A Vida Pós Apocalíptica de Cézar
5 Verdade
A forte luz branca ofusca minha visão acidentada quando abro os olhos, vagarosamente. Ela, juntamente das dores – emocionais e físicas –, é a única coisa que meu cérebro processa no instante em que acordo. Quero que tudo aquilo seja apenas mais um pesadelo que me aterrorizou nessa noite, mas a luz denuncia tudo. Será que estou morto? Não sei dizer... Não sinto meu corpo, e a única coisa da qual tenho certeza e de que não estou em casa. Em casa, não sou acordado pela luz artificial, nem por luz alguma. Em casa, sou acordado pelas incessantes tosses do meu avô.
Porém, dessa vez ele não tossiu.
Não sei onde estou, e agora tenho certeza de que não morri, porque esse inferno parece muito mais claro que o inferno que um dia imaginei. Pisco os olhos com força, apertando as pálpebras contra os globos oculares. Minha visão, então, é tomada por pontos pretos que aparecem e desaparecem numa dança doentia. Até que eles param e, aos poucos, me acostumo com a forte luz, até que ela se torna fraca a meu ver. E então percebo onde estou. Estou num quarto pequeno, com o chão e as paredes revestidas de azulejos brancos, no estilo da sala em que presenciei meu avô sendo...
“Não ouse pensar nisso, Cézar!” minha consciência me alerta e eu obedeço.
Tento mover meu corpo, porém, quando o faço, percebo que estou amarrado no local que estou deitado. Preso por correias de couro a uma maca.
Tento, sem sucesso, libertar meus braços e pernas das correias que estão bem amarradas. Quando mexo meu braço esquerdo, tremo de dor. Não me lembro de tê-lo machucado. Não tenho força suficiente para terminar, então desisto na primeira tentativa. Deito minha cabeça e endireito o corpo, encarando o teto. Como pude deixa-lo partir assim?
O sentimento de culpa me inunda e as lágrimas escorrem como cascata. Sinto que vou explodir a qualquer instante. O que eu mais temia aconteceu e eu não fiz nada para impedir...
Minha respiração se entrecorta. Não tenho mais controle sobre ela. Não tenho controle de mais nada.
Busco de toda forma não pensar no acontecido, que é o que minha consciência se empenha em me advertir, porém não consigo não pensar nele nesse momento. As lembranças vêm como enxurrada e me arrastam junto delas. Elas lavam todo resquício de sanidade que ainda existe em mim e me deixam estático. A única coisa que sei fazer perante tudo é chorar copiosamente. Porque as lembranças levaram meu cérebro junto delas também.
Meu corpo grita de dor junto da minha alma. As dores físicas que não senti antes devido à adrenalina que corria solta por minhas veias começam a se mostrar quando me atino. O arranhão em minhas costas causado pelo arame solto da grade de proteção da Área Hospitalar arde e lateja intensamente. Meu braço esquerdo está inchado e pulsa freneticamente, causando espasmos que percorrem todo meu corpo moído. Só então eu me recordo do último soldado que me agarrou pelo braço que agora dói, torcendo-o, na tentativa de me afastar de meu avô. Como isso não me deteve naquela hora, ele me apagou com uma pancada na nuca, que agora pulsa continua e dolorosamente. Uma dor aguda e intensa que me enlouquece.
Ouço passos vindo de trás da porta e, imediatamente, limpo meu rosto nos ombros, tirando todo o resquício do choro. Fecho os olhos, fingindo que durmo, e no mesmo instante a porta se abre. Luto para não abrir os olhos, os aperto firmemente, e aguço minha audição. Ouço passos vacilantes que pertencem a uma só pessoa adentrarem o espaço, então a porta é fechada em suas costas. Endureço o corpo, porque ouço os passos, ainda vacilantes, sendo encaminhados na minha direção. A pessoa para e posso tanto ouvir como sentir sua respiração. Está a poucos centímetros de mim, e parece que me observa. Fica assim por um bom tempo. E então a ouço pronunciar algo em sua voz feminina e trêmula, o que me surpreende:
– Não posso deixa-los acabarem com você, mais um não...
Não reconheço sua voz de imediato, mas, após longos segundos, me vem à mente a mulher que estava na sala em que encontrei meu avô. A médica medrosa e trêmula que obedecia como um cãozinho às ordens do que parecia ser o chefe. A mulher que matou meu avô. Era ela que estava ali, me encarando.
Preciso me controlar e me forçar a pensar antes de fazer qualquer coisa. Não há muito que eu possa fazer, e qualquer movimento errôneo meu pode me denunciar. Não posso correr o risco, portanto, continuo no meu estado “adormecido”.
A mulher anda pelo quarto e, pelo que ouço, ela anda em círculos contínuos, como se não soubesse o que fazer a seguir. Tento de toda forma lembrar o nome dela, dito algumas vezes pelo seu chefe. Seria Maria? Mônica? Madalena? Márcia?...
– Marta! – ouço alguém gritar. A voz, que é masculina, vem do corredor, do outro lado da porta.
– Marta! – o homem berra novamente e eu também reconheço sua voz. É, também, a voz de um dos médicos da sala onde os contaminados estavam. Parece que Marta não quer que ele saiba onde ela está, porque ela para de andar e fica estática em seu lugar, sem responder ao chamado dele. Repentinamente, a porta da sala se abre e alguém, que presumo ser quem procura Marta, entra. Ele fecha a porta atrás de si e solta de imediato:
– Por que ainda está aqui? Já finalizou com ele?
Um arrepio percorre meu corpo, fazendo-me tremer.
– Acabo de chegar aqui, Silva – Marta responde, e então para. Ela respira fundo, e solta o ar pela boca com um ruído. – Não sei se posso fazer isso.
– Como não sabe se pode? – ele parece nervoso. – São ordens explícitas do chefe Levedo, não pode desacatá-las! Esse moleque viu coisa demais...
– Eu não me voluntariei para fazer isso, Silva! – a voz de Marta treme. – Matar pessoas inocentes e que não podem se defender só porque estão contaminadas? Você acha isso certo?
Ele não responde e fica durante poucos segundos calado, como se refletisse sobre algo. Após os segundos de reflexão solta:
– Fizemos isso para o bem maior do resto da população! E se você não pode continuar porque acha que é errado, eu mesmo faço. Menos um não fará diferença alguma.
Ouço-o tirar algo do bolso e caminhar em minha direção. Meu coração palpita e meu sangue pulsa quente em minhas veias. Estou perdido.
– Silva, por favor – Marta implora. – Você não precisa fazer isso, sabe que não precisa! Você também não se voluntariou para isso, não se lembra?
Ela consegue fazê-lo estacionar.
– Não podemos continuar com isso! – ela continua. – Por favor, vamos deixa-lo ir embora.
– Mas e se ele nos denunciar à população? – ele pergunta a ela. – E se chegar ao ouvido do chefe Levedo que nós deixamos esse moleque escapar? O que nós fazemos com o que ele sabe?
– Você acha que alguém vai acreditar no que ele falar? – Marta responde. – Ele não tem mais ninguém, já olhei na ficha do velho. Ele era avô dele. O menino não tem mais ninguém, então não acho que seja perigoso...
Silva vacila. Ouço-o bufar antes de dizer:
– Se eu me ferrar, juro que não hesito em acabar com você.
– Não vai precisar acabar comigo – Marta retruca. – Seu você se ferrar, eu também me ferro. Estamos juntos nessa.
– Não estou junto de ninguém – ele diz entredentes. Então o ouço caminhar a passos largos até à porta e abri-la.
– E acho melhor você se apressar com isso – ele acrescenta. – A reunião final com o chefe Levedo e o governador Tameirão começa em quinze minutos.
Então ele sai, batendo a porta com força e deixando-nos sós. Porém, após longos minutos, tenho a sensação de que estou sozinho novamente, porque não ouço mais Marta. A sensação perdura e começo a me desesperar. Tenho certeza de que não ouvi a porta se abrir em minuto algum. Algo está errado, mas não ouso abrir os olhos nem me mover. Ainda estou adormecido.
Subitamente, sinto mãos geladas tocarem meus braços, que estão amarrados à maca pelas correias de couro. Tento não reagir ao toque delas, porém quem me toca percebe que tremi e para o que faz.
– Pode abrir os olhos – Marta diz. – Sei que está acordado, não adianta fingir.
Não a obedeço. Continuo em meu estado adormecido. Então sinto seus dedos contornarem meu braço esquerdo e o apertar aos poucos. Uma dor lancinante percorre o lado esquerdo do meu corpo e não consigo continuar fingindo meu estado adormecido. Solto um berro.
– Pare!
Ela tira as mãos de mim e sorri. Faço uma careta de dor.
– Eu sabia que não estava desacordado – ela diz, enquanto examina de um jeito peculiar a correia de couro que me prende à maca. – O efeito do supetão do soldado não dura tanto tempo assim.
Não respondo nem demonstro nada. Ela ainda é responsável pela morte do meu avô, isso nunca mudará.
Ela tira um canivete do bolso do jaleco branco e começa a cortar as correias de couro. Primeiro liberta meu braço esquerdo, seguido do direito. Depois solta minhas pernas e, por fim, corta a parte da correia que prende meu tronco à maca. Não movo um músculo enquanto ela realiza a libertação nem depois que ela termina. Após ela tirar as correias de mim por completo, ela joga os restos dela no canto sala, guarda o canivete no bolso e cruza os braços enquanto me encara. Ela olha dentro dos meus olhos e eu sustento seu olhar, deixando claro que não gosto dela. Ela desvia o olhar e encara a parede.
– Olhe – ela começa –, eu não queria isso... A única coisa que posso dizer é me desculpe... Eu... Eu sinto muito...
Não respondo, porque não acho que ela se parece arrependida. Viro o rosto para o lado contrário ao dela e um soluço seguido de uma queda de lágrimas irrompe de dentro de mim. Choro por um bom tempo, tentando a todo instante tomar controle da situação, porém não consigo me controlar. Só paro de chorar quando ouço que Marta também chora. Isso me surpreende de tal jeito que os soluços cessam sem que eu nem precise me esforçar muito para fazê-lo.
– Eu não queria... – ela insiste em se explicar enquanto geme em lamúria. – Fui forçada a fazer isso... Eu... Eu juro que não tive escolha... Por favor, me perdoe, por favor...
Enquanto implora por meu perdão ela se ajoelha aos pés da maca. Estou atônito. Não sei o que fazer. Sento-me na maca e a encaro. A sensação é estranha, mas sinto que meu ódio por ela está se esvaindo...
– Eu... – consigo dizer. – Eu te perdoo.
E, vendo que não surtiu tanto efeito, tento falar mais algo.
– A culpa não foi sua...
Foi minha, quero dizer, mas não digo.
Depois que eu falo, ela se acalma, porém de pouco em pouco. Ela respira fundo algumas vezes, e eu a observo. Após longos segundos, ela limpa as lágrimas, pigarreia e se levanta desajeitadamente. Depois que se põe de pé, levemente recomposta, pede para que eu finja que estou adormecido novamente. Não entendo o motivo, então ela me explica seu plano. Quando ela termina, já estou de olhos fechados, controlando a respiração e simulando que estou adormecido. Sinto a maca sendo empurrada por trás e ouço a porta se abrir à frente. Sei que já passei pela porta e que já estou sendo empurrado pelo corredor porque a ouço se fechando atrás de Marta. Ela empurra a maca devagar e posso ouvir sua respiração pesada. O corredor é extremamente silencioso e frio, e tal frieza me causa arrepios na espinha. Luto constantemente comigo mesmo para que meus olhos não se abram, e tento me manter o mais rígido possível, contudo, tremo quando ouço passos de alguém que vêm na mesma direção que a nossa, porém em sentido oposto. Os passos vêm de longe e são divagantes, mas Marta não dá meia-volta, como eu espero que ela faça. Ela continua indo na direção deles, e eles continuam vindo à nossa. Quando sei que estamos a poucos metros de distância da pessoa que é dona dos passos, me enrijeço por completo e aperto as pálpebras contra os globos oculares como nunca fiz antes. Sinto Marta empurrar a maca um pouco mais rápido, e presumo que ela já saiba o que fazer. Os passos, agora, estão a poucos centímetros de nós, pelo que ouço. Sinto Marta diminuir a velocidade.
– Bom-dia – ouço-a dizer, enquanto passa pela pessoa.
– Bom-dia, Marta, e... – o homem para de andar e Marta também para a maca. Meu rosto queima, porque sei que ele olha para mim. Devo estar mesmo parecendo um morto, porque quando ele continua, diz: –... Bom trabalho.
– Obrigada – Marta responde, e logo volta a empurrar a maca. – Vejo você na reunião, tenho que terminar com isto.
– Até logo – ele responde, e sinto-o passar por mim. Ouço seus passos sumirem atrás de nós e relaxo. Ouço Marta bufar também, eliminando a tensão.
Seguimos em direção à saída/entrada sem enfrentar nenhum problema. Quando Marta para a maca e me cutuca três vezes, sei que chegou a hora, como o combinado de seu plano. Espero cinco segundos e abro os olhos. Visualizo o espaço em volta. Estou novamente no corredor que dá acesso ao portãozinho pelo qual adentrei o meu pior pesadelo. Agora, estou prestes a sair dele. Porém, acho que, mesmo que eu saia, ele nunca acabará.
Marta pigarreia como quem diz que não é hora para pensar nisso. Sei que ela nem mesmo sabe o que se passa pela minha cabeça, e quer mesmo é que eu a libere disso tudo, mas ignoro o fato. Bloqueio o pensamento, levanto-me de um pulo só e corro até o fim do corredor estreito, em direção ao portãozinho. Uso toda minha força restante para puxá-lo com meu braço bom, e ele se escancara de uma única vez. A luz do sol, que se levanta preguiçosamente, bate em meu rosto, me fazendo comprimir os olhos. Antes de fechar o portão atrás de mim, eu olho para trás, à procura de Marta e a maca, mas as duas já desapareceram. Bato o portãozinho de ferro com força e corro para longe. Aqui fora não há um soldado sequer, o que me permite correr até o portão principal da Área Hospitalar. Porém, quando chego até ele, percebo que está trancado a correntes e cadeados. Lembro-me do buraco cavado por mim na lateral da cerca de arame farpado e me dirijo até lá, esperando que ele esteja como deixei. Passo com muita dificuldade pelo buraco, que parece estar mais estreito que na noite passada, cuidando para que os ferros soltos da cerca não me perfurem como antes aconteceu. Quando termino de passar meu corpo pelo buraco, tento me levantar, porém escorrego devido à barra da minha calça que fica presa à farpa do arame. Quando vou ao chão, devido ao meu reflexo, uso meu braço esquerdo – que está terrivelmente inchado e dolorido – como apoio, e grito de dor quando ele bloqueia parte da minha queda ao chão. Permaneço assim, deitado e gemendo, por um bom tempo. Não me recupero por completo, mas quando a dor ameniza – o que leva considerável tempo –, eu consigo me levantar e andar vagarosamente para longe dali. Enquanto ando, os pensamentos cheios de pesar voltam e inundam meu ser novamente, me levando a derramar as mesmas lágrimas de antes. As mesmas lágrimas de sempre.
Quando volto a mim, estou parado em frente à porta do barracão de um cômodo só que eu e meu avô chamamos de casa. A porta está entreaberta, devido à corrida do dia anterior não pensei em fechá-la. Não persisto em me preocupar com isso ou com o que pode ter acontecido com meus pertences lá dentro. Talvez porque eu não tenha nada.
Abro a porta do barracão e entro. Fecho a porta atrás de mim e encaro a cama de meu avô. Assusto-me quando vejo que ela está ocupada, mas o susto passa quando visualizo os cachos negros da pessoa que a ocupa. Ela está enrolada na coberta que cheira ao ranço de meu avô, e dorme como um anjo. Assim que eu penso em caminhar em sua direção, ela abre os olhos. Percebendo minha presença, Dani senta-se desajeitadamente na cama e solta, disfarçando um bocejo:
– Me desculpa... – ela tenta arrumar os cachos rebeldes e se desenrola do cobertor. Quando se levanta, corre e pula em meus ombros, me apertando. – Que bom que voltou! Eu te procurei por toda parte, estava tão preocupada... Me perdoa, por favor...
Eu gemo de dor, porque em meio ao abraço, ela aperta meu braço ferido. Ela desfaz o aperto e me mede de cima a baixo com os olhos. Põe as mãos na boca, em sinal de incredulidade.
– Cézar... – ela fala. – Onde você esteve e o que houve com seu braço?
Eu olho em seus olhos e, vendo meu estado de completa exaustão e dor, tanto física quanto emocional, Dani entende onde estive e o que vi. Lágrimas escorrem pelo seu rosto e ela se senta na cama.
– Então era verdade... A culpa é minha... – ela diz, abaixando a cabeça e apoiando-a nos joelhos. – A culpa é toda minha! Se eu não tivesse pensado só em mim, nada disso teria acontecido! É tudo culpa minha! Pobre Jamie, pobre vovô... É tudo minha culpa!
E, vendo-a chorar copiosamente, caminho em sua direção e me ajoelho a seus pés. Levanto sua cabeça, olho em seus olhos e, impedindo-me a mim mesmo de chorar, digo:
– Dani, me escute: a culpa não é sua! Você não tem culpa de nada! Você fez o que achou melhor, não é culpada por isso...
Ela continua a soluçar.
– Olhe para mim, ande – peço, e ela abre os olhos lacrimejantes e me encara com dificuldade. – Eu sei quem são os culpados, e eles não se parecem nem um pouco com você, você não é culpada de nada!
Ela não para de sussurrar “me perdoe, Cézar, me perdoe” um segundo sequer.
– Eu que devo pedir perdão a você, Dani – respondo. – Eu não devia de forma alguma ter dito aquelas coisas a você... Sou eu quem deve pedir perdão... Me perdoe por tudo aquilo, está bem? Eu disse tudo da boca pra fora, me perdoe...
Ela faz que sim com a cabeça e engole em seco. Eu avanço e a abraço apertado, ignorando as dores físicas que o abraço causa. E ela retribui meu abraço, afundando seu rosto em meu ombro moído. Como eu pude em algum momento sentir ódio dela? Ela, que faz com que eu me sinta completo nesse momento de tamanha tristeza... Junto de seu abraço eu quase me sinto feliz de novo. Junto de seu abraço, agora, minha vontade de chorar está se desintegrando, quero sorrir... Quero sorrir, porém não posso. Não posso sorrir...
Junto de seu abraço sinto algo dentro de mim se mover.
– Nunca mais repita isso – ela sussurra em meu ombro. Ainda estamos abraçados e seu choro, que há poucos segundos era convulsivo, agora está mais ameno.
– O quê? – pergunto.
– Nunca mais faça isso de novo... Nunca mais saia correndo por aí, sem dizer nada, me deixando preocupada... Se fizer isso de novo, juro que acabo com você!
– Não vou fazer mais – digo. – Eu prometo.
– Não – ela fala. – Não prometa. Porque você descumpriu tudo o que prometeu nesses dias...
E eu realmente descumpri tudo. Tinha prometido a meu avô que não sofreria e/ou choraria quando o pior acontecesse, e fiz tudo isso. Tinha prometido a Dani que iria aceitar a morte iminente de meu avô e, de certa forma, não aceitei.
– É, você tem razão – respondo, ainda abraçado a ela. – Eu não prometo, então.
Ela ri dolorosamente e me aperta contra seu peito. Sinto sua respiração pesada em meu pescoço e quase não há mais resquício de seu choro.
E, enquanto ela está ali comigo, enquanto ela me abraça, posso dizer que meu pesadelo ameniza. Ele não acaba, e isso é certo, mas sinto que ele se torna mais brando, menos terrível.
Agradeço a quem estiver me ouvindo por ela existir, e sussurro em meu pensamento, sem que ela ouça:
– Eu te amo, Dani.
Fale com o autor