Sou acordado pelos cutucões incessantes e dolorosos de Anna pouco antes de os raios solares darem a luz da sua graça no horizonte.

Seus dedos grossos e ásperos afundam em minhas costas, me forçando a ficar de pé antes que ela apele para os pontapés. Enquanto se senta no sofá, Matheus coça a barbicha rala e passa a mão de leve no rosto. Parece que Anna o acordou de uma forma não tão mais gentil que como fez comigo. Clara se espreguiça devagar e boceja, olhando para mim.

– Bom dia, meninos, e... – ela diz, ainda bocejando. – Cézar, seu rosto está sujo.

Passo a mão em volta dos lábios rapidamente, removendo a casquinha que se formou nos cantos da boca durante a noite. Murmuro um “obrigado” e ela sorri.

– Parece que além de falar dormindo, alguém baba enquanto dorme – diz Matheus.

– Eu não falo quando estou dormindo – retruco, mesmo sabendo que é impossível eu conhecer realmente a verdade.

– Estou dizendo que você fala – ele ri. – Mas se não quiser acreditar, tudo bem... Ah, e você pode me explicar o que a Dani te fez para que você a chame tanto durante a noite?

Meu rosto queima enquanto ele me imita e eu desvio o olhar dele, porque sei que estou vermelho.

– Não deve ser da sua conta, Matheus, deixe-o quieto – Clara intervém, meio sorrindo, meio irritada por ter sido acordada, e Matheus simplesmente ri.

– Eu só estou brincando, pessoal, calma – diz ele. – Quero dizer... Eu não estava brincando quando disse que o Cézar não parava de chamar o nome “Dani” à noite, mas acho que vocês entenderam.

Levanto-me do chão e me afasto deles, mas consigo ver pelo canto do olho que Clara dá um cutucão com seu ombro na costela de Matheus.

Não sei muito bem para onde estou indo, apenas quero me afastar de Matheus antes que eu o ofenda ou algo assim. Ninguém tem culpa dos meus problemas.

Sem prestar atenção em meu andar, chego a um cômodo da casa que parece ter sido algum dia a cozinha. Nunca vi uma casa tão bem dividida assim antes, e não me acostumaria nunca em ter que me mover tanto para chegar aos outros cômodos, a ponto de subir escadas para fazer isso.

Detenho-me quando vejo que Dani está andando de um lado para o outro no cômodo, à procura de algo. Penso em dar meia volta e sair, mas não consigo me mover. Ela percebe minha presença e se vira, e é tarde demais.

– Cézar, hmm... Oi – ela parece sem jeito. Peguei-a de surpresa. – Pelo visto você já está... de pé.

– É, acho que sim – digo, assentindo com todo o corpo e me preparando para virar e sair.

– Não, espera – ela fala quase hesitante. – Me ajuda a procurar comida?

Não consigo dizer não, então simplesmente suspiro e me junto a ela. Ao ouvir a palavra “comida” meu estômago é acordado e ruge como um filhote de leão dentro de mim. Não comi desde que saí do Centro de Treinamento. Mas então me vêm à mente que em nossas mochilas há comida enlatada suficiente para uma semana. Então porque Dani está tão preocupada em achar comida aqui?

– Por que nós simplesmente não comemos a comida que o Ladeira nos forneceu? – eu pergunto sem olhar diretamente a ela, enquanto reviro um armário de panelas velhas.

– Não é óbvio? – ela pergunta. Eu faço que não com a cabeça. Ela bufa. – Nós decidimos que vamos poupar o máximo de comida possível para usarmos na volta.

– Ah – digo. Agora sim faz sentido.

– Nós queremos que a viagem de volta seja mais rápida que a de ida – ela me explica.

Assinto de leve, mas não sei se ela vê. Ficamos em silêncio por um tempo. Encontro no fundo de um armário duas latas de milho e uma lata de pêssego, e ponho em cima da pia. Dani encontra outra lata de pêssego e uma de feijão cozido, mas é só isso.

– Não é possível que em uma casa deste tamanho tenha só isso de comida – Dani murmura mais para si mesma do que para mim.

– Talvez seja porque outros buscadores já passaram por aqui antes – proponho indiferente e ela concorda.

– Que má sorte a nossa – ela diz. Eu não a respondo, apenas me viro e caminho em direção à porta.

– Ei, Cézar – ela me chama novamente. – Por que você está me evitando tanto essa manhã? Na verdade, por que tem me evitado tanto desde que saímos de Morada?

Minhas costas formigam. Não tem como escapar dela agora. Preciso contar o que estou sentindo, antes que eu morra com isso entalado na garganta.

Decido conta-la o que me aflige.

– Eu... – não começo bem. – Bom, eu não... não acho que o que você está fazendo seja certo...

O que eu estou fazendo de errado, Cézar? – ela quer saber.

– Não é o que você está fazendo... É a forma como você está agindo... – eu tropeço nas palavras. – Você e aquele garoto... Bem... Você nem o conhece... Não pode agir como uma apaixonadinha por um garoto que você conheceu há dois ou três dias...

– Do que você está falando? – ela me encara incrédula.

– Do garoto de olhos verdes que vem flertando contigo desde que saímos de Morada. Na verdade, até antes disso – falo, como que revelando a maior verdade da história.

– Você está falando do João?

– Não sei se esse é o nome dele – respondo amargo.

– O nome dele é João.

– Tanto faz, eu não me importo.

Ela abre a boca e começa a falar algo, mas se detém. Olha em volta, franze o cenho e pondera sobre o assunto. Até que chega a uma conclusão.

– Cézar, você... – ela diz, em meio a um riso nervoso. – Eu não acredito... Cézar, você está com ciúmes do João?

Meu rosto queima e eu solto o ar da boca numa forma de impaciência, o que a faz excluir a ideia de que eu esteja interessado nele.

Até que ela entende, enfim, que é nela, na verdade, em quem estou interessado. Ela olha para o chão, morde o lábio e passa a mão pela nuca, sem jeito.

– Você gosta mesmo de mim? – ela pergunta depois de um tempo, na mesma posição, sem olhar para mim.

– Não é óbvio? – pergunto.

Ela suspira e move o olhar em minha direção. Eu o sustento.

– Eu sinto muito, Cézar... – ela começa. – Eu sinto muito, mas eu não gosto de você...

Sinto um mal estar subindo pelo meu corpo, mas não esboço qualquer reação em meu rosto. Ou pelo menos penso que não esboço.

– Quero dizer – ela tenta consertar –, eu não gosto de você desse jeito. O que eu sinto por você é algo totalmente diferente do que eu estou começando a sentir pelo João... Eu me sinto atraída por ele... Mas você... O que eu sinto por você é totalmente fraterno. Eu amo você, sim, Cézar, mas te amo como amigo. Agora, não seja tão bobo a ponto de confundir as coisas...

Estou perplexo... Não sei o que dizer. Na verdade, não acho que tenho muito a dizer. Apenas balanço a cabeça em negativa, não querendo ter ouvido tudo isso.

Mas então uma lembrança me vem à tona. O beijo que ela me deu na escadaria da Casa dos Sem-Lar. Será que aquilo foi verdade ou só um sonho que eu tive?

– O que significou aquele beijo que você me deu quando soube que eu cogitava não partir na missão, então? – pergunto. Ela simplesmente suspira.

– Eu precisava fazer aquilo... – ela responde. – Sabia que se você achasse que eu estava interessada em você, você resolveria partir conosco. Eu sempre soube, no fundo, que você gostava de mim.

Ela solta o ar acumulado pela boca.

– Me desculpe se acha que te usei... Mas eu não conseguiria pensar que você estaria sofrendo em Morada... – É o que ela diz, mas eu já não a ouço mais.

Viro as costas e retorno à sala de estar, onde Matheus e Clara estão à minha espera.

– Se você vier falar para mim que um cisco caiu em seu olho, eu juro que uso o bisturi do kit de primeiros socorros em você – Clara diz, enquanto comemos um pouco de feijão cozido com pêssegos.

– Me fala por que você está chorando... – ela pede. – Tem a ver com sua família? Com a Dani?

– Não é nada, eu estou bem – digo, fungando.

Clara bufa e Matheus troca o braço de apoio. Estamos sentados no tapete felpudo no qual eu dormi na noite anterior. A cada colherada que levo na boca, o gosto amargo da comida me faz torcer o nariz.

– Acho que não foi uma boa ideia comer a comida passada da validade – diz Matheus, se referindo aos enlatados que eu e Dani achamos no armário da casa.

– Acho que “passada da validade” é apelido para essa comida – Clara fala. – Nas latas, a data de validade era de três anos atrás.

Matheus ri, mas não entendo onde ele viu graça.

– Eu só não protestei – continua Clara, depois que os risos de Matheus cessam – para não me envolver em problemas com a “chefa”.

Ela se refere à Anna, que come na cozinha, junto do restante dos buscadores. Eles discutem a nossa rota de busca em voz alta. Matheus revira os olhos e eu gemo.

Por fim, quando não suporto mais o gosto da comida em minha boca, eu afasto o prato para longe de mim.

– Também desistiu de comer essa porcaria? – ouço uma voz falar atrás de mim. Viro-me e me deparo com o garoto de olhos verdes.

João.

Eu faço que sim com a cabeça e ele sorri um sorriso que, na minha opinião, parece um tanto debochado.

– Nós vamos partir daqui a alguns minutos – ele volta a falar. – Estejam prontos e com as armas carregadas.

Nós três concordamos em uníssono e ele se afasta. Levanto-me do chão, enrolo o cobertor de meu avô e o enfio dentro da mochila. Assim que preencho a carga da minha pistola, estou pronto para sair.

Quando estamos passando pela porta, Matheus me pergunta:

– Não deveríamos deixar a casa como encontramos?

Sua pergunta soa alta demais e não sou eu quem a responde.

– Não seja idiota, seu... idiota – Anna cospe. – Os cabeças-de-bagre não vão nos achar por causa de uns pratos sujos. O cérebro deles não funciona como o nosso.

– Mas eu só achei que... ­ – Matheus começa, mas eu o cutuco com o cotovelo antes que continue a falar e balanço a cabeça. Não vale a pena discutir com Anna.

Quando todos já estão fora da casa, João veda a entrada com a porta, e partimos em linha reta, em direção ao nosso destino.

– Quanto tempo nós gastaremos para chegar ao Centro Farmacêutico? – pergunto a Clara quando já andamos o que me parecem horas.

Ela está ofegante, com a testa molhada de suor e os cabelos grudados no rosto. Demora um pouco para me responder.

– Acho que me lembro do meu pai dizendo que a viagem duraria de quatro a cinco dias se não houvesse nenhum atraso – ela para pra respirar. – É isso mesmo, não é, Matheus?

Matheus não demonstra cansaço algum, ao contrário de nós. Os outros estão à frente, como sempre, e Dani está agarrada ao braço de João. Tento não imaginar o que eles fizeram no andar de cima da casa na noite passada, quando eu ainda tinha esperanças de que Dani sentia, sim, algo por mim.

– É isso mesmo – Matheus concorda com Clara. Depois que ela recupera o fôlego, voltamos a andar. Os outros estão bastante distantes de nós.

– Devemos acelerar para acompanha-los? – Matheus pergunta, e a resposta é dada por nós três, em uníssono, depois que nos encararmos por longos segundos.

– Nãaaaao! – E então caímos no riso. Anna e Marcos viram o pescoço para trás, curiosos, e reviram os olhos, voltando ao que estavam conversando.

– Já disse que eu não gosto dela? – Clara pergunta sarcástica, e nós rimos.

Dobramos uma esquina à esquerda. O sol está a pino e queima minha pele.

De repente, ouço um barulho, como se algo estivesse nos seguindo, aos tropeços. Viro-me, sacando a arma, sabendo o que encontrarei em seguida, mas não há nada atrás de nós. Respiro fundo.

– O que foi, Cézar? – Clara me pergunta. – Que bicho te mordeu, garoto?

– Acho que a pergunta certa, Clara – Matheus diz, com um sorriso de deboche no rosto – é “Que zumbi te mordeu?”.

– Vocês não ouviram o barulho? – digo. Eles balançam a cabeça. Olho novamente em volta.

– Deve ter sido coisa da minha cabeça – concluo. Eles riem.

– Acho que a comida estragada foi parar no cérebro dele – Clara sussurra para Matheus, alto o bastante para que eu também ouça. Empurro-a para cima dele.

Percebo que os outros buscadores sumiram de vista, já dobraram a próxima esquina.

E, de súbito, ouço o barulho estranho novamente. Só que dessa vez, junto dele, ouço também o ranger de dentes e um som gutural, como uma risada diabólica abafada.

Acho que Clara e Matheus também ouvem dessa vez, porque se viram no exato momento em que o morto-vivo se choca contra minhas costas, me derrubando no chão. Meu queixo atinge em cheio o asfalto duro e tudo fica escuro.