A Vida
14 CODE: Perseida (Parte I)
Notas iniciais
(2° dia após o pico das Perseidas, 10:15, na sala suando/na biblioteca lendo)
Lá estava eu na biblioteca, o local que se tinha tornado na minha casa nas últimas semanas, quando ouvi o Perzys guinchar.
B- Ele já acordou. Tenho de lhe ir dizer 'Bom dia'.
Não esperei por resposta e levantei-me, deixando o livro aberto na página que tinha acabado de ler. Olhei para cima da mesa enorme. Tinha uma dúzia de livros abertos: uns que me tinha esquecido, outros que ia consultando ao mesmo tempo que a leitura, além de uma lista de livros a ler e uma pequena folhinha para eu fazer os rabiscos estritamente necessários (senão não saía dali).
Eu era das únicas a usar aquela zona especial, mas por favor! Tinha sorte que o Mestre Bibliotecário apenas passava no corredor e que a Folha Falante não ligava àquilo. Entre o meio de portas deixei um bilhete: "B! Da próxima vez que cá vieres, não te sentes até o teu lado perfecionista acordar bem! Da B."
O Perzys guinchou outra vez. Os guinchos eram parecidos com aqueles que ele tinha feito a noite anterior sempre que via uma estrela cadente. Talvez conseguia vê-las à luz do dia!
Cheguei à parte central da biblioteca, verifiquei se tinha alguem lá e abri a janela. Luz do sol pura, ahhhh! "Credo, estou a transformar-me num vampiro ou quê?" Por força, abri os olhos que se tinham semicerrado.
Observei a janela. Dava para fazer algo radical para me acordar como deve ser... Troquei os óculos de leitura por óculos de sol com um estalar de dedos. Assobiei pelo meu dragão e, enquanto esperava, olhei lá para baixo. Desde que tinha conseguido montar o Perzys que as minhas vertigens de medo se tinham transformado em arrepios de fascínio. Abri mais a janela e sentei-me no parapeito.
O Perzys tinha chegado todo contente. Viu-me lá em posição e pareceu perceber a manobra. Em vez de vir ter comigo, pôs-se mais abaixo... "Perfeito..." Então, saltei.
E aterrei mesmo em cima dele, que voou um pouco mais para baixo para se equilibrar como deve ser. Fez a curva para a outra ala do castelo da maneira que eu gostava (mais inclinada, mas com menos bater de asas).
E foi nesse momento que ele deu um daqueles guinchos, porém, muito mais forte. Deu para ver um risco de luz enorme, parecido com os que tínhamos visto de noite, mas mais vermelho! Ainda bem que tinha os óculos de sol ou tinha ficado cega, pois ele não parecia estar desenhado no céu e sim mais perto, em plena luz do dia! Que raio estava a acontecer?!
Ouvi mais um grito, não tínhamos sido os únicos a ver. Começou a cheirar a queimado, então o Perzys (com uma cara parecida com aquela que eu fazia quando via bolo de chocolate) preparou a aterragem. Aterrou e nem esperei que se baixasse, saltei logo. Já tinha um bocado de gente em círculo à volta de uma cratera pouco mais pequena que um tacho.
O secretário da Rainha vinha a aproximar-se, ou seja, ela não devia demorar muito a chegar e, quando os assuntos são curiosos, Catarina vem atrás. Olhei à volta, ninguém se mexia, então mexi-me eu. A coisinha provocadora de tanto alarido não era maior que um punho, tinha a parte a frente redondinha e lisa e a de trás parecida com quartzo. Era de um cinza meio baço, mas bastante brilhante.
Mesmo através das botas da Organização, dava para sentir o calor do solo à volta daquilo. Ainda bem que as tinha trocado de mala sem querer na viagem a França. E que as estava a usar para não me esquecer de as entregar (apesar de isso não resultar muito bem, visto serem bastante confortáveis).
Lá chegou a Rainha com a Cat atrás. Graças à minha aula de Astronomia do dia anterior ela sabia o que eram as Perseidas. De um clarão apareceu um Jace aos gritos mesmo antes de chegar ao chão.
J- UMA PERSEIDA CAIU ONDE?
C- Ali, pensava que gostarias de ver...
J- QUEM NÃO?
C- Mas não é normal?
J- É tudo menos normal, é impossível!
C- Deve haver pelo menos uma ou duas nesta galáxia...
J- Lê os meus lábios, isto nunca aconteceu. E é, fisicamente, impossível!
Então ele sentou-se pasmado, a Catarina ficou com uma cara confusa, o Perzys não parava de olhar para o céu e para o chão enquanto todos os outros ainda não tinham fechado a boca. Exceto a Rainha que estava à espera do veredito do Investigador científico real que se tinha abaixado agora para examinar. Lá disse numa voz trémula:
I- Isto é... é... uma Perseida... a primeira da Galáxia a chegar a terra...
R- Onde a pomos? Não pode ficar aqui.
I- Ela tem que arrefecer naturalmente, a sombra do castelo deve cá chegar de tarde o que vai ajudar no processo e não corre o risco de fusão. Talvez de noite a possamos levar para alguma câmara.
R- Hum... vou confiar em si e nos meus guardas pessoais para protegerem esta relíquia com a sua vida aqui fora. Vamos preparar a segurança da tal câmara.
Virou-se, mas ainda ordenou mais uma coisa:
R- Não quero os media envolvidos nisso até ela estar a salvo lá dentro.
Foi-se embora juntamente com os seus conselheiros reais. A multidão dispersava, cada um ligando a parentes para contar a novidade... "Acho que a ordem da Rainha para não espalhar a notícia não vai dar muito certo..."
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