A Vida Pós Apocalíptica de Cézar
6 Saída
– Acho que tem, sim, uma vantagem em ser escolhido no Dia D – Dani diz, enquanto devora um prato da sopa de batata doce de dois dias atrás.
Levanto os olhos do bilhete desgastado e amassado, que estudo com certo desgosto. Estamos sentados à mesa de madeira que fica no centro do cômodo que eu chamo de casa. Enquanto ela come, tenta de toda forma possível trazer à tona o assunto da expedição. Sem sucesso, porque minha resposta às suas palavras são somente chiados e monossílabos. Ela pensa que não, mas posso ver o tom de preocupação em sua voz. Por fim, decido dar atenção ao que ela diz.
– Qual a vantagem, então? – pergunto.
– Bem... – ela responde. – Se você é escolhido, e se voltar vivo da missão, nunca mais precisará frequentar a escola... Isso é uma vantagem, eu acho.
Realmente é uma vantagem. Mas não justifica nada.
– Aonde quer chegar com isso? – eu digo, pousando os braços cruzados à mesa. Ela suspira e faz uma cara de piedade.
– Eu quero que você vá à expedição como todos fazem... – ela diz por fim. – Eu não sei, nem quero imaginar, o que eles farão se você recusar a convocação... Pode ser morto por desonra, ou sei lá...
O que ela fala é realmente a verdade. Mas, mais uma vez, não justifica coisa alguma.
Ela continua a falar, usando o que restou de seus argumentos para me convencer.
– Pense no seu avô, Cézar.
Amasso o bilhete novamente em minhas mãos. Encaro-a.
– O que meu avô tem a ver com isso? – indago. Ela responde, com certo cuidado:
– Ele, com toda certeza, diria a você que fosse à missão, se soubesse que você cogita não ir. Pense nas outras pessoas que também sofrem da mesma doença que seu avô sofria...
– Todos eles estão mortos – a frieza domina minha voz.
– E você acha que os matando o problema se resolve? – ela fala, e eu tremo.
– Não entendi... – digo.
– Eu não sei muito sobre doenças, mas sei que não se derrota uma bactéria como essa simplesmente matando os doentes... Se fosse, eles não estariam nos mandando à expedição com o Alvo: penicilina.
Estremeço. De alguma forma, ela tem razão, como sempre. Demonstro desinteresse e desamasso o bilhete, voltando a estuda-lo. Ela bufa e volta a comer. Por longos minutos, o silêncio predomina, e só ouço o barulho da colher raspando o fundo da tigela.
O que Dani disse começa, então, a martelar em minha cabeça. O que meu avô diria de minha atitude? O que ele pensaria disso? Eu sei a resposta, mas não penso nela. Ainda dói pensar nele, e imaginar sua voz me dando uma bronca me causa arrepios.
Dani termina de comer e leva a tigela a pia. Depois de lava-la, ela limpa as mãos na calça e se volta para mim.
– Você tem mesmo certeza da sua escolha? – ela pergunta. Não respondo, e isso a deixa um pouco irritada, percebo. Ela bufa como sempre faz perante situações como essa, e caminha até a porta.
Ela a abre e hesita.
– Eu preciso ir, então – ela diz, de costas para mim. – O Ladeira pediu para que chegássemos após o almoço, para que pudéssemos ser preparados para a saída, à noite...
Ela funga, e isso é um indício de que chora.
– Bem... – ela diz, depois de um tempo. – Não posso me atrasar. Adeus, Cézar. Espero que não te castiguem tão severamente...
Ela sai pela porta e a fecha atrás de si. Quando ouço o barulho da porta se fechando, caio, finalmente, na real. Não posso deixa-la partir sem mim. E também não posso desperdiçar a chance de – de alguma forma – vingar meu avô. Na verdade, não vingar, mas vale-lo. Fazer sua morte valer alguma coisa.
Levanto-me aos tropeços da cadeira e corro até a porta. Irrompo para o dia mormacento e grito a plenos pulmões o nome dela. Ela ouve meu berro e se vira.
– Eu mudei de ideia – continuo a berrar. – Vou partir contigo.
Ela sorri e corre em minha direção de braços abertos.
Escuto as batidas na porta e percebo que Dani já está impaciente com minha demora, mas não me atrevo a andar mais rápido. Esta pode ser minha última vez no cômodo que eu costumo chamar de casa, e não quero ir embora sem me despedir pelo menos umas mil vezes de cada móvel. São poucos, então não demoro tanto tempo assim.
Borrifo um pouco de água no corpo e retiro a camada de suor que reveste minha pele. Limpo o sangue seco das minhas costas e tiro do corpo o máximo de sujeira que consigo, mas ainda assim algumas manchas insistem em ficar. Retiro com cuidado a roupa esfolada do corpo, para que não esbarre em meu braço. Este, lateja de leve, não tão freneticamente como antes. Mas ainda dói.
Ponho a roupa mais limpa que encontro e, depois que termino o trabalho por completo, antes de sair, caminho até a cama de meu avô. Seu cobertor rançoso se encontra embolado no canto da cama, do jeito que Dani deixou. Deito-me e me enrolo nele, aspirando seu cheiro. As lágrimas, então, inundam meus olhos e caem com cachoeira. Não há como não chorar quando penso nele, no quão bom ele fora para mim... E eu, com meu egoísmo, recusando a chance de, se tivermos sorte, buscar o que pode curar quem estiver na mesma situação dele...
Peço perdão a ele. Simplesmente porque acho que falhei. Não fui bom o bastante para poder salvá-lo.
Um calafrio percorre o meu corpo enquanto soluço e percebo sua presença. Ele está ali, posso jurar. Sinto-o me abraçando e me dizendo que tudo ficará bem e que não tenho culpa do acontecido. O que aconteceu tinha de acontecer, porque tudo tem seu porque, nada é por acaso, é o que ele diz. Peço para que ele fique, mas ele não me ouve. Apenas continua repetindo a mesma coisa, talvez para que eu memorize de vez aquilo. De repente, ele vai desaparecendo... Indo embora aos poucos, sua voz se tornando mais branda... Até que some por completo, ao som das batidas incessantes de Dani à porta.
Limpo as lágrimas e me sento à cama. Tenho um alvo agora. Uma missão à frente. Não posso falhar.
Enrolo o cobertor de meu avô e o carrego comigo até à porta. Antes de fechá-la às minhas costas, dou uma última olhada em volta do cômodo. Avisto-o deitado à cama e sorrio em forma de despedida.
– Adeus – sussurro, e fecho a porta atrás de mim, levando seu cobertor.
– Chegamos cedo demais – Dani conclui quando avistamos o portão do Centro de Treinamento Intensivo. Ele está fechado e há duas pessoas do lado de fora, que reconheço como sendo dois dos sete buscadores: Matheus e o garoto de olhos verdes que encarou Dani no dia anterior. Para mim, parece que isso aconteceu há anos, mas é somente uma impressão.
Assim que chegamos perto deles o suficiente para que seja civilizado da nossa parte cumprimenta-los, Matheus faz isso antes de todos:
– Olá – ele diz com um sorriso amarelo, e estende a mão para mim. Aperto sua mão sem jeito e ele a dirige à Dani. Ela também a aperta e sorri.
Dani cumprimenta o garoto de olhos verdes com um sorriso e ele a responde também com um sorriso. Não faço o mesmo.
Depois de minutos calados de uma forma incômoda, finalmente um de nós abre a boca.
– Caramba! – Matheus exclama. – O senhor Ladeira está demorando hoje, não é?
Fazemos que sim com a cabeça. O jeito que ele fala me deixa um pouco intrigado, porque ele não desfaz o sorriso do rosto quando diz isso. Na verdade, Matheus não desfaz o sorriso amarelo nem quando termina de falar.
– Talvez seja porque as fraldas geriátricas dele acabaram ou algo parecido – responde o garoto de olhos verdes.
Dani e Matheus riem de uma forma insana, mas eu não vejo graça no que ele diz. Na verdade, não entendo o que ele quer dizer com “fraldas geriátricas”, mas apenas finjo que não vi graça na piadinha infame.
– Vai ver ele perdeu a hora e só... – digo, para acabar com os risos. – Ou aconteceu algo...
– Eu sei... – o garoto de olhos verdes diz, ainda rindo. – Só quis tirar o clima pesado do ar...
Reviro os olhos.
– Tanto faz – é o que respondo. Passam-se instantes, e o garoto de olhos verdes tenta puxar assunto comigo.
– Por que você está agarrado a esse cobertor? – ele faz a pergunta de um jeito que, pra mim, soou bem insolente.
– Isso não é da sua conta – cuspo. Depois disso, o silêncio incômodo retorna. É quebrado quando avistamos de longe o Sargento Ladeira, seguido de sua filha – e agora buscadora – Clara.
– Até que enfim – o garoto de olhos verdes sussurra ao mesmo tempo em que Dani diz. Vejo que ela cora e ele dá um sorriso um tanto cafajeste. Bufo.
O Sargento Ladeira nos cumprimenta e sua filha o imita. Pede perdão pela demora, dizendo que estava em reunião com Augusto Tameirão. Estremeço ao ouvir o nome do governador de Morada. Ladeira, então, abre os portões e meu estômago embrulha enquanto adentramos o Centro. Daqui a segundos estaremos saindo de Morada, nosso único lugar seguro. Por uma boa razão, isso é claro, mas isso não nos fará correr menos risco.
Somos levados até a saleta do Sargento Ladeira e esperamos o restante dos buscadores chegarem. Um a um, eles chegam. Primeiro Anna, – que ri quando entra e me vê abraçado ao cobertor de meu avô–, depois Marcos. Eles se sentam e então Ladeira começa a conversar conosco. Vem com a mesma conversa de sempre, que estamos fazendo isso para o bem maior da população e que devemos ser gratos por estarmos nessa jornada. Depois nos dá as últimas instruções e então sou surpreendido.
– Bem – ele fala quando termina o extenso discurso –, trouxe aqui para contar um pouco da experiência de sair de Morada o único sobrevivente da expedição do semestre passado, Marconi Bonini. Pode vir, Marco.
Quando Ladeira chama, entra pela porta um garoto parrudo de um metro e noventa de altura, com um olhar vidrado, seus olhos rodeados de olheiras. Ele veste uma regata branca junto de uma calça militar e dá pra ver as altas queloides que se se expõem em seus braços nus e musculosos. Estremeço.
Já ouvira falar de Marconi, inclusive havia conversado com Dani sobre ele há três ou quatro dias atrás. Só não o imaginava assim.
Ladeira pede para que ele nos diga qual é a melhor arma a ser usada contra um morto-vivo. Marconi diz que as armas de longa distância são as mais aconselháveis, mas, quando essas não estão em nosso alcance, podemos usar as espadas ou katanas. Nunca, em hipótese alguma, usar facas em um embate.
Retenho as dicas de Marconi muito bem. Ele vai embora, deixando os comentários dos outros buscadores entre si para trás. Depois que ele sai, somos levados por Ladeira para fora de sua saleta. Ele pede para que formemos uma única fila. Pede para que um ajudante distribua as mochilas com os suprimentos e os recita em voz alta. Não presto atenção no que ele diz, estou tonto e amedrontado. Pego a minha mochila e guardo o cobertor de meu avô, no qual estive grudado todo esse tempo, dentro dela. Depois, ajeito-a as costas de um jeito bem apertado. Depois que Ladeira termina de falar o que estamos carregando na mochila, ele nos encaminha para o portão principal de Morada. O portão muito bem vedado e protegido, que duas vezes por ano é aberto para despejar jovens à morte certa. Ninguém diz nada, todos estão concentrados no que encontrarão fora do Grande Portão Principal. Ladeira diz, enquanto caminha conosco, que antes de sairmos eles entregarão as armas a nós. Ele diz que ganharemos as armas com as quais temos mais afinidade, de acordo com suas observações. Não consigo imaginar a arma que ganharei, porque não tenho afinidade nem mesmo com um pedaço de pau, quem dirá com uma metralhadora, ou sei lá.
Assim que chegamos ao Grande Portão Principal de Morada, meu coração palpita. Estou suando feito um porco e hiperventilando desde que pus os pés para fora do Centro de Treinamento Intensivo. Quero muito saber o que há fora daqui, mas ao lembrar o que me espera, a vontade é de sair correndo e desistir da missão. Sei que todos estão assim, porque é inevitável não estar assim, então não me dou ao luxo de sair correndo.
Ladeira pede para que paremos. Paro e avisto um grupo pequeno de pessoas caminharem na nossa direção. Percebo que são os familiares dos buscadores. De alguns, na verdade. A mãe assustada de Marcos o aperta num abraço forçado. Os pais de Matheus choram e ele os conforta. O Sargento Ladeira abraça Clara, mas ela não retribui o abraço. Um jovem, que penso ser seu irmão, dá tapinhas encorajadores nas costas do garoto de olhos verdes. Por fim, Dani, Anna e eu somos os únicos que estão sós. Anna encara a cena com um ar de desgosto. O que me resta é abraçar Dani e impedi-la de chorar. Mas quem acaba chorando sou eu, então dá na mesma.
Ladeira, então, diz que o tempo acabou e que devemos continuar. Percebo que a noite já caiu. A lua brilha de um jeito singular lá em cima. Como se soubesse que precisaremos da sua luz dali pra frente.
Depois que todos os parentes vão embora, Ladeira e seus ajudantes distribuem as armas. Marcos recebe uma metralhadora e uma caixa com munição extra. Ele guarda a munição na mochila. Anna e Dani recebem uma katana cada uma e um saco de granadas militares. Ao ver Dani empunhando a katana, meu coração bate mais forte e o terror ameniza um pouco, porque sei o estrago que Dani pode causar usando aquela arma.
Matheus e João recebem escopetas e uma caixa com munições extras, cada um. E para mim e Clara é oferecido um saco de granadas e uma pistola para cada um, junto de uma caixa com munição extra. Guardo a caixa de munição na mochila e a prendo forte às costas novamente. Empunho a pistola e sinto que estou pronto.
Mas o que acontece dali pra frente é muito rápido e meus sentido não conseguem acompanhar.
Um segundo depois de todos estarem prontos, minha mente entra em estado estático e só acorda depois de o Grande Portão Principal de Morada ser fechado às nossas costas. Na verdade, o que realmente me acorda do transe é o grito de terror de Clara. Ela grita para que eu corra. Viro-me e fixo meu olhar no ser que corre em minha direção e um cheiro pútrido queima em minhas narinas.
O morto-vivo corre sem freio em minha direção, mas não sei se corro ou se fico, para que ele acabe com isso tudo de uma vez.
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