Adentrei em um lugar que assemelhava-se a uma casa. Mas aquilo tinha cheiro de enxofre e gosto de lixo. Eu não sabia onde estava, muito menos quem eu era. Mas com certeza, eu não queria estar ali. Era um lugar que saía dos meus mais tenros pesadelos, dos quais não gostaria de lembrar-me. Eu poderia estar enlouquecendo, mas as paredes pareciam inflar e desinflar, como se estivessem respirando, e eram vermelhas, como se estivem queimando.

Era uma casa de tom marrom desbotado. Parecia que a alma daquela cor já havia ido embora, e restado rastros singelos e obscuros. Eu ainda ouvia barulhos longínquos de rangidos, que me arrepiavam de pensar o que eram.

Olhando mais atentamente, percebi que aquilo que gritava comigo tinha uma forma humanoide muito esquisita. No lugar onde deveriam estar os olhos, estava uma faixa que rodeava sua cabeça, e pequenas cavidades apareciam em cima daquele estranho nariz. Tinha uma cor cinza, como se fosse muito antigo. Ele fazia alguma coisa. Quando ele parou, com todo temor, resolvi olhá-lo. Ao olhar diretamente para ele, ele me fitou de cima para baixo, como se me fizesse uma análise.

— Hm, e você garoto, quem é? —perguntou num tom vociferador.

Realmente, eu não fazia ideia de quem era e gostaria de saber. Pois respondi que não lembrava.

Num rápido sorrateio, ele mirou diretamente para mim, como se encarasse o fundo dos meus olhos, lendo minha alma e meus pensamentos. Parecia querer descobrir se estava mentindo. Em contraste, vi atrás da venda que lhe cobria as cavidades oculares duas luzes que ficam muito fortes. Senti a força que ele fazia para ler meus mais profundos pensamentos. Me senti estranho, como se tivesse alguém dentro de mim, que certamente não era eu mesmo. Depois disso ele começou a andar para trás, e todas essas sensações foram sumindo. Ele parecia confuso, como se não entendesse a situação. Então, ele andou até uma pequena mesa que se encontrava ao lado do sofá. Havia algo, como uma espécie de telefone. Ele o tocou, e ao momento do toque, se levitou e fora ao encontro do que pareciam ser orelhas.

— Tenho mais informações para vossa mercê — disse num sotaque honorífico —, não é um morto!

De tão alto que o outro lado falara, pude ouvir uma voz muito, muito rouca, que se assemelhava com um trovão. Senti medo, muito medo. Era como se a voz me remetesse todos os meus pesadelos. E o calor dentro da casa piorava. Era como se eu estivesse dentro de um forno. A situação não melhoraria, já que o calor era seco, não úmido como no verão. Meus pulmões pareciam que iam secar. Apesar disso, não sei se eu ficava feliz por saber que eu não estava morto.

O senhor viera até mim e me levantou.

— Então, não sei o que está ocorrendo, mas aparentemente você não deveria estar aqui.

Pensei por um instante, pensei no azar meu de estar ali.

— Pelo que vi de seus pensamentos, seu nome é Miguel. Mas parece que há algo bloqueando sua memória, como um cadeado, e eu não consegui abri-lo. Meu nome é Bluhumus. Minha função é guiar todos os perdidos (ou mortos) até Seol. O problema é que você é um perdido vivo.

Parei para pensar no que aconteceria comigo.

— De qualquer forma, a saída daqui passa por Seol, então teremos que seguir por lá de qualquer forma. Mas antes, em outro lugar. A Torre SUL.

Então até agora, eu apenas sabia que meu nome era Miguel (mas ainda duvidava), e que eu estava em algum lugar perdido em caminho para Seol. A única coisa que me animava era que eu ainda estava vivo.