mim mesmo. Tento novamente: – Deve focar na missão e retornar viva e com a penicilina em mãos, mostrando para ele que você não é fraca... O único fraco aqui é ele, que manda jovens à morte certa a cada seis meses ao invés de ir por conta própria.

Não é um dos melhores aconselhamentos, mas estou começando agora.

– Posso chegar lá com a penicilina e tudo mais, mas do que vai adiantar? – ela pergunta. – Meu sonho é ter recursos para encontrar a cura para o Grande Vírus. Que eu nem sei o que é...

Ela chuta o ar. Não sei o que dizer, então permaneço em silêncio. Por fim, ela chega a uma conclusão.

– Mas de uma coisa você tem razão. Eu tenho que mostrar a meu pai que não sou fraca. Que nem tudo se resolve com a força bruta. Que em vez de treinar jovens a matar os mortos-vivos, deveriam estar dando aulas sobre parasitologia e genética a eles. Você tem razão, você tem razão...

Ela murmura mais alguma coisa que não ouço. Talvez esteja falando consigo mesma. Minutos depois, ouço que sua respiração se torna cada vez mais branda.

Reflito sobre o dia. Meu primeiro dia fora de Morada. Matei um zumbi, me cansei bastante, odiei Anna com todas as minhas forças, conheci o mundo novo e fiz dois amigos. Esse dia ficará marcado na minha memória para sempre. Foi o dia em que me senti vivo, mesmo com tudo o que está acontecendo.

Deixo, então, que o cheiro do ranço de meu avô me traga as lembranças boas de Morada e da minha antiga vida e caio num sono pesado e sem sonhos.